REVIEW | Avaliamos os novos discos ao vivo de Peter Hook & The Light

Peter_Hook_Digi-600x425Peter Hook deve gostar muito de ouvir o tilintar das caixas registradoras… afinal, que razão ele teria para pegar três shows seus com o The Light (seu atual grupo) e lançá-los distribuídos em seis CDs (dois álbuns duplos e dois simples), ou ainda em nove discos de vinil (avulsos)? Não, caro leitor, você não leu errado: são meia dúzia de discos laser e uma novena de LPs.

A última vez que me lembro de ter visto algo assim foi quando a New State Recordings lançou, em 2006, uma coleção de doze singles de vinil contendo remixes clássicos e recentes de faixas do New Order. Conheço gente que até hoje não conseguiu completar a coleção devido à dificuldade para se conseguir os doze discos juntos. Quem ficou babando pelos novos lançamentos do The Light vem passando por um perrengue parecido. Eu explico…

Quando Hook anunciou o lançamento, foi dito que as versões em vinil dos álbuns Unknown Pleasures Live in Leeds, Closer Live in Manchester, Movement Live in Dublin e Power, Corruption and Lies Live in Dublin seriam edições limitadas produzidas exclusivamente para o Record Store Day 2017 (ocorrido no último dia 22 de abril). Só que muita gente se queixou de que não havia uma loja sequer entre as inscritas no evento que possuísse em estoque os nove discos (coloridos, faltou dizer). Resultado: mesmo quem estava disposto a abrir a carteira e fazer tamanha extravagância acabou não obtendo êxito. Até este momento não sei ao certo o que dizer sobre essa bizarra estratégia comercial.

Entretanto, como as edições em CDs já chegaram em nossas mãos, foi possível fazer uma avaliação dos novos lançamentos para o blog. Será que valem a pena? Bom, leiam as análises individuais de cada álbum e tirem suas próprias conclusões!

Unknown Pleasures Tour 2012 – Live in Leeds (☆☆☆): Este registro do show realizado dia 29 de novembro de 2012 no The Cockpit, uma popular casa noturna que fechou suas portas em 2014, é o terceiro lançamento oficial de uma versão ao vivo completa do álbum Unknown Pleasures (isso se não colocarmos na conta o CD triplo So This Is Permanence, que apresenta Peter Hook e o The Light interpretando em uma única noite todo o repertório gravado pelo Joy Division). No mínimo isso revela o quanto o disco é estimado pelo baixista. Todavia, se eu tiver que escolher a melhor das três versões ao vivo de Unknown Pleasures, fico com Live in Australia, de 2011. De interessante em Live in Leeds é o fato de Hook nos brindar com um set mais longo e que inclui uma seleção mais variada de faixas de outros períodos do Joy Division, abrangendo desde a fase punk com “The Drawback” e “Warsaw” até canções de Closer. Todavia, essas faixas reaparecem em versões melhores no disco Closer Tour 2011: Live in Manchester (a exceção talvez seja “Atrocity Exhibition”…).  Aqui, de uma maneira geral, falta um pouco de punch. Na ocasião em que o show no The Cockpit foi gravado, Nat Wason ainda era o guitarrista do The Light. Destaques: “Disorder”, “New Dawn Fades”, “Shadowplay”, “Interzone”, “Atrocity Exhibition”, “Something Must Break”.

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Unknown Pleasures Live in Leeds

Closer Tour 2011 – Live in Manchester (☆☆☆☆): também com Nat Wason na guitarra, aqui temos o The Light apresentando uma razoável versão da obra-prima do Joy Division no FAC 251 The Factory, um clube do qual Peter Hook é sócio e que fica no prédio que outrora sediava o quartel-general da Factory Records. Tal como Live in Leeds, é um CD duplo – o que quer dizer que além do álbum Closer tocado na íntegra temos diversas outras faixas do Joy Division. “From Safety to Where…?” transformou-se de cara em uma das minhas favoritas. Mas vamos com calma! Até chegarmos nela temos ainda que passar por uma ótima versão da instrumental “Incubation” (que abre o disco), além de “Dead Souls” (apenas “ok”) e “Autosuggestion” (em versão superior a aquela apresentada no ano passado aqui no Brasil). Dentre as canções de Closer, destacamos “Atrocity Exhibition”, “Colony” (interpretada na voz arrepiante de Rowetta, dos Happy Mondays) e “The Eternal”. Cabe aqui mencionarmos uma certa dificuldade do baterista Paul Kehoe de emular o estilo “rápido, porém lento” de Stephen Morris no Joy Division – o que ficou evidente, por exemplo, na arrastada interpretação de “Passover” e numa versão “sem-sangue-nos-olhos” de “Novelty”. Por sua vez, “Decades”, minha faixa favorita de Closer, não chegou aos pés da apoteótica versão que o New Order vem apresentando em seus shows. No balanço geral, é um disco melhor que Unknown Pleasures Live in Leeds. Vale a pena também por “These Days”,  “Warsaw” e pelos vocais guturais de Hook em “Transmission”.

Movement Tour 2013 – Live in Dublin (☆☆☆☆): Inexplicavelmente, esse show gravado no dia 22 de novembro de 2013 no The Academy, em Dublin, foi dividido em dois CDs simples, cada um deles trazendo uma interpretação completa de um álbum do New Order. Este, com foco em Movement (primeiro LP da banda), abre com uma seleção de sete faixas do Joy Division. Talvez a intenção de Hook tenha sido evidenciar a ligação, em termos musicais, entre o JD e o som do New Order em seu álbum de estreia. Em Movement Live in Dublin, temos versões ainda melhores de “Incubation”, “Autosuggestion” e “The Drawback”, mas a falta de brilho em canções como “Passover” e “Wilderness” se repete. Só que desta vez o guitarrista não é mais Nat Wason, mas, sim, um velho companheiro de Hook: David Potts (ex-Revenge e ex-Monaco). Fãs mais ardorosos do rancoroso baixista que me perdoem, mas ainda não nasceu uma versão de “Ceremony” feita pelo The Light que realmente me agrade – e o mesmo digo para a clássica “Dreams Never End”. Entretanto, as interpretações de “Procession” e “Cries and Whispers” são dignas de elogios e aplausos, assim como quase toda releitura de Movement, com destaque para “Truth”, “Senses”, “Chosen Time” e “Doubts Even Here”.

