NEWS | FBN anuncia nova compilação de faixas produzidas e remixadas pelos membros do New Order

fbn60Enquanto estamos na contagem regressiva para os shows do New Order e do Peter Hook & The Light no Brasil, o site da Factory Benelux – originalmente uma licenciada da Factory Records para os mercados de Bélgica, Holanda e Luxemburgo que sobreviveu ao naufrágio da sua matriz inglesa  – anunciou recentemente o seu próximo lançamento, a compilação New Order Presents Be Music.

Para quem está por fora: “Be Music” era a editora musical criada pelo New Order no começo da década de 1980 não apenas para o recebimento dos royalties sobre o seu catálogo mas também para servir de “assinatura” toda vez em que seus integrantes estivessem envolvidos em trabalhos fora da banda como produtores ou remixers.

Ao longo dos anos oitenta, Bernard Sumner, Peter Hook, Gillian Gilbert e Stephen Morris produziram vários artistas do cast da gravadora Factory Records, como Section 25, 52nd Street, Quando Quango, Royal Family & The Poor, entre outros. A LTM Recordings, que pertence ao atual comandante da Factory Benelux, James Nice, já havia editado duas coletâneas dedicadas às produções da Be Music: Cool As Ice (2003) e Twice As Nice (2004). Mas New Order Presents Be Music promete ser mais completa. Em um box set de três CDs (ou em LP duplo), a nova compilação, que será lançada em fevereiro do ano que vem, incluirá também remixes mais recentes, produzidos em sua maior parte por Stephen Morris, feitos para nomes como Factory Floor, A Certain Ratio e Section 25. De lambuja, será incluído “Knew Noise”, faixa do Section 25 produzida por Ian Curtis e Rob Gretton.

Segundo a Factory Benelux, a capa (ver foto) será produzida por Matt Robertson em associação com o Peter Saville Studio.

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MEMÓRIA | “Brotherhood” (New Order) comemora 30 anos hoje

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O quarto LP do New Order foi lançado há trinta anos

Há exatos trinta anos, o New Order lançava (pela Factory Records) Brotherhood, seu quarto LP. Produzido pela própria banda e gravado em três estúdios diferentes – o Jam, em Londres; o Windmill Lane, em Dublin (Irlanda); e o Amazon, em Liverpool -, o disco representou uma pequena queda em um gráfico (hipotético, evidentemente) que vinha mostrando uma linha ascendente. Comparado com o seu antecessor, o magnífico Low Life (1985), que havia alcançado o sétimo lugar na parada britânica de álbuns, Brotherhood ficou duas posições abaixo. Na parada dos 200 Melhores Álbuns da revista americana Billboard, ele não repetiu, muito menos superou, o bravo 94o lugar conquistado por Low Life; em vez disso, foi o número 161. Todavia, o quarto rebento do New Order trazia o single “Bizarre Love Triangle”, que estourou nos Estados Unidos e na Austrália, abriu portas para o grupo na América do Norte (no Brasil também foi um enorme sucesso, só que um pouquinho mais tarde) e hoje, tendo se tornado um dos maiores hits da banda e um clássico da década de oitenta, é peça obrigatória nos shows. E a revista Rolling Stone a colocou na sua lista das 500 Maiores Músicas de Todos os Tempos.

Mas a verdade é que “Bizarre Love Triangle” ficou mais conhecida pelo remix produzido por Shep Pettibone, e que posteriormente foi incluído em Substance (1987), do que pela versão original que abre o lado B de Brotherhood. Este, por sua vez, foi concebido em meio a uma disputa entre o vocalista e guitarrista Bernard Sumner e o baixista Peter Hook com relação à direção que o New Order deveria seguir em termos musicais. Esse, aliás, deve ter sido o começo das divergências entre os dois. E isso talvez explique porque soaram um pouco menos inspirados nesse disco. Sumner, que de todos os quatro foi o que mais mergulhou de cabeça na experimentação com sintetizadores e nos ritmos dance, queria fazer um LP totalmente eletrônico; “Hooky” foi contra, pois ele era o grande defensor do lado mais rock do grupo, além de achar de que o New Order deveria continuar sendo uma mistura desses dois estilos.

Bernard Sumner acabou perdendo a queda de braço com o baixista simplesmente porque eles não tinham músicas totalmente eletrônicas o suficiente para preencher um álbum inteiro. Pelo contrário, as faixas nessa vertente que eles possuíam dariam, no máximo, a metade de um disco. O material que faltava foi formado, basicamente, por canções mais “roqueiras”, com o mínimo ou simplesmente nada de sintetizadores. A diferença entre os dois materiais era tão grande que a banda resolveu separá-los em cada lado do vinil: o lado A era o rock; o lado B era o dance. A escolha do título – Brotherhood, que em português quer dizer “fraternidade” ou “irmandade” – era uma espécie de “piada interna” porque representava exatamente o oposto do clima de divisão que se instalou ao longo da produção do álbum.

É praticamente desnecessário dizer que o lado de Brotherhood favorito de Sumner é o B, enquanto que o de Peter Hook é o A… Quer dizer, mais ou menos. Mais recentemente, por ocasião dos shows em que o agora ex-baixista, com sua banda The Light, vinha tocando os discos Low Life e Brotherhood na íntegra, Hooky andou declarando que atualmente ele vem gostando mais do lado B. Na verdade, no vinil, o número de faixas rock é maior que o de canções eletrônicas: são cinco contra quatro respectivamente. Porém, quando o álbum foi lançado em CD, se estabeleceu o equilíbrio: como faixa-bônus, após “Every Little Counts” (música que encerra a edição em vinil), foi adicionado o single “State of the Nation”.

Parte do que viria ser Brotherhood já existia em 1985 e era tocado ao vivo. O caso mais conhecido é o de “As It Is When It Was”, que a princípio seria uma canção que deveria ter feito parte de Low Life. Uma versão dela dessa época pode ser vista/ouvida em Pumped Full of Drugs, um home video ao vivo gravado no Japão. “Weirdo” e “Broken Promise” também já eram conhecidas das audiências dos concertos, enquanto a clássica “Bizarre Love Triangle” fez sua estreia, ainda como tema instrumental, em uma apresentação no The Pavillon, na cidade de Hemel Hempstead, no leste da Inglaterra, no dia 11 de novembro de 1985. Outras músicas, como “Every Little Counts” (uma espécie de hit não oficial do New Order, mas que não é tocada nos shows desde 1989), nasceram durante a produção do LP. Inclusive, essa faixa rendeu uma história curiosa. Ela se encerra repentinamente com um som que parece o de uma agulha de toca-discos sendo arrastada sobre o vinil, fazendo aquele ruído “arranhado” e estridente. Para alertar os consumidores, que poderiam pensar que talvez tivessem comprado um álbum com defeito de fabricação, a gravadora brasileira (a WEA) pôs um aviso no rótulo do lado B: “Música com efeito especial”. Provavelmente essa era uma maneira de evitar trocas desnecessárias ou devoluções. O baterista Stephen Morris explicou que a intenção inicial era encerrar “Every Little Counts” com um “efeito especial” diferente em cada formato de Brotherhood: na versão cassete, haveria o som de fita se “embolando” no cabeçote e, no CD, uma espécie de “tic-tic”. Essa ideia, infelizmente, acabou não sendo levada adiante.

