REVIEW | “Movement: Definitive Edition”

C69E2D5A-C126-4963-A5E1-B675CE5F1708Há uma semana saía (lá fora) a super-aguardada “edição definitiva” de Movement, o sombrio álbum de estreia do New Order, lançado originalmente em 1981. Embalado em uma luxuosa caixa contendo um LP, dois CDs, um DVD e um livro, a nova versão do début da “Nova Ordem” parece ser o primeiro de uma série de reedições em formato deluxe de seu antigo catálogo. Na esteira do lançamento do box set, a Warner reeditou em vinis de 12” polegadas três singles do New Order do período 1981-82, distribuídos em quatro discos: duas versões diferentes de “Ceremony”, “Everything’s Gone Green” e “Temptation”. Atenção, navegante: fique de olho no limite do seu cartão de crédito!

O conteúdo exato da caixa é: o álbum original totalmente remasterizado em vinil e em CD, um disquinho recheado de material extra, como demos, mixagens alternativas e gravações de ensaio e um DVD com vídeos ao vivo – em sua grande maioria inéditos ou raros. O livro, com capa dura, páginas impressas em papel de altíssima gramatura, sem falar nas belíssimas fotos, é um mimo à parte. Enfim, há motivos de sobra para os fãs desembolsarem com gosto seu suado dinheirinho nessa caixa.

O estojo que abriga todos esses caprichos exibe a elegância e o minimalismo que se tornaram marcas registradas da identidade visual da banda. Todavia, Peter Saville, o artista que assinou o design gráfico original, não esteve envolvido no projeto, que ficou a cargo de dois antigos colaboradores seus: Howard Wakefield (criação) e Warren Jackson (direção de arte). Saville agora está envolvido com novas experiências criativas e deixou de lado as capas de discos após décadas produzindo algumas das mais brilhantes e icônicas da história do pop. A última capa que ele criou para o New Order foi a de Music Complete, de 2015.

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O álbum original – em LP ou CD – não traz nenhuma surpresa. É o mesmo tracklist de 1981 e com as faixas na mesmíssima ordem. A remasterização é de 2016, conduzida pelo engenheiro de som Frank Arkwright nos estúdios Abbey Road, e que anteriormente estava disponível apenas nos formatos streaming e digital download. Diga-se de passagem, ela é muito superior à remasterização de 2008, aquela feita para o frustrante projeto Collector’s Edition. Arkwright é um autêntico artista da engenharia de som e isso já havia ficado patente, por exemplo, no relançamento do catálogo do Joy Division anos atrás. Entretanto, como de costume, a Warner cometeu seus pecados habituais. Além de ter colocado o código “FACD 50” na lombada da capa do vinil (!!!), a gravadora chegou a anunciar que a versão em CD feita para caixa seria no estilo mini vinyl replica (reprodução exata do artwork do LP para o formato compact disc) – mas o mesmo “FACD 50” impresso na parte frontal e as visíveis diferenças nas proporções do projeto gráfico mostram que a promessa não foi cumprida.

Mas essas, digamos assim, trapalhadas passam perfeitamente batidas quando se considera tantas coisas maravilhosas reunidas em um único pacote. O CD de “extras”, por exemplo, tem tudo aquilo que os fãs sempre esperaram que viesse à luz do dia em formato digital. É bem verdade que as Western Works Demos – com o trio remanescente do Joy Division (Sumner, Hook e Morris) se revezando nos vocais – não são nenhuma novidade, ainda que esta seja a primeira vez que elas chegam ao público por vias oficiais. Porém, as gravações demo realizadas nos estúdios Cargo, Rochdale, em janeiro de 1981, são a joia da coroa desse disco. Nelas, as canções que mais tarde fariam parte de Movement, ou que foram lançadas em singles de 12” naquela época, aparecem sem o verniz dos arranjos definitivos e sem os decorativos efeitos de estúdio que o produtor Martin Hannett fez uso nas gravações que todos conhecem. Hannett também produziu essas demos, mas nelas ele deixou tudo soar de modo natural, o que nos permite vislumbrar o lampejo, ainda que tímido, do som que estaria por vir mais tarde – algo ocultado na mixagem final do LP. Preste a atenção na batida de “Mesh” e tire suas conclusões.