Power, Corruption and Lies Tour 2013 – Live in Dublin (☆☆☆☆): Aqui temos a continuação do show cuja primeira parte foi incluída no CD anterior. Com exceção de “Love Will Tear Us Apart”, que encerra o disco, o resto é puro New Order. O álbum começa com uma versão espectacular e arrebatadora de “Everything’s Gone Green” – single originalmente lançado em 1981, logo após Movement, e que é considerado por Peter Hook (e, também, pelos seus ex-colegas de banda) o primeiro lampejo do som clássico do N.O. Sem muita enrolação, o disco segue com “Age of Consent”, faixa que dá início à interpretação do The Light para Power, Corruption and Lies. Apesar de ortodoxas, isto é, com arranjos muito próximos aos da gravações originais de estúdio, as versões ao vivo desse Live in Dublin possuem um incontestável frescor, o que faz desse CD o melhor entre os quatro. Todavia, um dos raros pontos fracos aqui são os vocais de Hook. A voz do baixista até que se ajusta um pouco melhor ao repertório do Joy Division ou ao material inicial do New Order. Mas não é o caso, por exemplo, de “Leave Me Alone”, “True Faith” (todavia impecável na parte instrumental) e “Temptation”. O disco inclui ainda um registro de “Blue Monday” que é bastante representativo de uma das grandes “falhas” desse pacote lançamentos ao vivo: a falta de um grave mais “cheio” e poderoso. Cabem aqui menções honrosas para “The Village” e “Ultraviolence”.

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Closer Live in Manchester (no alto), Movement Live in Dublin (esquerda) e Power, Corruption and Lies Live in Dublin (à direita).

Os discos vêm embalados em bonitos estojos tipo digipak cujas artes recriam ou reciclam, com muito bom gosto, os projetos gráficos dos álbuns originais. Entretanto, surpreende o fato de que nenhum deles traz encartes / libretos com fotos dos shows ou textos. Também é de se estranhar que não existem créditos para o artista gráfico (ou escritório de design) responsável pela parte visual, o que sugere que as capas podem ter sido produzidas pelo departamento de arte da própria gravadora (Westworld Recordings). Esse “desleixo” é algo a se lamentar, principalmente porque as capas ficaram realmente muito boas.

Depois de incontáveis coletâneas de gravações de estúdio, agora chegou a vez do mercado ficar abarrotado de álbuns ao vivo com o material do Joy Division e do New Order – não podemos nos esquecer que no mês que vem chega NOMC15, registro de um show da turnê do disco Music Complete feito em Londres em 2015. E o New Order já tem outros três discos ao vivo oficiais em seu catálogo: BBC Radio One Live in Concert (1992), Live at the London Troxy (2012) e Live at Bestival (2013). Pelo visto, se depender de Peter Hook os fãs de ambas as bandas terão discos ao vivo para mais umas duas gerações.

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NOTA: É com profundo pesar e tristeza que publico este post, já que ontem mais uma vez a loucura e o desprezo pela liberdade e pela vida ganharam as manchetes. Manchester chora as vítimas da insensatez, da ignorância e da falta de escrúpulos daqueles que querem impor aos outros, através da violência e do medo, sua enviesada e distorcida visão de mundo. Minhas condolências às famílias dos mortos no ataque à Manchester Arena. E registro aqui minha torcida pela recuperação dos feridos. Foi a música que primeiro me conectou a Manchester; agora, o que me conecta à cidade é a solidariedade e a empatia.

RELATO | Um dia em Manchester

20-21-june-2012-053“E no sexto dia Deus criou Manchester…”

Recentemente, tirei um tempo da minha viagem de férias para fazer algo que, como fã de New Order e Joy Division, sempre sonhei: passar um dia em Manchester para explorar em sua paisagem urbana a história e a geografia do som que há quase três décadas tem sido a trilha-sonora da minha vida. Na verdade, acho que escolhi Londres como destino das férias como desculpa para, enfim, poder saciar essa vontade. Ainda que eu pretendesse não admitir a verdade (ao contrário do que estou fazendo agora), o objetivo, desde o começo, sempre foi Manchester. Esse sonho, aliás, ganhou força em novembro do ano passado durante uma estadia em Paris: além de ter visto meu primeiro show do New Order em solo europeu, um dos momentos mais importantes da viagem foi quando eu pus os pés no lendário Les Bains Douches, onde o Joy Division já havia tocado (o show, após anos nas mãos dos piratas, acabou ganhando lançamento oficial em CD e vinil, em 2001). Os minutos que passei em sua galeria de antigos pôsteres de concertos com os olhos fixos no cartaz do show que o Joy Division lá fez em 18 de dezembro de 1979 foram decisivos para essa escolha. 

Manchester, é claro, não deu ao mundo apenas Joy Division e New Order. A lista a seguir é de respeito: Hollies, Buzzcocks, The Smiths, Simply Red, Happy Mondays, Stone Roses, Oasis, Chemical Brothers. Tem coisa nova rolando na cidade, é claro – Blossoms é a nova sensação por aquelas bandas. Muito já se gastou de papel e tinta sobre sua cena musical e o seu legado: Shadowplayers: The Rise and Fall of Factory Records, de James Nice (Aurum Press, 2010, 432 páginas), From Joy Division to New Order: The True Story of Anthony H. Wilson and Factory Records, de Mick Middles (Virgin Books, 2002, 320 páginas), I Swear I Was There: Sex Pistols, Manchester and The Gig That Changed the World, de David Nolan (IMP, 2006, 192 páginas), The North Will Rise Again: Manchester Music City 1976-1996, de John Robb (Aurum Press, 2010, 400 páginas) e Manchester, England: The Story of a Pop Cult City, de Davi Haslam (Fourth Estate, 2000, 351 páginas) são alguns dos títulos mais conhecidos. Não é exagero dizer que Manchester é uma das grandes capitais mundiais do pop ao lado de Londres, Nova Iorque, Detroit e Seattle. Liverpool? Só se for no Guiness Book (que lhe deu o título de “Cidade do Pop” por causa de uma única banda).

