NEWS | New Order no próximo número da Electronic Sound

issue-29-VINYLO New Order será matéria de capa da próxima edição da revista Electronic Soundque, como o próprio nome sugere, é especializada em música eletrônica. Com texto de Stephen Dalton e fotos de Kevin Cummins, o número deste mês trará também um bate-papo com o vocalista e guitarrista Bernard Sumner sobre o legado da banda e, também, sobre o novo disco ao vivo que também será lançado este mês – NOMC15. Mas não pára por aí: a revista oferecerá um “mimo” para os fãs, um disco promocional white label de 7″, prensado em vinil transparente, com um remix de “Academic” assinado pelo produtor Mark Reeder. No Lado B, haverá uma faixa de autoria do próprio Reeder chamada “Mauerstatd”. O remix de “Academic”, intitulado “Mark Reeder Akademixxx”, já havia aparecido recentemente em Music Complete: Remix EP, um extended play lançado apenas nos formatos digital downloadstreaming; “Mauerstadt”, por sua vez, é conhecida da trilha-sonora do filme B-Movie: Lust and Sound in West Berlin 1979-1989. Em todo caso, se trata de mais um belo item colecionável para saciar a sede de lançamentos dos fãs.

ES29_SPREAD_NEWORDER-copy

 

Visite também nosso Instagram:
http://instagram.com/neworderbrfac553 Instagram

OPINIÃO | O som do New Order

Factory-Floor_PhotoCreditNikVoid02

Parafernália eletrônica: o estúdio caseiro de Stephen Morris e Gillian Gilbert em Derbyshire.

Synthpop? New wave? Electropop?

Afinal como definir o som do New Order? Alguem que curte a banda já parou para pensar nisso?

Como fã, é algo sobre o qual costumo refletir de vez em quando. Os rótulos que abrem o presente texto estão entre os que mais encontro nas matérias “especializadas” – mas eles são precisos? Será mesmo que o emprego de sintetizadores, programações, samplers, melodias pop e batidas dançantes – fora o fato de ser da década de 1980 – é o que basta para colocar o New Order no mesmo saco onde estão Pet Shop Boys, Yazoo, Soft Cell, Erasure ou Information Society? Sou da seguinte opinião: não. Acho, por exemplo, que Bernard Sumner, Peter Hook, Gillian Gilbert e Stephen Morris (a agora Phil Cunningham e Tom Chapman) sempre jogaram em outro time, do qual fazem parte nomes como Cabaret Voltaire, PiL, Section 25, Simple Minds, Beloved e Primal Scream, por exemplo. Em outras palavras, o New Order nunca teria se afastado do rock – ou melhor, nunca teria deixado de ser uma banda de rock. Ou, como explica o escritor Michael Butterworth em seu livro The Blue Monday Diaries (Plexus, 2015, 189 páginas): “Outros artistas vêm fazendo música sintetizada sequenciada há alguns anos, mas esta é talvez a primeira vez que uma banda de rock usa essas técnicas no coração da sua música”.

Quem somos nós, por exemplo, para discordar das palavras do agora ex-baixista Peter Hook? Em depoimento dado a Lori Majewski e Johnathan Bernstein para o livro Mad World (Harry Abrams, 2014, 320 páginas), ele disse o seguinte: “Bernard e Stephen, em particular, estavam muito interessados nos experimentos com tecnologia. Eu, por outro lado, tenho que admitir que não estava tão interessado nisso. Eu prefiro rock. Foi a combinação entre meu desejo de estar em uma banda de rock e eles querendo ser uma banda disco que nos deu nosso som único”. Para o site da Gibson, em 2013, ele deixou bem claro que Power, Corruption & Lies ainda é sobre a real química de uma banda”.

