NEWS | Joy Division + New Order: Novas edições limitadas a caminho

f2a60e20-ffda-46a0-8aa4-6274ab2b78b6_2048x2048Quem ainda não se recuperou do investimento feito em Movement: Definitive Edition que se prepare. Novos lançamentos do Joy Division e do New Order na forma de edições limitadas estão a caminho. Para começar, uma edição comemorativa de 40 anos do LP de estreia do Joy Division, Unknown Pleasures, sairá lá fora com um novo design (a capa será branca ao invés de negra) e prensado em vinil vermelho de 180 gramas. Mas é só, nada de extras ou mimos… e a masterização é a de 2007. Preço estimado? Em torno de £ 19 –  aproximadamente R$ 98 pelo câmbio de hoje.

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Mas isso é só o começo. No mês seguinte sairá o quase impronunciável ∑ (No,12k,Lg,17Mif) New Order + Liam Gillick: So it Goes.., um álbum ao vivo que será lançado pela Mute Records em três formatos: digital download, CD duplo com capa trifold e LP triplo colorido (vinis de cores vermelho, verde e azul) numa caixa que acompanhará, ainda, um livreto ilustrado de 24 páginas. Nesse disco teremos, na íntegra, a primeira das cinco noites que o New Order fez nos antigos estúdios da TV Granada durante o Manchester International Festival de 2017 (além de faixas bônus pinçadas dos demais concertos da banda no evento). O New Order foi o grande homenageado do MIF 2017 e na ocasião o grupo preparou um show especial que contou com um palco-instalação elaborado pelo artista visual Liam Gillick e com a participação de uma “orquestra de sintetizadores” tocados por doze estudantes da Royal Northern College of Music. O set list deixou de lado os grandes sucessos (a exceção foi “Bizarre Love Triangle”) e se concentrou em faixas que, em sua grande maioria, não eram tocadas ao vivo pelo New Order há muitos anos, como “Dream Attack”, “In a Lonely Place”, “All Day Long”, “Sub-Culture” (cujo sample a banda já liberou), “Ultraviolence”, “Vanishing Point”, “Disorder” (Joy Division), entre outras. O preço de pré-venda no site da Mute é de £ 45 (ou R$ 230 em média).

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Isso para não falar na autobiografia do baterista Stephen Morris – Record Play Pause – que acabou de sair…

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NEWS | New Order: o que vem por aí

Picture1O New Order anunciou hoje em suas redes sociais e, também, em seu site oficial que lançará lá fora no dia 30 de novembro (mesmo dia em que o grupo se apresentará em Uberlândia, no Triângulo Mineiro) uma inédita edição em vinil da coletânea Total: From Joy Division to New Order. O disco foi lançado originalmente em CD em 2011 e se diferenciou dos demais álbuns compilatórios da banda por incluir também faixas do Joy Division. Além disso, na época em que foi lançado Total trazia a público pela primeira vez uma das sobras de estúdio de Waiting for the Sirens’ Call (2005), a canção “Hellbent”.

Outra boa novidade é que o livro de memórias do baterista Stephen Morris já tem título, capa e data lançamento divulgados. De acordo com a Amazon britânica, Record Play Pause está previsto para sair em fevereiro do ano que vem. A edição capa dura tem preço de lançamento estimado em £16 (aproximadamente R$ 77, sem contar despesas de envio). A editora que lançará o livro é a Constable. O texto de descrição da Amazon (em tradução livre) diz assim:

“O livro de Stephen Morris não será aquela típica autobiografia que normalmente tende a ser recheada de malícia porém pobre em matéria de música. Parte memórias, parte história auditiva, será um texto híbrido na voz irônica e espirituosa de Stephen, uma narrativa dupla sobre o que é crescer no noroeste da Inglaterra nos anos 1970 e sobre como a música realmente funciona. Ele também explorará o que é fazer parte de uma banda mítica e também a ideia de como você se torna o que você é.” 

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Nós aqui do blog diremos o seguinte: agora só falta o livro da Gillian Gilbert…

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HISTÓRIA | “Get Ready” comemora 15 anos hoje

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Get Ready: oito anos após Republic

“O New Order já fez discos melhores do que esse, mas nenhum com tanta carga emocional e amplo barulho para levá-la adiante (…) Get Ready é o som de uma grande banda se libertando de seu passado diante de seus ouvidos”. Isso foi o que a Q Magazine escreveu sobre o sétimo álbum de estúdio do New Order, que foi também seu segundo disco pela London Records (gravadora com a qual a banda assinou após a falência da Factory Records, em 1992) e o último realizado por sua formação clássica – Bernard Sumner, Stephen Morris, Gillian Gilbert e Peter Hook. Lançado há exatos 15 anos, Get Ready foi escolhido pela mesma Q Magazine um dos 50 Melhores Álbuns de 2001. A revista New Musical Express também colocou o álbum na lista dos seus “cinquenta mais” daquele ano, mas ao contrário da concorrente disse que o CD “soa mais New Order do que qualquer outro disco do New Order. Único e brihante”. Ambas estão certas.

Todavia, o desempenho do álbum nas paradas não se comparou ao de seus antecessores, Technique (1989) e Republic (1993), que, na Inglaterra, haviam alcançado a posição mais alta. Mesmo com os elogios da crítica, Get Ready não passou do sexto lugar no Reino Unido – em todo caso, estar no Top 10 depois de oito anos mostra que a banda ainda estava de bola cheia. “Crystal”, o single que puxou o álbum, ficou no oitavo posto, outra bela recuperação já que “Spooky”, o quarto e último saído de Republic, não havia passado do 22o lugar. Hoje, a música – que nem deveria ter sido gravada pelo New Order, como veremos adiante – é um dos clássicos do grupo.

Mas os caminhos que levaram a Get Ready foram sinuosos desde o começo. A banda se reuniu em 1998, após um hiato de cinco anos, para fazer uma série de concertos (o último tinha sido no Reading Festival, em 1993). No ano seguinte, o New Order recebeu uma proposta do diretor Danny Boyle (de Trainspotting) para participar da trilha-sonora do que viria a ser seu próximo filme, A Praia, estrelado por Leonardo Di Caprio e baseado em um romance de Alex Garland. De acordo com Peter Hook: “Nós fomos convidados para compor algo novo para esse filme… foi bem em cima da hora, nós tivemos que fazer a música enquanto o filme era feito. Era como um aquecimento para tentarmos um recomeço. Foi a primeira coisa que nós escrevemos. E também queríamos experimentar com produtores diferentes. O Rollo do Faithless estava por aí e ele realmente se divertiu trabalhando com a gente, mas não era o som que faríamos depois. Fizemos um som mais hard em seguida”. Dave Thompson, em seu livro True Faith: An Armchair Guide to New Order, Joy Division etc (Helter Skelter, 2005, 187 páginas), discorda: “Na verdade, ‘Brutal’ não soa tão distante do que eles tinham em mente fazer depois”. Isso é fato.

