NEWS | FBN anuncia nova compilação de faixas produzidas e remixadas pelos membros do New Order

fbn60Enquanto estamos na contagem regressiva para os shows do New Order e do Peter Hook & The Light no Brasil, o site da Factory Benelux – originalmente uma licenciada da Factory Records para os mercados de Bélgica, Holanda e Luxemburgo que sobreviveu ao naufrágio da sua matriz inglesa  – anunciou recentemente o seu próximo lançamento, a compilação New Order Presents Be Music.

Para quem está por fora: “Be Music” era a editora musical criada pelo New Order no começo da década de 1980 não apenas para o recebimento dos royalties sobre o seu catálogo mas também para servir de “assinatura” toda vez em que seus integrantes estivessem envolvidos em trabalhos fora da banda como produtores ou remixers.

Ao longo dos anos oitenta, Bernard Sumner, Peter Hook, Gillian Gilbert e Stephen Morris produziram vários artistas do cast da gravadora Factory Records, como Section 25, 52nd Street, Quando Quango, Royal Family & The Poor, entre outros. A LTM Recordings, que pertence ao atual comandante da Factory Benelux, James Nice, já havia editado duas coletâneas dedicadas às produções da Be Music: Cool As Ice (2003) e Twice As Nice (2004). Mas New Order Presents Be Music promete ser mais completa. Em um box set de três CDs (ou em LP duplo), a nova compilação, que será lançada em fevereiro do ano que vem, incluirá também remixes mais recentes, produzidos em sua maior parte por Stephen Morris, feitos para nomes como Factory Floor, A Certain Ratio e Section 25. De lambuja, será incluído “Knew Noise”, faixa do Section 25 produzida por Ian Curtis e Rob Gretton.

Segundo a Factory Benelux, a capa (ver foto) será produzida por Matt Robertson em associação com o Peter Saville Studio.

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WHO IS? | Mark Reeder: o homem da Factory (e do New Order) na Alemanha

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Mark Reeder: de Manchester a Berlim

Já dissemos isso aqui em outra ocasião, mas não custa nada repetir: o sucesso de um artista solo ou banda não depende apenas de talento. Um pouco de sorte cai bem, é claro, mas ter pessoas certas atuando nos bastidores, fora da luz dos holofotes, também faz a diferença. Que o digam os Beatles: sim, eles eram geniais e carismáticos, mas a história deles teria sido a mesma sem Brian Epstein, George Martin ou Geoffrey Emerick? Talvez não. Quando se fala de Joy Division e New Order, impossível não mencionar Tony Wilson, Rob Gretton ou Martin Hannett. Para o bem ou para o mal. Ao longo da história dessas duas bandas, outros nomes mais ou menos ilustres foram deixando sua marca. Um exemplo é Arthur Baker, o DJ e produtor norteamericano que com a seminal “Confusion” ajudou o New Order criar um blend de synth pop inglês e puro eletrofunk negro novaiorquino. O resultado foi eternizado em vinil.

Falaremos mais de Arthur Baker em outra ocasião. O personagem deste post é outro. Ele atende por Reeder. Mark Reeder. Mas quem ele é? Como Baker, ele é produtor musical. Bom, pelo menos é isso o que ele é hoje na maior parte de seu tempo. Entretanto, Reeder tem um longo currículo de serviços prestados à música – o que inclui vínculos sólidos e permanentes com o New Order. Assim como Baker.

Reeder, como o New Order, é de Manchester (norte da Inglaterra). Em 1977, ele criou, ao lado de Mick Hucknall (do Simply Red), a banda punk Frantic Elevators. O primeiro contato com o membros do Warsaw (versão embrionária do Joy Division) aconteceu nessa época, período no qual vinha se formando em Manchester uma cena punk cuja explosão fora detonada por uma histórica apresentação dos Sex Pistols na cidade. Mas Reeder não ficou muito tempo com os Frantic Elevators (que, na verdade, sequer duraram muito) e, no ano seguinte, mudou-se para a Berlim Ocidental. A transferência para a (hoje extinta) República Federal da Alemanha, no entanto, deu início ao relacionamento que perdura até os dias de hoje: Reeder se transformou no representante da Factory Records em solo alemão e a promoção de bandas como Joy Division e A Certain Ratio estava em suas mãos.