Só que meu equivalente ao Hajj (peregrinação à Meca que os muçulmanos são obrigados a fazer pelo menos uma vez na vida) ou ao Caminho de Santiago de Compostela – guardadas as devidas proporções nos mais variados sentidos – não começou de fato em Manchester, mas em Londres. Fazia parte da minha programação na Square Mile uma ida à belíssima National Gallery. Para que? Eu queria ver com os meus próprios olhos o quadro A Basket of Roses, de Ignace Henri Jean Fantin-Latour (1836-1904), pintado em 1890, e usado pelo designer Peter Saville na capa do segundo álbum do New Order, Power, Corruption and Lies, de 1983 (e considerada um dos trabalhos mais relevantes do artista gráfico). Aliás, eu queria algo mais do que apenas ver o quadro: além de ser fotografado com ele usando uma camiseta do disco que o traz em sua capa, eu queria repetir o gesto de Saville de 33 anos atrás e comprar um cartão-postal com uma reprodução da obra na gift shop do museu (o que consegui fazer). Essa história do postal merece um parênteses.

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Poder, corrupção e mentiras na National Gallery, em Londres

Com o título do álbum na cabeça – “poder, corrupção e mentiras” – Saville foi à National Gallery procurar um retrato de algum príncipe que pudesse usar na capa do disco. A intenção era, a partir da associação entre o nome do LP e o retrato usado na embalagem, fazer uma referência a Maquiavel. Bom, a ideia não era de fato tão boa assim e ele acabou desistindo dela no meio do tour pelo museu. Mas antes de ir embora, o designer entrou casualmente na lojinha de lembranças, onde pegou aleatoriamente um cartão-postal. Sua namorada na época, em tom de brincadeira, lhe disse: “Por que você não usa esse aqui na capa?”. Era um postal de A Basket of Roses. Os olhos de Saville brilharam – enfim, ele havia encontrado um “rosto” para Power, Corruption and Lies. Segundo ele, “as flores sugeriam a maneira pela qual o poder, a corrupção e as mentiras se infiltram nas nossas vidas, porque elas são sedutoras”. A justaposição entre a pintura figurativa e realista de Fantin-Latour com “textos” impressos em um código de cores criado por Saville para sugerir a ideia de uma linguagem que só poderia ser decifrada/decodificada por máquinas (como, por exemplo, um código de barras) foi a forma simbólica de retratar a “tensão” entre as duas faces do som do New Order (acústica/artesanal/manual e eletrônica/industrial/autômata) e de transmitir de modo subliminar a seguinte mensagem: por trás de máquinas que apenas aparentemente fazem tudo sozinhas (sequenciadores, drum machines) existem seres humanos… Bom, explicações à parte, o fato é que eu posso me considerar um sujeito de muita sorte: o dia escolhido para ir à National Gallery coincidiu com o único dia da semana (quarta-feira) em que a sala onde o Basket of Roses está exposto fica aberta à visitação – e eu nem sabia disso!

Enfim, com a foto feita e o postal guardado na mala junto com outros suvenires da viagem, eu só viria a pegar o trem para Manchester dois dias depois. No caminho, bastou passar por Macclesfield, terra natal de Ian Curtis e Stephen Morris, para já sentir aquele frio na barriga. Com a chegada em Manchester, a surpresa veio imediatamente após deixar a Piccadilly Station: embora eu não soubesse exatamente o que esperar, descobri uma cidade, em termos urbanísticos, muito diferente de Londres. Seu conjunto arquitetônico me deixou muito impressionado: edifícios como o do Town Hall, em Albert Square, o da Central Library, ou os dos hotéis Palace e Midland são verdadeiros deleites para os olhos. Se eu tivesse pesquisado um pouco mais, talvez tivesse me programado para ficar pelo menos mais um dia na cidade para poder ir além de seu roteiro musical.

Minha “peregrinação” em Manchester teve como primeiro ponto cardeal o que talvez é o mais sagrado dos lugares para quem, como eu, é ligado em música e cultura pop: o Free Trade Hall. Hoje funciona nele um hotel, mas originalmente o edifício foi erguido para eventos públicos, discursos políticos e concertos de música clássica (que ocorriam no Grande Pavilhão). O Free Trade Hall foi palco, em 1966, da primeira (e infame) apresentação de Bob Dylan com instrumentos elétricos – o que fez com que ele fosse vaiado e chamado de “Judas” pela plateia. Outros nomes importantes do rock tocaram lá: Frank Zappa, Pink Floyd e Genesis são alguns deles. Mas foi no pavilhão menor, chamado Lesser Free Trade Hall, que aconteceu o show que, segundo David Nolan, “mudaria o mundo”: o famoso concerto dos Sex Pistols no dia 04 de junho de 1976. O resto é história: havia apenas 40 pessoas no auditório, dentre elas Bernard Sumner e Peter Hook (Joy Division, New Order), Mick Hucknall (Frantic Elevators, Simply Red), Stephen Morrissey (The Smiths), Mark E. Smith (The Fall), Kevin Cummins (fotógrafo de rock), Paul Morley (jornalista e fundador da ZTT Records), Tony Wilson e Alan Erasmus (criadores do Factory Club e da Factory Records); sem falar nos organizadores do show, Pete Shelley e Howard Devoto, que formariam os Buzzcocks. Enfim, eram os nomes que ajudariam a colocar Manchester no mapa-mundi da música popular no anos seguintes.

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Free Trade Hall

Bem perto dali, encontramos outro “monumento” da história da música pop da cidade: a Manchester Central, antiga estação de onde partiam os trens para Londres antes da Piccadilly Station e que hoje é um parque de exposições, o Manchester Central Convention Complex. A mudança de função desse espaço aconteceu no final da década de 1970, quando ele recebeu o nome pelo qual ficou mais conhecido: Greater Manchester Exhibition Centre, ou pura e simplesmente “G-MEX”. O local foi palco, em 1986, dos shows do Festival of the Tenth Summer, um evento organizado por Tony Wilson e a Factory Records para celebrar os dez anos do famoso concerto dos Sex Pistols na cidade. Ao longo de um dia inteiro, se apresentaram nomes locais como New Order, The Smiths, OMD, The Fall e até bandas de cidades “amigas”, como Cabaret Voltaire (de Sheffield). O álbum ao vivo dos Smiths, Rank, que foi gravado no National Ballroom, Kilburn, em 23 de outubro daquele ano, traz no interior de sua capa uma foto feita no show do Festival of the Tenth Summer: garotos da plateia pelejando pela camisa do vocalista Morrissey. Eu tenho um LP pirata da apresentação feita pelo New Order chamado Solitude – nele, podemos ouvir “Ceremony” com a participação especial de Ian McCulloch, do Echo & The Bunnymen, nos vocais.