Um ensaio gravado de “Chosen Time”, que encerra o CD de material extra, também mostra que sem os truques de Hannett para modificar o som da bateria (sua marca registrada) o New Order já conseguia soar dance antes mesmo de assimilar os ritmos eletrônicos noturnos de Nova Iorque. Um mix alternativo de “Temptation” – a primeira tentativa real da banda de produzir música para as pistas de dança – reforça a tese de que talvez fosse esse o som que a “Nova Ordem” estava a perseguir desde o início. Todavia, foi uma busca em meio à escuridão forjada pelo fim trágico do Joy Division, origem de toda insegurança e hesitação que se ouve no material dessa época – e de um lado sombrio que teimou em perseguir o grupo por muito tempo.

O DVD tem também seus encantos. Pela primeira vez temos, na íntegra, a performance ao vivo da banda no extinto programa de TV Riverside, do canal BBC 2. Muitos se lembrarão dessa gravação por causa de um excerto de “Temptation” no documentário New Order Story, de 1993. Dentre as gravações avulsas, a de “Ceremony” no CoManCHE Student Union já era umas das favoritas deste que escreve antes mesmo de ser pinçada para o box set (está disponível no You Tube). Entretanto, a cereja do bolo é, sem dúvidas, o show no Hurrah’s, Nova Iorque, em 1980, ainda sem Gillian Gilbert na formação e possivelmente realizado com instrumentos adquiridos nos EUA após o roubo do seu equipamento original nas ruas da Grande Maçã (história já bastante conhecida entre os fãs do New Order). Infortúnios à parte, é um inédito registro com imagem e som de um curto período em que o grupo existiu como um trio, após o fim do Joy Division.

A cobertura de chantilly é o lindíssimo livro de 48 páginas. Além das notas habituais que situam o ouvinte no contexto da obra, temos fotos da banda ao vivo e dos instrumentos / equipamentos usados pelo New Order naquela época, para deleite do público geek. Há fotos de pôsteres e flyers de concertos também. Como bônus, o feliz proprietário do box set poderá ler uma transcrição da primeira entrevista oficial concedida pelo grupo.

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Não existem tantos artistas na história do pop cujos itens da discografia tenham recebido um tratamento dessa estatura. Com Movement: Definitive Edition, o New Order encontra-se agora ao lado de um seleto grupo formado Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd, Velvet Underground e Bowie. A nova caixa coloca a banda no seu devido lugar, dignificando seu catálogo e seu legado (em parte eclipsado pelo revival em torno do Joy Division). Além disso, nos faz olhar um disco historicamente subestimado com a indulgência que sempre lhe foi negada. E estabelece um alto parâmetro para as caixas que deverão vir a seguir.

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MEMÓRIA | Os 35 anos de “Movement”.

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Movement: o álbum “maldito” de estreia que comemora 35 anos.

“Fazer Movement foi um grande esforço, porque estávamos apáticos, apagados e no fundo do poço, o que era de se esperar porque a morte de Ian ainda estava fresca na memória (…) Tudo era difícil e diferente do Joy Division porque sem Ian algo havia se perdido, algo que nunca mais voltaria (…) A dinâmica havia mudado totalmente, era frustrante, tudo era diferente”.

 

Essas foram palavras de Bernard Sumner em seu livro de memórias, Chapter and Verse: New Order, Joy Division and Me (Bantam Press, 2014, 343 paginas), sobre o primeiro LP do New Order, Movement, lançado há exatos 35 anos. Disco “maldito”, os membros da banda constumam se referir a ele como the difficult one [trad.: “o difícil”], o que o depoimento de Sumner claramente confirma. O New Order não toca uma faixa sequer desse álbum desde 1989. Sumner jura que só o escutou depois de pronto uma única vez e, desde então, nunca mais conseguiu fazê-lo de novo. Os demais integrantes, por outro lado, costumam ser mais condescendentes com ele. O ex-baixista Peter Hook, em entrevista concedida aqui mesmo no Brasil à revista Bizz em 1988, disse: “Em Movement foi a primeira coisa que fizemos do zero (…) Tínhamos pouquíssimo tempo para compor, pois era importante para nós não parar e também porque tudo o que aconteceu foi tamanho choque que tínhamos que nos manter ocupados. Por isso quisemos gravar o mais rápido possível. É até hoje o único LP que fizemos assim, tão rápido. E isso transparece. Ficou um pouco confuso em certas partes. Mesmo assim, acho um bom disco. A tecladista Gillian Gilbert, reintegrada ao grupo em 2011 após dez anos “sabáticos”, disse no ano passado ao site Brooklyn Vegan o seguinte: “Particularmente, eu adoriaria revisitar Movement. Na época era algo para se deixar na prateleira, mas acho que ele soa muito bom hoje em dia”.