Em 1981, quando o Joy Division já havia se transformado em New Order, Reeder passou a administrar três carreiras simultâneas: homem da Factory na Alemanha Ocidental, engenheiro de som de bandas locais como Malaria! e Die Toten Hosen, e integrante (como guitarrista e tecladista) de um novo grupo, chamado Die Unbekannten (“o desconhecido”), formado com Alistair Gray (nos vocais) e Tommy Wiedler (ex-Nick Cave & The Bad Seeds, na bateria). O Die Unbekannten se transformaria, pouco tempo mais tarde, no Shark Vegas, com Wiedler sendo substituído por Leo Walter e, também, com a aquisição de um novo integrante, o baixista e tecladista Helmut Wittler. Com o Shark Vegas, Mark Reeder saiu em turnê com o New Order pela Europa Ocidental em 1984 (Alemanha Ocidental, Áustria, Suíça, Holanda e Bélgica).

Mas até então, nada de colaborações em estúdio. Isso só viria a ocorrer, pela primeira vez, em 1986: o single de maior sucesso do Shark Vegas, “You Hurt Me”, foi produzido pelo vocalista e guitarrista do New Order, Bernard Sumner, que também contribuiu com um trecho de guitarra. O disco seria lançado pela Factory Records e, também, pelo selo da banda Die Toten Hosen. “You Hurt Me” foi uma peça-chave não apenas na consolidação da relação Reeder-Factory-New Order, como também aprofundou a amizade entre o músico-produtor radicado na Alemanha e Sumner, que vinha sendo cultivada desde os tempos em que Mark promovia o Joy Division em solo germânico. “You Hurt Me” hoje está disponível em CD em diversas coletâneas, dentre elas Twice As Nice: Be Music, DoJo, Mark Kamins & Arthur Baker Productions, lançada pela LTM Recordings em 2004.

Reeder também foi um personagem fundamental por trás do single responsável pelo retorno triunfal do New Order no começo do século XXI. Em 1999, o produtor era o feliz proprietário da gravadora de música eletrônica Mastermind For Success (ou simplesmente MFS), que ele havia criado no começo da década de 1990 quando comprou, do próprio bolso, a infraestrutura da gravadora estatal da antiga Alemanha Oriental; nessa época, o selo de Reeder andava meio em baixa depois que sua maior revelação, um certo Paul Van Dyk, decidiu deixar a gravadora. Para dar uma força ao amigo, Bernard Sumner gravou os vocais, sem instrumentos, de uma canção inédita e a deu de presente para Reeder. Este pôs a gravação nas mãos de uma nova aposta sua, um DJ húngaro chamado Corvin Dalek, que mixou os vocais de Sumner a uma faixa instrumental de sua autoria que estava engavetada desde 1997. Dalek mostrou o resultado a Reeder, que gostou do que ouviu e ajudou o jovem DJ a fazer alguns ajustes finais na faixa. Chamaram-na de “Crystal”. Nascia um clássico.

