REVIEW | Unsealing “Electronic” (Parlophone 1994 Vinyl Re-issue) + unboxing “Use Hearing Protection”

Já faz um tempinho que alguns leitores fiéis deste blog (sim, eles existem!) vêm me cobrando novos posts e atualizações e peço desculpas a eles por escrever tão pouco de uns tempos para cá, mas a verdade é que depois que um filho passa a fazer parte da nossa rotina aquele tempo “livre” que nós temos de quando em vez (ou seja, aquele tempo que nos resta quando não estamos trabalhando) vem sendo usado de maneira bem diferente. Por isso, resolvi publicar este post “dois em um” sobre as últimas aquisições para a minha coleção: a caixa Use Hearing Protection: Factory Records 1978-1980 (lançada no final do ano passado) e o relançamento em vinil do homônimo disco de estreia do Electronic, o extinto projeto paralelo de Bernard Sumner em parceria com o ex-guitarrista dos Smiths, Johnny Marr.

Para começar, relatarei uma desatenção de minha parte. Quando o relançamento da estreia do Electronic foi anunciado, o press release disseminado pelas redes sociais dizia que se tratava de uma edição limitada prensada em vinil branco com venda exclusiva pela store virtual da Rhino Records UK… que, por sua vez, não envia para o Brasil! Eu já estava me preparando para acionar meus contatos no exterior para pedir aquela mãozinha amiga quando então acessei o site da Amazon UK e vi o LP disponível para pré-venda. Não pensei duas vezes: em vez de molestar mais uma vez meus “sócios” gringos, encomendei na Amazon mesmo. Porém, quando o disco chegou, eis a surpresa: o vinil não era branco. Sim, era um bolachão preto Normalzinho da Silva. Voltei lá no anúncio da Amazon para conferir e… é, não havia qualquer menção de que se tratava de um long play branco ou que fosse uma edição limitada. A empolgação com a possibilidade de poder comprar o disco sem ter que recorrer a “esquemas” com os chegados lá de fora me fez esquecer que itens exclusivos da loja virtual da Rhino SÃO REALMENTE EXCLUSIVOS! Além disso, não havia me dado o trabalho de pesquisar sobre uma eventual edição convencional acessível nas melhores lojas do ramo (como a Amazon).

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Mas agora falando do álbum… Electronic já havia ganho outras três reedições lançadas, respectivamente, em 1994, 2013 e 2014: a primeira foi uma versão em compact disc lançada pela Parlophone com uma nova capa (lembrando que o álbum original saiu pela Factory Records), a segunda encarnou em um CD duplo remasterizado (e recheado de extras) e a última e mais recente aparição foi em vinil de 180 gramas (e baseada na remasterização do ano anterior). A nova edição traz a capa da versão de 1994 da Parlophone (que nunca havia saído em vinil antes), mas o áudio é o do remaster de 2013 enquanto que o tracklist é o do 180 gramas de 2014  (que trazia “Getting Away With It” como faixa bônus). No disco laser duplo de sete anos atrás, a nova masterização soa ok. Quer dizer, funciona bem no CD. Já no vinil… Bem, eu nunca pus para ouvir o LP de 2014, de maneira que achei que pelo menos desta vez eu deveria colocar para tocar a recém adquirida reedição (ainda que não fosse a de vinil branco que eu tanto ansiava obter). A primeira coisa que me chamou a atenção foi o volume um tanto baixo. O mesmo problema, aliás, do relançamento em long play de Get Ready (New Order), em 2015. Trocando em miúdos: foi uma dupla frustração.

Mas o assunto agora é o filet mignon, a super-ultra-luxuosa caixa Use Hearing Protection, que por sua vez foi concebida para celebrar o quadragésimo aniversário de nascimento do selo Factory Records. Deixarei de lado a novela que foi importar esse bibelô para me concentrar no que realmente interessa. Limitada em 4.000 cópias numeradas, Use Hearing Protection nos presenteia com edições facsimile (réplicas perfeitas) dos dez primeiros itens / objetos produzidos (e catalogados) pela Factory entre 1978 e 1980, além de alguns bônus bem interessantes. Um dos principais atrativos do box set é, sem qualquer sombra de dúvida, o EP duplo A Factory Sample (FAC 2), relançado de modo oficial pela primeiríssima vez (e disponível única e exclusivamente com a caixa) e com sua estilosa capa confeccionada em PVC. Para quem não sabe, A Factory Sample possui os dois primeiros registros do Joy Division na Factory, as canções “Digital” e “Glass”, além de faixas de Durutti Column, Cabaret Voltaire do comediante John Dowie.