A capa de Brotherhood, como quase todas dos discos do New Order, é um capítulo à parte. Como de costume, a direção de arte foi assinada pelo designer gráfico Peter Saville. A fotografia ficou a cargo de Trevor Key (um colaborador regular de Saville naquela época). Em seu livro de memórias, Chapter and Verse (Bantam Press, 2014, 343 páginas), Bernard Sumner escreveu: “Nós nos demos muito bem com Saville e ainda nos damos. Mas ele tem muito pouco tempo às vezes. Uma vez nós estávamos em Heathrow [N.T.: aeroporto localizado nos arredores de Londres], prestes a embarcar em um avião, e ele chegou correndo, ofegante, com um cigarro na mão e dizendo ‘Esta é a capa de Brotherhood. Gostaram?’ (…) Nos tempos do vinil, quando as pessoas compravam os discos, a arte das capas era muito importante porque representava a banda e seu gosto. Nossa opinião era de que se você comprasse um disco com uma grande capa você estaria levando duas obras de arte pelo preço de uma”.

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Diferentes versões da capa de “Brotherhood”

Para a capa de Brotherhood, Saville usou uma fotografia, feita no estúdio de Key, de uma folha metálica de zinco-titânio submetida ao calor para que sua superfície deformasse. A técnica foi inspirada nos experimentos que o artista plástico neodadaísta francês Yves Klein fazia com os quatro elementos essenciais (fogo, água, ar e terra). Mas aqui se verifica, também, um retorno às influências do ready made e da found art. As inscrições que aparecem na capa são, na verdade, as informações de catalogação do fabricante da folha de metal – no meio das quais, curiosamente, aparece um “1986”, o ano de lançamento do álbum. Uma tiragem limitada da primeira prensagem de Brotherhood na Inglaterra possuía um efeito metálico real que posteriormente foi repetido na primeira edição em CD lançada pela Factory na Inglaterra e, anos mais tarde, na reedição da London Records pela série New Order Collection. As atuais edições remasterizadas em vinil e CD trazem um remake da arte original que apenas emula de forma grosseira o efeito. Todas as demais edições lançadas ao longo dos anos e no resto do mundo trazem a versão “econômica” (e pouco atrativa) da capa. Mas nada se compara com o que a WEA fez em 1987, quando lançou o disco no Brasil: a gravadora adicionou um “New Order” em maiúsculas e negrito bem na frente, descaracterizando o trabalho original. Isso, inclusive, chegou a causar mal estar no ano seguinte, quando a banda descobriu a “façanha” durante sua primeira passagem pelo país para shows.

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Placa de zinco-titânio utilizada para a produção da capa de “Brotherhood”: influência do artista plástico Yves Klein. 

Jean-Yves de Neufville chamou a atenção para a capa de Brotherhood na crítica/resenha que escreveu para a revista Bizz por ocasião do lançamento do álbum (na Inglaterra): “na prateleira da loja, não vá confundi-la com aquelas placas que separam os discos por ordem alfabética (…) É o New Order transmitindo sua não-imagem para obrigarem as pessoas a se concentrarem na sua música. Só nos resta obedecer”. No mesmo texto, Neufville classifica o disco como sendo “o mais recente e melhor da banda” e que possui “uma aparente simplicidade que esconde uma produção sofisticada”. Curiosamente, ao longo dos anos, Brotherhood foi sistematicamente atacado pelos fãs por justamente possuir uma produção mais “fraca” e “preguiçosa” em comparação com os demais itens da discografia da banda: sua engenharia de som e sua mixagem sempre foram alvo de críticas. Mesmo assim, particularmente no Brasil, o LP tem um imenso fã clube que chega inclusive a colocá-lo acima de uma obra-prima como Technique (1989).

A verdade é que Brotherhood divide opiniões até hoje. Para Q Magazine, que publicou uma resenha/crítica retrospectiva sobre o disco em 1993, o álbum “sofre com a ausência de grandes canções, com a exceção de ‘Bizarre Love Triangle'”. Posição não muito distante da de Josh Modell, do site de entretenimento A.V. Club: “um grande desconhecido do catálogo ofuscado por um single estrondoso”. John Bush, do site AllMusic.com, o vê de outra forma e disse que “para o bem ou para o mal, este New Order não tinha mais nada a provar, exceto continuar fazendo boa música”. David Quantick, da Uncut, escreveu que “era o New Order se tornando New Order e se alguem tinha o direito de não ser mais o Joy Division, esse alguem eram eles”. O baterista Stephen Morris fez coro junto aos críticos: em entrevista dada ao site Noisey este ano, disse que o disco “foi feito de um jeito esquizofrênico porque estávamos tentando colocar os sintetizadores de um lado e as guitarras de outro, o que não funcionou… Eu acho melhor quando se mistura um pouco mais”. Mistura na qual, à parte alguns errinhos aqui e ali, o New Order se tornou um dos principais especialistas.

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HISTÓRIA | “Get Ready” comemora 15 anos hoje

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Get Ready: oito anos após Republic

“O New Order já fez discos melhores do que esse, mas nenhum com tanta carga emocional e amplo barulho para levá-la adiante (…) Get Ready é o som de uma grande banda se libertando de seu passado diante de seus ouvidos”. Isso foi o que a Q Magazine escreveu sobre o sétimo álbum de estúdio do New Order, que foi também seu segundo disco pela London Records (gravadora com a qual a banda assinou após a falência da Factory Records, em 1992) e o último realizado por sua formação clássica – Bernard Sumner, Stephen Morris, Gillian Gilbert e Peter Hook. Lançado há exatos 15 anos, Get Ready foi escolhido pela mesma Q Magazine um dos 50 Melhores Álbuns de 2001. A revista New Musical Express também colocou o álbum na lista dos seus “cinquenta mais” daquele ano, mas ao contrário da concorrente disse que o CD “soa mais New Order do que qualquer outro disco do New Order. Único e brihante”. Ambas estão certas.