A já citada revista Bizz, na ocasião do lançamento do disco no Brasil (com quase dez anos de atraso), certamente foi mais gentil nas críticas ao LP do que a imprensa musical gringa em 1981. “O New Order preservava a sonoridade sombria e a aura misteriosa que envolvia o Joy Division enquanto buscava nas entrelinhas uma trilha musical própria. Mesmo as canções que mais rescendiam o som do Joy não deixavam de trazer lampejos de criatividade vindos de um grupo em busca de seu rumo musical. Em resumo, para os fãs de longa data é um disco essencial. Para quem conheceu o New Order pós-‘Blue Monday’, talvez apenas um disco esquisito para completar a coleção”. Todavia, quando o álbum saiu na Inglaterra pela Factory Records, deu munição para todos aqueles que vinham achincalhando o New Order e que acusavam o grupo de explorar oportunisticamente o que eles mesmos haviam criado, só que como Joy Division.

Realmente, pouca coisa em Movement remete ao som “clássico” do New Order. A resenha da Bizz não se equivocou quando disse que a busca por uma nova sonoridade não passava da mera insinuação. A sombra do Joy Division, tal como uma nuvem negra, pairava sobre as cabeças da Nova Ordem. “É um disco que carece de identidade, ele não tem uma cara própria”, disse Sumner em sua autobiografia, na qual ele confessa ainda que “Eu nunca havia cantado antes, de maneira que, no começo, eu me baseava em Ian, porque isso era o que eu conhecia. Levou tempo para encontrar meu próprio estilo como vocalista”. O envolvimento de Martin Hannett com a produção de Movement também ajuda entender o problema da “carência de identidade”. Hannett, que tinha sido um dos grandes responsáveis pelo sucesso dos discos do Joy Division, ajudando o grupo a criar, em estúdio, uma atmosfera e uma sonoridade únicas, não confiava na capacidade dos membros remanescentes de produzir canções do mesmo nível sem Ian Curtis. Ele não deu qualquer sinal de entusiasmo ou empolgação com o novo material e o tempo todo forçava a barra para que tudo o que eles fizessem pudesse soar o mais próximo possível do que tinham feito como Joy Division, embora a banda estivesse inclinada a encontrar um novo estilo. “O que nós queríamos em Movement era mais percussão. Martin ainda estava naquelas de colocar distorção em tudo. Mas nós queríamos que soasse mais limpo e mais pesado, em vez de tão delicado e leve. Nós pedimos para o Chris [Nagle, engenheiro de som] aumentar o volume da bateria para fazê-la soar mais grave, rotunda e pesada. Quando Martin voltou para o estúdio, ele perguntou ‘Vocês fizeram isso?’ e nós respondemos ‘Sim!’. ‘Ok, passemos para a faixa seguinte’. Ele não estava interessado em ouvir o que nós fazíamos. Não queria saber. Tivemos muitas brigas com ele. Discutimos muito sobre ‘Truth’ e ‘Everything’s Gone Green’, porque em ambas queríamos que a bateria eletrônica e os sintetizadores soassem mais fortes e mais altos”.

A relação com Hannett realmente se deteriorou durante as gravações de Movement. O produtor criticava – ou desprezava – tudo o que eles faziam. Bernard Sumner teve que regravar os vocais de uma música nada menos que quarenta e três vezes simplesmente porque ele não conseguia “soar como Ian” o suficiente. Para piorar a situação, Martin tinha entrado fundo na cocaína e, totalmente alucinado, chegou a trancafiá-los literalmente no estúdio, condicionando a liberação da banda à composição de uma música que fosse “realmente decente”. Como havia feito com os álbuns do Joy Division, Hannett cuidou sozinho da mixagem do álbum, vetando completamente a participação do New Order no processo. Ele, inclusive, se recusou a fazer um test pressing com a mixagem que o grupo havia feito com a ajuda de Chris Nagle para ouvir como soaria em disco. A “versão” de Hannett para Movement, para a decepção da banda, foi a que acabou sendo lançada.

Todavia, o primeiro LP do New Order tem momentos dignos de nota. “Dreams Never End”, a faixa que abre o disco, além de ser a canção mais “solar” de um trabalho predominantemente sombrio e introspectivo, é também uma grande composição: sua longa introdução foi o prenúncio de uma prática que se tornaria recorrente e cada vez mais bem desenvolvida no som do New Order (vide produções posteriores, como “Blue Monday”, “Thieves Like Us” e “The Perfect Kiss”); a inclusão de um “refrão de guitarra” no lugar de um refrão (vocal) de verdade é outro ponto forte.