Os experimentos com sintetizadores e com técnicas de manipulação dos sons em estúdio começaram ainda nos tempos em que a banda se chamava Joy Division. Em 1978, por ocasião de uma tentativa frustrada de gravar um álbum para a RCA nos estúdios Arrow, em Manchester, os produtores John Anderson, Bob Auger e Richard Searling tentaram introduzir teclados (tocados por um músico contratado) no som da banda. A reação não foi positiva. Todavia, a história prova que os quatro rapazes do Joy Division foram se mostrando (ou na verdade eram) menos refratários às experimentações eletrônicas do que pareciam ser originalmente. Como se sabe, Ian Curtis era um grande fã de Kraftwerk e foi o responsável por apresentar o disco Trans-Europe Express (1977) aos demais integrantes. O álbum do Kraftwerk era ouvido com frequência durante os ensaios; além disso, era um costume da banda colocá-lo para tocar no P.A. antes dos shows. Por sua vez, o baterista Stephen Morris já assumiu publicamente ter sido influenciado pela batida motorik de outras bandas alemãs de krautrock como Can e Neu!. Em suas próprias palavras:

“Como baterista, Klaus Dinger [do Neu!] foi muito importante para mim, ele me ensinou como fazer um riff durar uma vida inteira! Eu nunca tinha ouvido nada como aquilo antes. Eu era ligado no krautrock, então eu comprava qualquer coisa que vinha da Alemanha. Gostava da maneira como eles faziam montagens musicais, com pedaços de som ambiente… Quando ouvi, pensei ‘se eu tivesse uma banda, eu queria que soasse assim tão aventureiro’. Tago-Mago, do Can, é outro disco que soa como nenhum outro. Posteriormente, apareceram coisas que tentavam soar parecidas, mas ele continua sendo original. Eu costumava fazer cópias em cassete dele para ouvir no campo, sentado na grama”.

Outros discos ajudam a entender bastante a inclinação que já existia no Joy Division para a música eletrônica. Um deles, sem sombra de dúvidas, é Low, de David Bowie (1977), principalmente o Lado B (totalmente preenchido por faixas instrumentais baseadas em sintetizadores). Todos conhecem bem a história: a primeira denominação da banda, Warsaw, foi inspirada no título da canção “Warszawa”, de Low. Mas Bernard Sumner, em sua autobiografia, Chapter and Verse (Bantam Press, 2014, 343 páginas), confessou que o álbum de Bowie lhes forneceu mais do que um nome e que, na verdade, todos eles eram “ligados” no som desse disco. Outra história que todos já estão carecas de saber é que Ian Curtis, na noite de seu suicídio, estava a ouvir The Idiot, de Iggy Pop (1977). Sumner costuma se lembrar que The Idiot foi o disco que Ian lhe mostrou de bate-pronto na primeira ocasião em esteve na casa dele – e que ficou “alucinado” com o que tinha ouvido. Como todo mundo também já sabe, esse é um “álbum irmão” de Low, tendo sido, inclusive, produzido por David Bowie. Ambos foram gravados em Berlim (sacaram a conexão?) e expressam o interesse da dupla na época pelo som eletrônico/experimental de Neu!, Can e Kraftwerk. Aliás, o próprio Iggy Pop definiu The Idiot como “o encontro entre James Brown e o Kraftwerk”. Uma de suas músicas se chama “Nightclubbing”. Profético?

Mas é importante dizer que o maior estímulo que o Joy Division recebeu para se aventurar nesse território veio daquele que seria seu produtor em definitivo, ou praticamente seu “quinto membro”: Martin “Zero” Hannett. Como uma espécie de Lee Perry mancuniano, Hannett os encorajou no uso de sintetizadores e no emprego do estúdio como “instrumento”. Stephen Morris deu seus primeiros passos no uso de percussão eletrônica adicionando ao seu kit de bateria um Syndrum e um Synare, ambos usados em faixas de Unknown Pleasures (1979) como “Insight”, “Shadowplay” e “She’s Lost Control”; já Bernard Sumner comprou um exemplar da revista Electronics Today que trazia um kit do tipo “monte você mesmo” para construir seu próprio sintetizador Powertran Transcendent 2000. Hannett, por sua vez, costumava usar tape loops para tratar notas musicais através de filtros de modo a conseguir obter ecos e delays digitais; além disso, o produtor tinha o hábito de enviar o som captado da bateria para um alto-falante pendurado no banheiro do porão do estúdio, onde o som era gravado novamente por um único microfone para, em seguida, receber mais efeitos. Isso sem falar na utilização de samples incomuns, como sons de elevadores se movimentando, vidros se partindo etc.