Todavia, o desempenho do álbum nas paradas não se comparou ao de seus antecessores, Technique (1989) e Republic (1993), que, na Inglaterra, haviam alcançado a posição mais alta. Mesmo com os elogios da crítica, Get Ready não passou do sexto lugar no Reino Unido – em todo caso, estar no Top 10 depois de oito anos mostra que a banda ainda estava de bola cheia. “Crystal”, o single que puxou o álbum, ficou no oitavo posto, outra bela recuperação já que “Spooky”, o quarto e último saído de Republic, não havia passado do 22o lugar. Hoje, a música – que nem deveria ter sido gravada pelo New Order, como veremos adiante – é um dos clássicos do grupo.

Mas os caminhos que levaram a Get Ready foram sinuosos desde o começo. A banda se reuniu em 1998, após um hiato de cinco anos, para fazer uma série de concertos (o último tinha sido no Reading Festival, em 1993). No ano seguinte, o New Order recebeu uma proposta do diretor Danny Boyle (de Trainspotting) para participar da trilha-sonora do que viria a ser seu próximo filme, A Praia, estrelado por Leonardo Di Caprio e baseado em um romance de Alex Garland. De acordo com Peter Hook: “Nós fomos convidados para compor algo novo para esse filme… foi bem em cima da hora, nós tivemos que fazer a música enquanto o filme era feito. Era como um aquecimento para tentarmos um recomeço. Foi a primeira coisa que nós escrevemos. E também queríamos experimentar com produtores diferentes. O Rollo do Faithless estava por aí e ele realmente se divertiu trabalhando com a gente, mas não era o som que faríamos depois. Fizemos um som mais hard em seguida”. Dave Thompson, em seu livro True Faith: An Armchair Guide to New Order, Joy Division etc (Helter Skelter, 2005, 187 páginas), discorda: “Na verdade, ‘Brutal’ não soa tão distante do que eles tinham em mente fazer depois”. Isso é fato.

Ainda em 1999, saiu a notícia de que eles estavam produzindo material novo em estúdio. Os títulos provisórios de algumas faixas chegaram a ser divulgados, mas poucas delas teriam sido concluídas. De acordo com Thompson, fontes da época diziam que aquele material soava entre o Joy Division na fase Closer e um “Electronic com Peter Hook”. No meio disso tudo, havia uma faixa em clima ambient de nove minutos que se chamaria “The Deepest Sea”. Mas os rumores foram desaparecendo à medida em que existiam sinais claros de que não havia nada realmente pronto para ver a luz do dia. Todavia, o “espírito do Joy Division” parecia mesmo ter sido invocado, uma vez que o grupo acabou emendando um projeto de recriação, em estúdio, do clássico “Atmosphere” para um álbum beneficente chamado Cohesion: Manchester Aid to Kosovo & Mines Advisory Group Benefit (basicamente, seria uma versão igual a que vinham tocando ao vivo). A “nova cara” para a música do Joy Division, entretanto, acabou não entrando no disco. Paralelamente, Bernard Sumner participaria do álbum Xtrmntr, do Primal Scream, e Peter Hook lançaria o segundo CD do seu projeto-solo, o Monaco.

Em 2000 a banda se reuniria novamente no estúdio de propriedade do casal Gillian Gilbert e Stephen Morris, que fica em uma fazenda localizada em Derbyshire. Dessa vez, a coisa finalmente “aconteceu”. Thompson assim descreve: “os quatro estavam relaxados tocando juntos, mas também estavam relaxados tocando uns contra os outros – uma sutileza eletrizante dos primeiros dias, é claro, mas um compromisso virtual no momento em que chegaram a Republic. É aquele velho e batido cliché da “química”. “É nisso que dá ficarmos separados por tanto tempo. Nos faz perceber que a força do New Order está em tocarmos juntos. Uma vez que a gente volta a tocar, encontra a química que está ali em algum lugar e se sente seguindo em frente”, disse Peter Hook, que falou ainda mais: [gravar Get Ready] foi provavelmente a melhor coisa que eu já fiz com esses caras. Sumner estava certo o tempo todo. Nós precisávamos de um tempo para nós mesmos. Agora, se temos algo em mente, simplesmente colocamos em prática. É muito melhor assim”.

De várias maneiras, Get Ready provou mesmo ser um disco de “retorno às raízes”. As declarações acima descrevem uma atmosfera que, historicamente falando, talvez só encontre paralelo ou semelhança com os tempos do Joy Division. Steve Osbourne, que produziu o álbum, teve sua parcela de contribuição nisso também. De acordo com a banda, o produtor, que na época tinha em seu currículo Happy Mondays, Placebo e Suede, em alguns aspectos lembrava Martin Hannett: ele buscava algo “místico” no estúdio e era perfeccionista – para alcançar determinado resultado, pedia que o quarteto refizesse ou tocasse algo novamente inúmeras vezes. O resultado foi um disco mais orgânico, com maior ênfase nas guitarras e com o lado mais dance e pop da banda ficando em segundo plano. De fato, isso foi o mais próximo que o New Order havia chegado do Joy Division em tempos, mas em nenhum momento Get Ready soava como se a banda estivesse tentando emular o som da sua antiga encarnação. Pelo contrário, ainda soava como New Order.

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Get Ready em modo Lego (by Christoph!)

Get Ready também foi o começo de uma prática hoje comum: a participação de “convidados especiais” em seus discos. Em retribuição à colaboração de Sumner em Xtrmntr, Bobby Gillespie (voz) e Andrew Innes (guitarra), do Primal Scream, deram uma força em “Rock the Shack”, um garage rock cru e visceral; em “Turn My Way”, contaram com a guitarra e a voz de Billy Corgan, do Smashing Pumpkins. Corgan, aliás, tem uma história longa com o New Order. Ele conheceu o grupo pessoalmente aos 15 anos de idade graças à amizade que ele tinha com um cara que trabalhava como promoter dos shows da banda. Quando saiu o disco-tributo ao Joy Division A Means to An End na década de 1990, ele assinou um cover de “Isolation” sob o alter-ego Starchildren; além disso, “Transmission” costumava ser tocada nos shows dos Pumpkins. Foi ideia de Bernard Sumner chamá-lo para “Turn My Way”, já que o vocalista do New Order gostava do Smashing Pumpkins e da voz de Corgan – e para isso pediu que Peter Hook, que o conhecia melhor, o fizesse.

