OPINIÃO | O som do New Order

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Parafernália eletrônica: o estúdio caseiro de Stephen Morris e Gillian Gilbert em Derbyshire.

Synthpop? New wave? Electropop?

Afinal como definir o som do New Order? Alguem que curte a banda já parou para pensar nisso?

Como fã, é algo sobre o qual costumo refletir de vez em quando. Os rótulos que abrem o presente texto estão entre os que mais encontro nas matérias “especializadas” – mas eles são precisos? Será mesmo que o emprego de sintetizadores, programações, samplers, melodias pop e batidas dançantes – fora o fato de ser da década de 1980 – é o que basta para colocar o New Order no mesmo saco onde estão Pet Shop Boys, Yazoo, Soft Cell, Erasure ou Information Society? Sou da seguinte opinião: não. Acho, por exemplo, que Bernard Sumner, Peter Hook, Gillian Gilbert e Stephen Morris (a agora Phil Cunningham e Tom Chapman) sempre jogaram em outro time, do qual fazem parte nomes como Cabaret Voltaire, PiL, Section 25, Simple Minds, Beloved e Primal Scream, por exemplo. Em outras palavras, o New Order nunca teria se afastado do rock – ou melhor, nunca teria deixado de ser uma banda de rock. Ou, como explica o escritor Michael Butterworth em seu livro The Blue Monday Diaries (Plexus, 2015, 189 páginas): “Outros artistas vêm fazendo música sintetizada sequenciada há alguns anos, mas esta é talvez a primeira vez que uma banda de rock usa essas técnicas no coração da sua música”.

Quem somos nós, por exemplo, para discordar das palavras do agora ex-baixista Peter Hook? Em depoimento dado a Lori Majewski e Johnathan Bernstein para o livro Mad World (Harry Abrams, 2014, 320 páginas), ele disse o seguinte: “Bernard e Stephen, em particular, estavam muito interessados nos experimentos com tecnologia. Eu, por outro lado, tenho que admitir que não estava tão interessado nisso. Eu prefiro rock. Foi a combinação entre meu desejo de estar em uma banda de rock e eles querendo ser uma banda disco que nos deu nosso som único”. Para o site da Gibson, em 2013, ele deixou bem claro que Power, Corruption & Lies ainda é sobre a real química de uma banda”.

Os experimentos com sintetizadores e com técnicas de manipulação dos sons em estúdio começaram ainda nos tempos em que a banda se chamava Joy Division. Em 1978, por ocasião de uma tentativa frustrada de gravar um álbum para a RCA nos estúdios Arrow, em Manchester, os produtores John Anderson, Bob Auger e Richard Searling tentaram introduzir teclados (tocados por um músico contratado) no som da banda. A reação não foi positiva. Todavia, a história prova que os quatro rapazes do Joy Division foram se mostrando (ou na verdade eram) menos refratários às experimentações eletrônicas do que pareciam ser originalmente. Como se sabe, Ian Curtis era um grande fã de Kraftwerk e foi o responsável por apresentar o disco Trans-Europe Express (1977) aos demais integrantes. O álbum do Kraftwerk era ouvido com frequência durante os ensaios; além disso, era um costume da banda colocá-lo para tocar no P.A. antes dos shows. Por sua vez, o baterista Stephen Morris já assumiu publicamente ter sido influenciado pela batida motorik de outras bandas alemãs de krautrock como Can e Neu!. Em suas próprias palavras:

“Como baterista, Klaus Dinger [do Neu!] foi muito importante para mim, ele me ensinou como fazer um riff durar uma vida inteira! Eu nunca tinha ouvido nada como aquilo antes. Eu era ligado no krautrock, então eu comprava qualquer coisa que vinha da Alemanha. Gostava da maneira como eles faziam montagens musicais, com pedaços de som ambiente… Quando ouvi, pensei ‘se eu tivesse uma banda, eu queria que soasse assim tão aventureiro’. Tago-Mago, do Can, é outro disco que soa como nenhum outro. Posteriormente, apareceram coisas que tentavam soar parecidas, mas ele continua sendo original. Eu costumava fazer cópias em cassete dele para ouvir no campo, sentado na grama”.

Outros discos ajudam a entender bastante a inclinação que já existia no Joy Division para a música eletrônica. Um deles, sem sombra de dúvidas, é Low, de David Bowie (1977), principalmente o Lado B (totalmente preenchido por faixas instrumentais baseadas em sintetizadores). Todos conhecem bem a história: a primeira denominação da banda, Warsaw, foi inspirada no título da canção “Warszawa”, de Low. Mas Bernard Sumner, em sua autobiografia, Chapter and Verse (Bantam Press, 2014, 343 páginas), confessou que o álbum de Bowie lhes forneceu mais do que um nome e que, na verdade, todos eles eram “ligados” no som desse disco. Outra história que todos já estão carecas de saber é que Ian Curtis, na noite de seu suicídio, estava a ouvir The Idiot, de Iggy Pop (1977). Sumner costuma se lembrar que The Idiot foi o disco que Ian lhe mostrou de bate-pronto na primeira ocasião em esteve na casa dele – e que ficou “alucinado” com o que tinha ouvido. Como todo mundo também já sabe, esse é um “álbum irmão” de Low, tendo sido, inclusive, produzido por David Bowie. Ambos foram gravados em Berlim (sacaram a conexão?) e expressam o interesse da dupla na época pelo som eletrônico/experimental de Neu!, Can e Kraftwerk. Aliás, o próprio Iggy Pop definiu The Idiot como “o encontro entre James Brown e o Kraftwerk”. Uma de suas músicas se chama “Nightclubbing”. Profético?