Captura de Tela 2016-07-22 às 09.59.25

Captura de Tela 2016-07-22 às 09.58.59

A revista “Electronics Today”: faça você mesmo!

O encontro das influências absorvidas através dos discos que eles ouviam com essa verve experimental de seu produtor deu origem a uma coleção de faixas que já insinuava o som que estaria por vir como New Order: “She’s Lost Control (12” Version)”, “Isolation”, “As You Said”, “These Days” e mesmo “Love Will Tear Us Apart”. Quando Ian Curtis faleceu, no dia 18 de maio de 1980, a banda já estava “sacando” o trabalho que a cantora disco Donna Summer vinha fazendo em parceria com outro mago da música eletrônica da época: o tecladista e produtor italiano Giorgio Moroder. Se Ian tivesse permanecido vivo tempo suficiente para ir aos Estados Unidos com a banda, certamente ele não teria escapado da “conversão” que aconteceria em Nova Iorque. Stephen Morris chegou a dizer à revista Bizz na década de 1980: “Tenho certeza de que o Joy Division faria as coisas que estamos fazendo agora”. Mas, afinal, o que aconteceu com essa turma na América?

moroder-giorgio-51d3c82b6d200

Giorgio Moroder

Naturalmente, a primeira turnê pelos Estados Unidos não ocorreu como planejada. A morte de Curtis adiou os planos e banda só pisaria em solo americano já como New Order. A primeira passagem foi bem curta e aconteceu ainda em 1980 sem a tecladista Gillian Gilbert e com os três remanescentes do Joy Division se revezando na função de vocalista. A segunda, já com a formação clássica e com Bernard Sumner ocupando o posto de cantor em definitivo (sendo substituído pelo baixista Peter Hook apenas em “Dreams Never End”) foi no ano seguinte. Durante essas viagens, uma jovem judia novaiorquina que havia sido contratada para trabalhar como promoter dos shows, Ruth Polsky, lhes apresentou o melhor das noites de Manhattan. Ela os arrastou para o circuito local de clubes e casas noturnas como Danceteria, Peppermint Lounge e Area. Não havia lugares desse tipo em Manchester, nem tampouco o tipo de música eletrônica dance que se tocava neles. Uma música, aliás, que nem lhes chegava a ser totalmente estranha: ela resultava da maneira como os DJs negros de Nova Iorque se apropriavam da música dos alemães do Kraftwerk. “Os clubes que frequentávamos nos influenciaram bastante naquilo que viríamos a fazer”, disse Stephen Morris à MTV Europeia em 1993. “Minhas influências mudaram totalmente em um ano”, completou Sumner em entrevista ao mesmo programa.

Em seu livro, Sumner disse também que “Fiz em Nova Iorque um amigo DJ chamado Frank Callari, hoje falecido. Era um cara grande, mas afetuoso, e que saiu em turnê com a gente em uma ocasião. Ele me mandava fitas cassete das emissoras de rádio novaiorquinas. Naquela época não havia emissoras de música dance na Inglaterra, então ele me enviava essas fitas das americanas, que eram genais e refletiam uma verdadeira cultura musical. Também tinha um amigo em Berlim chamado Mark Reeder e naquela época ele era o homem da Factory Records na Alemanha. Ele me mandava discos de 12 polegadas de dance music de todas as partes da Europa”.

danceteria

Flyer da boate Danceteria (NY)