Mais alguns minutos de caminhada e, em seguida, fui parar em uma localidade conhecida como Knot Mill – outro lugar que podemos chamar de “místico”, para dizer o mínimo. Ali ficava o T. J. Davidson’s Rehearsal Studios, a famosa sala onde o Joy Division ensaiava e preparava novas canções. O T. J. Davidson’s ficou mais conhecido por ter sido o cenário para o vídeo promocional de “Love Will Tear Us Apart”. Se o prédio que outrora serviu de quartel-general para o Joy Division hoje não está mais lá (foi derrubado), por outro lado a construção onde um dia funcionou o Boardwalk, a casa noturna que lançou Stone Roses, The Charlatans, Happy Mondays, James e Oasis, continua de pé (mas atualmente servindo a outros desígnios). Há um vídeo de cerca de 30 segundos no You Tube publicado em 2010 que supostamente mostra o T. J. Davidson’s mas que, na verdade, exibe a fachada do antigo Boardwalk. Outra informação relevante: Tony Wilson chegou a morar ali em Knot Mill, em um apartamento localizado bem em frente ao edifício onde viria a ser o Boardwalk (inaugurado em 1986).

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Knot Mill: o edifício do Boardwalk (dir.) ainda está lá; o T. J. Davidson’s Rehearsal Studios, que ficava à esquerda e ao lado do prédio “10A”, não.

Naturalmente, um dos momentos mais melancólicos foi quando dei de cara com o edifício que hoje está de pé onde antes havia o mítico nightclub The Haçienda, também conhecido como “FAC 51”. O que torna a tristeza ainda maior é o fato do residencial de cor ocre se chamar The Haçienda Apartments (o jornalista Zeca Camargo também já escreveu sobre essa lamentável metamorfose). O condomínio vertical pode ter herdado o nome, mas não a história. Tinha gente que viajava até duas horas de carro até Manchester para curtir uma noitada no Haçienda. Nas suas origens, era um misto de boate e casa de shows onde se podia desfrutar de uma rica paleta de sons: punk, new wave, indie, disco, reggae, black music, northern soul. Depois, se tornou o epicentro da explosão do techno e da acid house na Europa. Na Canal Street, nos fundos do atual prédio, um artista local chamado Stewy eternizou seus grandes momentos em uma timeline gravada em metal, começando pela sua inauguração em 21 de maio de 1982. Sob comando da Factory Records, mas financiado pelo New Order, o lugar também viveu dias difíceis: foi palco da primeira morte por overdose de ecstasy publicamente reconhecida e cenário de brigas entre gangues, com direito a tiroteios em seu interior. Vários objetos que pertenciam a Haçienda hoje fazem parte do acervo do Manchester Museum of Science and Industry.

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Haçienda como era originalmente (e como nunca deveria ter deixado de ser).

A parada seguinte foi numa… loja da Tesco?! Não exatamente. O local onde hoje temos uma filial da famosa cadeia britânica de supermercados e comércio varejista – na verdade parte do belíssimo St. James Buildings – um dia foi outra casa noturna importante durante a era punk em Manchester: o Rafters. Ali aconteceu, no dia 14 de abril de 1978, o Chiswick Challenge, o lendário concurso de bandas organizado pela Stiff Records. O Joy Division se apresentou no concurso ao lado de outras 16 bandas, sendo a última a tocar (quando o local já estava praticamente vazio). Todavia, sua apresentação foi tão “intensa” que impressionaria Tony Wilson (quando este ainda era repórter da Granada TV) e, também, o DJ da casa, Rob Gretton. Rob se tornaria, desse ponto em diante, o empresário do Joy Division, mantendo essa função também com o New Order até sua morte, em 1999. O Rafters fechou suas portas em 1983.

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O antigo Rafters, agora transformado em Tesco

O roteiro não poderia deixar de contemplar o número 112 da Princess Street. Hoje, nesse endereço funciona a nova casa noturna e sala de concertos dirigida por Peter Hook (ex-baixista do Joy Division e do New Order), The Factory Manchester (“FAC 251”). No passado, a mesma construção abrigou o quartel-general da Factory Records. No atual site do Factory Manchester, se lê: “FAC 251: escritório da Factory Records… Construído por Tony Wilson. Projetado por Ben Kelly. Pago pelo New Order. Falido pelos Happy Mondays”. A porta de ferro com o logotipo da gravadora ainda está lá; Tony Wilson, de certa forma, também – através do stencil feito pelo já citado Stewy. Aliás, o Wilson foi – e sempre será – o grande personagem. Brian Epstein? Que me perdoem os fãs dos Beatles (eu adoro os Fab Four, que fique claro!), mas a história do seu empresário não foi parar no cinema (pelo menos não ainda). Ele também não ganhou um poema musicado em sua homenagem (“St. Anthony”, por Mike Garry e Joe Duddell) transformado em single beneficente que alcançou o primeiro lugar na parada inglesa. Não existe nenhum “Sr. Liverpool”, mas existiu um “Mr. Manchester”.

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O fim do “passeio” foi no Northern Quarter. O objetivo: ver e fotografar os mosaicos no Affecks Palace e as placas na calçada da Oldham Street. Precisei de uma ajudinha dos vendedores da Vinyl Revival para localizá-los. Os mosaicos fazem referência não apenas à história e o cenário musicais da cidade, mas, sinceramente, os ídolos do futebol ou as outras personalidades locais não me interessavam. Eu queria ver mesmo o mosaico com a turma da Factory (Martin Hannett, Tony Wilson, Alan Erasmus, Peter Saville, Rob Gretton), o outro com o pulsar CP1919 da capa de Unknown Pleasures, do Joy Division, aquele com o Sex Pistols, o Meat Is Murder dos Smiths, o Top of the Pops… Depois dos mosaicos, compras na Vinyl Revival (decorada com pôsteres originais da Factory Records, da Haçienda e do New Order, alguns deles autografados) e na Vinyl Exchange, e, finalmente, Oldham Street e suas placas que fazem referências aos principais marcos musicais da cidade: Buzzcocks (a primeira banda punk de Manchester), Short Circuit: Live at the Electric Circus (vinil de 10” da Virgin com o primeiro registro do Joy Division gravado ao vivo na noite de fechamento/despedida do Electric Circus), Factory Records etc.

O tour apenas parecia ter chegado ao fim… Na volta para a Piccadilly Station, parei em um restaurante qualquer da estação com minha esposa para comermos antes da volta para Londres e o que vejo dentro do estabelecimento? Um enorme pôster em forma de mapa de rede de metrô no qual as linhas e as estações são batizadas com títulos de álbuns e músicas dos Smiths.

