REVIEW | “Be a Rebel” (New Order)

O New Order lançou hoje seu primeiro single desde “People on the High Line”, de 2016. “Be a Rebel” vinha sendo esperada pelos fãs desde que Bernard Sumner declarou ao The Times em julho deste ano que estava trabalhando na mixagem dessa faixa durante o lockdown. Não se trata necessariamente de uma música “nova” – na verdade, é uma sobra de estúdio vinda diretamente das sessões de gravação do último álbum do grupo, o excelente Music Complete (2015). Sumner, em uma outra entrevista, só que publicada pela Classic Pop Magazine em junho de 2015, foi categórico quando disse que a banda tinha escrito algo em torno de 15 músicas para Music Complete, mas que a Mute Records (atual gravadora do New Order) queria um álbum com apenas dez. Nessa mesma entrevista, o decano vocalista/guitarrista deixou claro que, ainda que o disco saísse com as dez canções que a Mute desejava, ele ficaria incomodado se não pudesse finalizar todas as músicas.

E parece que ele levou a promessa à cabo durante a quarentena imposta pela pandemia do novo coronavírus. Ou quase. Em nenhum momento foi mencionado por Sumner ou por qualquer outro integrante do New Order de que outras faixas verão a luz do dia no futuro, então por ora “Be a Rebel” será tudo (isto é, se não contarmos a caixa com a edição definitiva do álbum Power, Corruption and Lies e o vindouro novo disco ao vivo Education Entertainment Recreation, que não tem data ainda para sair).

O site do New Musical Express definiu “Be a Rebel” como uma faixa “agridoce”. Nas redes sociais, as reações dos fãs foram, em geral, positivas – e em alguns casos chegaram a ser acaloradas e entusiasmadas. Bom, mas será que o novo single do New Order, que ganhará ainda este ano versões em mídias físicas que incluirão remixes, vale tanta euforia?

Não se trata, de uma maneira alguma, de uma canção ruim. Além disso, “Be a Rebel” possui os ingredientes de um single de sucesso (mas se chegará a alcançar posições altas nas paradas, isso são outros quinhentos). Entretanto, há muitas coisas nela que podem gerar algum desconforto. Por exemplo: num exame mais superficial, a música soa bastante como o Electronic (o extinto projeto solo de Bernard Sumner em parceria com o ex-Smiths Johnny Marr). Alguns trechos específicos chegam inclusive a lembrar vagamente um outro side project dos integrantes do New Order, neste caso o duo The Other Two, formado nos anos 1990 pelo casal Gillian Gilbert e Stephen Morris. Porém, as aventuras solo dos membros remanescentes do New Order que conhecemos hoje como sendo o “clássico” não necessariamente representam um alto padrão de comparação. Não que o Electronic e o The Other Two fossem ruins, mas, convenhamos, não eram assim tão bons (ou pelo menos não quando postos frente a frente com o poderoso catálogo da Nova Ordem).

Por outro lado, sucessivas e mais atentas audições revelam um cenário mais desolador, infelizmente. “Be a Rebel” peca pela absoluta falta de personalidade. Quem tiver uma memória auditiva mais acurada certamente terá a incômoda sensação de que o novo single do New Order se parece com incontáveis faixas eurodance da década de 1990, começando pelos timbres (incluindo aqueles inconfundíveis riffs de piano que ajudaram a popularizar o sub-gênero conhecido como italo house), mas passando também pela sequência de acordes que compõem a estrutura básica da canção. A pegada dance e a voz e a guitarra de Sumner funcionam como boas “pegadinhas” aqui, isto é, são artifícios que escondem o que “Be a Rebel” realmente é: uma fotocópia de uma fotocópia, um clone de outros tantos clones. É uma faixa genérica. Se trocarmos a voz de Bernard pelos vocais, por exemplo, de Neil Tennant, ela se transforma imediatamente num outtake dos Pet Shop Boys. Trocando em miúdos: ela soa como se tivesse sido criada por aqueles produtores especialistas na fabricação de sucessos dance em massa a partir de fórmulas prontas. Poderia ser uma música nova de qualquer um, não um novo single de uma banda com o legado do New Order.

Entretanto, os fãs mais empolgados com o novo lançamento da banda parecem cativados por sua atmosfera nostálgica que parece reviver aquela explosão do eurodance dos anos 90. Nesse sentido, “Be a Rebel” tem mérito por despertar em muita gente uma memória afetiva em torno de jardineiras, calças baggy, cores cítricas e os áureos tempos da MTV. De certo modo, Music Complete também era nostálgico, mas havia algo naquele álbum que parecia olhar para frente. Se tivesse sido incluída no disco, “Be a Rebel” certamente soaria deslocada.

Por enquanto, “Be a Rebel” está disponível apenas em formatos digitais no You Tube, nas plataformas de streaming e para download pago. Em novembro os fãs poderão colocar as mãos em uma edição limitada em 5.000 cópias prensada em vinil de 12″ cinza (já disponível para a pré-venda). Se o mercado para formatos físicos não estivesse rolando ladeira abaixo, não seria supresa alguma ver essa faixa sendo empurrada goela abaixo em uma enésima coletânea junto à fina flor do catálogo do New Order (“Blue Monday”, “True Faith”, “Regret”), com direito a algumas belas peças de Music Complete de lambuja, como “Singularity” e “Tutti Frutti”. Afinal, hoje em dia ninguem mais precisa comprar um CD com uma coleção inteira de músicas que já tem por causa de uma única faixa.

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REVIEW | New Order ao vivo no MIF/2017 (live streaming)

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Foto: reprodução (instagram.com/neworderofficial)

A quarentena decorrente da pandemia do novo coronavírus gerou uma espécie de “surto secundário”: a explosão de uma gama de atrações liberadas na internet por meio das lives e dos streamings. E no meio de tanto conteúdo disponibilizado de hora em hora para públicos de todos os perfis e preferências, os fãs do New Order não foram esquecidos. Ao longo desta semana a banda anunciou em suas redes sociais que hoje, às 19:30 do horário britânico (15:30 aqui no Brasil), um show do grupo seria exibido via streaming no You Tube.

O concerto em questão era uma das cinco noites da “residência” que a banda fez nos antigos estúdios da emissora de televisão Granada durante a edição de 2017 do Manchester International Festival, um evento que, aliás, os homenageou naquele ano. Os shows dessa curta temporada diferiam daqueles de uma turnê “regular” do New Order: eles subiram ao palco com uma “orquestra de sintetizadores” formada por doze jovens tecladistas estudantes da Royal Northern College of Music regidos pelo maestro Joe Duddell e com projeções e efeitos de iluminação criados pelo artista visual Liam Gillick. Esse ambicioso projeto gerou dois produtos: um documentário sobre a produção, intitulado Decades (exclusivo do canal SKY Arts UK), e um belíssimo disco ao vivo.