Além de A Factory Sample, o pacote contém outros itens em vinil: “All Night Party” (FAC 5), single de estreia do A Certain Ratio; “Electricity” (FAC 6), primeiro compacto do Orchestral Manoeuvres in the Dark; Unknown Pleasures (FACT 10), o clássico début do Joy Division em LP; e “Big Noise From the Jungle”, um single de 12″ dos Tiller Boys que deveria ter sido lançado pela Factory com o código de catálogo FAC 3 mas que acabou sendo editado originalmente pelo selo New Hormones em 1980. Para completar a lista dos dez primeiros “produtos” catalogados da gravadora, temos ainda pôsteres dos primeiros shows realizados no Factory Club (FAC1, FAC 3 e FAC 4), um papel de carta timbrado num envelope personalizado (FAC 7), um rascunho / sketch do projeto (não concretizado) de um “ábaco menstrual” (FAC 8) e um DVD com o filme No City Fun (FAC 9), baseado em um artigo publicado no fanzine “City Fun” de Liz Naylor, com direção de Charles Salem e trilha-sonora do Joy Division.

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Dentre os extras, a caixa brinda os fãs com dois CDs inteiros de entrevistas I-N-É-D-I-T-A-S do Joy Division (concedidas em 1979 à escritora e cineasta canadense Marry Harron) e um livro de 60 páginas com texto de James Nice (LTM Recordings e Factory Benelux), fotos de Kevin Cummins e entrevistas com Joy Division, Tony Wilson e Rob Gretton. É de arregalar os olhos.

Mas qual é a impressão geral? Se deixarmos de lado o “conceito” por trás da caixa (reunir o que foi produzido pela Factory Records nos seus dois primeiros anos de existência, do FAC 1 ao FAC 10), há itens dentro do pacote que são, sim, dispensáveis… a começar por mais uma edição de Unknown Pleasures, um disco que todo mundo tem e que já foi relançado de todas as maneiras possíveis. O rascunho do projeto do “ábaco menstrual” e o papel de carta / envelope são verdadeiras extravagâncias que só se justificam por causa do tema do box set. Sendo assim, parece coisa de maluco pagar uma quantia nada amigável por Use Hearing Protection para se conseguir uma cópia facsimile de A Factory Sample. Entretanto se considerarmos o livro, o CD duplo de entrevistas inéditas e o filme No City Fun em DVD pela primeira vez, temos um pacote recheado de atrativos suficientes para satisfazer o mais apaixonado, ávido e bem remunerado fã do Joy Division. Ainda assim, pode-se dizer que todo o conjunto vale a pena mesmo se o potencial comprador também for um interessado nas outras bandas incluídas na caixa, principalmente o OMD e o A Certain Ratio (como é o meu caso, sobretudo com relação ao ACR). Afinal, não venha me dizer que existem tantos entusiastas assim dos Tiller Boys!

Agora, que se preparem os fãs porque 2020 promete uma verdadeira sangria nas contas bancárias (ainda mais com o dólar atingindo a estratosfera): “só” para começar teremos uma edição comemorativa de 40 anos do Closer (Joy Division) e a Definitive Edition de Power, Corruption and Lies (New Order). E pode ter certeza de que não vai ficar só nisso. Business as usual!

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REVIEW | New Order em álbum beneficente: “Stand as One: Glastonbury Live 2016”

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Stand as One: iniciativa da Oxfam.

Em agosto deste ano, o New Order voltou a Worthy Farm, em Pilton (Inglaterra), para o que veio a ser sua quarta participação no tradicional Festival de Glastonbury, um dos maiores da Europa. A banda foi uma das principais atrações do Other Stage, por onde também passaram (não necessariamente nos mesmos dias) outros nomes de peso da cena alternativa, como James, Editors, Disclosure, CHVRCHES e LCD Soundsystem. Mas, no exato momento em que o New Order se apresentava, o outro palco, chamado Pyramid, recebia uma das maiores vozes do pop britânico na atualidade: ninguem menos que Adele. Todavia, para os veteranos de Manchester e seus fãs, foi como se a cantora-celebridade e seu público nem estivessem em Worthy Farm. Como em 2014 no Lollapalooza, em São Paulo, quando a plateia teve que escolher entre os representantes da velha guarda indie e um Arcade Fire no auge da popularidade, o New Order fez (de novo) um show digno de sua história e importância para uma audiência que sabia bem o que (ou melhor, quem) queria ver. 