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Essa é Manchester: uma cidade orgulhosa, que exalta não somente suas conquistas no campo da indústria e da tecnologia (o noroeste da Inglaterra foi o berço da Revolução Industrial), mas que também reconhece a contribuição de seus artistas populares. Isso aparece representado não apenas por meio da street art, mas também está materialmente certificado através das placas comemorativas – heritage awards – da PRS (Perfoming Right Society, uma espécie de ECAD britânico), como as que estão fixadas na Haçienda e no Boardwalk. Para mim, foi uma oportunidade de poder ver e tocar o que eu havia aprendido a amar e cultuar através dos discos, dos livros, das revistas e dos documentários. De fato, existe algo em Manchester que é único e exclusivo. Ou, como certa vez disse Tony Wilson: “This is Manchester, we do things differently here”.

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HOJE | 40 anos do show que mudou a história da música

pistols“Foi histórico”, teria dito a versão de Tony Wilson nas telas (interpretada por Steve Coogan) no filme A Festa Nunca Termina, de Michael Winterbottom. Se essas foram palavras reais do verdadeiro Wilson, não importa. O que importa mesmo é que, sim, o primeiro show dos Sex Pistols em Manchester, há exatos 4o anos, foi mesmo histórico. Além de mostrado em filmes, esse concerto – e seu legado – já foi objeto de inúmeras matérias em jornais e revistas, documentários, livros, posts em blogs etc. Manchester e o mundo da música nunca mais foram os mesmos depois que essa tsunami vinda de Londres varreu o norte da Inglaterra.

Quando se diz que esse show deixou um “legado”, isso não é exagero, nem força de expressão. Existe uma lenda urbana no métier do rock que atribui a Brian Eno um comentário sobre o Velvet Underground segundo o qual poucos teriam escutado o grupo durante a sua curta existência, mas que esses poucos, sem exceção, formaram uma banda. Os Sex Pistols, depois que puseram os pés no palco montado no Lesser Free Trade Hall, em Manchester, provocaram o mesmo efeito na pequena audiência presente.

Uma declaração de Peter Hook resume tudo: “Foi horrível. Foi como uma batida de automóvel. Meu Deus, jamais tinha visto algo parecido na minha vida! Vi muitos grupos, Deep Purple, Led Zeppelin… Mas jamais vi algo tão caótico ou emocionante. E rebelde. Assim me senti. Eu só queria quebrar tudo”O ex-colega Bernard Sumner assim arrematou: “Era um escândalo. Pensava ‘Eu posso fazer isso! Eu posso fazer isso!’Eles não foram os únicos a saírem do Free Trade Hall com esse pensamento na cabeça.

Photo of Steve JONES and Johnny ROTTEN and Glen MATLOCK and SEX PISTOLS

Sex Pistols em ação Manchester

Na verdade, o “estrago” do show dos Pistols foi muito maior do que simplesmente fazer quem estava lá formar seu próprio grupo. A cidade foi literalmente sacudida e, a partir de então, teve início em seu seio uma nova revolução responsável pela sua recuperação e revitalização ao longo das décadas seguintes e sua (re)conversão em um importante pólo econômico e cultural na Europa, o que lhe devolveu a importância e prestígio internacionais. Além, é claro, de ser hoje uma das “capitais” do mapa-mundi do rock/pop, sem dever nada a cidades como Nova Iorque em matéria de celeiro de novos sons.

Os “culpados” disso tudo foram Pete Shelley e Howard Devoto, os dois organizadores do concerto, e que mais tarde formariam a primeira banda punk de Manchester (e uma das mais importantes do punk rock em todos os tempos), os Buzzcocks. Mas quem mais estava naquele show? A lista é de peso: Morrissey (The Smiths), Mark E. Smith (The Fall), Mick Hucknal (Frantic Elevators, Simply Red), Martin Hannett (The Invisible Girls e produtor), Paul Morley (jornalista, escritor e fundador da ZTT Records), Bernard Sumner e Peter Hook (Warsaw, Joy Division, New Order), Alan Erasmus (ator) e, é claro, Tony Wilson.

Wilson foi uma das figuras mais importantes. Apresentador de televisão da emissora local Granada TV, ele foi o grande divulgador do punk rock em Manchester através de seu programa – So It Goes – e também incentivador da própria cena local, promovendo as bandas de Manchester, não apenas na mídia televisiva, mas também através do Factory Club, um espaço para shows que utilizava as dependências de um outro clube, o Russell. Tony Wilson também deu oportunidade para novatos de outras mídias, como o designer gráfico Peter Saville, que se tornou o criador da identidade visual do Factory Club (fazendo pôsteres) e, em seguida, da gravadora Factory Records, tendo se consagrado em nível mundial com as capas que criou para os discos do Joy Division e do New Order.

Na década de 1980, a boate Haçienda, de propriedade da Factory Records e do New Order, introduziu a acid house na Inglaterra e deu origem a uma nova geração de bandas eletrônicas, como 808 State e Autechre, ou híbridas (fusão entre rock e as batidas das pistas de dança), como Happy Mondays, The Charlatans e Stone Roses, fortemente influenciadas pelo som do New Order, e que se tornaram o núcleo do “movimento” internacionalmente conhecido como Madchester. O Primal Scream, mesmo não compartilhando da mesma “origem geográfica” dessas bandas, tem uma ligação “espiritual” com a cena Madchester (além do som e do estilo, Bob Gillespie, vocalista do PS, é um antigo fã do New Order, é amigo da banda e já tocou em um grupo chamado The Wake que lançou seus primeiros discos pela Factory Records). Nos anos 1990, havia chegado a hora e a vez do britpop do Oasis dos irmãos Gallagher – um deles, Liam, era assíduo frequentador do Haçienda…

Para ficarmos aqui mesmo na nossa paróquia – Joy Division e New Order -, é preciso agradecer Peter Hook por ter convidado seu antigo amigo dos tempos de escola, Bernard Sumner, para irem juntos ao show dos Pistols no Lesser Free Trade Hall. O que aconteceu há quarenta anos culminou hoje em Sydney, na imponente Opera House, na apresentação do New Order ao lado da Australian Chamber Orchestra, na qual a banda tocou seus antigos sucessos, como “Temptation”, “The Perfect Kiss”, “True Faith”, “Regret” e “Blue Monday”, músicas novas (de seu último álbum, Music Complete) e uma emocionante encore dedicada ao Joy Division com “Atmosphere”, “Decades” e “Love Will Tear Us Apart”.