A depressiva “Truth” também representou para o New Order um largo passo dado em direção ao futuro: ela foi a primeira canção da banda a usar uma bateria eletrônica programável (uma Doctor Rhythm DR55, da Boss) no lugar de uma bateria acústica convencional. “Chosen Time”, por sua vez, também antecipa, ainda que timidamente, o som que estaria por vir: a batida no estilo disco (porém “distorcida” pelos truques de estúdio de Hannett) e o riff de teclado, que soa como um sequenciador, são autênticos esboços das vindouras estripulias musicais no universo da electronic dance music. Por outro lado, faixas como “The Him” e “Doubts Even Here” mais parecem outtakes de Closer (1980), do Joy Division. Aliás, vale lembrar que os experimentos com sintetizadores e percussão eletrônica começaram, de fato, ainda nos tempos do Joy – sendo assim, Movement representa o estágio seguinte de um processo que, de certa forma, já havia sido desencadeado.

Assim chegamos a outro ponto de destaque: a capa do LP. Produzida por Peter Saville, que tinha sido o responsável pelo design dos vinis do Joy Division, ela é a recriação de um pôster originalmente desenhado em 1932 pelo artista futurista italiano Fortunato Depero. Como um clássico exemplo das apropriações feitas pelo punk e pela new wave no campo do design, a citação ao futurismo feita por Saville se ajustava de diferentes maneiras. Em primeiro lugar, representava uma conexão com o interesse crescente da banda pela tecnologia musical, já que o movimento futurista valorizava o desenvolvimento industrial e técnico-científico. Além disso, o futurismo recorria a sobreposição de imagens, traços e pequenas deformações para transmitir a ideia de movimento e dinamismo. Aqui se evidenciam os links com a mudança de nome e a perseguição de um novo estilo, bem como com próprio o título do álbum. Intencionalmente ou não, a capa feita por Saville também pode ter contribuído com o estigma de “banda nazista” que cercava o New Order (“fama” que os perseguiu por um bom tempo e que começou ainda nos tempos do Joy Division), pois a primeira geração do futurismo exaltava a guerra e a violência, além do fato de terem existido afinidades ideológicas entre o movimento e o fascismo na Itália.

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“Remixando” a arte: a capa de Movement é inspirada em pôster do futurista italiano F. Depero.

No entanto, a criação de uma capa com base em um pôster – os futuristas abraçavam a propaganda como forma de comunicação e de ligação entre a arte e o design – foi a abordagem perfeita: que maneira melhor de apresentar uma mídia de massas (o disco de vinil) senão com uma arte que remete a um cartaz/anúncio?

Entretanto, mesmo com alguns méritos, do som à capa, Movement sempre teve dificuldade para conseguir algum prestígio. A revista Sounds o classificou como “absolutamente desastroso”. Para o New Musical Express, trata-se de um disco “terrivelmente maçante”. Bernard Sumner sempre declarou que se arrepende do seu lançamento e que preferia tê-lo regravado naquela época se tivessem tido tempo e dinheiro disponíveis para isso. Dentre os membros da banda, Peter Hook parece ter sido o único a dar-lhe, de fato, algum valor quando decidiu sair em turnê com seu atual grupo, o The Light, para tocá-lo ao vivo na íntegra (ao lado do segundo álbum do New Order, Power, Corruption and Lies, de 1983). Em 2008, o álbum foi relançado em CD com áudio remasterizado e um disco recheado de extras – singles e lados B’s lançados na mesma época. Cinco anos depois, reapareceu em uma edição limitada em 300 cópias feitas em vinil transparente, sendo que 100 delas foram distribuídas de brinde durante a semana de reinauguração da loja de discos HMV da Oxford Street, Londres. Com Movement é assim: há quem ache, como Sumner, que o bom mesmo é ficar longe dele; e há também quem aposte na sua reavaliação. De que lado você está?

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MEMÓRIA | Primeiro single do New Order comemora 35 anos

Há exatos 35 anos, era lançado pela Factory Records, um selo independente de Manchester, cidade do norte da Inglaterra, o primeiro disco do New Order. Não era ainda um álbum com uma coleção inteira de músicas, mas um single. No lado A, tínhamos uma tema pós-punk de primeira, com um riff esparso de guitarra, o baixo em destaque e uma bateria marcial; já o lado B nos presenteava com um tema mais soturno e depressivo, com camadas de teclados que sugeriam, ao mesmo tempo, atmosferas fantasmagóricas e etéreas que despertavam sentimentos que se confundiam entre o medo e o pesar. Assim eram “Ceremony”, a hoje clássica canção do lado A, e “In a Lonely Place”, a melancólica sinfonia eletrônica registrada no lado B.