Muitos fãs ficaram animados com a possibilidade de ver (e não apenas ouvir) um desses shows na íntegra. Mas a expectativa se transformou em leve frustração quando, na verdade, o canal do MIF exibiu uma versão incompleta do concerto que já estava hospedada no You Tube desde 2017. Aliás, o vídeo em questão ainda estava disponível no canal até poucos instantes antes de sua reexibição no live streaming. Além de começar com uma entrevista com Liam Gillick, o show teve toda a sequência inicial e a encore cortados. Ao todo, tivemos o vislumbre de apenas seis músicas: “Shellshock”, “Guilt is a Useless Emotion”, “Sub-Culture”, “Bizarre Love Triangle”, “Vanishing Point” e “Plastic”. Se não era o que muita gente esperava, foi no mínimo divertido ver os comentários dos internautas, que variavam entre a indignação e perguntas sobre se aquele show estava “acontecendo ao vivo de verdade” (sim, muita gente realmente achou que o New Order mandou às favas o lockdown e fez um show aberto ao público, vê se pode…).

Controvérsias à parte, quem não havia visto esse vídeo antes pôde conferir uma apresentação muito diferente e original em pelo menos três aspectos. Em primeiro lugar, todas as partes que nas versões originais (ou mesmo nos shows habituais) eram “tocadas” por máquinas (sequencers, baterias eletrônicas e samplers) foram executadas ao vivo (isto é, manualmente) pelo reforço dos doze tecladistas. Em segundo, o palco continha uma grande estrutura ao fundo que abrigava os músicos da “orquestra” e sobre a qual Gillick projetava formas geométricas em movimento e que aludiam o estilo minimalista que sempre caracterizou a comunicação visual do grupo. E para arrematar: o repertório consistia basicamente em canções menos conhecidas, lados B ou temas que não eram tocados ao vivo há muitos anos.

Na opinião deste que escreve, o vídeo editado pelos produtores do evento até que consegue satisfazer a curiosidade de quem não sabia exatamente do que se tratava – ou que sabia mas nunca tinha visto. É claro que aqueles que não estavam tão a par assim da proposta enviaram centenas de mensagens perguntando por “Blue Monday” ou “Regret”. De qualquer modo, a breve amostra de 37 minutos infelizmente deixou aquele famoso gosto de quero mais na nossa boca, apesar de que algumas tomadas, certos ângulos e a edição de imagens tenham deixado a desejar. Certamente, o material exibido hoje está longe de ser digno de um lançamento em DVD ou BluRay. Um consolo pelo menos para quem achou que o streaming de hoje era “só mais do mesmo”: duas lives, uma durante e outra depois da exibição. Na primeira o guitarrista/tecladista Phil Cunningham e o baixista Tom Chapman respondiam pelo Twitter perguntas de fãs sobre o show; na segunda, Liam Gillick, Peter Saville (ex-designer das capas dos discos do New Order) e o DJ Dave Haslam bateram um papo entre si e com os internautas. Menos mal.

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NEWS | New Order anuncia turnê conjunta com os Pet Shop Boys

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Poster oficial da The Unity Tour

A grande notícia desta semana foi o anúncio de uma turnê conjunta do New Order e dos Pet Shop Boys pela América do Norte em setembro deste ano. A novidade já percorreu os quatro cantos do mundo e os detalhes sobre datas e locais podem ser encontrados nos sites oficiais e nas redes sociais das respectivas bandas. Por isso, preferimos aqui sintetizar as expectativas dos fãs em torno da The Unity Tour (título da turnê) em três “perguntinhas inocentes”. Então vamos a elas…

Como são as duas bandas ao vivo?
No palco os Pet Shop Boys apostam em apresentações teatrais, com cenários, trocas de figurino, além de bailarinos e números de dança. O vocalista Neil Tennant tem presença de palco, mas ele não faz o tipo Mick Jagger. Já o tecladista Chris Lowe fica lá na dele, paradão, executando as músicas. O New Order, por sua vez, é mais low profile ao vivo. No passado suas atuações costumavam ser irregulares e, ainda por cima, a banda teimava em não tocar seus hits (dentre eles “Blue Monday”). Mas o grupo mudou bastante faz um bom tempo. O carisma de Peter Hook (que deixou o New Order em 2007) faz falta, mas a força de seu catálogo e uma mãozinha dos efeitos visuais (um recurso outrora ignorado) vêm garantindo ingressos esgotados e críticas positivas em geral. Um ponto fraco são os vocais de Bernard Sumner.

É possível que as duas bandas se juntem no palco?
O que se sabe até agora é que o New Order e os Pet Shop Boys se alternarão no posto de headliner ao longo da turnê, mas o mero anúncio da The Unity Tour criou expectativas com relação a um eventual “bloco Electronic” (projeto paralelo de Sumner ao lado do ex-Smiths Johnny Marr e que contou com a colaboração de Tennant e Lowe no álbum de estreia). Se isso acontecer (e não descartamos que aconteça, pois Bernard já subiu ao palco em um show de Marr para tocarem juntos o maior hit do projeto, o single “Getting Away With It”), é mais provável que ocorra durante a performance dos PSB e não da do New Order. Parece haver um tipo de acordo – não se sabe se tácito ou explícito – dentro do N.O. com relação à não se incluir no set e nas encores músicas dos projetos paralelos de seus integrantes.

Essa tour pode vir ao Brasil?
Todo mundo torce por isso. Os Pet Shop Boys já estiveram aqui sete vezes; já o New Order seis. Trocando em miúdos: ambas as bandas têm muita consciência do tamanho do mercado na América Latina e, nos últimos anos, tornaram os intervalos entre as vindas ao continente cada vez menores (de 2014 para cá o New Order veio a cada dois anos, para ficar num exemplo). Então, sonhar com a The Unity Tour por essas bandas não parece delírio, principalmente se sua passagem pela América do Norte for bem sucedida (e há grandes chances disso acontecer). Convenhamos: essa turnê é uma jogada de marketing esplêndida. Considerando que tocarão nos EUA e no Canadá em setembro (com uma data apenas no comecinho de outubro) e que as duas bandas não têm por enquanto shows agendados logo em seguida, ainda há possibilidade, por questões logísticas, de se incluir datas na América do Sul na sequência. Mas, por enquanto, não passa de chute ou palpite desse que lhes escreve.

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NEWS | Banda de fãs russos do New Order lança CD produzido por Stephen Hague

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Celeste, oálbum de estreia do Joi Noir. Foto: reprodução.

Coisas do mundo das redes sociais… Um belo dia uma banda de nome pitoresco chamado Joi Noir passou a seguir o perfil do blog New Order BR FAC533 no Instagram (@neworderbrfac533). Além de curtir os posts, o perfil do Joi Noir (@joinoir) passou a deixar comentários divulgando seu álbum de estreia, intitulado Celeste, e sempre fazendo questão de frisar que o disco foi produzido por Stephen Hague, que tem em seu currículo o próprio New Order. A partir daí, passei a prestar mais a atenção nas postagens da banda, feitas em sua totalidade pela vocalista Olga Gallo (que parece ser também a “cara pública” do Joi Noir). Algumas delas trazem fotos de seus integrantes posando ao lado de alguns de nossos heróis aqui do blog, como Bernard Sumner e Peter Hook, com direito a discos autografados pelos mesmos, o que demonstra que a turma do Joi Noir também é bastante ligada na Nova Ordem. Os vídeos publicados no Instagram não desmentem essa impressão: é possível notar sem muito esforço ecos do Joy Division e do New Order no som deles. Em poucos dias a troca de comentários e de mensagens via direct se transformou em um hábito. E ontem o carteiro deixou na minha caixa de correio uma cópia em CD autografada (com dedicatória!) de Celeste. Nada mais justo do que dar a eles um pequeno espaço aqui no blog.