Ainda em 1999, saiu a notícia de que eles estavam produzindo material novo em estúdio. Os títulos provisórios de algumas faixas chegaram a ser divulgados, mas poucas delas teriam sido concluídas. De acordo com Thompson, fontes da época diziam que aquele material soava entre o Joy Division na fase Closer e um “Electronic com Peter Hook”. No meio disso tudo, havia uma faixa em clima ambient de nove minutos que se chamaria “The Deepest Sea”. Mas os rumores foram desaparecendo à medida em que existiam sinais claros de que não havia nada realmente pronto para ver a luz do dia. Todavia, o “espírito do Joy Division” parecia mesmo ter sido invocado, uma vez que o grupo acabou emendando um projeto de recriação, em estúdio, do clássico “Atmosphere” para um álbum beneficente chamado Cohesion: Manchester Aid to Kosovo & Mines Advisory Group Benefit (basicamente, seria uma versão igual a que vinham tocando ao vivo). A “nova cara” para a música do Joy Division, entretanto, acabou não entrando no disco. Paralelamente, Bernard Sumner participaria do álbum Xtrmntr, do Primal Scream, e Peter Hook lançaria o segundo CD do seu projeto-solo, o Monaco.

Em 2000 a banda se reuniria novamente no estúdio de propriedade do casal Gillian Gilbert e Stephen Morris, que fica em uma fazenda localizada em Derbyshire. Dessa vez, a coisa finalmente “aconteceu”. Thompson assim descreve: “os quatro estavam relaxados tocando juntos, mas também estavam relaxados tocando uns contra os outros – uma sutileza eletrizante dos primeiros dias, é claro, mas um compromisso virtual no momento em que chegaram a Republic. É aquele velho e batido cliché da “química”. “É nisso que dá ficarmos separados por tanto tempo. Nos faz perceber que a força do New Order está em tocarmos juntos. Uma vez que a gente volta a tocar, encontra a química que está ali em algum lugar e se sente seguindo em frente”, disse Peter Hook, que falou ainda mais: [gravar Get Ready] foi provavelmente a melhor coisa que eu já fiz com esses caras. Sumner estava certo o tempo todo. Nós precisávamos de um tempo para nós mesmos. Agora, se temos algo em mente, simplesmente colocamos em prática. É muito melhor assim”.

De várias maneiras, Get Ready provou mesmo ser um disco de “retorno às raízes”. As declarações acima descrevem uma atmosfera que, historicamente falando, talvez só encontre paralelo ou semelhança com os tempos do Joy Division. Steve Osbourne, que produziu o álbum, teve sua parcela de contribuição nisso também. De acordo com a banda, o produtor, que na época tinha em seu currículo Happy Mondays, Placebo e Suede, em alguns aspectos lembrava Martin Hannett: ele buscava algo “místico” no estúdio e era perfeccionista – para alcançar determinado resultado, pedia que o quarteto refizesse ou tocasse algo novamente inúmeras vezes. O resultado foi um disco mais orgânico, com maior ênfase nas guitarras e com o lado mais dance e pop da banda ficando em segundo plano. De fato, isso foi o mais próximo que o New Order havia chegado do Joy Division em tempos, mas em nenhum momento Get Ready soava como se a banda estivesse tentando emular o som da sua antiga encarnação. Pelo contrário, ainda soava como New Order.

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Get Ready em modo Lego (by Christoph!)

Get Ready também foi o começo de uma prática hoje comum: a participação de “convidados especiais” em seus discos. Em retribuição à colaboração de Sumner em Xtrmntr, Bobby Gillespie (voz) e Andrew Innes (guitarra), do Primal Scream, deram uma força em “Rock the Shack”, um garage rock cru e visceral; em “Turn My Way”, contaram com a guitarra e a voz de Billy Corgan, do Smashing Pumpkins. Corgan, aliás, tem uma história longa com o New Order. Ele conheceu o grupo pessoalmente aos 15 anos de idade graças à amizade que ele tinha com um cara que trabalhava como promoter dos shows da banda. Quando saiu o disco-tributo ao Joy Division A Means to An End na década de 1990, ele assinou um cover de “Isolation” sob o alter-ego Starchildren; além disso, “Transmission” costumava ser tocada nos shows dos Pumpkins. Foi ideia de Bernard Sumner chamá-lo para “Turn My Way”, já que o vocalista do New Order gostava do Smashing Pumpkins e da voz de Corgan – e para isso pediu que Peter Hook, que o conhecia melhor, o fizesse.

Todavia, a grande “estrela” de Get Ready é a sua faixa de abertura e primeiro single, “Crystal”. De acordo com Hook: “A escolha de ‘Crystal’ como primeiro single foi inevitável. Ela simplesmente veio… parecia muito óbvio, ela é realmente bem direta, soa bem diferente e muito poderosa”. Curiosamente, ela se tornou uma música do New Order por um “capricho do destino”. Em 1999, o músico e produtor Mark Reeder, britânico radicado na Alemanha e amigo de Bernard Sumner, era o feliz proprietário da gravadora de música eletrônica Mastermind For Success (ou simplesmente MFS), que ele havia criado no começo da década de 1990 quando comprou, do próprio bolso, a infraestrutura da gravadora estatal da antiga Alemanha Oriental; nessa época, o selo de Reeder andava meio em baixa depois que sua maior revelação, um certo Paul Van Dyk, decidiu deixar a gravadora. Para dar uma força ao velho amigo, Sumner gravou os vocais, sem instrumentos, de uma canção inédita e os deu de presente para Reeder. Este pôs a gravação nas mãos de uma nova aposta sua, um DJ húngaro chamado Corvin Dalek, que mixou os vocais de Sumner a uma faixa instrumental de sua autoria que estava engavetada desde 1997. Dalek mostrou o resultado a Reeder, que gostou do que ouviu e ajudou o jovem DJ a fazer alguns ajustes finais na faixa, que chamaram de “Crystal”.

Reeder procurou Sumner para lhe mostrar o que ele e Dalek tinham feito. O vocalista do New Order ficou impressionado, para dizer o mínimo. Porém, uma “mão invisível” agiu nessa hora. Antes que Reeder e Dalek transformassem sua demo track em uma versão definitiva e a lançassem, com direito a remixes, Sumner, ingenuamente, a mostrou para o A&R (“artistas e repertório”) da London Records, Pete Tong. Este, consciente do enorme potencial do que tinha acabado de ouvir, não perdeu tempo: correu para o telefone, ligou para Reeder e disse “Você não pode lançar essa faixa!”. Ele insistiu para que Mark persuadisse Sumner a gravar “Crystal” com o New Order. Por força do poder econômico (a grande gravadora de Londres versus o selo alternativo de Berlim), Tong conseguiu mais do que isso: “convenceu” Reeder a engavetar a demo mix feita por Dalek e ele e a lançar os remixes dessa versão apenas depois que a gravação do New Order saísse. É a lei do dinheiro.

