MEMÓRIA | Um raro vislumbre de um mundo privado – Parte I

Hoje trago aqui no blog a primeira parte de uma tradução exclusiva de um dos momentos mais importantes da carreira do New Order na imprensa musical: um artigo / entrevista assinado por Paul Rambali para a edição de julho de 1983 da extinta revista britânica sobre música, moda, cultura e comportamento The Face. A matéria põe foco sobre a banda justamente no momento em que o grupo começava a deixar as sombras do Joy Division com o estouro de “Blue Monday”, o lançamento do LP Power, Corruption and Lies e a parceria com Arthur Baker em “Confusion”. Essa matéria, aliás, teve trechos vergonhosamente copiados ou “conceitualmente plagiados” pelo (hoje) renomado jornalista brasileiro Pepe Escobar para a edição de novembro de 1985 da revista Bizz sem que os devidos créditos às fontes fossem dados.

A segunda parte ainda se encontra em fase de tradução. E a foto do baterista Stephen Morris que ilustra a capa da revista foi tirada por Kevin Cummins.


coverUM RARO VISLUMBRE DE UM MUNDO PRIVADO – Primeira parte
New Order: entrevista a Paul Rambali para The Face, julho de 1983.

Em algum lugar nos arredores do sul de Manchester existe um cemitério. Próximo desse cemitério  temos uma sala de ensaios onde os quatro membros do New Order praticam seus feitiços. E eles entenderam a piada.

“Talvez porque nós soamos tão sombrios… Se é que soamos. As pessoas dizem que sim”.

Peter Hook prefere ser cauteloso com relação a qualquer definição sobre o grupo ou sobre sua música. Ele fica de braços cruzados dedilhando um baixo desplugado. Sobre seu joelho, um formulário de pedido de visto para os EUA para a próxima turnê do New Order.

“Escute isso”, ele grita! “Parece que eles estão atrás de nós: ‘Alguma vez você já ajudou na perseguição de povos por motivos de raça, cor ou credo, incluindo qualquer envolvimento com o Estado Nazista?’”.

O New Order é uma banda nazista? Essa cobrança, que veio à tona antes na imprensa musical, e que foi lançada sobre eles novamente em uma edição recente da revista Private Eye, parece que os flagrou de calças arriadas. Mas afinal, eles são nazistas?

A resposta é negativamente confusa. “Eu não sei”, Hook dá de ombros, “por que todos pensam que somos nazistas?”.

Eles escolheram o nome New Order – que, entre outras coisas, era o termo usado pelo Führer para o que ele pretendia impor ao mundo – porque parecia neutro. “Usaram-no no Tron, mas ninguem chama Walt Disney de nazista”, diz o guitarrista Bernard Sumner – cujo sobrenome real não é Albrecht, como aparece nas capas dos primeiros discos -, que não leva as acusações a sério.

“Você devia ter visto os outros nomes que tivemos na lista”, ele ri. “Temple of Venus… que nem era tão ruim. O que queríamos era transmitir a ideia de mudança, apenas isso”.

Mas eles não estão sendo sinceros. É evidente que não era “apenas isso”. Eles conheciam as conotações da expressão. A mudança se deu a partir de seu antigo nome, Joy Division, garantida pela morte do vocalista Ian Curtis. O nome Joy Division – uma gíria de guerra que se referia às alas dos campos de concentração onde as mulheres judias eram usadas pelos soldados alemães como prostitutas – era fortemente irônico, uma brincadeira mordaz sobre a posição da banda vis a vis a indústria do entretenimento e, talvez, o mundo em geral.

Chamar-se New Order foi, provavelmente, um ato de antagonismo taciturno, parte de uma ação mais ampla para preservar-se das mórbidas fixações da mídia londrina sobre o grupo, seu falecido ex-vocalista, sua música e o que ela certamente representa nas sombras, incluindo a depressão de 1979-1980. Desde então, eles se abrigaram em uma enigmática concha, evitando ser o centro das atenções e se encobrindo num silêncio recluso.

Suas raras, porém sempre lotadas, aparições em Londres foram confinadas em salões irlandeses. As capas de seus discos – ricas extensões planas, lisas e coloridas, com tipografia em negrito e logotipos opacos – contém o mínimo de informação: New Order, título, produtor, gravadora, data. Sua nova integrante, Gillian Gilbert, a namorada de 22 anos do baterista Stephen Morris, juntou-se ao grupo há dois anos, mas ainda tem que ser creditada nas capas.

Por esses e outros motivos, eles têm a fama de serem arredios, insolentes e, no mínimo, difíceis de se entrevistar. Recentemente um colunista da imprensa musical foi convidado para acompanhá-los em turnê no Texas. Seria um bom fundo para uma história, mas havia um problema. O jornalista teria que se bancar sozinho – um pedido sincero de uma banda sem apoio de uma grande gravadora, mas não é o tipo de coisa que a imprensa musical está acostumada a ouvir.