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NEWS | Bernard Sumner (à Stereogum): “era o momento certo de fazer um álbum mais eletrônico”

x-factor-hate-bernard-sumner-590x350O blog sobre música independente e alternativa Stereogum publicou no último dia 25 uma bela entrevista com o vocalista e guitarrista Bernard Sumner, concedida a T. Cole Rachel. Nela, Sumner fala sobre diversos assuntos: o novo álbum – Music Complete, a ser lançado no dia 25 de setembro -, como era fazer música eletrônica no começo dos anos oitenta, o legado do Joy Division, a época em que os shows do New Order eram imprevisíveis graças aos seus porres homéricos e sua percepção sobre Manchester. Trazemos aos leitores essa tradução exclusiva – e vale a pena conferir!


Bernard Sumner fala sobre Music Complete e os fantasmas de Manchester
entrevista à T. Cole Rachel, publicada em 25 de agosto de 2015

STEREOGUM: Irvine Welsh escreveu um ensaio realmente incrível que acompanhou a amostra para a imprensa de Music Complete, do tipo que articula o que muitas pessoas devem sentir com relação à sua música: que é difícil separar os sentimentos sobre a banda dos sentimentos sobre a vida real, simplesmente porque o New Order foi uma grande parte de nossas vidas. Eu tenho escutado o álbum, mas eu não tenho certeza se posso até mesmo tentar ser objetivo sobre isso.

SUMNER: [risos] Bem, obrigado. Torna-se complicado quando você vem fazendo isso há tanto tempo.

STEREOGUM: Vocês todos se mantiveram ocupados durante uma década ou mais desde o lançamento do último álbum; na verdade, você também escreveu um livro durante esse tempo, Chapter and Verse, o que talvez desse a impressão de que não estivesse tão ocupado. Mas não houve algum momento durante esses anos em que você pensou que talvez não voltaria a fazer outro disco do New Order?

SUMNER: Houve momentos em que eu queria ficar longe da banda, tomar um fôlego e parar por um tempo – você sabe, foi quando as relações esquentaram dentro da banda e os problemas com os negócios se mostraram divisivos. Eu estou falando principalmente sobre a Factory Records e The Haçienda. Há um momento em que você quer dar um passo para trás e dizer “ei, o que está acontecendo aqui?”. Mas nunca houve momentos em que eu pensasse que nós não deveríamos continuar. Eu estou com o New Order há tanto tempo que ele está no meu DNA agora. É como um braço ou algo assim, você não pode simplesmente se livrar dele. Eu acho que, talvez, depois que Peter Hook deixou a banda, eu e o Steve [Morris] queríamos dar um passo atrás e fazer outra coisa, porque tudo havia deixado um gosto ruim na boca. Eu saí e fiz, com um cara chamado Jake Evans, um álbum chamado Never Cry Another Tear como Bad Lieutenant. Gillian [Gilbert] ficou doente durante esse tempo e Steve estava cuidando dela, mas depois disso – quando ela melhorou e começou a fazer shows aqui e ali – ele viu que o próximo passo seria fazer música nova. Depois que nossa intermitente turnê terminou seu ciclo de vida natural, parecia ser a hora de fazer um disco.

STEREOGUM: Music Complete é o som clássico do New Order na medida em que equilibra bem guitarras e sintetizadores, embora incline-se mais fortemente para os sintetizadores do que qualquer outra coisa feita por vocês em muito tempo. Ao revisitarem esse som clássico, estão assumindo que foi uma decisão consciente?

SUMNER: Sim, foi uma decisão consciente. Se você pegar Get Ready, Waiting for the Sirens’Call e Lost Sirens, esses três álbuns do New Order foram baseados em guitarras. Havia um par de temas dance neles, mas eles foram preponderantemente orientados pelas guitarras. As músicas surgiam a partir de jammings, um monte delas. Se você me ouvir em uma faixa tocando guitarra, geralmente ela veio de uma jamming. Se você ouvir uma canção predominantemente eletrônica do New Order, ela veio de uma pessoa sentada em frente a um computador, programando-o. Então, temos esses três álbuns à base de guitarras e, se voltar mais atrás, o último álbum que fiz com Johnny Marr [N.T.: ex-guitarrista dos Smiths], como Electronic, ele foi baseado em guitarras. O álbum que fiz com o Bad Lieutenant também foi baseado em guitarras. Então, parecia o momento certo para voltar a fazer um álbum mais eletrônico.

Umas das razões pelas quais fizemos uma pausa na nossa programação foi que houve um período de cerca de cinco anos no qual nós realmente não funcionamos em conjunto. Nós não nos separamos; nós apenas não trabalhamos juntos. Então, quando começamos a trabalhar juntos novamente, parecia lógico não ficar sentado em frente a um computador com um mouse na mão. O que parecia lógico era todos entrarem em uma sala, se sentarem juntos e improvisar, porque há mais interação na banda quando você está fazendo isso.

Esse álbum foi escrito de uma maneira diferente: eu em casa, no meu estúdio, com um computador, uns três sintetizadores e vários plug-ins. Steve e Gillian compõem em seu estúdio caseiro, cheio de sintetizadores modulares vintage. Tom [Chapman] e Phil [Cunningham] escreveriam um pouco também – e isso poderia ser qualquer coisa, de uma canção pronta ou apenas um pedacinho de música. Então, todos traziam as suas ideias e diziam: “Vejam só o que eu trouxe”. Então, alguem diz “certo, eu acho que tenho algo para tocar com isso”. E nós aceitávamos ou rejeitávamos.

STEREOGUM: É interessante pensar em como a tecnologia mudou desde que o New Order começou a fazer discos. Exceto quem estava envolvido naquilo, a maioria das pessoas não entendem o quão difícil era realmente fazer música eletrônica três décadas atrás, em comparação com o relativamente fácil que é agora. Vocês foram pioneiros na forma como os sons eletrônicos foram integrados ao som das guitarras, principalmente porque ninguem estava realmente fazendo isso quando vocês começaram – a tecnologia daquela época não tornava isso muito simples.