Todavia, a grande “estrela” de Get Ready é a sua faixa de abertura e primeiro single, “Crystal”. De acordo com Hook: “A escolha de ‘Crystal’ como primeiro single foi inevitável. Ela simplesmente veio… parecia muito óbvio, ela é realmente bem direta, soa bem diferente e muito poderosa”. Curiosamente, ela se tornou uma música do New Order por um “capricho do destino”. Em 1999, o músico e produtor Mark Reeder, britânico radicado na Alemanha e amigo de Bernard Sumner, era o feliz proprietário da gravadora de música eletrônica Mastermind For Success (ou simplesmente MFS), que ele havia criado no começo da década de 1990 quando comprou, do próprio bolso, a infraestrutura da gravadora estatal da antiga Alemanha Oriental; nessa época, o selo de Reeder andava meio em baixa depois que sua maior revelação, um certo Paul Van Dyk, decidiu deixar a gravadora. Para dar uma força ao velho amigo, Sumner gravou os vocais, sem instrumentos, de uma canção inédita e os deu de presente para Reeder. Este pôs a gravação nas mãos de uma nova aposta sua, um DJ húngaro chamado Corvin Dalek, que mixou os vocais de Sumner a uma faixa instrumental de sua autoria que estava engavetada desde 1997. Dalek mostrou o resultado a Reeder, que gostou do que ouviu e ajudou o jovem DJ a fazer alguns ajustes finais na faixa, que chamaram de “Crystal”.

Reeder procurou Sumner para lhe mostrar o que ele e Dalek tinham feito. O vocalista do New Order ficou impressionado, para dizer o mínimo. Porém, uma “mão invisível” agiu nessa hora. Antes que Reeder e Dalek transformassem sua demo track em uma versão definitiva e a lançassem, com direito a remixes, Sumner, ingenuamente, a mostrou para o A&R (“artistas e repertório”) da London Records, Pete Tong. Este, consciente do enorme potencial do que tinha acabado de ouvir, não perdeu tempo: correu para o telefone, ligou para Reeder e disse “Você não pode lançar essa faixa!”. Ele insistiu para que Mark persuadisse Sumner a gravar “Crystal” com o New Order. Por força do poder econômico (a grande gravadora de Londres versus o selo alternativo de Berlim), Tong conseguiu mais do que isso: “convenceu” Reeder a engavetar a demo mix feita por Dalek e ele e a lançar os remixes dessa versão apenas depois que a gravação do New Order saísse. É a lei do dinheiro.

Já a capa de Get Ready, como de costume, tem sua vida própria. Feita por Howard Wakefield e Sam Roberts, mas sob a direção de arte de Peter Saville (sempre ele), ela traz a atriz alemã Nicolette “Coco” Krebitz fotografada por Juergen Teller, um conceituado fotógrafo de arte e de moda de origem tcheco-germânica e que hoje em dia também é professor da Academia de Belas Artes de Nuremberg. Anos atrás, no auge do extinto Orkut, houve uma discussão interessante sobre as capas de Peter Saville na comunidade “New Order Brasil” e eu citei uma referência ao designer feita pelo Doutor em Comunicação e professor da UFRJ André Villas-Boas em seu livro Utopia e Disciplina (2AB, 1998, 200 páginas) – e não é que, surpreendentemente, o autor em pessoa entrou no bate-papo, enriquecendo o debate! Cito essa história porque o professor Villas-Boas havia feito uma bela análise da capa de Get Ready naquela comunidade. Segundo ele, a modelo “desglamurizada”, isto é, de aparência ambígua/andrógina, de pele oleosa e cabelos desarrumados, vestindo “trapos”, em vez de exibir charme, beleza e um look “de grife”; que fotografa/filma quando deveria ser ela o foco das lentes; e a tarja vermelha no lugar do nome do artista (que não aparece em lugar nenhum) transmitem a seguinte mensagem: a imagem não é o que conta, o que vale é o som, a música. Não importa sequer que a banda por trás dela apareça, ou mesmo que se saiba de quem se trata, como se chama etc. Concentre-se apenas na música. Puro Saville, puro New Order. Juntos, eles inventaram o anti-marketing na indústria musical – uma “estratégia” cujo resultado (não premeditado) foi muito mais a bem sucedida promoção da banda do que a venda dos discos.

Apesar de tudo o que foi dito antes, os primeiros versos do disco – “Nós somos como um cristal… quebramos fácil” – acabaram prenunciando os tempos complicados que viriam mais adiante. Get Ready foi dedicado à memória de Rob Gretton (que era o manager desde os tempos do Joy Division e que havia falecido em 1999). Gillian Gilbert deixou a banda logo após o álbum ficar pronto para se dedicar às filhas de seu casamento com Morris, tendo sido então substituída nos shows por Phil Cunningham (que mais tarde se tornaria membro oficial). O revival em torno do Joy Division veio em seguida e se transformou em um monstro faminto e fora de controle – e obrigou a banda a competir com seu próprio passado. Mas Get Ready reverberou como todo bom álbum do New Order costuma fazer. Ele serviu de inspiração para o B-52’s em Funplex (2008), que inclusive contou com a produção de Steve Osbourne, e o vídeo de “Crystal” ajudou a batizar uma banda cujo vocalista é um fã incondicional do N.O. Alguem sabe que banda é essa?

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REVIEW | Livro “Peter Saville: Estate 1-127”

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Como eu não vi esse livro antes?

“Garimpando” na internet em busca de algo com o qual minha esposa pudesse me presentear no Dia dos Namorados (sei que parece confuso, mas é isso mesmo), encontrei uma coisa que, apesar do meu sempre alerta radar de fã, passou despercebido: um livro sobre o designer gráfico Peter Saville, o homem por trás da identidade visual da legendária gravadora Factory (da qual foi um dos fundadores) e das capas impessoais e totalmente fora do lugar comum dos discos do Joy Division e do New Order. Publicado em 2007 pela editora de arte JRP, de Lionel Bovier, o livro se chama Peter Saville: Estate 1-127. Bom, antes de mais nada, cabe esclarecer que esse não é o único livro dedicado a Saville e seu trabalho. Em 2003 a editora Frieze lançou Designed by Peter Saville, que foi um enorme sucesso (hoje já está fora de catálogo). E também em 2007 a Thames & Hudson publicou Factory Records: The Complete Graphic Album – FAC 461, um grande volume dedicado à contribuição dele e de outros artistas gráficos à definição da “imagem da Factory”. O livro da Thames & Hudson, ao contrário de Designed by Peter Saville, continuou sendo reimpresso.