O single, batizado apenas de “Ceremony”, também conhecido como “FAC 33” (seu número de catálogo segundo o mitológico sistema de catalogação da Factory), foi o cordão umbilical que ligou o recém nascido New Order à sua encarnação anterior – o Joy Division. “Ceremony” e “In a Lonely Place” foram as duas últimas canções que Bernard Sumner (guitarra, teclado), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria) escreveram ao lado de Ian Curtis, a voz e o lirismo do Joy Division. Quando Curtis saiu de cena tirando sua própria vida, em maio de 1980, isso não significou o fim da linha para os outros três. Todavia, eles sentiam que não seria a mesma coisa ser Joy Division sem aquele pelo qual sempre tiveram profunda e real amizade. Mudar o nome do grupo parecia ser uma opção lógica. E assim o fizeram – eles passaram a se chamar New Order, uma sugestão do empresário, Rob Gretton. O passo seguinte seria escrever músicas novas – e, por que não, finalizar as outras duas em que estavam trabalhando quando Ian ainda estava vivo.

Eles possuíam fitas de ensaio das duas canções. Em ambas, a maior dificuldade era transcrever o que Ian cantava, já que a qualidade das gravações deixava muito a desejar. Essas fitas vieram a público pela primeira vez em 1997, através do box set quádruplo de CDs Heart and Soul, dedicado ao catálogo e às raridades do Joy Division. Anos mais tarde, em 2011, seria lançado especialmente para o Record Store Day um EP em vinil de 12 polegadas (edição limitada em apenas 800 cópias) que trouxe, no lado A, as versões de estúdio gravadas pelo New Order e, no lado B, essas gravações caseiras, mas desta vez com “In a Lonely Place” completa (em Heart and Soul a gravação está cortada). Vale ressaltar que antes de “Ceremony” finalmente ser levada ao estúdio pelo New Order, ela já havido sido tocada ao vivo pelo Joy Division no dia 02 de maio de 1980 no High Hall da Universidade de Birmingham – aliás, ela (a música) chegou a fazer parte da passagem de som antes do show! Já “In a Lonely Place” nunca foi executada ao vivo pelo Joy Division – isso só viria a ser feito depois que a banda já tinha se tornado New Order.

“Ceremony” e “In a Lonely Place” foram incorporadas aos shows do New Order, figurando ao lado de canções novas em folha, como “Truth” e “Dreams Never End”. Em geral, o material que a banda compôs após a mudança não era tão diferente do que faziam como Joy Division. E no caso de temas como “Truth”, se notava que o grupo estava prosseguindo em uma rota que o JD já vinha tomando: em direção ao uso cada vez mais frequente dos sintetizadores. Isso não estava evidente apenas no último tema escrito pelo Joy Division, “In a Lonely Place”, como também em várias outras faixas, como “Isolation”, “Decades”, “As You Said” ou “The Eternal”. Em todo caso, nos primeiros meses de New Order eles ainda não tinham “o” vocalista e essa função era dividida entre os três. “Ceremony”, por exemplo, era cantada nos shows pelo baterista Stephen Morris; já “In a Lonely Place” ficava a cargo de Sumner, que é quem viria a se fixar no cargo em definitivo.

Foi durante a turnê norteamericana que o Joy Division teve que cancelar devido à morte de Ian Curtis que o New Order gravou seu primeiro single. Aconteceu quando, em setembro de 1980, a banda estava de passagem por Nova Jersey, onde fizeram um show no Maxwell’s (já fizemos um post sobre esse concerto). As gravações foram feitas nos Eastern Artists Recording Studio e tiveram como produtor Martin Hannett – o homem por trás da produção de todo o material do Joy Division na Factory. A escolha de “Ceremony” como single parecia óbvia – apesar de letra, era uma música mais upbeat. “Dreams Never End” também teria sido uma boa opção (e em outro momento chegou a ser cogitada a ser lançada como single), mas acabou reservada para ser tornar a (excelente) opening track de álbum de estréia do New Order, Movement, lançado em novembro de 1981. Colocar “In a Lonely Place” no lado B também parecia lógico, já que ela era uma música “irmã”. Bernard Sumner assumiu os vocais nas duas faixas.