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Olga e Igor com Bernard Sumner, Peter Hook e seus discos autografados. Foto: reprodução (Instagram)

A história do Joi Noir, do seu nascimento até o lançamento do primeiro disco, merece destaque. Seus integrantes são russos, mas a banda foi formada na República do Congo (!!!) em 2014, mais precisamente em Pointe-Noire. O nome do grupo não apenas se baseou em sua localidade de origem, mas também nas iniciais dos nomes de seus membros fundadores: o baterista Jack Kuznetsov (o “J”), a vocalista Olga Gallo (de onde saiu a letra “O”) e o guitarrista Igor Plotnikov (que forneceu o “I”). Do Congo a banda se mudou para Kuala Lumpur, na Malásia, onde Jack acabou deixando a banda, sendo então substituído por um baterista malasiano chamado Mie Apache. Foi em Lumpur que essa formação começou a trabalhar nas gravações demo do material que mais tarde faria parte de Celeste. O grupo utilizou a Malásia como base durante um tour pelo Sudeste Asiático e pelo Japão até que em 2017 Olga e Igor se mudaram para Barcelona (onde estão instalados até hoje) e se converteram no núcleo permanente da banda. Nessa época, as demos do Joi Noir caíram nas mãos de Stephen Hague, que gostou do som, amou a voz de Olga Gallo, e decidiu dar uma força para a dupla aceitando co-produzir seu álbum de estreia. Olga e Igor se transladaram para Hastings, na Grã Bretanha, onde fizeram as gravações de Celeste acrescidos de músicos britânicos e do próprio Hague, que tocou baixo e teclado em algumas faixas. A formação que tocou no CD, com exceção do produtor, teve também uma breve existência sobre os palcos.

Lançado no dia 20 de setembro deste ano pela Galago Records nos formatos streaming, LP (vinil branco, edição limitada) e CD, Celeste é um disco com credenciais para agradar não apenas fãs do New Order, mas também todos os amantes de estilos como o pós-punk e a new wave. O som do Joi Noire transita por influências facilmente identificáveis de New Order, Siouxsie & The Banshees, Pretenders e Pixies. Ainda que sejam uma banda de rock alternativo, várias faixas do álbum poderiam circular tranquilamente pelas FMs da vida. Esse é o caso, por exemplo, de “Wild Way Hope”, que é também o single de estreia de Celeste.  “Loved You Now” é outra que cairia muito bem no rádio. Mas os grandes destaques do CD, na minha humilde opinião, são “Crashers” (quiçá a melhor canção do disco), “Excited” (com uma introdução que lembra “A Means to an End” do Joy Division), “Amber” e “Sample and Hold” (ambas verdadeiras cápsulas do tempo que nos levam de volta aos anos 1980). Em suma, não é um disco difícil de se gostar e ele cresce a cada nova audição. Para fins de comparação, pode-se dizer que o Joi Noir é aquilo que o She Wants Revenge tentou ser e não conseguiu, além de se juntar a esforços louváveis de revitalização do pop com ares oitentistas de bandas como White Lies e Editors.

E não podemos nos esquecer da “cereja do bolo”! As fotos usadas na capa do disco (desenhada pelo artista gráfico Andrew Vella) foram feitas por Andy Earl, renomado fotógrafo que já clicou Johnny Cash, Duran Duran, Spandau Ballet, Gary Numan, Eurythmics, Simple Minds, Mike Oldfield, Robert Plant, The Cranberries, Pet Shop Boys, Simply Red e muitos outros!

Pessoalmente falando, o maior ganho que eu tive com Celeste foi encurtar o contato com pessoas que, como eu, compartilham o amor pelo New Order – e que declararam esse amor em um disco produzido por um cara que deu uma mãozinha em clássicos como “True Faith” e “Regret”. Considerando os itinerários seguidos por Olga e Igor – da fria Rússia à ensolarada Barcelona, passando por África e Ásia – esse encontro propiciado pelas redes sociais é um exemplo das voltas que o mundo dá.

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Minha cópia autografada de Celeste. Love is hope!

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NEWS | Encaixotando Joy Division e New Order

Como se já não bastasse a edição definitiva de Movement e o álbum ao vivo So It Goes.., o ano de 2019 ficará conhecido como aquele dedicado ao lançamento de materiais do New Order e do Joy Division em luxuosos box sets. Na verdade, essa é a tendência atual do mercado – enquanto o downloadstreaming sao voltados para o público médio, as edições premium limitadas (e caras) destinam-se à satisfação de fãs e colecionadores. Além das duas caixas citadas, listamos aqui outros quatro combos encaixotados que podem interessar os amantes dessas duas bandas. Então vambora…

STUMM433 (Vários Artistas, Mute Records): Parte da série comemorativa de 40 anos do selo Mute iniciada no ano passado, trata-se de uma caixa de cinco CDs trazendo artistas antigos e atuais da gravadora (dentre eles, o New Order) interpretando, cada um à sua maneira, a música/experimento 4’33” (lê-se “quatro minutos e trinta e três segundos”) do compositor de vanguarda John Cage (1912-1992). Apresentada ao piano pela primeira vez em 1952, consiste em quatro minutos e meio de silêncio – ou quase. Nenhuma nota musical é tocada, o que conta são os sons e ruídos aleatórios do ambiente – o “som do silêncio” – fazendo com que a cada “execução” o resultado final seja sempre diferente. O projeto da Mute é deveras extravagante, afinal são cinco discos inteiros de “silêncio”… entretanto, parte da renda obtida com as vendas da caixa será doada para a British Tinnitus Association, uma entidade dedicada à prevenção, tratamento e difusão de informações sobre uma doença conhecida em português como tinido (ou acufeno). Trata-se da mesma doença da qual sofreu, por anos, o baterista Craig Gill, do Inspiral Carpets, que suicidou-se em 2016 (ele sofria de uma depressão decorrente do tinido). Dentre os demais intérpretes da “canção” temos, além do New Order , bandas como  Depeche Mode, A Certain Ratio, Cabaret Voltaire, Erasure, Nitzer Ebb, The Normal, The Afghan Whigs, Laibach e muitas outras. Link para pré-venda: http://mute.com/mute/stumm433-pre-order-now 