Mas parece que Peter Saville: Estate 1-127 não foi uma “surpresa” apenas para mim. Após publicar uma foto do livro no Instagram deste blog, logo apareceram comentários de outros fãs da categoria “casca grossa”, estrangeiros inclusive, nos quais estes confessavam que nunca o tinham visto antes. Depois que o livro foi entregue aqui em casa (alguem achou mesmo que eu não o encomendaria?), pude não somente entender melhor sua proposta, mas também desenvolver um palpite sobre o por que dele não ser tão conhecido – pelo menos não entre fãs de Joy Division, New Order e Factory Records. Estate 1-127 tem como tema a exposição sobre Peter Saville realizada em 2005 no Migros Museum für Gegenwartskunst (Museu de Arte Contemporânea de Migros), em Zurique (Suíça). Essa exposição foi menos dedicada ao produto final e às obras acabadas que aos métodos e processos de trabalho do designer. Por isso, é provável que o público-alvo do livro seja formado, em sua maioria (tal como a audiência da exposição), por apreciadores de arte contemporânea e profissionais/estudantes de artes visuais do que fãs de música pop.

Por isso, não espere por um livro recheado de fotos de capas de discos. Algumas delas até dão o ar da graça, mas a proposta é fazer as pessoas conhecerem um pouco mais o processo criativo do artista. Até porque Saville não passou a vida toda fazendo somente emabalagens originais e elegantes para guardar espécimes daquele nosso “preto que satisfaz” (o vinil). Ele já produziu trabalhos e campanhas para Dior, Lacoste e Stella McCartney, desenhou a camiseta da seleção inglesa de futebol para a Umbro em 2010 e mais recentemente foi convidado pela prefeitura de Manchester para desenvolver o novo design da cidade: de placas com os nomes das ruas a abrigos de pontos de ônibus. Sendo seu modus operandi o foco principal de Estate 1-127, o livro mostra maquetes, esboços, páginas de enciclopédias ou de catálogos de perfuradores, objetos achados/recolhidos no lixo, em brechós, garage sales e o que mais pudesse servir de inspiração ou material a ser trabalhado (no sentido tanto literal quanto conceitual).

Mas tão importante quanto o “acervo” apresentado no livro são os ensaios que ele inclui (em inglês) e que, de maneira “didática”, isto é, da forma mais pedagógica que se é possível chegar quando o assunto são textos sobre arte, nos ensinam a entender o trabalho de Saville. Segundo um dos ensaístas, Heike Munder: “Em contradição com o mero papel de apoio para um propósito externamente determinado, o trabalho de Saville enfatizou o espírito da época [zeitgeist] e seus métodos espelham uma ideia de si mesmo como um produtor cultural dentro de uma estrutura social. Saville tirou proveito de variadas categorias de imagens e diversas fontes históricas da vanguarda clássica – como o construtivismo e o futurismo italiano – e as importou em suas tarefas criativas, entrelaçando esses materiais que ele reciclou em um complexo processo de aplicação. Ao invés de simplesmente copiar, ele se dedicou a uma forma inteligente de apropriação, na qual o original é engenhosamente incorporado e transformado, ao invés de ser degenerado em uma citação”. Ao ler isso, impossível eu não me lembrar de um sujeito (bem ignorante) em uma comunidade do extinto Orkut que disse que a capa de Movement (New Order) era tão simples e sem graça que até o filho pequeno dele seria capaz de criar e fazer.

Estate 1-127 também mostra o lado fotógrafo de Peter Saville – um talento pouco conhecido. O livro traz uma série de fotos de sua autoria chamada It All Looks Like Art to Me Now [trad.: “tudo parece arte para mim agora”], na qual cenas protagonizadas por objetos, como um rolo de fita crepe pendurado na fechadura de uma porta ou materiais de uma obra/reforma repousados sobre a pia de uma cozinha, capturados por suas lentes em lugares que vão desde um estúdio da emissora alemã de televisão WDR à Frieze Art Fair de Londres, nos remetem facilmente a “esculturas” ou instalações em uma galeria de arte contemporânea. Nesse trabalho, mais uma vez se evidencia o gosto pelo ready made e, naturalmente, a influência incontestável de Marcel Duchamp e do dadaísmo (um de seus “lemas” era: “use todas as superfícies como espaço de trabalho, inclusive carpetes, mesas de café, armários e cômodas”). O próprio conceito por trás dessa série fotográfica – “tudo parece arte para mim agora” – serviu de mote para uma exposição posterior de Saville, chamada Accessories to an Artwork, realizada na galeria de arte Paul Stolper (Londres), em 2008, e que teve os pedestais das peças em exibição desenhados e construídos pelo próprio designer – dando a entender que mesmo eles, reles e banais pedestais de galerias e museus, também seriam (ou poderiam ser) obras de arte.

O livro Estate 1-127 foi, pelo menos para mim, um belo achado. Como eu já havia comentado alguns parágrafos acima, talvez não seja exatamente o que um interessado em cultura pop esteja buscando – nem todo mundo que ama essa maravilhosa arte de fazer capas de discos é amante de arte. O percentual de fãs de música realmente interessado em questões de conceito e de método por trás das artes de seus álbuns e singles favoritos é muito reduzido. Mas, no caso de Peter Saville, quando a curiosidade ultrapassa o que está impresso no quadrado de papelão, descobre-se por trás daquela imagem um complexo universo de referências, tanto da dita “alta cultura” quando da chamada “cultura popular” ou do cotidiano, cujas fronteiras são totalmente dissolvidas. Essa é a diferença entre um artista e quem apenas desenha capas de LPs e CDs.

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DIY |Fazendo meu próprio CD ao vivo personalizado do New Order

WARNING: This project is for my personal enjoyment only and I’m just sharing with the readers my own experience on the process. I will not sale any copies from that work. Please, do not insist. The artwork is just inspired by Saville design as the following text explains. This blog respects New Order’s copyrights and their partners.

asset (2)Em novembro do ano passado eu tirei a sorte grande: por motivos profissionais, fui a Paris e, de quebra, além da oportunidade de crescer no meu campo de trabalho e expandir meus horizontes, pude conhecer uma bela e charmosa cidade e, também, ver o show de estreia da turnê do álbum Music Complete, do New Order. Eu já havia visto a banda ao vivo fora do Brasil outras vezes – Lima, Santiago e Montevidéu -, mas essa ocasião foi a primeira em solo europeu. Foi, portanto, um momento especial. Por essa razão fui ao show (realizado no elegante Casino de Paris) preparado para trazer para o Brasil uma lembrança: por debaixo de um sobretudo, escondi um gravador e um microfone para registrar aquela apresentação na íntegra.