Reeder procurou Sumner para lhe mostrar o que ele e Dalek tinham feito. O vocalista do New Order ficou impressionado, para dizer o mínimo. Porém, a “mão invisível” do destino agiu nessa hora. Antes que Reeder e Dalek transformassem sua demo track em uma versão definitiva e a lançassem, com direito a remixes, Sumner, ingenuamente, a mostrou para o A&R (“artistas e repertório”) da London Records (gravadora do New Order na época), Pete Tong. Este, consciente do enorme potencial do que tinha acabado de ouvir, não perdeu tempo: correu para o telefone, ligou para Reeder e disse “Você não pode lançar essa faixa!”. Ele insistiu para que Mark persuadisse Sumner a gravar “Crystal” com o New Order. Por força do poder econômico (a grande gravadora de Londres versus o selo alternativo de Berlim), Tong conseguiu mais do que isso: “convenceu” Reeder a engavetar a demo mix feita por Dalek e ele e a lançar os remixes dessa versão apenas depois que a versão do New Order fosse lançada. É a lei do dinheiro. Mas o resto é história: “Crystal” atingiu o #8 na parada britânica de singles, #1 na parada Hot Dance Singles Sales da revista Billboard (EUA) e ajudou a colocar o álbum Get Ready (2001) em sexto lugar na Inglaterra. A versão “original” hoje pode ser encontrada em um dos álbuns “solo” de Reeder: Collaborator, de 2014 (Factory Benelux).

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12″ com remixes de Corvin Dalek para sua “versão original” de “Crystal” com Mark Reeder (lançado após versão do New Order)

O imbroglio envolvendo “Crystal” não abalou a relação Reeder/Sumner, ou Reeder/New Order. Em 2009, dois anos após a tensa separação do New Order (marcada por desentendimentos públicos com o hoje ex-baixista Peter Hook), saiu o primeiro e único álbum do Bad Lieutenant, Never Cry Another Tear (Triple Echo Records), grupo que Bernard Sumner formou com os guitarristas Phil Cunningham (ex-Marion, New Order) e Jake Evans (ex-Rambo & Leroy). Mark, a pedido de Sumner, remixou os dois singles do “Bad Loo”: “Sink or Swin” e “Twist of Fate”. Essas versões foram posteriormente incluídas em uma outra compilação de remixes de Reeder, Five Point One (2011). Aliás, tanto Five Point One quanto Collaborator são dois discos altamente recomendáveis – o blog assina embaixo.

Este ano, Mark Reeder voltou a dar o ar da graça para os fãs do New Order. Ele foi um dos responsáveis pelos remixes do último e mais recente single da banda, “Singularity”, o terceiro saído do álbum Music Complete, lançado no ano passado. “Singularity” acabou alcançando o primeiro lugar da parada britânica de singles físicos (CD e vinil). A escalação de Reeder não foi por acaso. Para promover o single, foi feito um vídeo contendo cenas extraídas do filme alemão B-Movie: Lust and Sound in West Berlin 1978-1989, lançado no ano passado. O personagem principal da película é o próprio Reeder. Dirigido por Jörg Hoppe, Klaus Maeck, Heiko Lange e Miriam Dehne, é um filme experimental, que mescla imagens documentais e outras reconstituídas, mas dispostas cronologicamente, e que retrata o desenvolvimento não apenas de uma cena musical, mas de todo um caldo cultural, que vai do punk até a Love Parade (maior festa de música eletrônica da Alemanha) e a criação da MFS. Mark também esteve diretamente envolvido na trilha-sonora do filme, como curador e, também, estrela de várias faixas. Uma versão “reconstruída” de “Komakino”, do Joy Division, foi incluída. Junto com lançamento do filme em DVD e Blu Ray, foi lançada também a trilha-sonora em CD e LP duplos. 

Reeder é mais um elo da conexão New Order – Alemanha que começou, evidentemente, com Ian Curtis, ainda nos tempos do Joy Division, e sua obsessão por tudo o que vinha de lá (como o Kraftwerk, por exemplo). Porém, para ficarmos apenas na nossa paróquia, recomendamos uma espiada nos trabalhos do moço com outros artistas como John Foxx, Depeche Mode, Marsheaux, Anne Clark ou Westbam. Vale a conferida.