Exclusive Mockups for Branding and Packaging Design

ALWAYS NOW (Section 25, Factory Benelux): Lançado originalmente pela Factory Records em 1981, o álbum de estreia do Section 25 acaba de ganhar pela Factory Benelux (uma espécie de sucursal belga da Factory que sobreviveu à falência da matriz) uma edição remasterizada com uma caminhão de extras. É uma caixa com cinco LPs, sendo que as primeiras mil cópias foram produzidas com vinis coloridos (preto, transparente, cinza, amarelo e vermelho). Um dos discos contém uma preciosa jam da banda ao lado do New Order, gravada ao vivo na Universidade de Reading (Inglaterra) no dia 8 de maio de 1981. O box pode ser adquirido diretamente no site da Factory Benelux: https://www.factorybenelux.com/always_now_fbn3_045.html

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USE HEARING PROTECTION: FACTORY RECORDS 1978-1979 (Vários Artistas, Rhino Records): Com lançamento anunciado para outubro deste ano, essa lindíssima caixa trará edições facsimile dos dez primeiros itens/produtos lançados pela Factory Records, do icônico poster da primeira “Noite da Factory” no Russel Club, em Manchester (FAC-1), até o LP de estreia do Joy Division, Unknown Pleasures (FAC-10), passando ainda pelo EP duplo A Factory Sample (que contém as faixas “Digital” e “Glass”, do Joy Division, além de canções do Cabaret Voltaire, do Durutti Column e do comediante John Dowie), os singles “Electricity” (OMD) e “All Night Party” (A Certain Ratio), outros dois posteres, um DVD e um livro de 60 páginas. Como bônus, esse box set promete um single de 12″ dos Tiller Boys (planejado, mas nunca lançado) e dois CDs recheados de entrevistas do Joy Division. A caixa é uma exclusividade da Rhino UK (o que quer dizer que ela só poderá ser encomendada na store virtual da gravadora) e sua edição é limitada em 4.000 cópias. O preço é salgadíssimo: £ 180 (aproximadamente R$ 856). Link da pré-venda: http://store.rhino.co.uk/uk/use-hearing-protection-factory-records-1978-79-limited-edition-box.html

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FACTORY RECORDS: COMMUNICATIONS 1978-92 (Vários Artistas, Rhino Records): A Rhino UK também promete para novembro desse ano uma segunda caixa, dessa vez com oito LPs contendo material de vários artistas do cast da Factory e abrangendo os 14 anos de vida da gravadora. A tiragem é limitada em apenas 500 unidades, mas o preço é um pouco mais “amigável”: £ 127 (cerca de R$ 605). Esse box foi originalmente lançado no formato CD em 2009 e continha quatro discos e um belíssimo livreto (além disso, a Rhino lançou em edições passadas do Record Store Day dois samplers em vinil de 10″ com gravações que não faziam parte da caixa). Em Communications 1978-92 o New Order contribui com oito faixas, o Joy Division com quatro, o Electronic (projeto solo do vocalista/guitarrista Bernard Sumner), o Revenge (do agora ex-baixista Peter Hook) e o The Other Two (duo formado pelo casal Stephen Morris / Gillian Gilbert) com uma cada um. Todas em versões de estúdio que o público já está careca de ouvir. No mais, versões originais de bandas como OMD, A Certain Ratio, Section 25, James, Happy Mondays, Durutti Column, The Wake, 52nd Street e muitos outros. A quem interessar possa: http://store.rhino.co.uk/uk/factory/factory-communications-1978-92-limited-edition-silver-8lp.html/

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REVIEW | 1981-82 Singles Re-issue

assetQuando o New Order anunciou, ainda no ano passado, que relançaria em 2019 seu álbum de estreia – Movement – em uma luxuosa caixa contendo um LP, dois CDs, um DVD e um livro, a banda aproveitou a oportunidade para comunicar aos fãs que os singles de 12″ originalmente editados no mesmo período (1981-1982) também seriam relançados em vinis de 180 gramas e com áudio remasterizado. Esses singles, de acordo com o grupo, sairiam aos poucos algumas semanas antes de Movement: Definitive Edition ir para as lojas. Os relançamentos em questão eram: as duas gravações de “Ceremony” (cada uma em um vinil), “Everything’s Gone Green” e “Temptation”.

Assim como a edição encaixotada do Movement, sobre a qual este blog já resenhou, os quatro singles em questão já estão na mão. E o papel do FAC 553 agora é trazer aos fãs lusófonos do New Order nossas impressões sobre eles. Então vamos lá…

Comecemos pelos dois 12″ de “Ceremony”. Um deles (o de capa verde) contém uma primeira versão gravada pelo New Order nos estúdios Eastern Artists Recordings, Nova Jersey, em 1980, durante a primeira excursão do grupo (ainda um trio na ocasião) pelos EUA (ou mais especificamente por uma pequena parte da Costa Leste). Durante a mesma sessão de estúdio, a banda gravaria também “In a Lonely Place”, que entraria no Lado B. Ambas canções foram escritas pouco antes de Ian Curtis por fim à sua vida e encerrar o capítulo Joy Division, de maneira que as duas foram as primeiras faixas a fazerem parte do repertório do New Order. Um mix alternativo (e inédito) dessa gravação de “Ceremony” foi incluído no CD de extras de Movement: Definitive Edition. Originalmente, esse single tinha sido programado para ser lançado em janeiro de 1981, mas a verdade é que ele terminou só saindo em março. A segunda versão da música, agora com Gillian Gilbert incorporada à banda, foi lançada em setembro de 1981 e trazia uma capa diferente, com fundo cor de “creme” e uma faixa vertical azul. Seu lado B também traz “In a Lonely Place”, mas é a mesma gravação lançada em março de 81. Os dois re-issues são bem fieis aos originais – ou quase. A capa da “versão 2”, como vocês poderão perceber, foi grosseiramente modificada.

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Não foi a primeira vez que a Warner tirou uma “licença poética” e modificou o projeto gráfico de um disco do New Order por ocasião de um relançamento. Em 2009, quando os cinco primeiros LP’s de estúdio foram relançados, as capas de Power, Corruption and Lies (1983), Low Life (1985) e Brotherhood (1986) sofreram alterações – ou, melhor dizendo, foram barateadas. Infelizmente, isso deverá acontecer novamente em relançamentos vindouros. Uma fonte segura do blog creditada como “colaborador” em Movement: Definitive Edition (e cuja identidade manteremos em sigilo) já nos adiantou isso. Naturalmente, nada até agora se compara ao absurdo cometido em + / – Singles 1978-1980, caixa de vinis de 7″ do Joy Division lançada em 2010 com um formato mais ou menos no modelo da Singles Box dos Smiths, só que com fotos das artes originais impressas sobre capas de fundo branco em vez de réplicas perfeitas das capinhas oficiais!

Melhor “sorte” tiveram as reedições de “Everything’s Gone Green” e “Temptation”, cujas capas permanecem fidedignas às das versões originais lançadas, respectivamente, em 1981 e 1982. Essas duas canções merecem um parênteses. Lançadas após Movement, elas representam as primeiras tentativas de aproximação com os ritmos dance eletrônicos. Comparadas com o que vieram a fazer depois, como o arrasa-quarteirão “Blue Monday”, são faixas que soavam tão aventureiras quanto, digamos assim, rudes. Em suas atuais versões remasterizadas, soam agora mais polidas, o que sob certa perspectiva pode ser considerado uma “perda” frente ao valor histórico das mixagens outrora incluídas nas primeiras fitas master. Mas isso, na verdade, é uma questão de gosto – ou de opinião. Da parte deste que escreve o presente review, a melhor gravação de “Everything’s Gone Green” ainda é aquela do vinil brasileiro de Substance (1987). Mas como se chama isso mesmo? Memória afetiva, certo?