Já a capa de Get Ready, como de costume, tem sua vida própria. Feita por Howard Wakefield e Sam Roberts, mas sob a direção de arte de Peter Saville (sempre ele), ela traz a atriz alemã Nicolette “Coco” Krebitz fotografada por Juergen Teller, um conceituado fotógrafo de arte e de moda de origem tcheco-germânica e que hoje em dia também é professor da Academia de Belas Artes de Nuremberg. Anos atrás, no auge do extinto Orkut, houve uma discussão interessante sobre as capas de Peter Saville na comunidade “New Order Brasil” e eu citei uma referência ao designer feita pelo Doutor em Comunicação e professor da UFRJ André Villas-Boas em seu livro Utopia e Disciplina (2AB, 1998, 200 páginas) – e não é que, surpreendentemente, o autor em pessoa entrou no bate-papo, enriquecendo o debate! Cito essa história porque o professor Villas-Boas havia feito uma bela análise da capa de Get Ready naquela comunidade. Segundo ele, a modelo “desglamurizada”, isto é, de aparência ambígua/andrógina, de pele oleosa e cabelos desarrumados, vestindo “trapos”, em vez de exibir charme, beleza e um look “de grife”; que fotografa/filma quando deveria ser ela o foco das lentes; e a tarja vermelha no lugar do nome do artista (que não aparece em lugar nenhum) transmitem a seguinte mensagem: a imagem não é o que conta, o que vale é o som, a música. Não importa sequer que a banda por trás dela apareça, ou mesmo que se saiba de quem se trata, como se chama etc. Concentre-se apenas na música. Puro Saville, puro New Order. Juntos, eles inventaram o anti-marketing na indústria musical – uma “estratégia” cujo resultado (não premeditado) foi muito mais a bem sucedida promoção da banda do que a venda dos discos.

Apesar de tudo o que foi dito antes, os primeiros versos do disco – “Nós somos como um cristal… quebramos fácil” – acabaram prenunciando os tempos complicados que viriam mais adiante. Get Ready foi dedicado à memória de Rob Gretton (que era o manager desde os tempos do Joy Division e que havia falecido em 1999). Gillian Gilbert deixou a banda logo após o álbum ficar pronto para se dedicar às filhas de seu casamento com Morris, tendo sido então substituída nos shows por Phil Cunningham (que mais tarde se tornaria membro oficial). O revival em torno do Joy Division veio em seguida e se transformou em um monstro faminto e fora de controle – e obrigou a banda a competir com seu próprio passado. Mas Get Ready reverberou como todo bom álbum do New Order costuma fazer. Ele serviu de inspiração para o B-52’s em Funplex (2008), que inclusive contou com a produção de Steve Osbourne, e o vídeo de “Crystal” ajudou a batizar uma banda cujo vocalista é um fã incondicional do N.O. Alguem sabe que banda é essa?

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RELATO | Um dia em Manchester

20-21-june-2012-053“E no sexto dia Deus criou Manchester…”

Recentemente, tirei um tempo da minha viagem de férias para fazer algo que, como fã de New Order e Joy Division, sempre sonhei: passar um dia em Manchester para explorar em sua paisagem urbana a história e a geografia do som que há quase três décadas tem sido a trilha-sonora da minha vida. Na verdade, acho que escolhi Londres como destino das férias como desculpa para, enfim, poder saciar essa vontade. Ainda que eu pretendesse não admitir a verdade (ao contrário do que estou fazendo agora), o objetivo, desde o começo, sempre foi Manchester. Esse sonho, aliás, ganhou força em novembro do ano passado durante uma estadia em Paris: além de ter visto meu primeiro show do New Order em solo europeu, um dos momentos mais importantes da viagem foi quando eu pus os pés no lendário Les Bains Douches, onde o Joy Division já havia tocado (o show, após anos nas mãos dos piratas, acabou ganhando lançamento oficial em CD e vinil, em 2001). Os minutos que passei em sua galeria de antigos pôsteres de concertos com os olhos fixos no cartaz do show que o Joy Division lá fez em 18 de dezembro de 1979 foram decisivos para essa escolha. 

Manchester, é claro, não deu ao mundo apenas Joy Division e New Order. A lista a seguir é de respeito: Hollies, Buzzcocks, The Smiths, Simply Red, Happy Mondays, Stone Roses, Oasis, Chemical Brothers. Tem coisa nova rolando na cidade, é claro – Blossoms é a nova sensação por aquelas bandas. Muito já se gastou de papel e tinta sobre sua cena musical e o seu legado: Shadowplayers: The Rise and Fall of Factory Records, de James Nice (Aurum Press, 2010, 432 páginas), From Joy Division to New Order: The True Story of Anthony H. Wilson and Factory Records, de Mick Middles (Virgin Books, 2002, 320 páginas), I Swear I Was There: Sex Pistols, Manchester and The Gig That Changed the World, de David Nolan (IMP, 2006, 192 páginas), The North Will Rise Again: Manchester Music City 1976-1996, de John Robb (Aurum Press, 2010, 400 páginas) e Manchester, England: The Story of a Pop Cult City, de Davi Haslam (Fourth Estate, 2000, 351 páginas) são alguns dos títulos mais conhecidos. Não é exagero dizer que Manchester é uma das grandes capitais mundiais do pop ao lado de Londres, Nova Iorque, Detroit e Seattle. Liverpool? Só se for no Guiness Book (que lhe deu o título de “Cidade do Pop” por causa de uma única banda).

Só que meu equivalente ao Hajj (peregrinação à Meca que os muçulmanos são obrigados a fazer pelo menos uma vez na vida) ou ao Caminho de Santiago de Compostela – guardadas as devidas proporções nos mais variados sentidos – não começou de fato em Manchester, mas em Londres. Fazia parte da minha programação na Square Mile uma ida à belíssima National Gallery. Para que? Eu queria ver com os meus próprios olhos o quadro A Basket of Roses, de Ignace Henri Jean Fantin-Latour (1836-1904), pintado em 1890, e usado pelo designer Peter Saville na capa do segundo álbum do New Order, Power, Corruption and Lies, de 1983 (e considerada um dos trabalhos mais relevantes do artista gráfico). Aliás, eu queria algo mais do que apenas ver o quadro: além de ser fotografado com ele usando uma camiseta do disco que o traz em sua capa, eu queria repetir o gesto de Saville de 33 anos atrás e comprar um cartão-postal com uma reprodução da obra na gift shop do museu (o que consegui fazer). Essa história do postal merece um parênteses.