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NEWS | “Tutti Frutti” ganhará edição japonesa exclusiva

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Capa da edição japonesa de “Tutti Frutti”

O mercado fonográfico japonês sempre oferece aquele “algo mais” que deixa os fãs de música popular no Ocidente de olho grande. Os seguidores do New Order que o digam. Três exemplos: em 2001 saiu na Terra do Sol Nascente um EP com “Crystal” e quatro faixas gravadas ao vivo no Reading Festival de 1998; em 2005 a edição nipônica de Waiting for the Sirens’ Call tinha uma versão de “Krafty” cantada em japonês como faixa bônus; e no ano passado, o último álbum, Music Complete, tinha como extra na edição japonesa uma versão estendida de “Restless”. Desta vez, o single “Tutti Frutti”, o segundo saído de Music Complete, será lançado em vinil de 12 polegadas no Japão, mas em uma versão diferente: além da capa ser azul (em vez de amarela, como na edição inglesa), a bolacha terá no lado B um remix do músico e produtor Takkyu Ishino (o lado A é o mesmo, o “Extended Mix”). Ishino é também integrante de uma banda de synthpop chamada Denki Groove. A data programada para o lançamento é 16 de março, mas o vinil já está disponível para pré-venda no site da Amazon japonesa. Enquanto isso streaming do remix de Takkyu Ishino encontra-se liberado em sua página no Soundcloud – confiram logo abaixo.

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RE-ISSUES | The Invisible Girls: o lado músico de Martin Hannett

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Martin Hannett: foi sócio da Factory Records e produziu Joy Division e New Order. Mas também era músico e tinha uma banda.

O filme parte história real, parte ficção, A Festa Nunca Termina, de Michael Winterbottom, que mostra os personagens (Tony Wilson, Rob Gretton), bandas (Joy Division, New Order, Happy Mondays) e empreendimentos (Factory Records, The Haçienda) que ajudaram a colocar a cidade de Manchester (norte da Inglaterra) no mapa da música pop mundial, possui duas cenas clássicas envolvendo o produtor Martin Hannett, magistralmente interpretado pelo versátil ator britânico Andy Serkis:

    1. Tony Wilson (interpretado no filme por Steve Coogan) pára seu automóvel em um descampado, no que parece ser uma área rural. Ele sai do carro e encontra um sujeito de cabelos desgrenhados (Hannett/Serkis), cigarro pendurado na boca, andando de um lado para o outro, segurando um grande microfone apontado para o céu e com um gravador à tiracolo. Wilson, que não está tão próximo de Martin, lhe dirige a palavra, em voz alta: “Ei, Martin, o que você está fazendo?”. O homem do microfone, irritado, responde: “Gravando… o silêncio!”. “Gravando o silêncio??”, Wilson retrucou, perplexo. E a resposta foi “Não! Agora estou gravando a porra do Tony Wilson!!”.
    2. Nos Strawberry Studios, em Stockport, durante a gravação do primeiro LP do Joy Division, Stephen Morris (Tim Horrocks) está na sala de gravação tocando um solo de bateria. Do outro lado do vidro, na sala de controles, Martin Hannett, desesperadamente, grita “Chega! Chega!”. E o baterista para. Em seguida, Hannett diz para Morris: “Bateristas fazem isso há anos e, particularmente, já estou de saco cheio disso. Vamos tentar algo diferente… Rápido, porém lento”. Todos (banda, Wilson, empresário) se olham e alguem solta: “Ele está falando sério?”.

Apesar do filme ser bastante caricato e de carregar nas tintas, com a intenção deliberada de fazer piada com o que, na realidade, era absurdo (a história da Factory é cheia de tropeços inacreditáveis), o retrato que Winterbottom fez de Hannett em seu filme não é assim tão distante do personagem real. O próprio Stephen Morris, em seu depoimento no documentário Joy Division, confirmou a história do “rápido, porém lento” e ainda acrescentou outras pérolas de Hannett do tipo “toque isso um pouco mais amarelo”. E tal como mostrado na telona, ele tinha pouca tolerância com os músicos e não os deixava ficar no estúdio enquanto ele trabalhava na edição e mixagem das gravações.

Mas essa excentricidade toda só contribuiu para tornar o mito em torno de Hannett ainda maior, já que seu talento como produtor, evidenciado, por exemplo, nos álbuns do Joy Division, ficou famoso. Mas poucos conhecem um outro lado do produtor: o de músico. Ao lado do tecladista Steve Hopkins, Martin Hannett era a outra metade do The Invisible Girls. E é sobre essa “banda” incomum que falaremos nas próximas linhas.