Não teria feito mal algum se esses relançamentos tivessem seguido uma tendência atual do mercado: a inclusão, em cada vinil, de um passe para baixar versões digitais dessas gravações, uma vez que não há sinais de que esses singles ganhem eventuais contra-partes em CD. Mas, de um modo geral, os fãs não têm mais do que reclamar. Finalmente o catálogo do New Order vem recebendo um tratamento digno da enorme influência que lhe é creditada. Completists certamente jamais deixarão de lado sua obsessão de reunir todas as variações possíveis desses singles, mas se não for esse o seu caso você já não precisará mais recorrer ao eBay para obter cópias de segunda mão.

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REVIEW | “Movement: Definitive Edition”

C69E2D5A-C126-4963-A5E1-B675CE5F1708Há uma semana saía (lá fora) a super-aguardada “edição definitiva” de Movement, o sombrio álbum de estreia do New Order, lançado originalmente em 1981. Embalado em uma luxuosa caixa contendo um LP, dois CDs, um DVD e um livro, a nova versão do début da “Nova Ordem” parece ser o primeiro de uma série de reedições em formato deluxe de seu antigo catálogo. Na esteira do lançamento do box set, a Warner reeditou em vinis de 12” polegadas três singles do New Order do período 1981-82, distribuídos em quatro discos: duas versões diferentes de “Ceremony”, “Everything’s Gone Green” e “Temptation”. Atenção, navegante: fique de olho no limite do seu cartão de crédito!

O conteúdo exato da caixa é: o álbum original totalmente remasterizado em vinil e em CD, um disquinho recheado de material extra, como demos, mixagens alternativas e gravações de ensaio e um DVD com vídeos ao vivo – em sua grande maioria inéditos ou raros. O livro, com capa dura, páginas impressas em papel de altíssima gramatura, sem falar nas belíssimas fotos, é um mimo à parte. Enfim, há motivos de sobra para os fãs desembolsarem com gosto seu suado dinheirinho nessa caixa.

O estojo que abriga todos esses caprichos exibe a elegância e o minimalismo que se tornaram marcas registradas da identidade visual da banda. Todavia, Peter Saville, o artista que assinou o design gráfico original, não esteve envolvido no projeto, que ficou a cargo de dois antigos colaboradores seus: Howard Wakefield (criação) e Warren Jackson (direção de arte). Saville agora está envolvido com novas experiências criativas e deixou de lado as capas de discos após décadas produzindo algumas das mais brilhantes e icônicas da história do pop. A última capa que ele criou para o New Order foi a de Music Complete, de 2015.

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O álbum original – em LP ou CD – não traz nenhuma surpresa. É o mesmo tracklist de 1981 e com as faixas na mesmíssima ordem. A remasterização é de 2016, conduzida pelo engenheiro de som Frank Arkwright nos estúdios Abbey Road, e que anteriormente estava disponível apenas nos formatos streaming e digital download. Diga-se de passagem, ela é muito superior à remasterização de 2008, aquela feita para o frustrante projeto Collector’s Edition. Arkwright é um autêntico artista da engenharia de som e isso já havia ficado patente, por exemplo, no relançamento do catálogo do Joy Division anos atrás. Entretanto, como de costume, a Warner cometeu seus pecados habituais. Além de ter colocado o código “FACD 50” na lombada da capa do vinil (!!!), a gravadora chegou a anunciar que a versão em CD feita para caixa seria no estilo mini vinyl replica (reprodução exata do artwork do LP para o formato compact disc) – mas o mesmo “FACD 50” impresso na parte frontal e as visíveis diferenças nas proporções do projeto gráfico mostram que a promessa não foi cumprida.

Mas essas, digamos assim, trapalhadas passam perfeitamente batidas quando se considera tantas coisas maravilhosas reunidas em um único pacote. O CD de “extras”, por exemplo, tem tudo aquilo que os fãs sempre esperaram que viesse à luz do dia em formato digital. É bem verdade que as Western Works Demos – com o trio remanescente do Joy Division (Sumner, Hook e Morris) se revezando nos vocais – não são nenhuma novidade, ainda que esta seja a primeira vez que elas chegam ao público por vias oficiais. Porém, as gravações demo realizadas nos estúdios Cargo, Rochdale, em janeiro de 1981, são a joia da coroa desse disco. Nelas, as canções que mais tarde fariam parte de Movement, ou que foram lançadas em singles de 12” naquela época, aparecem sem o verniz dos arranjos definitivos e sem os decorativos efeitos de estúdio que o produtor Martin Hannett fez uso nas gravações que todos conhecem. Hannett também produziu essas demos, mas nelas ele deixou tudo soar de modo natural, o que nos permite vislumbrar o lampejo, ainda que tímido, do som que estaria por vir mais tarde – algo ocultado na mixagem final do LP. Preste a atenção na batida de “Mesh” e tire suas conclusões.

Um ensaio gravado de “Chosen Time”, que encerra o CD de material extra, também mostra que sem os truques de Hannett para modificar o som da bateria (sua marca registrada) o New Order já conseguia soar dance antes mesmo de assimilar os ritmos eletrônicos noturnos de Nova Iorque. Um mix alternativo de “Temptation” – a primeira tentativa real da banda de produzir música para as pistas de dança – reforça a tese de que talvez fosse esse o som que a “Nova Ordem” estava a perseguir desde o início. Todavia, foi uma busca em meio à escuridão forjada pelo fim trágico do Joy Division, origem de toda insegurança e hesitação que se ouve no material dessa época – e de um lado sombrio que teimou em perseguir o grupo por muito tempo.

O DVD tem também seus encantos. Pela primeira vez temos, na íntegra, a performance ao vivo da banda no extinto programa de TV Riverside, do canal BBC 2. Muitos se lembrarão dessa gravação por causa de um excerto de “Temptation” no documentário New Order Story, de 1993. Dentre as gravações avulsas, a de “Ceremony” no CoManCHE Student Union já era umas das favoritas deste que escreve antes mesmo de ser pinçada para o box set (está disponível no You Tube). Entretanto, a cereja do bolo é, sem dúvidas, o show no Hurrah’s, Nova Iorque, em 1980, ainda sem Gillian Gilbert na formação e possivelmente realizado com instrumentos adquiridos nos EUA após o roubo do seu equipamento original nas ruas da Grande Maçã (história já bastante conhecida entre os fãs do New Order). Infortúnios à parte, é um inédito registro com imagem e som de um curto período em que o grupo existiu como um trio, após o fim do Joy Division.