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Poder, corrupção e mentiras na National Gallery, em Londres

Com o título do álbum na cabeça – “poder, corrupção e mentiras” – Saville foi à National Gallery procurar um retrato de algum príncipe que pudesse usar na capa do disco. A intenção era, a partir da associação entre o nome do LP e o retrato usado na embalagem, fazer uma referência a Maquiavel. Bom, a ideia não era de fato tão boa assim e ele acabou desistindo dela no meio do tour pelo museu. Mas antes de ir embora, o designer entrou casualmente na lojinha de lembranças, onde pegou aleatoriamente um cartão-postal. Sua namorada na época, em tom de brincadeira, lhe disse: “Por que você não usa esse aqui na capa?”. Era um postal de A Basket of Roses. Os olhos de Saville brilharam – enfim, ele havia encontrado um “rosto” para Power, Corruption and Lies. Segundo ele, “as flores sugeriam a maneira pela qual o poder, a corrupção e as mentiras se infiltram nas nossas vidas, porque elas são sedutoras”. A justaposição entre a pintura figurativa e realista de Fantin-Latour com “textos” impressos em um código de cores criado por Saville para sugerir a ideia de uma linguagem que só poderia ser decifrada/decodificada por máquinas (como, por exemplo, um código de barras) foi a forma simbólica de retratar a “tensão” entre as duas faces do som do New Order (acústica/artesanal/manual e eletrônica/industrial/autômata) e de transmitir de modo subliminar a seguinte mensagem: por trás de máquinas que apenas aparentemente fazem tudo sozinhas (sequenciadores, drum machines) existem seres humanos… Bom, explicações à parte, o fato é que eu posso me considerar um sujeito de muita sorte: o dia escolhido para ir à National Gallery coincidiu com o único dia da semana (quarta-feira) em que a sala onde o Basket of Roses está exposto fica aberta à visitação – e eu nem sabia disso!

Enfim, com a foto feita e o postal guardado na mala junto com outros suvenires da viagem, eu só viria a pegar o trem para Manchester dois dias depois. No caminho, bastou passar por Macclesfield, terra natal de Ian Curtis e Stephen Morris, para já sentir aquele frio na barriga. Com a chegada em Manchester, a surpresa veio imediatamente após deixar a Piccadilly Station: embora eu não soubesse exatamente o que esperar, descobri uma cidade, em termos urbanísticos, muito diferente de Londres. Seu conjunto arquitetônico me deixou muito impressionado: edifícios como o do Town Hall, em Albert Square, o da Central Library, ou os dos hotéis Palace e Midland são verdadeiros deleites para os olhos. Se eu tivesse pesquisado um pouco mais, talvez tivesse me programado para ficar pelo menos mais um dia na cidade para poder ir além de seu roteiro musical.

Minha “peregrinação” em Manchester teve como primeiro ponto cardeal o que talvez é o mais sagrado dos lugares para quem, como eu, é ligado em música e cultura pop: o Free Trade Hall. Hoje funciona nele um hotel, mas originalmente o edifício foi erguido para eventos públicos, discursos políticos e concertos de música clássica (que ocorriam no Grande Pavilhão). O Free Trade Hall foi palco, em 1966, da primeira (e infame) apresentação de Bob Dylan com instrumentos elétricos – o que fez com que ele fosse vaiado e chamado de “Judas” pela plateia. Outros nomes importantes do rock tocaram lá: Frank Zappa, Pink Floyd e Genesis são alguns deles. Mas foi no pavilhão menor, chamado Lesser Free Trade Hall, que aconteceu o show que, segundo David Nolan, “mudaria o mundo”: o famoso concerto dos Sex Pistols no dia 04 de junho de 1976. O resto é história: havia apenas 40 pessoas no auditório, dentre elas Bernard Sumner e Peter Hook (Joy Division, New Order), Mick Hucknall (Frantic Elevators, Simply Red), Stephen Morrissey (The Smiths), Mark E. Smith (The Fall), Kevin Cummins (fotógrafo de rock), Paul Morley (jornalista e fundador da ZTT Records), Tony Wilson e Alan Erasmus (criadores do Factory Club e da Factory Records); sem falar nos organizadores do show, Pete Shelley e Howard Devoto, que formariam os Buzzcocks. Enfim, eram os nomes que ajudariam a colocar Manchester no mapa-mundi da música popular no anos seguintes.

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Free Trade Hall

Bem perto dali, encontramos outro “monumento” da história da música pop da cidade: a Manchester Central, antiga estação de onde partiam os trens para Londres antes da Piccadilly Station e que hoje é um parque de exposições, o Manchester Central Convention Complex. A mudança de função desse espaço aconteceu no final da década de 1970, quando ele recebeu o nome pelo qual ficou mais conhecido: Greater Manchester Exhibition Centre, ou pura e simplesmente “G-MEX”. O local foi palco, em 1986, dos shows do Festival of the Tenth Summer, um evento organizado por Tony Wilson e a Factory Records para celebrar os dez anos do famoso concerto dos Sex Pistols na cidade. Ao longo de um dia inteiro, se apresentaram nomes locais como New Order, The Smiths, OMD, The Fall e até bandas de cidades “amigas”, como Cabaret Voltaire (de Sheffield). O álbum ao vivo dos Smiths, Rank, que foi gravado no National Ballroom, Kilburn, em 23 de outubro daquele ano, traz no interior de sua capa uma foto feita no show do Festival of the Tenth Summer: garotos da plateia pelejando pela camisa do vocalista Morrissey. Eu tenho um LP pirata da apresentação feita pelo New Order chamado Solitude – nele, podemos ouvir “Ceremony” com a participação especial de Ian McCulloch, do Echo & The Bunnymen, nos vocais.

Mais alguns minutos de caminhada e, em seguida, fui parar em uma localidade conhecida como Knot Mill – outro lugar que podemos chamar de “místico”, para dizer o mínimo. Ali ficava o T. J. Davidson’s Rehearsal Studios, a famosa sala onde o Joy Division ensaiava e preparava novas canções. O T. J. Davidson’s ficou mais conhecido por ter sido o cenário para o vídeo promocional de “Love Will Tear Us Apart”. Se o prédio que outrora serviu de quartel-general para o Joy Division hoje não está mais lá (foi derrubado), por outro lado a construção onde um dia funcionou o Boardwalk, a casa noturna que lançou Stone Roses, The Charlatans, Happy Mondays, James e Oasis, continua de pé (mas atualmente servindo a outros desígnios). Há um vídeo de cerca de 30 segundos no You Tube publicado em 2010 que supostamente mostra o T. J. Davidson’s mas que, na verdade, exibe a fachada do antigo Boardwalk. Outra informação relevante: Tony Wilson chegou a morar ali em Knot Mill, em um apartamento localizado bem em frente ao edifício onde viria a ser o Boardwalk (inaugurado em 1986).