A Factory somente lançaria o disco no dia 06 de março de 1981. O single saiu em dois formatos no vinil: compacto e 12 polegadas. A capa do vinil grande, feita por Peter Saville (como de costume), com seu fundo verde-musgo e uma tipografia em tom de cor que lembra o dourado, tem um aspecto ou uma leve semelhança com os tradicionais livros de hinos religiosos ingleses. Além disso, a banda já estava um tanto mudada a essa altura. Ela havia deixado de ser um trio para se transformar em um quarteto. Se juntou aos três egressos do Joy Division a namorada de Morris, Gillian Gilbert, ex-Inadequates (banda punk que ensaiava em uma sala ao lado da do Joy Division), e que passou a dar uma ajudinha a Bernard Sumner na guitarra e nos teclados. Ela havia sido incorporada ao grupo ainda no ano anterior, quando Sumner já estava se estabelecendo como o dono do microfone. Com a sua entrada, eis que acontece algo surpreendente: o New Order decide fazer uma nova gravação de “Ceremony”, agora com Gillian fazendo uma segunda guitarra. A nova versão foi lançada em setembro de 1981, novamente com “In a Lonely Place” como b-side, mas ao contrário daquela, esta não foi regravada. A nova “Ceremony” foi lançada apenas em vinil de 12 polegadas, ganhou uma capa nova e daí em diante foi considerada “a versão definitiva”: foi ela que passou a ser incluída em todas as coletâneas e compilações, com exceção de uma, Singles (2006), que foi quando a gravação original foi lançada em CD pela primeiríssima vez. Ela retornaria em 2008 na versão remasterizada e expandida do álbum Movement, tendo sido incluída no CD bonus. A diferença entre as duas: enquanto a primeira é uma gravação mais rude, mais grosseira (pelo menos para os padrões de Hannett), a segunda (também produzida por Hannett!) tem um som mais limpo, os instrumentos estão mais bem gravados, os tom-tons da bateria de Morris estão distribuídos pelo estéreo e passam ora da esquerda para direita, da direita para a esquerda…

Mas é a versão original que conta como marco histórico, essa é que é a grande verdade. Sem falar que ela tem, mesmo com os seus “defeitos”, um grande séquito de fãs (eu não estou entre eles, prefiro a segunda versão). Ainda me lembro, quando a primeiríssima gravação ainda era desconhecida da maior parte do público brasileiro, que muita gente caiu na pegadinha que se espalhou pelos programas de compartilhamento de músicas de que era uma “versão de estúdio perdida” de “Ceremony” com Ian Curtis nos vocais!!! Quantas discussões tive no hoje falecido Orkut tentando esclarecer as pessoas que tal gravação não existe e que elas estavam diante pura e simplesmente da primeira versão feita pelo New Order. Hoje o mal entendido está desfeito. Só não suporto quando leio por aí que cada vez que o New Order toca “Ceremony”, está tocando um “cover do Joy Division”. Fala aqui com a minha mão, fala…

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RE-ISSUES | The Invisible Girls: o lado músico de Martin Hannett

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Martin Hannett: foi sócio da Factory Records e produziu Joy Division e New Order. Mas também era músico e tinha uma banda.

O filme parte história real, parte ficção, A Festa Nunca Termina, de Michael Winterbottom, que mostra os personagens (Tony Wilson, Rob Gretton), bandas (Joy Division, New Order, Happy Mondays) e empreendimentos (Factory Records, The Haçienda) que ajudaram a colocar a cidade de Manchester (norte da Inglaterra) no mapa da música pop mundial, possui duas cenas clássicas envolvendo o produtor Martin Hannett, magistralmente interpretado pelo versátil ator britânico Andy Serkis:

    1. Tony Wilson (interpretado no filme por Steve Coogan) pára seu automóvel em um descampado, no que parece ser uma área rural. Ele sai do carro e encontra um sujeito de cabelos desgrenhados (Hannett/Serkis), cigarro pendurado na boca, andando de um lado para o outro, segurando um grande microfone apontado para o céu e com um gravador à tiracolo. Wilson, que não está tão próximo de Martin, lhe dirige a palavra, em voz alta: “Ei, Martin, o que você está fazendo?”. O homem do microfone, irritado, responde: “Gravando… o silêncio!”. “Gravando o silêncio??”, Wilson retrucou, perplexo. E a resposta foi “Não! Agora estou gravando a porra do Tony Wilson!!”.
    2. Nos Strawberry Studios, em Stockport, durante a gravação do primeiro LP do Joy Division, Stephen Morris (Tim Horrocks) está na sala de gravação tocando um solo de bateria. Do outro lado do vidro, na sala de controles, Martin Hannett, desesperadamente, grita “Chega! Chega!”. E o baterista para. Em seguida, Hannett diz para Morris: “Bateristas fazem isso há anos e, particularmente, já estou de saco cheio disso. Vamos tentar algo diferente… Rápido, porém lento”. Todos (banda, Wilson, empresário) se olham e alguem solta: “Ele está falando sério?”.