Nos últimos dias, até por uma questão de relaxamento e higiene mental, resolvi que essa recordação não deveria se resumir a arquivos de áudio guardados em um HD junto a centenas de outros shows do New Order. Seria bom se esse material ganhasse “vida”, isto é, materialidade. Algo que eu pudesse também ver e manusear – e até mesmo mostrar a um amigo enquanto contasse histórias sobre a viagem e o show. Então decidi fazer por contra própria meu disco ao vivo personalizado do New Order, no formato box set, que batizei de Musique Complète, que nada mais é do que Music Complete em francês. Resolvi compartilhar aqui no blog todo o processo de produção, desde a gravação até a elaboração e confecção da parte visual, na qual experimento um pouco do que aprendi sobre design (pelo menos em termos de ideias e conceitos) com os desenhistas industriais que tenho na família. O que não vou compartilhar, de maneira alguma, é a minha gravação do show. Além do valor sentimental, não é objetivo do blog oferecer cópias de qualquer material – oficial ou não. E certamente há outras gravacões piratas desse concerto à solta pela rede, de modo que não se faz necessário insistir pela minha e nem que eu comercialize réplicas do meu projeto pessoal Musique Complète – ele não está a venda!

O equipamento que utilizei para gravar o show foi: (a) um gravador digital estéreo Sony ICD-PX440 (ajustado em “Modo Cena: Performance Musical”); (b) microfone estéreo Sony ECM-CS10. Tudo muito simples e barato perto dos Roland R-05 que alguns fãs gringos do New Order usam, mas eles bem que ficariam surpresos com o resultado que eu obtive. O segredo do meu “sucesso”, dizem, foi o meu microfone (de boa qualidade). Bom, voltando à gravação: o Sony ICD-PX440, quando configurado para “Performance Musical”, se ajusta automaticamente para fazer o registro em MP3 a 192kbps. É o melhor que ele pode fazer, infelizmente. Mas a gravação ainda teria que passar pelos processos de “mixagem” e “masterização” no “estúdio”: um Macbook Air equipado com um Mac OS X Yosemite 10.10.5 rodando o Audacity 2.1.2. Havia ainda trabalho a ser feito.

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O pequeno Sony ICD-PX440: chupa essa Roland R-50!!!

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O ECM-CS10: a dica de ouro foi não economizar no microfone.

No Audacity, a primeira coisa que fiz foi aumentar o gain (ganho) do áudio em +2 dB (dois decibeis). Se eu subisse mais do que isso, além de produzir distorção, eu seria mais um bravo soldado na chamda loudness war (masterização e lançamento de gravações de digitais com volume cada vez mais alto) e, dessa maneira, eu “mataria” a gravação. No caso dessa, o charme dela é justamente seu caráter “caseiro” e “pirata” – sua imperfeição é parte de sua qualidade, ainda que um som baixo demais não seja algo de fato desejável. No mais, apliquei o noise reduction (remoção de ruídos) e subi levemente os graves, estes sempre os mais prejudicados em gravações “clandestinas”. Com esses ajustes, um único grande arquivo MP3 a 192kbps se transformou em dezenove arquivos WAV a 320kbps. Joinha!

Amostra: New Order, “True Faith” (ao vivo no Casino de Paris, 04 de novembro de 2016).

Para transferi-los para os CDs, utilizei o iTunes na versão 12.3.3 – usei o próprio programa para subir um pouquinho mais o ganho na transferência para a mídia física (mas não muito!) e para dar mais um reforço aos graves através do equalizador na opção bass amplifier. O resultado, experimentado num CD player Tascam CD200 ligado a um pré-amplificador + amplficador de potência + pré-equalizador Unic AC800 e a um equalizador Behringer Ultragraph Pro FBQ1502 não foi menos que excelente. Resolvidas as questões de gravação, mixagem, masterização, etc, havia chegado a hora de cuidar da parte visual.

A arte produzida para o projeto teve como inspiração o álbum Music Complete. Criado por Peter Saville e executado por Paul Hetherington, o conceito que foi batizado de Techno Tudor contém características que se tornaram preponderantes nas capas dos discos do New Order: minimalismo, color blocks, logotipos opacos e destaque para a tipografia, mix de texturas, grandes espaços “vazios” ou “em branco” (tidos como “sem função” no design pop tradicional, mas amplamente valorizados por Saville). Procuramos reproduzir esses elementos introduzindo, é claro, um toque pessoal. O importante é que o produto final resultasse em algo próximo ao que a experiência de um álbum do New Order propõe: um deleite não apenas para a audição, mas também para a visão e para o tato. Uma segunda inspiração foi uma edição limitada em 300 cópias do CD BBC Radio One: Live in Concert (1992) produzido em um estojo de madeira. Esse conceito, no entanto, foi obra do estúdio de design Mental Block, porém inspirado nos trabalhos de Saville.

Referências para a arte de nosso Musique Complète

Para a “capa frontal”, desenhei um arranjo de linhas negras espessas e cores que remetiam à capa do álbum Music Complete, algo que se situa entre as fachadas da arquitetura Tudor (conhecidas como fachwerk ou enxaimel) e os quadros de Piet Mondrian. Entretanto, por motivos óbvios, os “espaços vazios” entre as linhas foram preenchidos com as cores da bandeira da França (azul, branco e vermelho). Em uma faixa lateral de fundo incolor (ou branco, se preferir assim) no lado esquerdo, escrevi New Order: Musique Complète utilizando a mesma tipografia escolhida por Saville e Hetherington no CD Music Complete, a AG Schoolbook – e que por sua vez foi empregada em todas as partes textuais da arte. Essa parte do projeto gráfico foi impressa sobre papel fotográfico glossy adesivo de 135g, aplicado sobre a tampa de uma caixa feita de medium-density fiberboard (MDF, ou “fibra de madeira de média densidade”).