Mas é importante dizer que o maior estímulo que o Joy Division recebeu para se aventurar nesse território veio daquele que seria seu produtor em definitivo, ou praticamente seu “quinto membro”: Martin “Zero” Hannett. Como uma espécie de Lee Perry mancuniano, Hannett os encorajou no uso de sintetizadores e no emprego do estúdio como “instrumento”. Stephen Morris deu seus primeiros passos no uso de percussão eletrônica adicionando ao seu kit de bateria um Syndrum e um Synare, ambos usados em faixas de Unknown Pleasures (1979) como “Insight”, “Shadowplay” e “She’s Lost Control”; já Bernard Sumner comprou um exemplar da revista Electronics Today que trazia um kit do tipo “monte você mesmo” para construir seu próprio sintetizador Powertran Transcendent 2000. Hannett, por sua vez, costumava usar tape loops para tratar notas musicais através de filtros de modo a conseguir obter ecos e delays digitais; além disso, o produtor tinha o hábito de enviar o som captado da bateria para um alto-falante pendurado no banheiro do porão do estúdio, onde o som era gravado novamente por um único microfone para, em seguida, receber mais efeitos. Isso sem falar na utilização de samples incomuns, como sons de elevadores se movimentando, vidros se partindo etc.

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A revista “Electronics Today”: faça você mesmo!

O encontro das influências absorvidas através dos discos que eles ouviam com essa verve experimental de seu produtor deu origem a uma coleção de faixas que já insinuava o som que estaria por vir como New Order: “She’s Lost Control (12” Version)”, “Isolation”, “As You Said”, “These Days” e mesmo “Love Will Tear Us Apart”. Quando Ian Curtis faleceu, no dia 18 de maio de 1980, a banda já estava “sacando” o trabalho que a cantora disco Donna Summer vinha fazendo em parceria com outro mago da música eletrônica da época: o tecladista e produtor italiano Giorgio Moroder. Se Ian tivesse permanecido vivo tempo suficiente para ir aos Estados Unidos com a banda, certamente ele não teria escapado da “conversão” que aconteceria em Nova Iorque. Stephen Morris chegou a dizer à revista Bizz na década de 1980: “Tenho certeza de que o Joy Division faria as coisas que estamos fazendo agora”. Mas, afinal, o que aconteceu com essa turma na América?

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Giorgio Moroder

Naturalmente, a primeira turnê pelos Estados Unidos não ocorreu como planejada. A morte de Curtis adiou os planos e banda só pisaria em solo americano já como New Order. A primeira passagem foi bem curta e aconteceu ainda em 1980 sem a tecladista Gillian Gilbert e com os três remanescentes do Joy Division se revezando na função de vocalista. A segunda, já com a formação clássica e com Bernard Sumner ocupando o posto de cantor em definitivo (sendo substituído pelo baixista Peter Hook apenas em “Dreams Never End”) foi no ano seguinte. Durante essas viagens, uma jovem judia novaiorquina que havia sido contratada para trabalhar como promoter dos shows, Ruth Polsky, lhes apresentou o melhor das noites de Manhattan. Ela os arrastou para o circuito local de clubes e casas noturnas como Danceteria, Peppermint Lounge e Area. Não havia lugares desse tipo em Manchester, nem tampouco o tipo de música eletrônica dance que se tocava neles. Uma música, aliás, que nem lhes chegava a ser totalmente estranha: ela resultava da maneira como os DJs negros de Nova Iorque se apropriavam da música dos alemães do Kraftwerk. “Os clubes que frequentávamos nos influenciaram bastante naquilo que viríamos a fazer”, disse Stephen Morris à MTV Europeia em 1993. “Minhas influências mudaram totalmente em um ano”, completou Sumner em entrevista ao mesmo programa.

Em seu livro, Sumner disse também que “Fiz em Nova Iorque um amigo DJ chamado Frank Callari, hoje falecido. Era um cara grande, mas afetuoso, e que saiu em turnê com a gente em uma ocasião. Ele me mandava fitas cassete das emissoras de rádio novaiorquinas. Naquela época não havia emissoras de música dance na Inglaterra, então ele me enviava essas fitas das americanas, que eram genais e refletiam uma verdadeira cultura musical. Também tinha um amigo em Berlim chamado Mark Reeder e naquela época ele era o homem da Factory Records na Alemanha. Ele me mandava discos de 12 polegadas de dance music de todas as partes da Europa”.