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Knot Mill: o edifício do Boardwalk (dir.) ainda está lá; o T. J. Davidson’s Rehearsal Studios, que ficava à esquerda e ao lado do prédio “10A”, não.

Naturalmente, um dos momentos mais melancólicos foi quando dei de cara com o edifício que hoje está de pé onde antes havia o mítico nightclub The Haçienda, também conhecido como “FAC 51”. O que torna a tristeza ainda maior é o fato do residencial de cor ocre se chamar The Haçienda Apartments (o jornalista Zeca Camargo também já escreveu sobre essa lamentável metamorfose). O condomínio vertical pode ter herdado o nome, mas não a história. Tinha gente que viajava até duas horas de carro até Manchester para curtir uma noitada no Haçienda. Nas suas origens, era um misto de boate e casa de shows onde se podia desfrutar de uma rica paleta de sons: punk, new wave, indie, disco, reggae, black music, northern soul. Depois, se tornou o epicentro da explosão do techno e da acid house na Europa. Na Canal Street, nos fundos do atual prédio, um artista local chamado Stewy eternizou seus grandes momentos em uma timeline gravada em metal, começando pela sua inauguração em 21 de maio de 1982. Sob comando da Factory Records, mas financiado pelo New Order, o lugar também viveu dias difíceis: foi palco da primeira morte por overdose de ecstasy publicamente reconhecida e cenário de brigas entre gangues, com direito a tiroteios em seu interior. Vários objetos que pertenciam a Haçienda hoje fazem parte do acervo do Manchester Museum of Science and Industry.

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Haçienda como era originalmente (e como nunca deveria ter deixado de ser).

A parada seguinte foi numa… loja da Tesco?! Não exatamente. O local onde hoje temos uma filial da famosa cadeia britânica de supermercados e comércio varejista – na verdade parte do belíssimo St. James Buildings – um dia foi outra casa noturna importante durante a era punk em Manchester: o Rafters. Ali aconteceu, no dia 14 de abril de 1978, o Chiswick Challenge, o lendário concurso de bandas organizado pela Stiff Records. O Joy Division se apresentou no concurso ao lado de outras 16 bandas, sendo a última a tocar (quando o local já estava praticamente vazio). Todavia, sua apresentação foi tão “intensa” que impressionaria Tony Wilson (quando este ainda era repórter da Granada TV) e, também, o DJ da casa, Rob Gretton. Rob se tornaria, desse ponto em diante, o empresário do Joy Division, mantendo essa função também com o New Order até sua morte, em 1999. O Rafters fechou suas portas em 1983.

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O antigo Rafters, agora transformado em Tesco

O roteiro não poderia deixar de contemplar o número 112 da Princess Street. Hoje, nesse endereço funciona a nova casa noturna e sala de concertos dirigida por Peter Hook (ex-baixista do Joy Division e do New Order), The Factory Manchester (“FAC 251”). No passado, a mesma construção abrigou o quartel-general da Factory Records. No atual site do Factory Manchester, se lê: “FAC 251: escritório da Factory Records… Construído por Tony Wilson. Projetado por Ben Kelly. Pago pelo New Order. Falido pelos Happy Mondays”. A porta de ferro com o logotipo da gravadora ainda está lá; Tony Wilson, de certa forma, também – através do stencil feito pelo já citado Stewy. Aliás, o Wilson foi – e sempre será – o grande personagem. Brian Epstein? Que me perdoem os fãs dos Beatles (eu adoro os Fab Four, que fique claro!), mas a história do seu empresário não foi parar no cinema (pelo menos não ainda). Ele também não ganhou um poema musicado em sua homenagem (“St. Anthony”, por Mike Garry e Joe Duddell) transformado em single beneficente que alcançou o primeiro lugar na parada inglesa. Não existe nenhum “Sr. Liverpool”, mas existiu um “Mr. Manchester”.

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O fim do “passeio” foi no Northern Quarter. O objetivo: ver e fotografar os mosaicos no Affecks Palace e as placas na calçada da Oldham Street. Precisei de uma ajudinha dos vendedores da Vinyl Revival para localizá-los. Os mosaicos fazem referência não apenas à história e o cenário musicais da cidade, mas, sinceramente, os ídolos do futebol ou as outras personalidades locais não me interessavam. Eu queria ver mesmo o mosaico com a turma da Factory (Martin Hannett, Tony Wilson, Alan Erasmus, Peter Saville, Rob Gretton), o outro com o pulsar CP1919 da capa de Unknown Pleasures, do Joy Division, aquele com o Sex Pistols, o Meat Is Murder dos Smiths, o Top of the Pops… Depois dos mosaicos, compras na Vinyl Revival (decorada com pôsteres originais da Factory Records, da Haçienda e do New Order, alguns deles autografados) e na Vinyl Exchange, e, finalmente, Oldham Street e suas placas que fazem referências aos principais marcos musicais da cidade: Buzzcocks (a primeira banda punk de Manchester), Short Circuit: Live at the Electric Circus (vinil de 10” da Virgin com o primeiro registro do Joy Division gravado ao vivo na noite de fechamento/despedida do Electric Circus), Factory Records etc.

O tour apenas parecia ter chegado ao fim… Na volta para a Piccadilly Station, parei em um restaurante qualquer da estação com minha esposa para comermos antes da volta para Londres e o que vejo dentro do estabelecimento? Um enorme pôster em forma de mapa de rede de metrô no qual as linhas e as estações são batizadas com títulos de álbuns e músicas dos Smiths.

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Essa é Manchester: uma cidade orgulhosa, que exalta não somente suas conquistas no campo da indústria e da tecnologia (o noroeste da Inglaterra foi o berço da Revolução Industrial), mas que também reconhece a contribuição de seus artistas populares. Isso aparece representado não apenas por meio da street art, mas também está materialmente certificado através das placas comemorativas – heritage awards – da PRS (Perfoming Right Society, uma espécie de ECAD britânico), como as que estão fixadas na Haçienda e no Boardwalk. Para mim, foi uma oportunidade de poder ver e tocar o que eu havia aprendido a amar e cultuar através dos discos, dos livros, das revistas e dos documentários. De fato, existe algo em Manchester que é único e exclusivo. Ou, como certa vez disse Tony Wilson: “This is Manchester, we do things differently here”.