A arte inclui também os itens que se encontram dentro da caixa. Um deles é uma espécie de “encarte” de 11,5cm x 22,5cm (altura x largura) dobrado no meio, como uma capa simples – ou seja, sem ser do tipo libreto – de um CD album case. Esse encarte contém, na sua parte frontal, os dizeres New Order: Musique Complète. En Directe dans le Casino de Paris Mercredi 4 Novembre 2015. Na parte traseira, ou “contracapa”, digamos, temos o tracklist completo dos dois discos. Quando o encarte é aberto, há apenas um New Order: Musique Complète na página da esquerda, com alinhamento vertical ao centro, mas horizontalmente alinhado mais próximo à linha da dobra, enquanto que a página da direita encontra-se completamente vazia. Além de corresponder ao minimalismo típico dos trabalhos de Saville com o New Order, visualmente ficou estiloso (a intenção, na verdade, era outra… mas um “feliz acidente” na impressão resultou em algo menos “careta” do que eu tinha em mente no início). O encarte foi feito em papel canson branco (textura granulada) de 130g/m2. Não foi uma escolha aleatória: a origem do papel canson é… francesa!

Além do encarte, a caixinha traz três “postais” (chamemos assim por falta de um nome mais apropriado). Todos os três foram impressos em papel fotográfico matte (ou seja, fosco) de 170g, com medidas de 10cm x 15cm (altura x largura). No primeiro incluí uma reprodução da arte da capa, nosso Techno Tudor à francesa, porém sem qualquer informação textual; no segundo, pus uma foto que fiz do show no Casino de Paris (nela aparece toda a banda durante a execução de “Ceremony”); o terceiro e último é, na verdade, um “segundo encarte” que contém os créditos do nosso CD duplo.

Para proteger os discos, utilizei envelopes plásticos para CDs transparentes de espessura média, de 132mm x 123mm (altura x largura) e 10g. A aba dos envelopes foram retiradas com um estilete para que se transformassem em holders. Na parte frontal de cada um deles, fixei uma arte em fundo branco de 9cm x 9cm feita com o papel adesivo – em uma se lê Disque UN (disco um) e, na outra, Disque DEUX (disco dois). O UN eu destaquei em negrito azul, enquanto que o DEUX foi evidenciado em negrito vermelho. Além de uma vez mais fazer alusão às cores da bandeira da França, era também uma forma de remeter aos holders / encartes do LP Substance (1987). Para completar, eu fiz para cada holder um inlay de papel canson (o mesmo que usei no encarte) de 11,3cm x 11,3cm, cada um contendo a lista de faixas dos respectivos discos.

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Os encartes do LP duplo “Substance”: por possuírem as mesmas cores da bandeira da França serviram de referência para os holders dos CDs.

O resultado final ficou exatamente como pretendido. Além de bonito para os olhos, a caixa reúne diferentes texturas: a do aglomerado, a do papel com brilho, a do papel canson e a do papel fotográfico fosco. A cereja do bolo foi a inclusão, como “brinde”, do pin badge que os Vikings – grupo de fãs europeus hardcore do New Order que segue a banda por todos os lugares – fizeram para essa tour (e que me deram de presente na noite do show em Paris).

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NEWS | New Order anuncia lançamento de “Complete Music”

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Capa de “Complete Music”

O New Order fez hoje em suas redes sociais e em sua webstore oficial o anúncio do lançamento de Complete Music, que seria, nas palavras da própria banda, “uma nova edição do álbum Music Complete. Porém, ao contrário do que o vocalista e guitarrista Bernard Sumner havia declarado recentemente em uma entrevista a Mike Doherty, publicada no site da revista Salonnão se trata de um álbum com novas versões extended ou retrabalhadas do último disco do grupo, lançado em setembro do ano passado. Segundo um texto publicado hoje no perfil do New Order no Instagram“devido à grande demanda, estamos disponibilizando pela primeira vez em CD, download e streaming as versões estendidas da edição limitada em vinil”.

O texto acrescenta ainda que “com uma arte alternativa de Peter Saville, Complete Music será lançado como CD duplo em uma capa digipack e em download de áudio de alta qualidade”. A data anunciada para lançamento é 13 de maio e a pré-venda já está liberada na lojinha virtual do New Order. Ambos formatos permitirão o download da versão original de Music Complete.

TRACKLIST
DISC 1:
1. Restless – Extended Mix
2. Singularity – Extended Mix
3. Plastic – Extended Mix
4. Tutti Frutti – Extended Mix
5. People on the High Line – Extended Mix
6. Stray Dog – Extended Mix
DISC 2:
1. Academic – Extended Mix
2. Nothing But a Fool – Extended Mix (2)
3. Unlearn This Hatred – Extended Mix
4. The Game – Extended Mix
5. Superheated – Extended Mix (2)

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REVIEW | “Singularity” (single)

CeUye1EUIAAtoTA“Singularity” foi a primeira faixa do material que a banda estava escrevendo para o álbum Music Complete a ser apresentada publicamente. Isso aconteceu ao vivo, no dia 30 de março de 2014, em Santiago, no palco Playstation, enquanto encerravam a segunda noite da edição chilena do festival Lollapalooza com o Soundgarden (que estava em outro palco). Eu estava lá – e mal podia acreditar que, pela primeira vez, pude assistir o début de uma música antes mesmo dela ser lançada. Me recordo de, no dia seguinte, ter encontrado o vocalista e guitarrista Bernard Sumner no aeroporto Arturo Merino Benítez, quando a banda estava para embarcar em um voo a caminho da Argentina, e de ter dito a ele de que eu havia gostado muito da “música nova” (o que era a mais absoluta verdade, ainda que o som do show em Santiago estivesse muito ruim). Barney, que estava autografando meus encartes dos CDs Singles e Live at Bestival 2012, levantou a cabeça, arregalou os olhos, abriu um largo sorriso de satisfação e disse, com toda a simplicidade que há no mundo: “Yeah, que bom que você gostou!”.

Por causa da foto de um set list de ajuste entre iluminação e BPMs (batidas por minuto) que caiu na internet, instantaneamente a música ficou conhecida como “Drop the Guitar” – um título, alías, com toda pinta de provisório. Mas a banda não demorou muito para divulgar, em seu próprio site oficial, que seu nome verdadeiro era “Singularity”. No final de semana seguinte, em São Paulo (Autódromo de Interlagos), Bernard Sumner pegou o microfone e encerrou de vez a história antes de tocá-la novamente: “Esta se chama ‘Singularity’ e não ‘Drop the Guitar’, como andam dizendo por aí. Procurem na Wikipedia!”.