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Flyer da boate Danceteria (NY)

A medida em que descobriam novos sons e ampliavam seu gosto musical, eles também aprofundavam seu relacionamento com a tecnologia. No verão de 1981, no Marcus Music Studios, em Londres, nascia uma peça que seria fundamental no desenvolvimento do “som do New Order”. Stephen Morris encontrou em algum canto do estúdio um sintetizador Oberheim e decidiu conectá-lo a uma bateria eletrônica. Segundo Sumner, “quis a sorte que a drum machine pusesse em funcionamento o sintetizador num ritmo que se encaixava perfeitamente com o som da bateria; soava fenomenal, como Giorgio Moroder, só que muito mais barato! Nos dias de hoje isso parece uma bobagem, mas não havia muitos sintetizadores que pudessem fazer isso naquela época – normalmente eram tocados com as mãos como um instrumento tradicional, ou com um sequenciador rudimentar, porém caro. Entretanto, com aquele pequeno Oberheim se podia obter o som do teclado e o ritmo da bateria eletrônica. (…) Foi assim que fizemos ‘Everything’s Gone Green’, nossa primeira tentativa de por um pé na música eletrônica dance.

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Sintetizador Oberheim OB-Xa: por trás do som de “Everything’s Gone Green” (1981)

Se no primeiro LP como New Order, Movement (1981), ainda soavam muito próximos do Joy Division, apesar do farto uso de sintetizadores, com os discos que fizeram em seguida, como o já citado “Everything’s Gone Green”, além dos singles “Temptation”, “Blue Monday”, “Confusion” e dos álbums Power, Corruption & Lies (1983) e Low Life (1985), eles se tornaram precursores de duas vertentes do pop: o dance rock (também chamado de dance-oriented rock ou D.O.R.) e o alternative dance. A primeira teria surgido na década de 1980 no esteio do esgotamento da primeira leva do punk rock e da disco music. Michael Campbell, em seu livro Popular Music in America (Arizona State University, 2013, 432 páginas), define o dance rock como uma fusão entre o pós-punk e o gênero que ficou conhecido como pós-disco (forma embrionária de dance music eletrônica); no livro, Campbell cita Robert Christgau, para o qual o D.O.R. é um “termo guarda-chuva” que teria sido inventado por DJs na década de 1980 e que designa uma música praticada por músicos de rock influenciados pela soul music da Filadélfia, pelo funk e pelo som disco e que misturavam esses estilos musicais com o rock e a dance music.

Já o alternative dance é um parente muito próximo do dance rock. Trata-se de uma mistura entre o rock indie / alternativo e a dance music pós-disco. De acordo com o site AllMusic.com, “o alternative dance funde as estruturas melódicas do rock alternativo com batidas eletrônicas, sintetizadores e samples. Os artistas e bandas dessa vertente geralmente são indentificados através de uma assinatura musical muito própria (o som característico do baixo do Peter Hook, por exemplo), pelos sons e texturas (o uso simultâneo de bateria ao vivo e eletrônica, como faz Stephen Morris) ou pela fusão de elementos musicais específicos; além disso, frequentemente assinam com selos alternativos ou independentes (Factory Records; Mute). O New Order é sempre citado como o primeiro grupo do gênero porque seus discos do período 1982-1983 propunham o encontro do pós-punk com o som de bandas eletrônicas como o Kraftwerk.

Em termos históricos, a direção escolhida pela banda se mostrou acertada. Ao contrário de contemporâneos como o Depeche Mode, o New Order ignorou completamente a tsunami grunge que varreu as praias musicais na década de 1990; optaram por assistir, do alto de algum camarote do seu mítico club Haçienda, a molecada pular e suar na pista de dança ao som de suas criaturas: Happy Mondays, 808 State, Stone Roses, The Charlatans (a cena que ficou mundialmente conhecida como Madchester), além de outros seguidores do ritmo baggy, como The Soup Dragons, Ocean Colour Scene e o Blur dos primeiros anos. Resumindo: bandas de rock com batidas dançantes. Sua influência pode ser sentida e ouvida em vários outros grupos e artistas que vieram depois: Moby, The Chemical Brothers, Sub-Sub, Prodigy, Doves, The Killers, Hot Chip, Factory Floor, The Horrors e uma penca de grupos nu rave.

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The Killers: o New Order inspira o som dos anos 2000

Eles definiram o som que está na moda nestes anos 2000. “Muitos dos melhores e mais emocionantes músicos da safra mais recente estão, de alguma forma, em dívida com o New Order”, escreveu Martyn Young para o site DIY Magazine em agosto do ano passado. “No panteão das bandas britânicas, poucas têm a mesma história e o legado duradouro do New Order. Começando como Joy Division, o grupo de Manchester tem estado na vanguarda da parte mais emocionante, inovadora e bonita da música pop que você poderia imaginar. (…) É difícil precisar quanto risco o New Order correu no começo, quando abandonou o tradicional punk rock em favor do experimentalismo eletrônico. Mas a atitude deles era a de assumir riscos, o que permitiu que mais e mais bandas ao longo da história se soltassem para mudar as coisas de vez em quando”, concluiu Young. “Se soltar”, nesse caso, é dar as costas a uma série de “ideologias” velhas e ultrapassadas: que “roqueiros” devem se manter bem longe da “profana” dance music, que a técnica e o virtuosismo são as supremas virtudes, que não dá para ser “artístico” e pop ao mesmo tempo ou que a guitarra elétrica tem que ser o instrumento dominante no rock.