A medida em que descobriam novos sons e ampliavam seu gosto musical, eles também aprofundavam seu relacionamento com a tecnologia. No verão de 1981, no Marcus Music Studios, em Londres, nascia uma peça que seria fundamental no desenvolvimento do “som do New Order”. Stephen Morris encontrou em algum canto do estúdio um sintetizador Oberheim e decidiu conectá-lo a uma bateria eletrônica. Segundo Sumner, “quis a sorte que a drum machine pusesse em funcionamento o sintetizador num ritmo que se encaixava perfeitamente com o som da bateria; soava fenomenal, como Giorgio Moroder, só que muito mais barato! Nos dias de hoje isso parece uma bobagem, mas não havia muitos sintetizadores que pudessem fazer isso naquela época – normalmente eram tocados com as mãos como um instrumento tradicional, ou com um sequenciador rudimentar, porém caro. Entretanto, com aquele pequeno Oberheim se podia obter o som do teclado e o ritmo da bateria eletrônica. (…) Foi assim que fizemos ‘Everything’s Gone Green’, nossa primeira tentativa de por um pé na música eletrônica dance.

oberheim_obxa_angle2_lg

Sintetizador Oberheim OB-Xa: por trás do som de “Everything’s Gone Green” (1981)

Se no primeiro LP como New Order, Movement (1981), ainda soavam muito próximos do Joy Division, apesar do farto uso de sintetizadores, com os discos que fizeram em seguida, como o já citado “Everything’s Gone Green”, além dos singles “Temptation”, “Blue Monday”, “Confusion” e dos álbums Power, Corruption & Lies (1983) e Low Life (1985), eles se tornaram precursores de duas vertentes do pop: o dance rock (também chamado de dance-oriented rock ou D.O.R.) e o alternative dance. A primeira teria surgido na década de 1980 no esteio do esgotamento da primeira leva do punk rock e da disco music. Michael Campbell, em seu livro Popular Music in America (Arizona State University, 2013, 432 páginas), define o dance rock como uma fusão entre o pós-punk e o gênero que ficou conhecido como pós-disco (forma embrionária de dance music eletrônica); no livro, Campbell cita Robert Christgau, para o qual o D.O.R. é um “termo guarda-chuva” que teria sido inventado por DJs na década de 1980 e que designa uma música praticada por músicos de rock influenciados pela soul music da Filadélfia, pelo funk e pelo som disco e que misturavam esses estilos musicais com o rock e a dance music.

Já o alternative dance é um parente muito próximo do dance rock. Trata-se de uma mistura entre o rock indie / alternativo e a dance music pós-disco. De acordo com o site AllMusic.com, “o alternative dance funde as estruturas melódicas do rock alternativo com batidas eletrônicas, sintetizadores e samples. Os artistas e bandas dessa vertente geralmente são indentificados através de uma assinatura musical muito própria (o som característico do baixo do Peter Hook, por exemplo), pelos sons e texturas (o uso simultâneo de bateria ao vivo e eletrônica, como faz Stephen Morris) ou pela fusão de elementos musicais específicos; além disso, frequentemente assinam com selos alternativos ou independentes (Factory Records; Mute). O New Order é sempre citado como o primeiro grupo do gênero porque seus discos do período 1982-1983 propunham o encontro do pós-punk com o som de bandas eletrônicas como o Kraftwerk.

Em termos históricos, a direção escolhida pela banda se mostrou acertada. Ao contrário de contemporâneos como o Depeche Mode, o New Order ignorou completamente a tsunami grunge que varreu as praias musicais na década de 1990; optaram por assistir, do alto de algum camarote do seu mítico club Haçienda, a molecada pular e suar na pista de dança ao som de suas criaturas: Happy Mondays, 808 State, Stone Roses, The Charlatans (a cena que ficou mundialmente conhecida como Madchester), além de outros seguidores do ritmo baggy, como The Soup Dragons, Ocean Colour Scene e o Blur dos primeiros anos. Resumindo: bandas de rock com batidas dançantes. Sua influência pode ser sentida e ouvida em vários outros grupos e artistas que vieram depois: Moby, The Chemical Brothers, Sub-Sub, Prodigy, Doves, The Killers, Hot Chip, Factory Floor, The Horrors e uma penca de grupos nu rave.