Da primeira apresentação ao público, em março de 2014, ao seu lançamento como single, em março de 2016, se passaram dois anos. De lá para cá, “Singularity” assumiu uma posição alta no repertório da banda: além de ter derrubado “Crystal” do posto de opener dos shows, ela é hoje uma das músicas de Music Complete que os fãs mais gostam. Recentemente, a banda apresentou uma versão ao vivo irrepreensível no The Late Show with Stephen Colbert que ganhou destaque no site da revista Rolling Stone. Todavia, como single, “Singularity” recebeu da atual gravadora da banda, a Mute Records de Daniel Miller, o mesmo tratamento dos dois anteriores, “Restless” e “Tutti Frutti”: primeiro saiu uma versão editada disponível no formato digital single download, seguido da divulgação do vídeo promocional e do áudio de um ou dois remixes no canal oficial da banda no You Tube, até que, finalmente, vieram os lançamentos em formatos físicos (CD e clear vinyl de 12″ colorido).

“Singularity” não traz nenhum lado B, somente remixes (os últimos singles do New Order a trazerem b-sides foram “Here to Stay” e o re-issue de “World in Motion”, ambos em 2002). Se no passado um remix costumava ser, via de regra, apenas um rearranjo dos elementos originalmente contidos na versão oficial, hoje em dia é uma autêntica reinterpretação, uma faixa “nova” construída a partir de alguns pedaços – samples – da canção original. Nesse terceiro single de Music Complete, o New Order recrutou para o seu time de colaboradores gente como Steve Dub, Erol Alkan, Mark Reeder, J. S. Zeiter e a banda Liars.

Pessoalmente, apesar de gostar muito de “Singularity”, sempre tive a impressão de que não era uma música lá muito fácil de se remixar. Opinião compartilhada, aliás, por um dos remixers escalados para essa empreitada (Mark Reeder). O engenheiro de som Craig Silvey, por exemplo, errou a mão na hora de passar a tesoura na gravação original para criar a versão “Single Edit”. Não que a culpa fosse dele – mas eu acho muito difícil encontrar pontos apropriados na faixa onde se pode fazer uma edição sem que a intervenção cirúrgica não pareça muito evidente. O mesmo já não se pode dizer da versão estendida. O DJ californiano Steve Dub ficou com o trabalho mais fácil – alongar a música em vez de encurtá-la – e se deu melhor. Seu “Extended Mix” é o mesmo que foi incluído na edição Deluxe Vinyl Box Set de Music Complete e o resultado final não é menos que magnífico.

O produtor musical e DJ Erol Alkan é, sem sombra de dúvida, um dos nomes badalados dentre os escolhidos para turbinar “Singularity”. Por ter sido durante tanto tempo o DJ residente do club londrino Trash, que também já recebeu shows de bandas como LCD Soundsystem e Bloc Party, e por ter remixado faixas de Hot Chip e Chemical Brothers, suas contribuições estavam entre as mais aguardadas entre os fãs gringos dos New Order. Todavia, seus “Stripped Remix” e “Extended Rework” não estariam, ao meu ver, entre os mehores remixes de “Singularity”. Não são ruins, todavia. Apenas ok. O “escorregão” fica por conta mesmo do “Liars Remix”: a banda nova-iorquina assinou um remix que, embora conserve grande parte dos elementos da gravação original, peca pela falta de imaginação. A tentativa de emular um som mais dark, como se quisessem prolongar a atmosfera soturna da introdução do mix oficial, soa estéril e fútil. Resumindo: esquecível (ele é uma espécie de bonus track na versão download do single, que pode ser obtida através de uma senha/código que acompanha a edição em vinil de 12″).

Por outro lado, quem curte techno vai viajar nos remixes de J. S. Zeiter, que também atende pelo nome de MCMLXV. Ele nos oferece seu “J. S. Zeiter Remix” (disponível na versão em CD) e sua contraparte predominantemente instrumental, “J. S. Zeiter Dub” (incluída no vinil). Não chegam a ser memoráveis, mas os considero melhores que os remixes do super-idolatrado Erol Alkan, principalmente a versão dub. Mas a “cereja do bolo” mesmo são as reinterpretações de Mark Reeder (“Duality Remix” e “Individual Remix”). Reeder merece mesmo um pouco mais de destaque aqui. Ele é um velho conhecido do New Order – na verdade, ele é um amigo próximo desde os tempos do Joy Division. Naquela época ele fazia parte de uma banda chamada Shark Vegas, mas ainda na década de 1980 ele se mudou para a Alemanha Ocidental, onde se tornou um representante da Factory Records e, também, produtor musical, DJ e dono da gravadora Mastermind for Success. É de Reeder e de outro DJ, o húngaro Corvin Dalek, a primeiríssima versão de “Crystal” (já com os vocais de Barney Sumner), que viria a se tornar um hit do New Order. Além disso, Reeder é a figura central do filme B-Movie: Lust and Luxury in West Berlin 1979-1989, que mistura imagens documentais e reconstituídas para traçar uma espécie de painel musical e cultural da outrora Berlim Ocidental, do punk à Love Parade, e que foi usado na montagem no vídeo promocional de “Singularity”.

O “Duality Remix” é surpreendentemente curto para os padrões de hoje – a versão disponível no CD está editada e possui 3’49”, enquanto que a gravação que acompanha o download tem 4’57”. Apesar da pequena duração, esse remix é um gigante. Seguramente, é o melhor de todos. Já o “Individual Remix” não é uma versão estendida do anterior. Pelo contrário, é um remix totalmente diferente, ainda que possua trechos e partes que remetam ao “Duality”. Trata-se de uma versão mais elaborada e complexa, mas peca justamente por dispensar a concisão e a perfeição objetiva da outra. Mesmo assim, é uma pérola.  Heil Mark Reeder!

Como bonus track, o CD e o 10 Track Audio Download (adquirido não apenas via código que acompanha o vinil, mas também através de download pago direto) trazem o remix de Tom Rowlands (Chemical Brothers) para “Tutti Frutti” e que havia sido disponibilizado para ser baixado de graça em dezembro do ano passado como “presente de Natal” para os fãs.

Para finalizar: a edição em vinil de 12″ de “Singularity” contém ainda um “brinde” um tanto quanto curioso. Trata-se de uma folha de papel branca impressa com um diagrama causal do buraco negro, acompanhado de um texto explicativo. De acordo com a astronomia, um buraco negro se forma quando uma estrela em colapso gravitacional desaba sua massa em direção ao seu próprio centro, tornando-se capaz de atrair ou “sugar” para o interior desse ponto toda matéria próxima. O buraco negro seria um exemplo de “singularidade gravitacional” (sacaram a conexão?). Observando com atenção o diagrama causal do buraco negro, se descobre com facilidade qual foi a inspiração do designer Peter Saville para a capa de “Singularity”.

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