Impossível encerrar este post sem dar algum crédito a Tony Wilson e sua lendária a gravadora, a Factory Records, sem os quais o New Order não teria sido New Order. “Éramos profundamente políticos por não termos a propriedade sobre os nossos grupos”, disse Tony certa vez ao jornalista Garry Weaser (The Guardian). “A gravadora não é dona de nada, os músicos são proprietários de sua música e de tudo o que fazem. Todos os artistas estão livres para se foder” era o que estava escrito no lendário “contrato” assinado a sangue com o Joy Division, em 1978. “A outra coisa foi que nos dois primeiros anos tínhamos esse negócio de não-promoção. Não havia nenhuma promoção. Não tínhamos assessoria de imprensa. Era tudo sobre não tratar a música como mercadoria”. A Factory faliu em 1992 – ela foi “banida” do ecossistema hostil e implacável dos negócios para entrar na História.

“A revolução criada pelo Joy Division [no final da década de 1970, em Manchester], estando no centro de tudo, inspirou a participação de muitas pessoas… e a não diferenciar dance de rock” (Tony Wilson, 2007).

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INFLUÊNCIAS | New Order e Ennio Morricone

Quando o assunto em questão são as influências do New Order, certos nomes vêm imediamente à cabeça: do lado rock, Velvet Underground, David Bowie, Iggy Pop; do lado eletrônico, pop e dance, Kraftwerk, Giorgio Moroder, Patrick Cowley, Chic. Todavia, em se tratando desse tema, existe um nome raramente mencionado e que não pertence a nenhum desses dois “pólos”. Como Moroder e o gênero italo disco, outra fonte da qual o New Order bebeu, ele também veio da Península Itálica – mas estamos a falar de uma verdadeira lenda viva da música do século XX, cuja marca foi deixada principalmente, mas não apenas, no cinema. Seu nome é Ennio Morricone.

Ennio Morricone, composer

Músico, compositor, arranjador, maestro, gênio: Ennio Morricone.

Nascido em Roma no dia 10 de novembro de 1928, Morricone é músico (trompetista), compositor, arranjador e maestro. Em meados dos anos 1950, após receber seus diplomas de instrumentista e de composição, passou a trabalhar como arranjador de músicas de outros compositores já estabelecidos no mercado cinematográfico. Em meados dos anos sessenta, um velho amigo dos tempos de escola, o diretor de cinema Sergio Leone, lhe convidou para, pela primeira vez, assinar a trilha-sonora de seus westerns, que, por serem produzidos na Itália, deram origem ao filão que ficou mundialmente conhecido como “faroeste espaguete” (spaghetti westerns).

A chamada “Trilogia do Homem Sem Nome” – os filmes Por Um Punhado de Dólares, Por Uns Dólares a Mais e Três Homens em Conflito – consagrou, ao mesmo tempo, Leone como diretor, Clint Eastwood como astro de cinema e Morricone como compositor de trilhas-sonoras que se tornaram um divisor de águas. Segundo Rodrigo Carneiro, Doutor em Comunicação e professor do curso de Cinema da Universidade Federal de Pernambuco, Ennio Morricone introduziu “no estilo neo-romântico algumas características que se tornariam centrais no cinema moderno, como o gosto por citações, elementos de música pop e musique concrète”. Ele foi o autor de diversas outras trilhas de sucesso, como as dos filmes Era Uma Vez no Oeste, Era Uma Vez na América, A Missão e Os Intocáveis. Venceu cinco BAFTA’s, recebeu um Oscar honorário em 2007 pelo conjunto da obra e um Oscar de Melhor Trilha Sonora Original este ano pela trilha escrita para o filme The Hateful Eight, de Quentin Tarantino. Além do New Order, sua influência entre artistas da seara do rock e do pop abrange nomes tão distintos como Metallica e Muse, sem falar dos inúmeros rappers e DJ’s que já samplearam à exaustão suas músicas.

A primeira referência que o New Order fez a Ennio Morricone em uma de suas músicas foi justamente em um de seus maiores clássicos: “Blue Monday”. Normalmente, quando a história desse single é recontada, sempre se fala do break de bateria que a banda propositalmente roubou de “Our Love”, de Donna Summer, além do sample de “Uranium”, do Kraftwerk, e as citações a Klein + M.B.O. e Sylvester. Mas Morricone aparece em “Blue Monday” através de uma homenagem do (na época) baixista Peter Hook. Em fevereiro de 2013, a tecladista Gillian Gilbert declarou ao jornal britânico The Guardian que “o baixo do Peter Hook foi tirado de uma trilha-sonora de filme de Ennio Morricone”. Não há “coincidência” alguma, portanto, entre o “solo” de baixo em “Blue Monday” e o violão dedilhado da canção “La Resa dei Conti” (trad.: o acerto de contas), da trilha de Por Uns Dólares a Mais. Nos vídeos abaixo se pode conferir a semelhança.

O New Order voltaria a revisitar Morricone em um dos seus mais aplaudidos temas instrumentais: “Elegia”, do álbum Low Life (1985). A introdução da faixa que abre o lado B do disco também parece remeter ao som da caixinha de música que domina os segundos iniciais de “La Resa dei Conti”. Em um artigo escrito para o site da revista britânica The Quietus sobre o trigésimo aniversário de Low Life, Julian Marszalek discorre sobre essa ligação: “A [faixa] instrumental ‘Elegia’ tem mais do que ecos fracos da influência de Ennio Morricone (…) A cena é transportada da Almeria para Manchester, mas o impulso épico e os esforços do New Order correspondem às peças elegíacas de Morricone”. Todavia, “Elegia” também se inspirou no tema “As a Judgement” (trad.: como um julgamento), que faz parte da trilha-sonora de Era Uma Vez no Oeste. O fruto dessa inspiração aparece no trecho do solo de guitarra de Bernard Sumner, bem no final da canção.