Sua recusa em subir a bordo do carrossel dos negócios e da moda no mundo da música deriva tanto de princípios quanto de um instinto de auto-preservação. Já como um quarteto insular, sua força interior teve que ser testada e endurecida para que eles sobrevivessem de forma convincente à morte de seu vocalista. Praticamente sozinhos entre seus contemporâneos, eles mantêm sua independência. Orgulhosos, teimosos e originais, eles cortejam o ressentimento e – talvez pelas mesmas razões – inspiram devoção.

Sem publicidade, sem vídeos promocionais, sem roupas novas nem fotos na capa, seu último single de 12” vendeu 250 mil cópias na Grã-Bretanha sozinho. “Blue Monday”, uma frágil melodia pregada a uma pesada batida vibrante (e sem conexão aparente com a canção homônima de Fats Domino), recebeu uma truncada, mas ao mesmo tempo arejada versão ao vivo no Top of the Pops – que de maneira significativa alterou sua posição nas paradas.

Por toda Europa, Japão e América do Norte discotecas chiques pulsam ao som de “Blue Monday” – uma versão estendida mixada à mais recente versão novaiorquina de “Planet Rock”. Não é uma mera casualidade que sua música transcenda gostos paroquiais. Ela tem a virtude da simplicidade universal; muitas vezes é pouco mais que uma atmosfera, distinta mas não específica. Os títulos taciturnos das músicas têm uma só palavra – “Ceremony”, “Isolation”, “Transmission”, “Temptation” etc – e são vagos e intercambiáveis à primeira vista, como as capas que elas carregam. Existe um forte sabor de mistério que, tendo eles inventado, não estão com pressa de dissipar.

“O que queremos é apresentar a música sem qualquer lixo periférico em torno dela”, argumenta Bernard Sumner. “Não importa quem tocou o que, ou os instrumentos que usamos ou mesmo quem somos. Se as pessoas gostam da música, isso é o que realmente importa; isso é o que eles estão comprando”.

Seu anonimato autoimposto atingiu esse estágio com o seu novo álbum, no qual apenas aqueles que conhecem a música saberão o que estão comprando. Onde quer que os mantenham, seus corações não estão nas capas dos discos. Desenhado por Peter Saville, o firmemente intitulado Power, Corruption and Lies não traz nenhuma informação além do número de catálogo e um crédito legalmente exigido para as rosas pintadas pelo impressionista francês Fantin-Latour impressas na parte frontal, que também traz uma pequena e falsa escala de cores em um dos cantos. “Peter queria uma pintura clássica na capa”, diz Sumner. “Gostamos da ideia, então ele nos mostrou uma seleção e escolhemos a que queríamos”.

Muita coisa para uma embalagem. Em seus primeiros dois meses de lançamento, o álbum já vendeu 75 mil cópias na Grã-Bretanha, e mais no exterior, especialmente Bélgica, Holanda e Alemanha. O New Order ainda vem sendo abordado para fazer negócios com gravadoras estrangeiras, apesar não ter muitas aberturas na Inglaterra. Em todo caso, eles se contentam em permanecer com o selo independente Factory Products, aberto em 1978 por Tony Wilson, apresentador da emissora de TV Granada.

“Não há um real motivo para nos mudarnos para uma gravadora grande”, diz Sumner. “A vantagem é que eles divulgariam você, te dariam dinheiro para vídeos e publicidade, mas e daí?”. Peter Hook coloca em perspectiva. “Em uma grande gravadora é provável que faríamos o mesmo dinheiro que estamos fazendo agora, mas se vendessemos o que Culture Club vende”.

Quanto eles ganham? Eles pagam a si mesmos um salário de £ 72 para cada um por semana. Mas todos eles dirigem carros último-modelo: Sumner tem um W-Reg Mercedes 200; Stephen Morris possui um Volvo Estate; e Peter Hook é dono de um Audi Coupe, mas sem tração nas quatro rodas – “Oh, eu bem que gostaria. Mas é muito caro”. O resto dos seus ganhos é gasto em equipamentos.

Mas eles dizem que suas vidas pessoais mudaram pouco. Eles ainda vivem nos mesmos lugares: Bernard em Macclesfield, Peter em Moston, Stephen e Gillian em Peel Green. Eles se vestem sobriamente, como sempre o fizeram. Exceto pelo rabo de cavalo de Peter Hook, eles poderiam se passar por jovens bancários suburbanos. Na falta do O-level e de uma grande carreira à espera – estão nisso apenas porque viram os Sex Pistols e o The Clash no Manchester’s Free Trade Hall em 1976 -, o futuro deles poderia ter sido mais comum.

Bernard, Peter e Ian Curtis se conheceram na Salford Grammar School. Aproveitando aquele momento em 1976 com seu amigo Terry – atualmente um técnico de som – e, mais tarde, com Stephen Morris, que tinha acabado de ser expulso da King’s College, em Macclesfield, eles formaram um grupo chamado Warsaw. Inspirados pelo título da canção “Warszawa”, do álbum Low de David Bowie, o Warsaw fez apropriados ruídos ameaçadores dando seus primeiros passos nos acordes sujos e primários do punk rock. Essa energia foi consumida rapidamente.