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NEWS | Boas e más notícias…

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Peter Hook voltará ao Brasil com seu The Light este ano

Após uma pausa para férias, nosso blog volta com todo o gás trazendo as últimas novidades. A primeira é a confirmação da vinda de Peter Hook, ex-baixista do Joy Division e do New Order, à América do Sul este ano. Com a banda The Light, “Hooky” trará em dezembro seu mais recente e bem sucedido show, Performing the albums ‘Substance’ by Joy Division and New Order, para o Brasil, além de Argentina, Chile e Uruguai. Por aqui, serão três concertos: Teatro Rival, no Rio de Janeiro (01/12); Bar Opinião, em Porto Alegre (03/12); e Cine Jóia, São Paulo (06/12). Até momento, a venda de ingressos está disponível apenas para a apresentação no Cine Jóia. E os cariocas poderão comemorar finalmente, já que desde 2011, com Perform Joy Division’s ‘Unknown Pleasures’ (com o qual pôs o Circo Voador abaixo), que Peter Hook não toca na Cidade Maravilhosa.

A má notícia é para quem esperava que o New Order também confirmasse sua vinda à América do Sul em 2016. Fontes seguras do blog estiveram pessoalmente em contato com o management da banda após apresentação no Flow Festival, Finlândia, no dia 14 último e confirmaram que estava em curso, sim, negociações para uma turnê sulamericana que aconteceria em novembro (conforme chegamos a publicar). Entretanto, o New Order abortou por ora os planos de vir tocar por aqui, em princípio porque queriam diminuir o ritmo das viagens nesse momento. De acordo com as fontes, essa decisão foi da banda e a contragosto do management, que disse ainda: “talvez no ano que vem”.

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NEWS | Peter Hook anunciará datas para a América do Sul

Light-Logo-300x300A novidade foi divulgada ontem: em sua conta no Twitter, o ex-baixista do Joy Division e do New Order, Peter Hook, publicou um post com a hashtag “#Substance2016” e no qual disse que nos próximos dias seriam divulgadas as datas de uma turnê pela a América do Sul. Em suas próprias palavras: “Nós temos algumas novas datas da turnê para anunciar em breve – dessa vez na América do Sul!”. A hashtag “#Substance2016” nos dá a entender de que ele deverá trazer para estas bandas seu show mais recente, no qual toca, na íntegra, os álbuns/coletâneas Substance do New Order e do Joy Division, lançados, respectivamente, em 1987 e 1988.

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Peter Hook já esteve aqui no Brasil com sua banda-tributo The Light em outras três ocasiões: na primeira, em 2011, tocou o álbum Unknown Pleasures (1979), do Joy Division; na segunda, dois anos depois, após um rápido set de canções do JD, apresentou os LPs MovementPower, Corruption and Lies, do New Order, entremeados por todos os singles lançados pela banda entre 1981 e 1983, incluindo “Blue Monday”; na terceira, em 2014, ele “homenageou” o New Order mais uma vez tocando os discos Low Life (1985) e Brotherhood (1986), além de singles como “Thieves Like Us”, “Shellshock” e “True Faith”. O The Light é formado, além de “Hooky”, por seu filho, Jack Bates (baixo), Andy Poole (teclados) e dois antigos colegas dos tempos do Monaco (projeto paralelo ao New Order nos anos 1990), David Potts (guitarra e vocais) e Paul Kehoe (bateria).

PETER HOOK & THE LIGHT / Discografia (somente formato físico):

  • Perform Unknown Pleasures Live at Goodwood (2010)
  • 1102 | 2011 (EP, 2011)
  • Unknown Pleasures Live in Australia (2011)
  • Joy Division’s Unknown Pleasures and Closer Live at Hebden Bridge (2015)
  • New Order’s Movement and Power, Corruption and Lies Live at Hebden Bridge (2015)
  • New Order’s Low Life and Brotherhood Live at Hebden Bridge (2015)
  • So This Is Permanence

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OPINIÃO | O som do New Order

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Parafernália eletrônica: o estúdio caseiro de Stephen Morris e Gillian Gilbert em Derbyshire.

Synthpop? New wave? Electropop?

Afinal como definir o som do New Order? Alguem que curte a banda já parou para pensar nisso?

Como fã, é algo sobre o qual costumo refletir de vez em quando. Os rótulos que abrem o presente texto estão entre os que mais encontro nas matérias “especializadas” – mas eles são precisos? Será mesmo que o emprego de sintetizadores, programações, samplers, melodias pop e batidas dançantes – fora o fato de ser da década de 1980 – é o que basta para colocar o New Order no mesmo saco onde estão Pet Shop Boys, Yazoo, Soft Cell, Erasure ou Information Society? Sou da seguinte opinião: não. Acho, por exemplo, que Bernard Sumner, Peter Hook, Gillian Gilbert e Stephen Morris (a agora Phil Cunningham e Tom Chapman) sempre jogaram em outro time, do qual fazem parte nomes como Cabaret Voltaire, PiL, Section 25, Simple Minds, Beloved e Primal Scream, por exemplo. Em outras palavras, o New Order nunca teria se afastado do rock – ou melhor, nunca teria deixado de ser uma banda de rock. Ou, como explica o escritor Michael Butterworth em seu livro The Blue Monday Diaries (Plexus, 2015, 189 páginas): “Outros artistas vêm fazendo música sintetizada sequenciada há alguns anos, mas esta é talvez a primeira vez que uma banda de rock usa essas técnicas no coração da sua música”.

Quem somos nós, por exemplo, para discordar das palavras do agora ex-baixista Peter Hook? Em depoimento dado a Lori Majewski e Johnathan Bernstein para o livro Mad World (Harry Abrams, 2014, 320 páginas), ele disse o seguinte: “Bernard e Stephen, em particular, estavam muito interessados nos experimentos com tecnologia. Eu, por outro lado, tenho que admitir que não estava tão interessado nisso. Eu prefiro rock. Foi a combinação entre meu desejo de estar em uma banda de rock e eles querendo ser uma banda disco que nos deu nosso som único”. Para o site da Gibson, em 2013, ele deixou bem claro que Power, Corruption & Lies ainda é sobre a real química de uma banda”.