O álbum Republic, de 1993, é outro caso de flerte com Morricone. Em um documentário feito na época para MTV, Peter Hook assim declarou sobre o álbum: “Em Republic usamos samples no estilo do Ennio Morricone”. Claro que ele não quis dizer que o maestro era um sampleador – na verdade, ele estava se referindo à maneira como o compositor italiano experimentava misturando orquestrações e sons “reais” ou “concretos” (produzidos por objetos, não por instrumentos). Isso pode ser ouvido, por exemplo, em “Ruined in a Day”. Se tentarmos excluir mentalmente a batida, podemos ouvir uma típica combinação “morriconiana” de suas trilhas de faoreste espaguete: o som de um sino, a guitarra acústica e as cordas. Experimente fazer isso com o snippet logo abaixo.

O New Order também homenageou Ennio Morricone em apresentações ao vivo usando suas músicas para abrir seus concertos – isso era uma forma de “chamar” a banda para o palco e de anunciar à plateia que o show vai começar. Na turnê do álbum Waiting for the Sirens’ Call (2005/2006), foi usada a faixa “Per Qualche Dolari in Più”, que é o tema principal de Por Uns Dólares a Mais (essa parecer ser a trilha-sonora de Morricone preferida pela banda). No “retorno”, já sem Peter Hook, a banda passou a utilizar “Se Sei Qualcuno É Colpa Mia” (trad.: se você é alguem, é culpa minha), canção do filme Meu Nome É Ninguem, outro western italiano, dessa vez dirigido por Tonino Valerii. O Brasil conferiu isso de perto em 2006 e, depois, em 2014.

Aliás, é importante frisar que o New Order possui uma relação muito interessante com o mundo do cinema – uma relação sobre a qual não vejo ninguem falar e que vai além da influência de Ennio Morricone em sua música. Mas isso merece um post à parte, é claro. Por ora, fico mesmo por aqui e curtindo o recente relançamento da trilha-sonora de Por Uns Dólares a Mais (minha trilha-sonora favorita também) em disco: For a Few Dollars More: Original Motion Picture Soundtrack (agora em uma edição limitada em vinil de 10” roxo).

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Nova edição limitada em vinil da trilha de “Por Uns Dólares a Mais”: o disco tem ideias que inspiraram o New Order.

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NEWS | New Order na revista “The New Yorker”

151005_r27100-868Não há dúvidas de que 2015 foi um excelente ano para o New Order e, por extensão, para os seus fãs. Além de completar 35 anos de carreira (descontando, naturalmente, os anos como Joy Division), a banda lançou um álbum muito bem recebido pela crítica e pelo público: Music Complete. A longevidade e o sucesso de novo disco ajudaram a colocar o New Order – e seu legado – mais uma vez sob perspectiva. A Q Magazine, em seu “Q Awards 2015”, lhes deu um prêmio pela sua “notável contribuição à música”; o CD Music Complete alcançou o segundo lugar da parada de álbuns da Inglaterra, a melhor marca do New Order desde Republic (1993), e entrou na lista da Mojo dos “50 Melhores Álbuns de 2015” em uma notável terceira posição, sem falar que a revista também os elegeu “A Banda do Ano”. Não podemos nos esquecer que a Rolling Stone chamou o single “Restless” de “triunfante”. Todavia, essas publicações, assim como outras que aplaudiram nossos heróis mancunianos este ano, são, via de regra, revistas e periódicos “especializados” em música/cultura pop. Ou seja, eles são parte do “habitat natural” de uma banda. Mas quando uma revista como a The New Yorker decide abrir espaço para falar sobre a “influência contínua” do New Order, com direito a review do último disco, pode-se dizer que a coisa agora chegou em um outro (e mais elevado) nível. No esteio do lançamento de Music Complete, a jornalista e crítica musical australiana Anwen Crawford analisou o status do New Order e pormenorizou os pontos altos (e baixos também) de Music Complete. Fora do balaio das revistas sobre música, acredito que esse artigo do The New Yorker é um dos mais relevantes publicados este ano sobre a banda e seu último rebento – haja vista que se trata de uma revista sobre política, temas sociais, artes, etc, e voltada para um público bem mais maduro e erudito. Trago uma tradução do artigo, assumindo desde já as imperfeições em relação ao texto original em inglês (que pode ser lido AQUI). A tradução chegou com atraso no blog, mas creio que veio em boa hora – é a cereja do bolo desse ano de 2015 que se despede!


ESTILO TARDIO *
A influência contínua do New Order
por Anwen Crawford
Outubro, 2015.