Apesar do filme ser bastante caricato e de carregar nas tintas, com a intenção deliberada de fazer piada com o que, na realidade, era absurdo (a história da Factory é cheia de tropeços inacreditáveis), o retrato que Winterbottom fez de Hannett em seu filme não é assim tão distante do personagem real. O próprio Stephen Morris, em seu depoimento no documentário Joy Division, confirmou a história do “rápido, porém lento” e ainda acrescentou outras pérolas de Hannett do tipo “toque isso um pouco mais amarelo”. E tal como mostrado na telona, ele tinha pouca tolerância com os músicos e não os deixava ficar no estúdio enquanto ele trabalhava na edição e mixagem das gravações.

Mas essa excentricidade toda só contribuiu para tornar o mito em torno de Hannett ainda maior, já que seu talento como produtor, evidenciado, por exemplo, nos álbuns do Joy Division, ficou famoso. Mas poucos conhecem um outro lado do produtor: o de músico. Ao lado do tecladista Steve Hopkins, Martin Hannett era a outra metade do The Invisible Girls. E é sobre essa “banda” incomum que falaremos nas próximas linhas.

Hannett e Hopkins se conheceram em um show do Soft Machine em 1976. Mas foi o empréstimo de um sintetizador ARP2600 que realmente deu início ao elo entre os dois, que, no mesmo ano, engataram a primeira parceria: a trilha sonora de um curtametragem de animação chamado All Sorts of Heroes, dirigido por Rick Megginson e Steve Hughes. Martin tocou o baixo e alguns teclados; Hopkins era tecladista em tempo integral. Mas nessa época ainda não tinham adotado o nome The Invisible Girls. Isso só aconteceria em 1978, quando prestaram serviços como banda de acompanhamento do poeta mancuniano John Cooper Clarke em seu segundo álbum, Disguise in Love. Desde quando passaram a acompanhar Clarke, a dinâmica do The Invisible Girls passou a ser essa: Hopkins e Hannett formavam o núcleo permanente da banda (teclado e baixo), mas os postos dos demais instrumentos seriam preenchidos por músicos convidados que sempre mudariam. Nessa primeira fase, se juntaram à dupla o baterista Paul Burgess e os guitarristas Lyn Oakey e Pete Shelley (Buzzcocks). Martin também assumiria o papel de produtor de toda e qualquer gravação envolvendo as “Garotas Invisíveis”.

James Nice, o homem que hoje controla as gravadoras Les Disques du Crépuscule e a ressuscitada Factory Benelux, capitaneou dois (re)lançamentos dedicados ao The Invisible Girls. Em primeiro lugar saiu em 2014 – Pauline Murray and The Invisible Girls; o segundo, intitulado Martin Hannett / Steve Hopkins: The Invisible Girls, veio à luz no ano passado. O primeiro é uma reedição remasterizada e expandida do álbum de estreia da ex-vocalista do grupo punk Penetration e que contou com o Invisible Girls como banda de apoio; o segundo é uma compilação, que reúne muitas faixas inéditas ou que não tinham sido lançadas em formato digital antes.

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Pauline Murray and The Invisible Girls (1980)