A cobertura de chantilly é o lindíssimo livro de 48 páginas. Além das notas habituais que situam o ouvinte no contexto da obra, temos fotos da banda ao vivo e dos instrumentos / equipamentos usados pelo New Order naquela época, para deleite do público geek. Há fotos de pôsteres e flyers de concertos também. Como bônus, o feliz proprietário do box set poderá ler uma transcrição da primeira entrevista oficial concedida pelo grupo.

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Não existem tantos artistas na história do pop cujos itens da discografia tenham recebido um tratamento dessa estatura. Com Movement: Definitive Edition, o New Order encontra-se agora ao lado de um seleto grupo formado Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd, Velvet Underground e Bowie. A nova caixa coloca a banda no seu devido lugar, dignificando seu catálogo e seu legado (em parte eclipsado pelo revival em torno do Joy Division). Além disso, nos faz olhar um disco historicamente subestimado com a indulgência que sempre lhe foi negada. E estabelece um alto parâmetro para as caixas que deverão vir a seguir.

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HISTÓRIA | “Technique” comemora 30 anos

techniqueEm uma entrevista concedida a Ian Harrison em 2008 para o livreto de uma edição remasterizada em CD de Technique, o hoje ex-baixista do New Order, Peter Hook, disse que o disco foi “uma disputa por poder entre eu e os sequenciadores… e eu resistia bravamente, porque eu ainda queria que nós fossemos uma banda de rock”. A declaração tem que ser entendida em seu devido contexto: o vocalista e guitarrista Bernard Sumner, também em entrevista a Harrison, explicou que “nós ficamos conhecidos por esse som eletrônico dançante e teria sido loucura de nossa parte parar de fazê-lo… era o espírito daquela época”.

O “espírito daquela época” ao qual Sumner se referiu era o que, com o tempo, ficou conhecido como “O Segundo Verão do Amor”: a dance music (em especial a vertente conhecida como acid house) havia tomado de assalto os dois lados do Atlântico em 1988 e foi um dos pilares de uma nova subcultura urbana marcada pelo hedonismo, pelo consumo nada moderado de LSD e ecstasy, um colorido berrante e o apogeu tanto de casas noturnas como 500 Club (também conhecido como “The Five”), Shoom e The Future, como também de festas ilegais (muitas delas em armazéns abandonados). Esse foi o caldo primordial que deu origem às raves e aos clubbers.

O New Order já estava metido nisso antes mesmo de começar a gravar Technique naquele mesmo ano. Ao lado de sua gravadora, a Factory Records, a banda era proprietária de um desses hoje lendários nightclubs: o Haçienda. Após alguns anos funcionando na base do “tranco”, o Haçienda enfim emplacou entre o finzinho da década de 1980 e o começo dos anos 1990. Nessa época tinha gente que chegava a viajar mais de duas horas de carro até Manchester para suar na sua pista de dança. O lugar também ficou famoso pelas brigas entre gangues e pelos tiroteios, mas isso (assim como sua atrapalhada administração) é uma outra história… O fato é que o Haçienda foi um dos grandes responsáveis por difundir o som acid house pela Europa, já que o gênero havia surgido originalmente nos Estados Unidos – e de quebra o clube ajudou a catalisar uma cena derivada que ficou conhecida como Madchester: bandas de rock alternativo que misturavam o pop psicodélico dos anos 1960 com batidas eletrônicas dançantes (Stone Roses, Inspiral Carpets, Happy Mondays etc).

O New Order era, então, uma espécie de “padrinho” dessa nova cena. Embalados por toda essa efervescência (e por uma aversão aos estúdios “sombrios e horríveis” de Londres, nos dizeres de Hook), seus integrantes fizeram as malas e foram para a ensolarada Ibiza, na Espanha, para gravar o que seria seu novo álbum. O estúdio Mediterranean, onde deram início às gravações, nem era tão bom assim. Mas tinha uma piscina e um bar aberto 24 horas. Porém, ao contrário do que diz a mitologia que rodeia Technique, o LP não foi totalmente gravado em Ibiza. Na verdade, o New Order produziu muito pouco enquanto esteve lá. Isso porque parte da estadia foi gasta nas discotecas locais em noitadas regadas a balearic beat, álcool e drogas. “Nunca nos divertimos tanto”, disse o mesmo Peter Hook à MTV europeia em 1993.

Uma vez que a atmosfera de Ibiza não era propícia à concentração e não combinava com uma rotina de trabalho duro em estúdio, o New Order se viu obrigado a voltar para a Inglaterra para terminar o seu rebento. As gravações prosseguiram então no estúdio Real World, de propriedade de Peter Gabriel, e que ficava em Wiltshire. Mas o estrago já estava feito: o novo material continha influências do acid house e do balearic beat. O grupo que um dia foi o sombrio Joy Division acabou por fazer de Technique seu disco mais “ensolarado” até então. Tal como diz a letra de “Dream Attack”, escrita por Bernard Sumnner (como todas as outras do LP), “Nada neste mundo se compara à música que eu ouvi quando acordei hoje de manhã… Ela pôs o sol em minha vida, cortou meu coração com uma faca… Foi como nenhuma outra manhã”.

O primeiro single, “Fine Time”, foi lançado ainda em 1988 e exatamente quando a banda estava de passagem pelo Brasil. Inclusive, os brasileiros foram os primeiros a ouvir, ao vivo, faixas do disco que ainda sequer havia sido lançado na Inglaterra. “Fine Time” teve um desempenho apenas razoável na parada britânica ao alcançar o décimo primeiro lugar. Mas com o lançamento do álbum em janeiro do ano seguinte e do segundo single, “Round and Round”, em fevereiro, Technique acabou indo parar no topo da parada inglesa. Era o primeiro disco do New Order a conseguir esse feito.

Aplaudido tanto pela crítica quanto pelo público, Technique se transformou na obra-prima do New Order; é o trabalho mais bem acabado da banda e se tornou, também, parâmetro de comparação com tudo o que veio depois. Veio a ser, inclusive, o último álbum totalmente produzido pelo grupo. O disco também figura em diversos rankings, como o dos “40 Melhores Álbuns dos Anos 80”, da Q Magazine, ou dos “500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos” do New Musical Express.

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O deus Dionísio (Baco para os romanos) representado como um menino

A capa, com suas cores fogosas, foi produzida pelo designer Peter Saville em parceria com o fotógrafo Trevor Key e mostra a estátua de um querubim. O artista gráfico o encontrou em uma feira de antiguidades e o alugou para que Key pudesse fazer a foto. Segundo Saville, o querubim evocava uma “imagem dionisíaca” (Dionísio, para os gregos, ou Baco, para os romanos, era o deus das festas campestres, do vinho, da libido e da fecundidade) que representava apropriadamente o hedonismo movido a drogas do “Segundo Verão do Amor”. Saville também costuma relatar uma bizarra coincidência envolvendo a capa criada para Technique: uma de suas inspirações nesse trabalho foram as serigrafias de Andy Warhol, porém antes de ver a capa pronta Rob Gretton, empresário da banda (falecido 1999), disse ao designer que o álbum se chamaria Peter Saville’s New Order em referência a The Velvet Underground and Nico Produced by Andy Warhol, LP de estreia do Velvet Underground que teve tanto o disco quanto a capa produzidos pelo maior expoente da pop art. Todavia, a banda acabou mudando o título do long play sacando uma palavra do verso “You’ve got love technique” (trad.: “você tem a técnica do amor”), de “Fine Time”.