[ * N.T.: “estilo tardio” é um termo que utilizamos em português para traduzir a complicada expressão late style, que em inglês designa um estilo desenvolvido por um artista – músico, escritor, pintor, etc – durante sua maturidade/auge ou no final de sua carreira/vida, com o intuito de diferenciar essa fase em específico de sua obra de outras anteriores. Normalmente, se usa a expressão necessariamente quando esse período da carreira do artista se constitui como sendo o de maior influência sobre o desenvolvimento de outros artistas e/ou de outros estilos. ]

A banda inglesa New Order tem trinta e cinco anos de existência. E sua influência sobre o território músical híbrido do que poderíamos chamar de synthpop ou dance rock é tão grande que carreiras inteiras são impossíveis de se imaginar sem ele. Poderia não ter havido o LCD Soundsystem, ou o Rapture, ou uma enxurrada de bandas semelhantes que surgiram em Nova Iorque no começo dos anos 2000; não haveria Radiohead também. “É muito difícil impressionar meus colegas de banda”, disse Phil Selway, baterista do Radiohead, durante a introdução de um convidado, Stephen Morris, o baterista do New Order, em uma recente transmissão de rádio da BBC. A mera menção do seu nome, explicou Selway, reduziu os outros integrantes do Radiohead a um estado de silenciosa admiração e reverência. “Eu deixei o Radiohead mudo!”, Morris respondeu, com seu carregado sotaque nortista. “Caramba!”.

A música do New Order criou uma espécie de comunhão entre as convenções melódicas do pop e as possibilidades ritmicas da dance music e, também, entre os instrumentos tradicionais do rock (baixo, guitarra, bateria) e alternativas eletrônicas (sintetizadores, sequenciadores, caixas de ritmo). Os músicos deram sinceridade às máquinas, enquanto as máquinas impulsionavam os músicos para além de suas limitações humanas. O resultado são canções que se movem em direção à vibração da dance music, porém nem sempre a alcançam porque, em vez disso, são presas por pequenos redemoinhos de melancolia. As melhores músicas do New Order tendem a ser longas e transbordam os limites do modelo pop dos três minutos; eles [os membros da banda] se sentem movidos pela alegria e pela tristeza em iguais proporções.

Na semana passada, a banda lançou Music Complete, seu nono álbum de estúdio [N.T.: o escritor não incluiu na sua conta o disco Lost Sirens, a coleção de outtakes do CD Waiting for the Sirens’ Call, de 2005]. Uma década depois do último rebento, a tecladista Gillian Gilbert está de volta, e Peter Hook – cujas fluentes linhas de baixo constituíam uma das mais reconhecíveis qualidades do New Order – pulou fora, amargurado. Seus integrantes consistentemente minimizam suas próprias contribuições individuais, preferindo apresentar-se como uma unidade, o que não impediu que as pessoas se questionassem: “poderia um disco do New Order ser um autêntico disco do New Order sem Peter Hook?” Mas poderia ser um sem Gillian Gilbert? Onde reside o espírito da banda?

A resposta, embora esteja em conformidade com todos os clichês do rock’n’roll, talvez seja que o espírito do New Order era mais forte quando o grupo estava em sua juventude. Music Complete é certamente o melhor entre os últimos álbuns do New Order e, também, o melhor desde o subestimado Republic, de 1993. Ele contém um punhado de canções para se somar aos outros tesouros do catálogo da banda, mas elas estão ao lado de faixas que são esquecíveis por normas próprias do grupo. É difícil para o New Order superar a si mesmo ou convencer o ouvinte de que eles não têm coisa alguma para provar.

Nos doze primeiros anos, a banda estava intimamente ligada a um selo baseado em Manchester, a Factory Records, com o qual nunca assinou oficialmente, já que os contratos formais não faziam parte da política da gravadora. A Factory foi mais bem sucedida como uma brincadeira conceitual do que como um negócio de risco: eram atribuídos números de catálogos para absolutamente tudo, de uma ação judicial à discoteca Haçienda (e o gato que vivia por lá), até a declaração de sua falência, em 1992.

A Factory foi chefiada pelo empresário e repórter televisivo Tony Wilson (quando ele morreu, em 2007, seu caixão também recebeu um número de catálogo), e a comunicação visual do selo ficou a cargo do designer Peter Saville, que ainda é reponsável por criar todas as capas para os discos do New Order. Os projetos gráficos que Saville criava para a banda, que empregavam linhas geométricas, color-blocks e fotos de bancos de imagens, assemelhavam-se à publicidade de uma empresa inexistente. Assim como os membros do New Order, como personalidades individuais, tendiam a ser suprimidos pelo grupo como um todo, o estilo visual proposto por Saville criou um deslocamento entre a banda e seu público.

Quando o New Order não consegue por em movimento os pés e o coração é porque a música e a imagem estão aquém dos padrões estabelecidos pela própria banda, e de tal modo que a lacuna que se interpõe entre o grupo e o ouvinte não é mais misteriosa, mas, em vez disso, vaga. Para outra banda, o título Music Complete pode parecer arrogante; para o New Order, soa apropriado.

“Restless”, o primeiro single do álbum, tem um humor que o New Order explorou muitas vezes antes: uma insônia/vigília pungente, como voltar para casa de madrugada após a melhor festa da sua vida (se o New Order nunca foi uma banda dance o bastante, sua música é, no entanto, perfeitamente adequada para os frequentadores de discotecas). A canção se move suavemente, em uma perfeita combinação de instrumentos. O New Order pode sair com uma boa canção pop do mesmo modo como um atleta pode correr umas voltas só para se aquecer. Mas o que falta à “Restless” é aquele pequeno grão de perversidade que fez de outras canções do New Order tão gloriosas quanto inimitáveis – “The Perfect Kiss”, de 1985, por exemplo, que incluiu um interlúdio de sapos coachando. Por que sapos? Por que não?