No final de 1977 essa experiência chegou ao fim. O Warsaw foi para o Pennine Sound Studios em dezembro e reapareceu poucos dias depois como Joy Division e com um EP chamado An Ideal for Living que caiu sobre as sensibilidades moldadas pelo rock progressivo e avant-garde do início dos anos setenta, mas enterradas pelo purgatório cultural punk. Sentindo uma espécie de unidade desesperada nessas gravações, Tony Wilson assinou o Joy Division com o seu novo selo e o grupo começou a trabalhar com o engenheiro de som dos estúdios Strawberry, Martin Hannett.

Mas não sem um curioso interlúdio. Eles caíram nas mãos do DJ de northern soul Richard Searling, que queria que eles gravassem um cover de “Keep On Keepin’ On”, de N. F. Porter – e que ele planejou vender para o selo TK, uma subsidiária da RCA. “Nós tentamos fazer, mas a gente não dava a mínima para versões cover”, relembra Sumner. “De um certo modo, nós o fizemos”, diz Hook. “Nós aprendemos o riff, que foi o máximo que conseguimos fazer, e o usamos em ‘Interzone’”.

No lugar da versão cover, eles levaram cinco dias no estúdio com Searling gravando seu próprio material. As fitas, que mais tarde compraram de volta por £ 1 mil, foram virtualmente demos de seu primeiro álbum. Seu grande momento foi a contribuição de Martin Hannett à sua música: as estruturas e o clima distintivos já estavam lá, a música era completa. Mas a banda lutava contra a sua natural introversão. Eles não tinham restrições, o que mais tarde permitiriam que fervilhassem tão insidiosamente nas mentes dos ouvintes.

Hannett, que trabalhou como químico, trouxe sua obsessão por eletrônica para a mesa de mixagem. Caixas com os mais novos brinquedos de estúdio chegavam dos Estados Unidos. Enquanto o grupo ensaiava, Hannett os equipava. Ele os colocou na linha, indo contra a maré mixando a voz e a guitarra atrás do baixo e da bateria, dando uma definição eletronicamente reforçada às suas arestas irregulares. As primeiras gravações com ele na produção apareceram no EP A Factory Sample, de 1978. Um álbum, Unknown Pleasures, apareceu um ano depois. Esparso, estatuesco, monolítico, como uma vasta paisagem desolada, era musicalmente original e emocionalmente angustiante.

Com o single “Temptation”, lançado no ano passado, o New Order rompeu com Hannett e começou a produzir seus próprios discos. Foi uma decisão consensual, dizem eles, complicada pelo fato de que Hannett estava processando a Factory Records por causa do funcionamento da empresa do qual ele também era diretor (isso já teria sido resolvido fora dos tribunais). A banda não nega que aprendeu com ele.

“Desde cedo ele nos ensinou o que fazer”, diz Hook. “Aprendemos a real física da gravação com ele, apesar de que poderíamos ter aprendido isso com qualquer um. Afinal, não havia muito compromisso de ambos os lados”.

“Produzir nós mesmos nos dá mais satisfação”, acrescenta Sumner. “Sabemos o que queremos e podemos fazê-lo. Com Martin muitas vezes as músicas acabaram diferentes, às vezes melhores, às vezes não. Nós sempre sabemos como queremos que elas soem. A nossa forma de compor uma canção é a começar por improvisar na sala de ensaios. Em seguida, tocá-la ao vivo. Às vezes você não tem nenhuma letra então tudo o que você tem é um punhado de baboseiras. Então você ouve as fitas ao vivo, escreve mais algumas palavras, volta e ensaia um pouco mais. Pelo tempo que levamos para gravá-la dá para saber bem como vai ficar”.

“Nós gastamos uma quantidade enorme de tempo juntos aqui”, comenta Hook. “Mas nós somos preguiçosos. Nós nos sentamos aqui até que ficamos tão entediados que, de repente, surge uma ideia”.

Tipicamente, eles não sentem necessidade de quaisquer opiniões externas sobre sua carreira ou sua música. “Eu não acho que as pessoas estejam em condições de nos dar conselhos”, diz Hook. “Uma carreira é um futuro planejado”, afirma Stephen Morris. “Não há nenhum plano para o futuro.  Nós não fazemos o que achamos que vai dar certo. Nós fazemos o que queremos fazer”.

No entanto, eles confiaram a mixagem final e os overdubs de uma música chamada “Confusion” à Arthur Baker, produtor de Afrika Bambaataa e Rocker’s Revenge. “Confusion” foi escrita e gravada no estúdio de Baker em Nova Iorque em três semanas de fevereiro passado, após uma introdução feita pela Factory dos EUA. “É um experimento”, diz Hook. “Estamos em posição de fazer isso agora”. Um experimento sobre o qual parece haver alguma apreensão. “Isso é porque não o ouvimos ainda”.

(continua em um próximo post!)

 

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