 

No Brasil o álbum foi lançado alguns meses mais tarde, puxado pelo sucesso estrondoso de “Round and Round” nas rádios. Algumas das emissoras de pop/rock daqui chegaram a sortear entre os ouvintes cópias promocionais de Technique que possuíam um encarte extra exclusivo em forma de LP que continha as letras das músicas em inglês e em português. Essas cópias hoje são verdadeiras peças de colecionador e são muito procuradas por fãs gringos da banda.

A turnê de Technique se estendeu entre os meses de janeiro e agosto de 1989, com destaque para nada menos que 35 datas só nos EUA, compreendidas entre abril e julho. Mas foi justamente durante essa temporada em solo norteamericano, especificamente horas antes do concerto no Irvine Meadows Amphitheatre (em Irvine, Califórnia), que ocorreu a famosa reunião da banda com Tony Wilson, chefe da Factory, na qual a banda não somente tomou conhecimento do tamanho do buraco financeiro da gravadora (que financiava sua participação no Haçienda com a receita da venda dos discos do New Order), como também foi comunicada sobre a intenção de Bernard Sumner de “dar um tempo” para cuidar de um projeto solo (o Electronic, ao lado do ex-Smith Johnny Marr). O próximo álbum, Republic, só viria quatro anos depois.

O que aconteceu nesse intervalo todo mundo sabe: após um inédito primeiro lugar na parada de singles do Reino Unido com o tema oficial da seleção inglesa de futebol no Mundial de 1990 (“World in Motion”), o grupo se desmembrou em projetos paralelos de menor expressão (além do Electronic de Sumner, vieram o Revenge de Peter Hook e o The Other Two do casal Gillian Gilbert e Stephen Morris), a Factory faliu e o Haçienda virou um ralo por onde escoava rios de dinheiro. Em outras palavras: os excessos e o desbunde do final da década de 1980 haviam se transformado em ressaca. Mas quando se coloca Technique para ouvir, é impossível não ter a sensação de que a festa afinal foi muito, muito boa. É um disco que ainda hoje soa moderno e original – e ele pode ser considerado a imagem invertida de Unknown Pleasures, que eles haviam lançado ainda como Joy Division dez anos antes. Não seria a dor e o êxtase os dois lados da mesma moeda?

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NEWS | “Movement” ganhará versão definitiva em caixa no ano que vem

61kMxR-O9IL._SL1500_Anotem em suas agendas: no ano em que Unknown Pleasures, seminal LP de estreia do Joy Division, comemorará 40 anos do seu lançamento, chegará às lojas de discos gringas a luxuosa (e cara) caixa com a “versão definitiva” do primeiro álbum do New Order. De acordo com a própria banda em suas redes oficiais, Movement: The Definitive Edition será lançado em abril do ano que vem e virá recheado com tudo aquilo que os fãs da banda esperam há anos – e principalmente após a frustrante experiência com as edições remasterizadas e expandidas de parte da discografia do grupo lançadas no formato CD em 2008.

O conteúdo do box set será o seguinte: o álbum original em vinil e em CD mini vinyl replica, um bonus disc com gravações demo feitas nos estúdios Western Works (Sheffield) e Cargo (Rochdale) e fitas de ensaio de faixas como “Procession” e “Chosen Time”, e um DVD abarrotado de performances ao vivo, dentre elas o show no Hurrah’s (Nova Iorque), de 26 de setembro de 1980, com a banda se apresentando ainda como um trio e com os três integrantes remanescentes do Joy Division – Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris – se revezando na função de vocalista (Gillian Gilbert, então namorada de Morris, seria incorporada ao grupo no mês seguinte). Um pequeno trecho desse concerto pode ser visto no You Tube.

A edição deste mês da revista Uncut traz uma longa matéria de capa sobre esse período da carreira do New Order e “entrega” que Movement: The Definitive Edition poderá ser tão somente o primeiro de uma série de lançamentos nesse formato. A pré-venda no site oficial da banda inclui um bundle exclusivo que traz a caixa mais reedições em vinil dos singles “Ceremony” (em suas duas versões), “Everything’s Gone Green” e “Temptation” com um desconto especial. O preço apenas do box set está estimado em aproximadamente £120 (cerca de R$ 590 reais).

LP / CD1 (original album)       

  1. Dreams Never End
  2. Truth
  3. Senses
  4. Chosen Time
  5. ICB
  6. The Him
  7. Doubts Even Here
  8. Denial

CD2 (previously unreleased tracks)   

  1. Dreams Never End (Western Works Demo)
  2. Homage (Western Works Demo)
  3. Ceremony (Western Works Demo)
  4. Truth (Western Works Demo)
  5. Are You Ready For This? (Western Works Demo)
  6. The Him (Cargo Demo)
  7. Senses (Cargo Demo)
  8. Truth (Cargo Demo)
  9. Dreams Never End (Cargo Demo)
  10. Mesh (Cargo Demo)
  11. ICB (Cargo Demo)
  12. Procession (Cargo Demo)
  13. Cries And Whispers (Cargo Demo)
  14. Doubts Even Here (Instrumental) (Cargo Demo)
  15. Ceremony (1st Mix – Ceremony Sessions)
  16. Temptation (Alternative 7”)
  17. Procession (Rehearsal Recording)
  18. Chosen Time (Rehearsal Recording)

New Order – Movement DVD

Live Shows
Hurrah’s, NY 1980:
In A Lonely Place
Procession
Dreams Never End
Mesh
Truth
Cries & Whispers
Denial
Ceremony

Recorded on 27th September, 1980.
Produced, directed and filmed by Merrill Aldighieri

Peppermint Lounge, NY 1981:
In A Lonely Place
Dreams Never End
Chosen Time
ICB
Senses
Denial
Everything’s Gone Green
Hurt – instrumental
Temptation

TV Sessions
Granada Studios 1981:
Doubts Even Here
The Him
Procession
Senses
Denial

BBC Riverside 1982:
Temptation
Chosen Time
Procession
Hurt – instrumental
Senses
Denial
In A Lonely Place

Extras
Ceremony CoManCHE Student Union 1981
In A Lonely Place Toronto 1981
Temptation Soul Kitchen, Newcastle 1982
Hurt Le Palace, Paris 1982
Procession Le Palace, Paris 1982
Chosen Time Pennies 1982
Truth The Haçienda 1983
ICB Minneapolis 1983

12” Singles

Ceremony (version 1) 
Recorded at Eastern Artists Recordings in East Orange, New Jersey, during the US visit the previous September, New Order’s first single might, in an alternative universe, have been Joy Division’s next. The 12” single, originally released in March 1981 (the 7” having been released in January) including the original version of ‘Ceremony’, will feature remastered audio on heavyweight vinyl.