Uma das melhores canções do novo álbum é “Stray Dog”, que apresenta uma narração em voz grave de Iggy Pop, muito diferente, em termos de tom, da voz sem luz e sem cor de Bernard Sumner, vocalista e guitarrista da banda. O atrito entre os vocais e o hábil arranjo instrumental – com uma pitada de violinos, além de guitarras cujas texturas tomaram de empréstimo a presença áspera de Pop – é algo que vale a pena prestar a atenção. E a participação de Iggy é altamente sugestiva, quer tenha sido deliberada ou não.

O New Order surgiu do Joy Division e, em 1980, quando o vocalista e letrista do grupo, Ian Curtis, cometeu suicídio, foi amplamente noticiado que o LP deixado em seu toca-discos foi a estreia solo de Pop, The Idiot.

Sumner, Hook e Morris tocaram no Joy Division. Ao longo dos anos, tornou-se quase impossível para eles acabarem com o mito do Joy Division, cuja inexperiente algazarra punk se transformou, pela sua própria força de vontade e pelos dons de seu produtor, o falecido Martin Hannett, em uma bela e sobrenatural música. Mas se algum grupo tem o direito de recuperar o Joy Division, esse grupo é o New Order, e a banda o faz em “Stray Dog” e em uma faixa chamada “Singularity”, que começa com ruídos assustadores e vacilantes e uma linha de baixo proeminente. Ambas evocam o som do Joy Division, que foi também o antigo som do New Order.

Quando o New Order copia a si mesmo funciona melhor do que quando ele tenta soar como o Chic, o que o grupo fez em músicas como “Tutti Frutti” e “People on the High Line”. No passado, a disposiçao do New Order para absorver os novos sons da dance music o colocou na vanguarda do pop, mas ao evocar a disco agora, dois anos após o ponto alto do Daft Punk, com a revivalista “Get Lucky” (co-escrita com Nile Rodgers, do Chic), parecem atrasados. É um tanto cruel ver os arquitetos de um estilo, apesar de sua longevidade e influência generalizada, serem eclipsados pelos seus jovens alunos.

A canção final de Music Complete é “Superheated”, que tem a participação de Brandon Flowers, do grupo The Killers, cujo nome foi tirado de uma banda fictícia que aparece em um vídeo do New Order. O clima da música é reflexivo, quase imponente, embora as letras (uma fraqueza ao longo da carreira do New Order) sejam banais. “Agora chegou ao fim”, canta Flowers. O New Order nasceu como uma espécie de acidente histórico, descontando a tragédia pessoal, e alcançou, na sequência do infortúnio, mais do que a maioria das bandas jamais conseguirá. Talvez agora, finalmente, chegamos ao fim.


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NEWS | New Order: influência e contribuição à música são celebradas em prêmio e novo site

0c21ef9a-5502-459f-b3e6-9a3e3b17952a-1360x2040O álbum Music Complete colocou o New Order novamente sob os holofotes. Hoje a banda foi um dos vencedores do “Q Awards 2015”, prêmio oferecido pela revista britânica Q Magazine. O New Order havia sido originalmente indicado para a categoria “Melhor Faixa Apresentada pela Absolute Radio” com a canção “Restless” (o primeiro single de Music Complete). Todavia, quem levou esse troféu foi The Libertines, com “Gunga Din”. Mesmo assim, o grupo não saiu da cerimônia de mãos vazias e teve sua importância reconhecida ao faturar o prêmio pela “Notável Contribuição à Música” – categoria similar, guardadas as devidas proporções, ao “Lifetime Achievement Award” do Grammy (Trad.: “Prêmio Pelo Conjunto da Obra”). Mas o reconhecimento à importância do New Order vem sendo demonstrado de várias outras maneiras. Hoje também foi lançado um novo site chamado Singularity: The Influence of New Order. Nele, artistas influenciados pelo N.O. relatam o significado da banda em suas vidas e publicam alguma produção pessoal relacionada com a banda. O Hot Chip, por exemplo, publicou, na íntegra, seu remix para “Tutti Frutti”, faixa escolhida para ser o segundo single de Music Complete; a dupla Factory Floor fez o upload do trecho de uma sessão de gravação feita com Stephen Morris; o ilustrador Will Broome exibe seu “urso” com olhos arregalados que remetem à capa de “Blue Monday 1988”; a banda norteamericana de post-rock Algiers deixou seu relato por escrito sobre como foi seu primeiro contato com a música do New Order; e o decano do post-punk inglês Robert Smith, a voz do Cure, montou uma mixtape com suas canções favoritas do grupo que outrora se chamou Joy Division (dentre elas “Dreams Never End”, faixa cuja linha de baixo teria sido copiada pelo próprio Cure em “In Between Days”).

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NEWS | DIY traça a influência do New Order

neworder_20150623_2047x1365No post de hoje trazemos uma tradução de um artigo escrito por Martyn Young e publicado no site da DIY Magazine no dia 03 de agosto. O texto de Young se concentra menos no próximo rebento do New Order, o álbum Music Complete, que na influência que a banda exerceu (e ainda exerce) sobre a música, do indie rock ao pop eletrônico. Todavia, o título é bastante sensacionalista, pois promete ao leitor algo que o artigo não cumpre: ser um “guia completo” sobre a banda.