SUMNER: Eu acho que naquele tempo, quando começamos a fazer música eletrônica, a nossa imaginação era muito mais avançada que as máquinas que nós estávamos usando. Eu gostaria de ouvir uma música na minha cabeça e tentar gravá-la o mais rápido que eu pudesse, mas às vezes as máquinas não podiam fazer o que estávamos imaginando. Então tínhamos que modificá-las – nós as pegávamos e as customizávamos para que pudéssemos fazer o som que queríamos fazer.  Na verdade, não era realmente para fazer os sons que gostávamos de fazer, mas os ritmos que queríamos para ser mais exato. Era bem legal, era como decifrar um código. Você vinha com “eu tenho uma ideia para uma música!” e, em seguida, você não tinha como concretizá-la em um sintetizador!

Havia um cara com quem costumávamos trabalhar que se chamava Martin Usher e que era basicamente um cientista. Nós tínhamos que levar o equipamento para ele e dizer “nós queremos que ele faça isso”. Seria algo como: nós tínhamos duas máquinas; queríamos ligar a bateria eletrônica em um teclado e fazê-la tocar a partir dele. Martin o modificava para que isso fosse possível. Por isso, lutávamos constantemente com a tecnologia e houve problemas de confiabilidade terríveis com o equipamento quando o utilizávamos ao vivo em turnês e, também, em estúdio.

Muitos desses problemas já foram superados, obviamente. Quando começamos a fazer este disco, eu fiz uma lista de cerca de 25 plug-ins de sintetizadores que estávamos pensando em usar. Então, eu passei umas duas semanas sentado com esses plug-ins, passando por eles, para encontrar os que mais me agradavam. Eu reduzi a lista para quatro e usei apenas estes no álbum. Eu usei o sintetizador de baixo de “Blue Monday” também. Assim, a tecnologia… bem, as pessoas costumavam dizer que o estúdio de gravação era um instrumento e que você podia tocá-lo. Mas hoje em dia o computador e o pacote de software que você usa são um instrumento em si mesmo e você pode tocá-lo. Você não apenas pode tocá-lo, como pode fazer qualquer coisa: pode dobrar ou “esticar” o som ou fazer todo tipo de coisa com sons que não se podia anos atrás. Por isso é bom voltar à eletrônica – a tecnologia avançou, mas em um bom caminho. É confiável e parece boa.

STEREOGUM: New Order é uma banda que, desde o início, operou sob a sombra de um grande legado por causa do Joy Division. Quando se está aí por tanto tempo – e quando se tem esse enorme catálogo de grandes sucessos – como é que isso tudo pesa sobre você quando se sai com algo novo? Você já se sentiu como se estivesse competindo com sua própria história?

SUMNER: Não, eu realmente não penso nisso, porque estamos no presente e imersos na experiência de ser New Order. Eu posso dizer que nos últimos três anos nos sentimos muito enraizados no presente, porque nós estivemos fazendo muitos shows. Eu não sou o tipo de pessoa… como se chama uma pessoa que olha para trás? Uma pessoa que vive de lembranças?

STEREOGUM: Sentimental? Nostálgica?

SUMNER: Sim, eu não sou o tipo de pessoa excessivamente sentimental. Você pode desenterrar entrevistas minhas – tanto no Joy Division quanto no New Order – nas quais, tenho certeza, não digo o que eu acho sobre o passado, porque eu só pensava no presente. Isso é muito verdadeiro. Eu acho que se o presente não é muito agradável, então você tende a relembrar mais. Eu fui menos que infeliz em certas fases de minha vida, então eu acho que você tende a começar a olhar para atrás. Mas, em geral, eu realmente não penso sobre isso. Ainda assim, você não pode realmente escapar de sua própria sombra. É engraçado: não posso deixar de soar como eu quando estou cantando, por razões óbvias, físicas. Mas também não posso deixar de soar como eu quando eu toco guitarra ou teclados, por razões psicológicas menos óbvias. Você é quem você é.

STEREOGUM: Obviamente, a dinâmica da banda mudou radicalmente na última década. Como é que vai ser sair e tocar [ao vivo] essas músicas novas?

SUMNER: Eu acho que vai ser bem legal. Quer dizer, é essencialmente a mesma formação com a qual temos tocado nos últimos dois anos. Eu acho que os outros vão achar ótimo. O difícil será orquestrar as novas músicas. Nós faremos alguns shows em novembro, mas estaremos ocupados até setembro. Então, em setembro nós temos que nos reunir, pegar as músicas do disco [novo], rearranjá-las para cinco músicos para tocá-las. É muito difícil, quando você tem uma bateria programada, como se pode traduzi-la para um baterista ao vivo? É difícil. Se você tem uma linha de baixo sequenciada, mas quer tocá-la em um contrabaixo elétrico, como isso é possível? São coisas assim. É tornar o que seriam oito peças em uma determinada faixa e, em seguida, rearranjá-la para um quinteto. Os ensaios demoram muito tempo porque temos que orquestrar todas essas coisas.

Conversávamos [Sumner e a banda] sobre isso no trem ontem, o Eurostar, de Paris para a Inglaterra – que é um trem muito rápido por sinal -, e nós estávamos falando sobre ensaiarmos tudo isso, e se perguntando sobre como iríamos fazê-lo e se teríamos tempo suficiente. Nós também queremos mudar alguns elementos visuais que vínhamos usando, então é algo que temos que resolver. Portanto, há muito o que fazer em setembro. Tenho medo de setembro.

STEREOGUM: Você gosta de tocar ao vivo? Você é alguem que desfruta mais do estúdio do que estar na estrada?

SUMNER: Eu gosto de ambos. Gosto de tocar ao vivo mais agora do que eu costumava. Eu acredito que a vibe da banda é melhor e eu acho que isso é um grande fator de contribuição. Eu também acho – e isso é mais culpa minha – que é melhor agora porque eu não fico mais tão doido como antes. Eu creio que isso é responsável por alguns shows hit-or-miss [N.T.: expressão que designa algo imprevisível ou susceptível tanto de dar certo quando de dar errado] que fizemos. No caso dos shows ruins, eu estava de ressaca ou miseravelmente fodido. É como são as coisas quando você é jovem, não é? Você é hedonista, certo? Não necessariamente você, mas eu… bem, eu era bem hedonista e desfrutava a vida ao máximo, digamos assim. Conforme você envelhece, passa a ter uma visão mais sóbria da vida. Eu ainda gosto de beber, mas eu estou mais intolerante. Eu vejo as diferenças agora. Estou mais velho e mais sábio. Eu gostaria de beber, mas não gosto de ficar bêbado. Felizmente, sou capaz de fazer isso agora, desenhando uma linha. Devido a isso, eu não fico mais de ressaca ou doente nas turnês e todo o resto. Então eu aproveito mais.