Side 1
Ceremony (version 1)
Side 2
In A Lonely Place

Ceremony (version 2) 
The alternative, re-recorded version of ‘Ceremony’ now also featuring Gillian Gilbert in the band was released later in 1981 and will feature the later alternative ‘cream’ sleeve rather than the original green and copper. This 12” will feature remastered audio on heavyweight vinyl.

Side 1
Ceremony (version 2)
Side 2
In A Lonely Place

Everythings Gone Green  
Originally released on Factory Benelux in December 1981, this 12” featured Everythings Gone Green, which had previously been on the reverse of the band’s second 7” single ‘Procession’ in September 1981,and ‘Cries And Whispers’ and ‘Mesh’ whose titles were flipped on the cover causing confusion amongst fans and compilers ever since. This 12” will feature remastered audio on heavyweight vinyl.

Side 1
Everythings Gone Green
Side 2
Cries And Whispers
Mesh

Temptation  
Featuring the full versions of both tracks this 12” was first release in May 1982 and were the first self-produced released recordings. With ‘Temptation’ being a cast iron New Order classic, this is an essential part of any New Order collection. This 12” will feature remastered audio on heavyweight vinyl.

Side 1
Temptation
Side 2 
Hurt

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REVIEW | New Order ao vivo, Arena “Sabiazinho”, Uberlândia (30.12.2018)

IMG_7427Em sua sexta passagem pelo Brasil, o New Order incluiu na sua agenda de shows uma inesperada aterrissagem por Uberlândia, uma espécie de “capital” da região do Triângulo Mineiro. Com aproximadamente 683 mil habitantes (segundo estimativa do IBGE feita este ano), Uberlândia é uma cidade maior do que a terra natal da banda, Manchester (441 mil hab.), possui o terceiro maior IDH do estado Minas Gerais e o 23o maior PIB do país. Os números dão uma dimensão da importância do município mineiro, mesmo assim a cidade carece ainda de um histórico de shows internacionais que faça páreo com grandes capitais nacionais como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Curitiba. Em todo caso, os uberlandenses devem sentir um certo orgulho por já terem conseguido recepcionar nomes de diferentes estilos como A-Ha, Shakira, Slash (ex-Guns N’ Roses), Simple Plan e, agora, o New Order.

Todavia, na ausência de uma casa de espetáculos apropriada para receber nomes internacionais (e nacionais também), o principal espaço para shows é o “Sabiazinho”, apelido simpático do ginásio poliesportivo local que atende verdadeiramente pelo nome Arena Multiuso Presidente Tancredo Neves. Apesar da determinação (e do êxito) de colocarem Uberlândia no radar do management do New Order, os produtores locais certamente sabiam de que se tratava de uma aposta de risco e, por essa razão, reservaram para o show apenas metade do ginásio, reduzindo a capacidade do mesmo de 8 para 4 mil pessoas. Um decisão acertada, aliás. O público presente não chegou a lotar o lugar e se tivessem usado o ginásio por inteiro a banda tocaria mais para grandes bolsões de espaços vazios.

A plateia era predominantemente mais velha, formada em geral por quarentões e cinquentões, uma turma que certamente conheceu o New Order em seu auge na década de 1980. Essa é uma observação importante. Quem já assistiu a banda ao vivo em São Paulo (cidade na qual tocaram em todas as seis ocasiões em que estiveram aqui) deve ter notado que lá a presença de jovens de vinte e poucos anos (ou menos), vestidos com camisetas do Joy Division, sempre foi grande, chegando a rivalizar, pelo menos em quantidade, com os “tiozinhos”. Pelo visto, o público do New Order em Uberlândia não passou pela renovação que se vê nas grandes metrópoles (o que não é uma crítica, mas, sim, uma constatação).

Mas e o show? Em geral, foi uma performance com muitas virtudes, mas com alguns “pecados” aqui e ali também. Aliás, se não fosse assim, não seria New Order, é claro. Devido às dimensões reduzidas do palco, o set de iluminação e a disposição das telas de led ao fundo tiveram que sofrer mudanças e adaptações. Todavia, isso não chegou a produzir grande impacto nos efeitos visuais, que terminaram sendo um destaque à parte (nesse aspecto, a banda evoluiu bastante de 2011 para cá). Com relação ao som, este estava bastante desequilibrado no primeiro terço do show, com a guitarra do vocalista Bernard Sumner muito mais alta que a de Phil Cunningham (que também toca teclados e percussão eletrônica), enquanto que o baixo de Tom Chapman e o sintetizador de Gillian Gilbert pareciam mais atrás dos demais instrumentos em algumas músicas.

Esse primeiro bloco, formado basicamente por canções que tinham uma “pegada” mais rock, foi bastante “morno” na verdade. Apesar de alguns picos de calor, em “Regret” e “Crystal”, a banda não parecia tão entusiasmada (com exceção de Tom Chapman, cada vez mais à vontade no posto que outrora pertenceu a Peter Hook) e a reação do público, em geral, não chegou a ser explosiva. Entretanto, após “Your Silent Face”, um novo show parecia ter começado. “Tutti Frutti”, single do último álbum do New Order, Music Complete (2015), inaugurou o bloco mais eletrônico e dance e daí em diante o clima esquentou de vez e em todos os sentidos. O som melhorou, ficando mais bem balanceado, o público vibrou com muito mais intensidade e a banda (principalmente Sumner) ficou visivelmente mais descontraída e envolvida com a plateia (mas sempre no limite do habitual estilo low profile do grupo). Músicas que passaram anos fora do set list dos shows, como “Sub-Culture” e “Vanishing Point”, emocionaram; os mega-sucessos “Bizarre Love Triangle”, “True Faith” e “Blue Monday” transformaram o ginásio em um enorme salão de baile; a obrigatória “Temptation” fechou o set com louvor.

Se o show tivesse terminado ali já teria sido suficiente para ser considerado “histórico” em Uberlândia, mas ainda havia mais. O New Order reservou o bis para celebrar sua “primeira encarnação” – a banda tocou três canções do Joy Division, levando muita gente às lágrimas (de regozijo, vale ressaltar). Foram elas “Atmosphere” (mas aqui novamente o teclado de Gillian Gilbert parecia ter desaparecido em meio ao som dos demais instrumentos), “Decades” e, finalmente, a apoteótica “Love Will Tear Us Apart”. Balanço final: um set list adequado que trouxe todos os hits que a banda teve no Brasil, músicas novas, favoritas do público e clássicos do Joy Division, ou seja, 40 anos de história bem condensados em duas horas (20 músicas no total). Há quem diga, no entanto, que o New Order de hoje em dia é um grupo acomodado porque prefere se manter seguro na zona de conforto que conquistou. Mas é assim desse jeito que eles conseguem entrar em campo com o jogo ganho – e o público só tem a agradecer.

SET LIST:
Singularity
Regret
Age of Consent
Restless
Crystal
Academic
Your Silent Face
Tutti Frutti
Sub-Culture
Bizarre Love Triangle
Vanishing Point
Waiting for the Sirens’ Call
Plastic
The Perfect Kiss
True Faith
Blue Monday
Temptation
Atmosphere (encore)
Decades (encore)
Love Will Tear Us Apart (encore)

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