Em detalhes:
VERDADEIRA FÉ: UM GUIA COMPLETO SOBRE O NEW ORDER
por Martyn Young, em 03 de agosto de 2015.

Revolucionários do pop eletrônico e ainda no auge da forma, Martyn Young traça a influência contínua do New Order.

No panteão das bandas britânicas, poucas têm a mesma história e o legado duradouro do New Order. Começando como Joy Division – antes de se transformar em New Order após a morte trágica do vocalista e letrista Ian Curtis em 1980 – o grupo de Manchester tem estado na vanguarda de parte da mais excitante, inovadora e bela música popular que você poderia imaginar. Quase quarenta anos de carreira, e na iminência de lançar seu nono álbum de estúdio, Music Complete, a banda prossegue inquietamente ativa.

Muitos dos melhores e mais excitantes músicos da atualidade possuem, de alguma forma, uma dívida para com o New Order. A resoluta persona anti-imagem da banda estabelecida no início dos anos 80 é a versão anterior de grupos como o Jungle, que começou com raízes fincadas no mistério e na mística anônima. É um modelo estabelecido pelo New Order, que começa com sua austera e determinadamente bela apresentação gráfica, concebida por Peter Saville, e passa pela sua relutância em falar com a imprensa e em fazer vídeos. Se o New Order continua relutante em se oferecer demais, em contrapartida não é do feitio deles obter vantagens do mesmo modo que outras bandas sérias de rock fazem. Embalando seu terceito álbum – Low Life – com uma foto artística do baterista Stephen Morris, ou tocando o single “Regret” na praia de “S.O.S. Malibu” no Top of the Pops, o New Order tem o poder de ser subversivo e à frente da curva. Essa mentalidade está clara em seu single de 2001, “Crystal” – o mesmo que provocou uma ideia na mente de um sonhador de Las Vegas obcecado pelas bandas independentes inglesas e que viria a se tornar ele mesmo um ícone da cena indie contemporânea, criada pelo New Order na década de 1980. Aliás, ele vai desempenhar um papel fundamental no novo álbum da banda.

Para Brandon Flowers, o New Order foi uma revelação musical. O nome The Killers foi retirado de uma banda fictícia que estrelou o vídeo promocional de “Crystal” e a influência do New Order tem sido uma constante em toda a sua carreira. É sobre o seu mais recente álbum, The Desired Effect, que essa influência tornou-se mais proeminente. Os sintetizadores graciosos e os rumorejos e ganchos (sem trocadilhos) pop [N.T.: a palavra “gancho” traduzida para o inglês é “hook”, então de resto não é preciso maiores explicações] são New Order antigo de primeira qualidade. É fácil ver porque se estabeleceu um relacionamento tão forte com o líder da banda e guitarrista Bernard Sumner. Na verdade, Sumner e Flowers têm compartilhado o palco em diversas ocasiões, a mais recente delas em Londres, onde tocaram “Bizarre Love Triangle”, faixa do New Order de 1986 [N.T.: na verdade, a apresentação em questão foi em Manchester].

É difícil dimensionar agora o risco que o New Order correu no começo, quando abandonou o punk rock tradicional em favor do experimentalismo eletrônico. Eles tinham o costume de correr riscos, o que permitiu que mais e mais bandas ao longo da história se soltassem e mudassem as coisas de tempos em tempos. Nomes atuais como Swim Deep e Future Islands continuam a mostrar que rock e música eletrônica não precisam ser mutuamente exclusivos.

Enquanto o New Order é compreensivelmente festejado pelos heróis indie, é dentro da música eletrônica que eles são mais célebres. Apos a saída do lendário baixista Peter Hook, um sujeito mais inclinado para o rock, a banda resolveu ir mais longe no caminho eletrônico. Em Music Complete, o grupo uniu forças com Tom Rowlands, do Chemical Brothers, bem como trabalhou com Elly Jackson, do La Roux. Para uma amante do pop eletrônico como Jackson, o New Order é nada menos que sagrado. Mal se pode imaginar uma história do pop sem eles. O eterno hino disco “Blue Monday” é um modelo para a maior parte da história do pop eletrônico moderno; um modelo seguido por La Roux e inúmeros outros.

Antes do New Order começar a incorporar sintetizadores e a eletrônica em sua música, bandas indie estavam intensamente cansadas da influência corruptora de máquinas sem alma. O New Order ensinou às pessoas que a pista de dança poderia ser um lugar tão especial quanto uma roda punk. Alguem como Elly Jackson compreende perfeitamente o poder transcendente do pop eletrônico do qual o New Order foi pioneiro e, como tal, ela foi uma convidada perfeita para o novo álbum, fornecendo vocais para duas faixas [N.T.: na verdade, foram três].

Após anos de embates entre as forças principais do New Order, Hook e Sumner, a banda está de volta no auge da forma. Pronta para enfrentar um novo e brilhante futuro musical consciente de seu passado e preenchida com a promessa de uma glória vindoura realizada junto à legião de músicos e ícones que continuam a inspirar.

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