The_Killers

The Killers: o New Order inspira o som dos anos 2000

Eles definiram o som que está na moda nestes anos 2000. “Muitos dos melhores e mais emocionantes músicos da safra mais recente estão, de alguma forma, em dívida com o New Order”, escreveu Martyn Young para o site DIY Magazine em agosto do ano passado. “No panteão das bandas britânicas, poucas têm a mesma história e o legado duradouro do New Order. Começando como Joy Division, o grupo de Manchester tem estado na vanguarda da parte mais emocionante, inovadora e bonita da música pop que você poderia imaginar. (…) É difícil precisar quanto risco o New Order correu no começo, quando abandonou o tradicional punk rock em favor do experimentalismo eletrônico. Mas a atitude deles era a de assumir riscos, o que permitiu que mais e mais bandas ao longo da história se soltassem para mudar as coisas de vez em quando”, concluiu Young. “Se soltar”, nesse caso, é dar as costas a uma série de “ideologias” velhas e ultrapassadas: que “roqueiros” devem se manter bem longe da “profana” dance music, que a técnica e o virtuosismo são as supremas virtudes, que não dá para ser “artístico” e pop ao mesmo tempo ou que a guitarra elétrica tem que ser o instrumento dominante no rock.

Impossível encerrar este post sem dar algum crédito a Tony Wilson e sua lendária a gravadora, a Factory Records, sem os quais o New Order não teria sido New Order. “Éramos profundamente políticos por não termos a propriedade sobre os nossos grupos”, disse Tony certa vez ao jornalista Garry Weaser (The Guardian). “A gravadora não é dona de nada, os músicos são proprietários de sua música e de tudo o que fazem. Todos os artistas estão livres para se foder” era o que estava escrito no lendário “contrato” assinado a sangue com o Joy Division, em 1978. “A outra coisa foi que nos dois primeiros anos tínhamos esse negócio de não-promoção. Não havia nenhuma promoção. Não tínhamos assessoria de imprensa. Era tudo sobre não tratar a música como mercadoria”. A Factory faliu em 1992 – ela foi “banida” do ecossistema hostil e implacável dos negócios para entrar na História.

“A revolução criada pelo Joy Division [no final da década de 1970, em Manchester], estando no centro de tudo, inspirou a participação de muitas pessoas… e a não diferenciar dance de rock” (Tony Wilson, 2007).

Visite também nosso Instagram:
http://instagram.com/neworderbrfac553 Instagram

WHO IS? | Mark Reeder: o homem da Factory (e do New Order) na Alemanha

00amark-reeder-by-carlos-heinz

Mark Reeder: de Manchester a Berlim

Já dissemos isso aqui em outra ocasião, mas não custa nada repetir: o sucesso de um artista solo ou banda não depende apenas de talento. Um pouco de sorte cai bem, é claro, mas ter pessoas certas atuando nos bastidores, fora da luz dos holofotes, também faz a diferença. Que o digam os Beatles: sim, eles eram geniais e carismáticos, mas a história deles teria sido a mesma sem Brian Epstein, George Martin ou Geoffrey Emerick? Talvez não. Quando se fala de Joy Division e New Order, impossível não mencionar Tony Wilson, Rob Gretton ou Martin Hannett. Para o bem ou para o mal. Ao longo da história dessas duas bandas, outros nomes mais ou menos ilustres foram deixando sua marca. Um exemplo é Arthur Baker, o DJ e produtor norteamericano que com a seminal “Confusion” ajudou o New Order criar um blend de synth pop inglês e puro eletrofunk negro novaiorquino. O resultado foi eternizado em vinil.

Falaremos mais de Arthur Baker em outra ocasião. O personagem deste post é outro. Ele atende por Reeder. Mark Reeder. Mas quem ele é? Como Baker, ele é produtor musical. Bom, pelo menos é isso o que ele é hoje na maior parte de seu tempo. Entretanto, Reeder tem um longo currículo de serviços prestados à música – o que inclui vínculos sólidos e permanentes com o New Order. Assim como Baker.