Após o fim do Penetration, a vocalista Pauline Murray, acompanhada do ex-baixista da banda (e que viria a ser seu marido), Robert Blamire, estava tentando levar adiante o projeto do seu primeiro disco solo. A dupla procurou Martin Hannett com o objetivo de tê-lo como produtor, mas no final Pauline e Blamire acabaram ganhando o Invisible Girls como parceiros na empreitada. Com Hopkins nos teclados e Robert Blamire como “membro honorário” da banda tocando o baixo, o grupo foi completado, como de costume, com convidados: John Maher (ex-Buzzcocks) na bateria, Dave Hassell na percussão e, nas guitarras, Dave Rowbotham (Fast Breeder) e Vini Reilly (Durutti Column). Hannett não tocou nenhum instrumento, mas assumiu a produção (dividindo-a com Hopkins) e, com seu parceiro, escreveu os arranjos. O engenheiro de som era ninguem menos que Chris Nagle, outro parceiro de Hannett, e que trabahou em Unknown Pleasures, do Joy Division, e Movement, do New Order. A edição expandida da Les Disques du Crépuscule (o LP original saiu em 1980) é excelente: além de um belo encarte, recheado de informações e com fotos, são dois CDs. No disco 1, temos o álbum original remasterizado, o single “Searching for Heaven” (que traz Bernard Sumner, do New Order, como convidado na guitarra solo) e versões Peel Sessions. O disco 2 é todo ao vivo e traz faixas gravadas em 1981 na Holanda (Amsterdam Paradiso e Den Haag Paard van Troje) e 1980 na Inglaterra, sendo que somente as registradas em solo britânico foram de fato tocadas pelos Invisible Girls “originais” (i.e., os que tocaram no disco). Outro detalhe que vale a pena mencionar: a capa foi desenhada por Peter Saville, o designer que assinou todas as capas do Joy Division e do New Order.

Martin Hannett / Steve Hopkins: The Invisible Girls, por sua vez, é cheio de surpresas – mas, advertimos, não é para quaisquer ouvidos. A compilação pode ser dividida em três momentos diferentes. As primeiras cinco faixas (instrumentais, como quase todas do CD) formam o bloco mais acessível. Gravadas entre 1980 e 1987, são canções com DNA pop, apesar da ausência de vocais. Hopkins exibe sua habitual proficiência nos teclados, enquanto Hannett se ocupa da “cozinha”: ele toca baixo e bateria nessas gravações. E na funky “Huddersfield Wastes”, Martin toca até guitarra ritmica. Mas é nesse terço do disco é que se pode notar com absoluta nitidez a famosa marca registrada de muitos discos produzidos por Hannett, em especial os do Joy Division: o som da bateria, seco e esparso, com um eco sutil, mas ainda assim notável.

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Martin Hannett & Steve Hopkins: The Invisible Girls (2015)

O bloco seguinte é o mais perturbador e sombrio. Nele predomina a contribuição de Martin Hannett como produtor e co-autor de trabalhos de artistas e bandas como Nico (“Procession”, uma das raras faixas cantadas do disco), Section 25 (“Collective Project”), Crispy Ambulance (“Concorde Drone”), Vini Reilly / Durutti Column (“First Aspect of the Same Thing” e “Second Aspect of the Same Thing”). Nesse mesmo segmento do álbum há espaço ainda para uma incursão solo de Hannett, “The Music Room”, porém creditada aos Invisible Girls, e a retomada da dobradinha com Hopkins em “Space Music”, um experimento com sintetizadores. Esse seria o “Lado B”: mais experimental, em vários momentos parece que estamos ouvindo velhos discos de krautrock. Mas esse grupo de canções nos ajuda a entender os caminhos e territórios percorridos pelas bandas que Martin produziu ao longo da sua carreira.

As bonus tracks vêm no terceiro lote: são as canções da trilha sonora de All Sorts of Heroes. Na verdade trata-se de uma peça homônima dividida em nove partes. Desta vez parece que estamos ouvindo pequenas jammings de um minuto e meio ou dois. A bateria floreada, o sax e o piano evocam um clima jazzy que em nada lembra a orientação leftfield dos Invisible Girls. Há ecos do chamado “rock progressivo” aqui e ali. Curioso, se levarmos em consideração que essas gravações foram feitas um ano antes da explosão do punk rock na Inglaterra – e em 1977 Martin Hannett estaria produzindo o EP Spiral Scratch, dos Buzzcocks. Existiriam mais conexões entre o prog rock e o punk do que faz crer nossa vã filosofia? Talvez a obra feita nas sombras, quase “invisível”, do The Invisible Girls seja a resposta a essa questão.

Enfim, a semente do que Hannett plantou nos discos do Joy Division e dos primórdios do New Order foi produzida em laboratório nos experimentos realizados com Steve Hopkins no Invisible Girls, uma banda cujo papel de coadjuvante não significou, em momento algum, ser ofuscado pelo brilho das estrelas principais. Pelo contrário: o envolvimento da dupla fez toda a diferença. Infelizmente, esse gênio dos estúdios não viveu o bastante para prosseguir colocando sua assinatura tanto em discos alheios quanto no trabalho do Invisible Girls: após se afundar no álcool e nas drogas ao longo da década de 1980, Martin nos deixaria em 1991, aos 43 anos, devido a um ataque cardíaco.

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