Os experimentos com sintetizadores e com técnicas de manipulação dos sons em estúdio começaram ainda nos tempos em que a banda se chamava Joy Division. Em 1978, por ocasião de uma tentativa frustrada de gravar um álbum para a RCA nos estúdios Arrow, em Manchester, os produtores John Anderson, Bob Auger e Richard Searling tentaram introduzir teclados (tocados por um músico contratado) no som da banda. A reação não foi positiva. Todavia, a história prova que os quatro rapazes do Joy Division foram se mostrando (ou na verdade eram) menos refratários às experimentações eletrônicas do que pareciam ser originalmente. Como se sabe, Ian Curtis era um grande fã de Kraftwerk e foi o responsável por apresentar o disco Trans-Europe Express (1977) aos demais integrantes. O álbum do Kraftwerk era ouvido com frequência durante os ensaios; além disso, era um costume da banda colocá-lo para tocar no P.A. antes dos shows. Por sua vez, o baterista Stephen Morris já assumiu publicamente ter sido influenciado pela batida motorik de outras bandas alemãs de krautrock como Can e Neu!. Em suas próprias palavras:

“Como baterista, Klaus Dinger [do Neu!] foi muito importante para mim, ele me ensinou como fazer um riff durar uma vida inteira! Eu nunca tinha ouvido nada como aquilo antes. Eu era ligado no krautrock, então eu comprava qualquer coisa que vinha da Alemanha. Gostava da maneira como eles faziam montagens musicais, com pedaços de som ambiente… Quando ouvi, pensei ‘se eu tivesse uma banda, eu queria que soasse assim tão aventureiro’. Tago-Mago, do Can, é outro disco que soa como nenhum outro. Posteriormente, apareceram coisas que tentavam soar parecidas, mas ele continua sendo original. Eu costumava fazer cópias em cassete dele para ouvir no campo, sentado na grama”.

Outros discos ajudam a entender bastante a inclinação que já existia no Joy Division para a música eletrônica. Um deles, sem sombra de dúvidas, é Low, de David Bowie (1977), principalmente o Lado B (totalmente preenchido por faixas instrumentais baseadas em sintetizadores). Todos conhecem bem a história: a primeira denominação da banda, Warsaw, foi inspirada no título da canção “Warszawa”, de Low. Mas Bernard Sumner, em sua autobiografia, Chapter and Verse (Bantam Press, 2014, 343 páginas), confessou que o álbum de Bowie lhes forneceu mais do que um nome e que, na verdade, todos eles eram “ligados” no som desse disco. Outra história que todos já estão carecas de saber é que Ian Curtis, na noite de seu suicídio, estava a ouvir The Idiot, de Iggy Pop (1977). Sumner costuma se lembrar que The Idiot foi o disco que Ian lhe mostrou de bate-pronto na primeira ocasião em esteve na casa dele – e que ficou “alucinado” com o que tinha ouvido. Como todo mundo também já sabe, esse é um “álbum irmão” de Low, tendo sido, inclusive, produzido por David Bowie. Ambos foram gravados em Berlim (sacaram a conexão?) e expressam o interesse da dupla na época pelo som eletrônico/experimental de Neu!, Can e Kraftwerk. Aliás, o próprio Iggy Pop definiu The Idiot como “o encontro entre James Brown e o Kraftwerk”. Uma de suas músicas se chama “Nightclubbing”. Profético?

Mas é importante dizer que o maior estímulo que o Joy Division recebeu para se aventurar nesse território veio daquele que seria seu produtor em definitivo, ou praticamente seu “quinto membro”: Martin “Zero” Hannett. Como uma espécie de Lee Perry mancuniano, Hannett os encorajou no uso de sintetizadores e no emprego do estúdio como “instrumento”. Stephen Morris deu seus primeiros passos no uso de percussão eletrônica adicionando ao seu kit de bateria um Syndrum e um Synare, ambos usados em faixas de Unknown Pleasures (1979) como “Insight”, “Shadowplay” e “She’s Lost Control”; já Bernard Sumner comprou um exemplar da revista Electronics Today que trazia um kit do tipo “monte você mesmo” para construir seu próprio sintetizador Powertran Transcendent 2000. Hannett, por sua vez, costumava usar tape loops para tratar notas musicais através de filtros de modo a conseguir obter ecos e delays digitais; além disso, o produtor tinha o hábito de enviar o som captado da bateria para um alto-falante pendurado no banheiro do porão do estúdio, onde o som era gravado novamente por um único microfone para, em seguida, receber mais efeitos. Isso sem falar na utilização de samples incomuns, como sons de elevadores se movimentando, vidros se partindo etc.

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A revista “Electronics Today”: faça você mesmo!

O encontro das influências absorvidas através dos discos que eles ouviam com essa verve experimental de seu produtor deu origem a uma coleção de faixas que já insinuava o som que estaria por vir como New Order: “She’s Lost Control (12” Version)”, “Isolation”, “As You Said”, “These Days” e mesmo “Love Will Tear Us Apart”. Quando Ian Curtis faleceu, no dia 18 de maio de 1980, a banda já estava “sacando” o trabalho que a cantora disco Donna Summer vinha fazendo em parceria com outro mago da música eletrônica da época: o tecladista e produtor italiano Giorgio Moroder. Se Ian tivesse permanecido vivo tempo suficiente para ir aos Estados Unidos com a banda, certamente ele não teria escapado da “conversão” que aconteceria em Nova Iorque. Stephen Morris chegou a dizer à revista Bizz na década de 1980: “Tenho certeza de que o Joy Division faria as coisas que estamos fazendo agora”. Mas, afinal, o que aconteceu com essa turma na América?

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Giorgio Moroder

Naturalmente, a primeira turnê pelos Estados Unidos não ocorreu como planejada. A morte de Curtis adiou os planos e banda só pisaria em solo americano já como New Order. A primeira passagem foi bem curta e aconteceu ainda em 1980 sem a tecladista Gillian Gilbert e com os três remanescentes do Joy Division se revezando na função de vocalista. A segunda, já com a formação clássica e com Bernard Sumner ocupando o posto de cantor em definitivo (sendo substituído pelo baixista Peter Hook apenas em “Dreams Never End”) foi no ano seguinte. Durante essas viagens, uma jovem judia novaiorquina que havia sido contratada para trabalhar como promoter dos shows, Ruth Polsky, lhes apresentou o melhor das noites de Manhattan. Ela os arrastou para o circuito local de clubes e casas noturnas como Danceteria, Peppermint Lounge e Area. Não havia lugares desse tipo em Manchester, nem tampouco o tipo de música eletrônica dance que se tocava neles. Uma música, aliás, que nem lhes chegava a ser totalmente estranha: ela resultava da maneira como os DJs negros de Nova Iorque se apropriavam da música dos alemães do Kraftwerk. “Os clubes que frequentávamos nos influenciaram bastante naquilo que viríamos a fazer”, disse Stephen Morris à MTV Europeia em 1993. “Minhas influências mudaram totalmente em um ano”, completou Sumner em entrevista ao mesmo programa.

Em seu livro, Sumner disse também que “Fiz em Nova Iorque um amigo DJ chamado Frank Callari, hoje falecido. Era um cara grande, mas afetuoso, e que saiu em turnê com a gente em uma ocasião. Ele me mandava fitas cassete das emissoras de rádio novaiorquinas. Naquela época não havia emissoras de música dance na Inglaterra, então ele me enviava essas fitas das americanas, que eram genais e refletiam uma verdadeira cultura musical. Também tinha um amigo em Berlim chamado Mark Reeder e naquela época ele era o homem da Factory Records na Alemanha. Ele me mandava discos de 12 polegadas de dance music de todas as partes da Europa”.