Reeder, como o New Order, é de Manchester (norte da Inglaterra). Em 1977, ele criou, ao lado de Mick Hucknall (do Simply Red), a banda punk Frantic Elevators. O primeiro contato com o membros do Warsaw (versão embrionária do Joy Division) aconteceu nessa época, período no qual vinha se formando em Manchester uma cena punk cuja explosão fora detonada por uma histórica apresentação dos Sex Pistols na cidade. Mas Reeder não ficou muito tempo com os Frantic Elevators (que, na verdade, sequer duraram muito) e, no ano seguinte, mudou-se para a Berlim Ocidental. A transferência para a (hoje extinta) República Federal da Alemanha, no entanto, deu início ao relacionamento que perdura até os dias de hoje: Reeder se transformou no representante da Factory Records em solo alemão e a promoção de bandas como Joy Division e A Certain Ratio estava em suas mãos.

Em 1981, quando o Joy Division já havia se transformado em New Order, Reeder passou a administrar três carreiras simultâneas: homem da Factory na Alemanha Ocidental, engenheiro de som de bandas locais como Malaria! e Die Toten Hosen, e integrante (como guitarrista e tecladista) de um novo grupo, chamado Die Unbekannten (“o desconhecido”), formado com Alistair Gray (nos vocais) e Tommy Wiedler (ex-Nick Cave & The Bad Seeds, na bateria). O Die Unbekannten se transformaria, pouco tempo mais tarde, no Shark Vegas, com Wiedler sendo substituído por Leo Walter e, também, com a aquisição de um novo integrante, o baixista e tecladista Helmut Wittler. Com o Shark Vegas, Mark Reeder saiu em turnê com o New Order pela Europa Ocidental em 1984 (Alemanha Ocidental, Áustria, Suíça, Holanda e Bélgica).

Mas até então, nada de colaborações em estúdio. Isso só viria a ocorrer, pela primeira vez, em 1986: o single de maior sucesso do Shark Vegas, “You Hurt Me”, foi produzido pelo vocalista e guitarrista do New Order, Bernard Sumner, que também contribuiu com um trecho de guitarra. O disco seria lançado pela Factory Records e, também, pelo selo da banda Die Toten Hosen. “You Hurt Me” foi uma peça-chave não apenas na consolidação da relação Reeder-Factory-New Order, como também aprofundou a amizade entre o músico-produtor radicado na Alemanha e Sumner, que vinha sendo cultivada desde os tempos em que Mark promovia o Joy Division em solo germânico. “You Hurt Me” hoje está disponível em CD em diversas coletâneas, dentre elas Twice As Nice: Be Music, DoJo, Mark Kamins & Arthur Baker Productions, lançada pela LTM Recordings em 2004.

Reeder também foi um personagem fundamental por trás do single responsável pelo retorno triunfal do New Order no começo do século XXI. Em 1999, o produtor era o feliz proprietário da gravadora de música eletrônica Mastermind For Success (ou simplesmente MFS), que ele havia criado no começo da década de 1990 quando comprou, do próprio bolso, a infraestrutura da gravadora estatal da antiga Alemanha Oriental; nessa época, o selo de Reeder andava meio em baixa depois que sua maior revelação, um certo Paul Van Dyk, decidiu deixar a gravadora. Para dar uma força ao amigo, Bernard Sumner gravou os vocais, sem instrumentos, de uma canção inédita e a deu de presente para Reeder. Este pôs a gravação nas mãos de uma nova aposta sua, um DJ húngaro chamado Corvin Dalek, que mixou os vocais de Sumner a uma faixa instrumental de sua autoria que estava engavetada desde 1997. Dalek mostrou o resultado a Reeder, que gostou do que ouviu e ajudou o jovem DJ a fazer alguns ajustes finais na faixa. Chamaram-na de “Crystal”. Nascia um clássico.