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O show do New Order chegou a ficar um tempo no You Tube – e quem viu, curtiu. Quem não viu, restam agora dois consolos: de um lado, os incontáveis vídeos amadores feitos por quem esteve lá e que ainda estão disponíveis por aí; de outro, um “reles” registro oficial em áudio cedido pela própria banda para um recém-lançado CD beneficente da Oxfam (organização criada em 1942 para dar ajuda humanitária aos povos oriundos de países prejudicados por conflitos). Dedicado à memória de Jo Cox, ativista britânica e integrante do Partido Trabalhista inglês assassinada em junho, e com o propósito de arrecadar fundos para os projetos da Oxfam de auxílio a refugiados, Stand as One: Glastonbury Live 2016 (Parlophone) traz 16 contribuições de artistas que se apresentaram no festival este ano (a versão em MP3 para download contém três faixas a mais).

O New Order colaborou com uma excelente versão ao vivo de um de seus maiores sucessos: “Bizarre Love Triangle”. Presente em todos os set lists da banda, esse clássico de 1986, famoso pelos diversos remixes e reinterpretações que ganhou ao longo dos anos, aqui aparece com a sua mais recente roupagem: um arranjo novo, produzido a partir de um remix feito por Richard X. De tempos em tempos, o New Order atualiza alguns itens de seu catálogo para as apresentações ao vivo. Foi assim com “5-8-6” (que não foi tocada na última edição do Glastonbury), “True Faith” e “Waiting for the Sirens’ Call”. Se não fosse por esse “detalhe”, corria o risco do New Order soar como uma banda cover de si mesmo. Ainda assim, há quem não goste e que preferiria ouvi-los tocar as suas músicas exatamente do jeito como elas são em estúdio.

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Vale a pena conferir a excelente versão ao vivo de “Bizarre Love Triangle” em Stand as One

Esse é o caso, por exemplo, do Editors, que ofereceu para Stand as One uma versão da ótima “Munich” do jeitinho como ela é no álbum de estreia da banda britânica (a faixa só está disponível na versão download). Mas sendo esse um de seus melhores singles, a escolha pode ser considerada acertada. Tão certa, aliás, quanto a inclusão de uma “versão de arena” bem poderosa de “Starlight”, do power trio Muse (com direito a plateia cantando junto a plenos pulmões). Ao lado deles na categoria “auge da carreira”, temos o Coldplay, outra atração do Pyramid Stage, com “Birds”, cuja guitarra soa como The Edge (U2). Da turma que está em ascenção, destaque para as contribuições dos Foals (“What Went Down”) e CHVRCHES (“Bury It”). Todavia, esqueçam a bobagem pretensiosa e chata chamada “Saeglópur”, a cortesia dos islandeses do Sigur Rós. Façam o mesmo com “Eyes Shut” (Years & Years) e “Right Here” (Jess Glyne).

No disco, a ausência sentida foi justamente a da atração mais badalada do festival este ano, Adele. Não há uma faixa sequer de seu show em Stand as One. Será que ela não foi chamada a contribuir? Teria havido problemas com o licenciamento de suas músicas? Ou foi algo a ver com posições políticas? Enfim, não se sabe. O fato é que a inclusão de algum título do seu set list certamente valorizaria mais o disco do que as contribuições de artistas sem grande público em termos internacionais como John Grant, Laura Mvula e Baaba Maal (com todo respeito a eles e seus fãs). Por outro lado, fico feliz em ver o New Order dando uma força nessa questão que, além de importante, está na ordem do dia. E para quem justamente está mais interessado nas questões humanitárias que mobilizaram o projeto Stand as One do que nas músicas, vale a pena mencionar o convidativo preço do CD: £ 9,99 (sem as despesas de envio). O disco pode ser encomendado AQUI.

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