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Flyer da boate Danceteria (NY)

A medida em que descobriam novos sons e ampliavam seu gosto musical, eles também aprofundavam seu relacionamento com a tecnologia. No verão de 1981, no Marcus Music Studios, em Londres, nascia uma peça que seria fundamental no desenvolvimento do “som do New Order”. Stephen Morris encontrou em algum canto do estúdio um sintetizador Oberheim e decidiu conectá-lo a uma bateria eletrônica. Segundo Sumner, “quis a sorte que a drum machine pusesse em funcionamento o sintetizador num ritmo que se encaixava perfeitamente com o som da bateria; soava fenomenal, como Giorgio Moroder, só que muito mais barato! Nos dias de hoje isso parece uma bobagem, mas não havia muitos sintetizadores que pudessem fazer isso naquela época – normalmente eram tocados com as mãos como um instrumento tradicional, ou com um sequenciador rudimentar, porém caro. Entretanto, com aquele pequeno Oberheim se podia obter o som do teclado e o ritmo da bateria eletrônica. (…) Foi assim que fizemos ‘Everything’s Gone Green’, nossa primeira tentativa de por um pé na música eletrônica dance.

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Sintetizador Oberheim OB-Xa: por trás do som de “Everything’s Gone Green” (1981)

Se no primeiro LP como New Order, Movement (1981), ainda soavam muito próximos do Joy Division, apesar do farto uso de sintetizadores, com os discos que fizeram em seguida, como o já citado “Everything’s Gone Green”, além dos singles “Temptation”, “Blue Monday”, “Confusion” e dos álbums Power, Corruption & Lies (1983) e Low Life (1985), eles se tornaram precursores de duas vertentes do pop: o dance rock (também chamado de dance-oriented rock ou D.O.R.) e o alternative dance. A primeira teria surgido na década de 1980 no esteio do esgotamento da primeira leva do punk rock e da disco music. Michael Campbell, em seu livro Popular Music in America (Arizona State University, 2013, 432 páginas), define o dance rock como uma fusão entre o pós-punk e o gênero que ficou conhecido como pós-disco (forma embrionária de dance music eletrônica); no livro, Campbell cita Robert Christgau, para o qual o D.O.R. é um “termo guarda-chuva” que teria sido inventado por DJs na década de 1980 e que designa uma música praticada por músicos de rock influenciados pela soul music da Filadélfia, pelo funk e pelo som disco e que misturavam esses estilos musicais com o rock e a dance music.

Já o alternative dance é um parente muito próximo do dance rock. Trata-se de uma mistura entre o rock indie / alternativo e a dance music pós-disco. De acordo com o site AllMusic.com, “o alternative dance funde as estruturas melódicas do rock alternativo com batidas eletrônicas, sintetizadores e samples. Os artistas e bandas dessa vertente geralmente são indentificados através de uma assinatura musical muito própria (o som característico do baixo do Peter Hook, por exemplo), pelos sons e texturas (o uso simultâneo de bateria ao vivo e eletrônica, como faz Stephen Morris) ou pela fusão de elementos musicais específicos; além disso, frequentemente assinam com selos alternativos ou independentes (Factory Records; Mute). O New Order é sempre citado como o primeiro grupo do gênero porque seus discos do período 1982-1983 propunham o encontro do pós-punk com o som de bandas eletrônicas como o Kraftwerk.

Em termos históricos, a direção escolhida pela banda se mostrou acertada. Ao contrário de contemporâneos como o Depeche Mode, o New Order ignorou completamente a tsunami grunge que varreu as praias musicais na década de 1990; optaram por assistir, do alto de algum camarote do seu mítico club Haçienda, a molecada pular e suar na pista de dança ao som de suas criaturas: Happy Mondays, 808 State, Stone Roses, The Charlatans (a cena que ficou mundialmente conhecida como Madchester), além de outros seguidores do ritmo baggy, como The Soup Dragons, Ocean Colour Scene e o Blur dos primeiros anos. Resumindo: bandas de rock com batidas dançantes. Sua influência pode ser sentida e ouvida em vários outros grupos e artistas que vieram depois: Moby, The Chemical Brothers, Sub-Sub, Prodigy, Doves, The Killers, Hot Chip, Factory Floor, The Horrors e uma penca de grupos nu rave.

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The Killers: o New Order inspira o som dos anos 2000

Eles definiram o som que está na moda nestes anos 2000. “Muitos dos melhores e mais emocionantes músicos da safra mais recente estão, de alguma forma, em dívida com o New Order”, escreveu Martyn Young para o site DIY Magazine em agosto do ano passado. “No panteão das bandas britânicas, poucas têm a mesma história e o legado duradouro do New Order. Começando como Joy Division, o grupo de Manchester tem estado na vanguarda da parte mais emocionante, inovadora e bonita da música pop que você poderia imaginar. (…) É difícil precisar quanto risco o New Order correu no começo, quando abandonou o tradicional punk rock em favor do experimentalismo eletrônico. Mas a atitude deles era a de assumir riscos, o que permitiu que mais e mais bandas ao longo da história se soltassem para mudar as coisas de vez em quando”, concluiu Young. “Se soltar”, nesse caso, é dar as costas a uma série de “ideologias” velhas e ultrapassadas: que “roqueiros” devem se manter bem longe da “profana” dance music, que a técnica e o virtuosismo são as supremas virtudes, que não dá para ser “artístico” e pop ao mesmo tempo ou que a guitarra elétrica tem que ser o instrumento dominante no rock.

Impossível encerrar este post sem dar algum crédito a Tony Wilson e sua lendária a gravadora, a Factory Records, sem os quais o New Order não teria sido New Order. “Éramos profundamente políticos por não termos a propriedade sobre os nossos grupos”, disse Tony certa vez ao jornalista Garry Weaser (The Guardian). “A gravadora não é dona de nada, os músicos são proprietários de sua música e de tudo o que fazem. Todos os artistas estão livres para se foder” era o que estava escrito no lendário “contrato” assinado a sangue com o Joy Division, em 1978. “A outra coisa foi que nos dois primeiros anos tínhamos esse negócio de não-promoção. Não havia nenhuma promoção. Não tínhamos assessoria de imprensa. Era tudo sobre não tratar a música como mercadoria”. A Factory faliu em 1992 – ela foi “banida” do ecossistema hostil e implacável dos negócios para entrar na História.

“A revolução criada pelo Joy Division [no final da década de 1970, em Manchester], estando no centro de tudo, inspirou a participação de muitas pessoas… e a não diferenciar dance de rock” (Tony Wilson, 2007).

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