Reeder procurou Sumner para lhe mostrar o que ele e Dalek tinham feito. O vocalista do New Order ficou impressionado, para dizer o mínimo. Porém, a “mão invisível” do destino agiu nessa hora. Antes que Reeder e Dalek transformassem sua demo track em uma versão definitiva e a lançassem, com direito a remixes, Sumner, ingenuamente, a mostrou para o A&R (“artistas e repertório”) da London Records (gravadora do New Order na época), Pete Tong. Este, consciente do enorme potencial do que tinha acabado de ouvir, não perdeu tempo: correu para o telefone, ligou para Reeder e disse “Você não pode lançar essa faixa!”. Ele insistiu para que Mark persuadisse Sumner a gravar “Crystal” com o New Order. Por força do poder econômico (a grande gravadora de Londres versus o selo alternativo de Berlim), Tong conseguiu mais do que isso: “convenceu” Reeder a engavetar a demo mix feita por Dalek e ele e a lançar os remixes dessa versão apenas depois que a versão do New Order fosse lançada. É a lei do dinheiro. Mas o resto é história: “Crystal” atingiu o #8 na parada britânica de singles, #1 na parada Hot Dance Singles Sales da revista Billboard (EUA) e ajudou a colocar o álbum Get Ready (2001) em sexto lugar na Inglaterra. A versão “original” hoje pode ser encontrada em um dos álbuns “solo” de Reeder: Collaborator, de 2014 (Factory Benelux).

00corvinasset

12″ com remixes de Corvin Dalek para sua “versão original” de “Crystal” com Mark Reeder (lançado após versão do New Order)

O imbroglio envolvendo “Crystal” não abalou a relação Reeder/Sumner, ou Reeder/New Order. Em 2009, dois anos após a tensa separação do New Order (marcada por desentendimentos públicos com o hoje ex-baixista Peter Hook), saiu o primeiro e único álbum do Bad Lieutenant, Never Cry Another Tear (Triple Echo Records), grupo que Bernard Sumner formou com os guitarristas Phil Cunningham (ex-Marion, New Order) e Jake Evans (ex-Rambo & Leroy). Mark, a pedido de Sumner, remixou os dois singles do “Bad Loo”: “Sink or Swin” e “Twist of Fate”. Essas versões foram posteriormente incluídas em uma outra compilação de remixes de Reeder, Five Point One (2011). Aliás, tanto Five Point One quanto Collaborator são dois discos altamente recomendáveis – o blog assina embaixo.

Este ano, Mark Reeder voltou a dar o ar da graça para os fãs do New Order. Ele foi um dos responsáveis pelos remixes do último e mais recente single da banda, “Singularity”, o terceiro saído do álbum Music Complete, lançado no ano passado. “Singularity” acabou alcançando o primeiro lugar da parada britânica de singles físicos (CD e vinil). A escalação de Reeder não foi por acaso. Para promover o single, foi feito um vídeo contendo cenas extraídas do filme alemão B-Movie: Lust and Sound in West Berlin 1978-1989, lançado no ano passado. O personagem principal da película é o próprio Reeder. Dirigido por Jörg Hoppe, Klaus Maeck, Heiko Lange e Miriam Dehne, é um filme experimental, que mescla imagens documentais e outras reconstituídas, mas dispostas cronologicamente, e que retrata o desenvolvimento não apenas de uma cena musical, mas de todo um caldo cultural, que vai do punk até a Love Parade (maior festa de música eletrônica da Alemanha) e a criação da MFS. Mark também esteve diretamente envolvido na trilha-sonora do filme, como curador e, também, estrela de várias faixas. Uma versão “reconstruída” de “Komakino”, do Joy Division, foi incluída. Junto com lançamento do filme em DVD e Blu Ray, foi lançada também a trilha-sonora em CD e LP duplos. 

Reeder é mais um elo da conexão New Order – Alemanha que começou, evidentemente, com Ian Curtis, ainda nos tempos do Joy Division, e sua obsessão por tudo o que vinha de lá (como o Kraftwerk, por exemplo). Porém, para ficarmos apenas na nossa paróquia, recomendamos uma espiada nos trabalhos do moço com outros artistas como John Foxx, Depeche Mode, Marsheaux, Anne Clark ou Westbam. Vale a conferida.

Visite também nosso Instagram:
http://instagram.com/neworderbrfac553 Instagram