STEREOGUM: Eu visitei Manchester pela primeira vez há dois anos. Alguem do Departamento de Turismo me levou a todos os pontos musicais da cidade: “aqui é onde isso aconteceu; aqui é onde os Smiths tocaram pela primeira vez; aqui é o estacionamento que já foi a Haçienda…”. Como um nerd musical americano que cresceu obcecado com tudo isso, foi surreal. Deve ser interessante para vocês – tanto quanto a história da banda é uma parte emblemática da história de Manchester.

SUMNER: Eu não penso muito sobre isso em termos de nossa música, mas mais em termos de minha infância. Eu cresci em lugar chamado Salford e podia caminhar até o centro de Manchester, a cerca de 20 minutos. Então, eu vivia muito perto do centro. Passei a maior parte da minha infância em torno do centro da cidade, porque não havia muito o que fazer em Salford. Como passei muito tempo em Manchester, eu sempre associo a cidade muito mais à minha infância que à música, mas eu posso entender porque as pessoas que cresceram na música tendem a fazer uma conexão física com a cidade onde ela foi feita. Eu entendo isso. Mas se eu passar pela Haçienda, por exemplo, eu só penso em todos os problemas que nós tivemos lá. E se você passar por lugares como onde a Factory começou, na verdade ele é um pouco triste, porque Tony [Wilson] morreu. Manchester está cheia de fantasmas. Há um monte de fantasmas lá. Se você olhar o lugar onde o Joy Division ensaiava, não tem mais nada lá. Acabou. É isso… fantasmas demais.

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NEWS | EP-tributo a Tony Wilson trará poema acompanhado de versão instrumental de “Your Silent Face”

25714Há exatos oito anos, Anthony H. Wilson, um dos personagens centrais da radical transformação de Manchester no final do século XX (de centro industrial deteriorado e decadente na década de setenta a uma espécie de capital cultural pós-moderna nos anos oitenta e noventa), faleceu em decorrência de um câncer nos rins. Ele deu à cidade – e ao mundo também – The Factory, Joy Division, Factory Records, New Order, The Haçienda, Happy Mondays e Madchester. Para homenageá-lo, o poeta Mike Garry e o maestro Joe Duddell, ambos também de Manchester, lançarão no próximo dia 14, pelo selo Skinny Dog Records, o EP/single St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson. O disco trará Garry declamando um poema de sua autoria para Wilson, “St. Anthony”, que terá como acompanhamento musical uma versão do instrumental de “Your Silent Face”, faixa do álbum Power, Corruption and Lies (1983), do New Order, arranjada por Joe Duddell, que também colaborou com arranjos de cordas para o novo álbum da banda, Music Complete, que sairá no mês que vem. O single será lançado nas versões vinil de 12″ (com duas faixas), CD (com quatro) e digital download. Vale lembrar que essa “versão” de “Your Silent Face” com o poema de Garry no lugar da letra original foi apresentada em primeira mão ao vivo com as participações de Bernard Sumner, Tom Chapman e Phil Cunningham (New Order), além de Philip Glass e o Scorchio Quartet, no concerto beneficente anual da Tibet House, realizado no Carnegie Hall no ano passado. A renda arrecadada com as vendas do disco será revertida para The Christie Charity Fund, fundo que administra doações para o hospital Christie, especializado em câncer, também em Manchester. Além disso, haverá um evento de lançamento nos antigos estúdios da Granada TV, onde Wilson trabalhou como apresentador, e já está disponível no You Tube um vídeo promocional com participações de Bernard Sumner, Stephen Morris, Gillian Gilbert, John Cooper Clarke, Steve Coogan (que interpretou Wilson no filme 24 Hour Party People), Rowetta, Shaun Ryder, Vini Reilly, Iggy Pop, Paul MorleyPhilip Glass e muitos outros. A capa, como não poderia deixar de ser, foi elaborada por Peter Saville.

ST. ANTHONY: AN ODE TO ANTHONY H. WILSON (12″ single):
A1. St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson
B1. St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson (Andy Weatherall Remix)

ST. ANTHONY: AN ODE TO ANTHONY H. WILSON (compact disc EP):
1. St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson (Original)
2. St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson (Andy Weatherall Remix)
3. St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson (Original Instrumental)
4. St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson (Andy Weatheral Remix Instrumental)
5. St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson (Spoken Word)

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LANÇAMENTO | Premiére de documentário “incomum” sobre o Haçienda será no festival de Glastonbury

hacienda_text33“No dia 25 de novembro de 2000, no galpão de um armazém no centro de Manchester, 69 lotes do Haçienda foram leiloados…”

Foi isso mesmo. A maior parte de quem foi até lá conseguir os últimos souvenirs da lendária boate, desastrosamente administrada e financiada pela Factory Records e pelo New Order, saiu com tábuas da pista de dança. Um sortudo faturou o globo de espelhos, mas teve gente que levou para casa coisas mais graúdas – de luzes de emergência ao balcão do bar, incluindo até ao mictório! Pois bem, um diretor de filmes, Chris Hughes (mais um feliz proprietário de um pedaço daquele clube), resolveu, em 2013, rastrear esses itens e seus nostálgicos donos – e coletar suas histórias. O que Hughes queria saber era: com o que essas pessoas tinham ficado e o que tais objetos representava para elas. Na verdade, essa se tornou uma maneira completamente original de se contar a história do Haçienda: com base na memória afetiva dos seus antigos habitués.

O resultado é o documentário intitulado Do You Own a Dancefloor?, que, traduzido para o português, se chamaria “Você Tem Uma Pista de Dança?”. O filme foi feito em memória a Tony Wilson, ex-dono da Factory e falecido em 2007 em razão de um câncer nos rins. Por causa disso, o propósito do documentário é arrecadar fundos para o Kidneys for Life, uma instituição sem fins lucrativos voltada para o combate ao câncer renal. A premiére do filme será amanhã, dia 09 de maio, no festival de Glastonbury, na tenda Groovy Movie Cinema. Depois ele entra em cartaz num circuito hiper-restrito na Inglaterra até viajar para Montreal, onde será exibido em Setembro. Possibilidade de ser exibido por aqui? Mmmmm… Acho que não vai rolar.