Hannett e Hopkins se conheceram em um show do Soft Machine em 1976. Mas foi o empréstimo de um sintetizador ARP2600 que realmente deu início ao elo entre os dois, que, no mesmo ano, engataram a primeira parceria: a trilha sonora de um curtametragem de animação chamado All Sorts of Heroes, dirigido por Rick Megginson e Steve Hughes. Martin tocou o baixo e alguns teclados; Hopkins era tecladista em tempo integral. Mas nessa época ainda não tinham adotado o nome The Invisible Girls. Isso só aconteceria em 1978, quando prestaram serviços como banda de acompanhamento do poeta mancuniano John Cooper Clarke em seu segundo álbum, Disguise in Love. Desde quando passaram a acompanhar Clarke, a dinâmica do The Invisible Girls passou a ser essa: Hopkins e Hannett formavam o núcleo permanente da banda (teclado e baixo), mas os postos dos demais instrumentos seriam preenchidos por músicos convidados que sempre mudariam. Nessa primeira fase, se juntaram à dupla o baterista Paul Burgess e os guitarristas Lyn Oakey e Pete Shelley (Buzzcocks). Martin também assumiria o papel de produtor de toda e qualquer gravação envolvendo as “Garotas Invisíveis”.

James Nice, o homem que hoje controla as gravadoras Les Disques du Crépuscule e a ressuscitada Factory Benelux, capitaneou dois (re)lançamentos dedicados ao The Invisible Girls. Em primeiro lugar saiu em 2014 – Pauline Murray and The Invisible Girls; o segundo, intitulado Martin Hannett / Steve Hopkins: The Invisible Girls, veio à luz no ano passado. O primeiro é uma reedição remasterizada e expandida do álbum de estreia da ex-vocalista do grupo punk Penetration e que contou com o Invisible Girls como banda de apoio; o segundo é uma compilação, que reúne muitas faixas inéditas ou que não tinham sido lançadas em formato digital antes.

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Pauline Murray and The Invisible Girls (1980)

Após o fim do Penetration, a vocalista Pauline Murray, acompanhada do ex-baixista da banda (e que viria a ser seu marido), Robert Blamire, estava tentando levar adiante o projeto do seu primeiro disco solo. A dupla procurou Martin Hannett com o objetivo de tê-lo como produtor, mas no final Pauline e Blamire acabaram ganhando o Invisible Girls como parceiros na empreitada. Com Hopkins nos teclados e Robert Blamire como “membro honorário” da banda tocando o baixo, o grupo foi completado, como de costume, com convidados: John Maher (ex-Buzzcocks) na bateria, Dave Hassell na percussão e, nas guitarras, Dave Rowbotham (Fast Breeder) e Vini Reilly (Durutti Column). Hannett não tocou nenhum instrumento, mas assumiu a produção (dividindo-a com Hopkins) e, com seu parceiro, escreveu os arranjos. O engenheiro de som era ninguem menos que Chris Nagle, outro parceiro de Hannett, e que trabahou em Unknown Pleasures, do Joy Division, e Movement, do New Order. A edição expandida da Les Disques du Crépuscule (o LP original saiu em 1980) é excelente: além de um belo encarte, recheado de informações e com fotos, são dois CDs. No disco 1, temos o álbum original remasterizado, o single “Searching for Heaven” (que traz Bernard Sumner, do New Order, como convidado na guitarra solo) e versões Peel Sessions. O disco 2 é todo ao vivo e traz faixas gravadas em 1981 na Holanda (Amsterdam Paradiso e Den Haag Paard van Troje) e 1980 na Inglaterra, sendo que somente as registradas em solo britânico foram de fato tocadas pelos Invisible Girls “originais” (i.e., os que tocaram no disco). Outro detalhe que vale a pena mencionar: a capa foi desenhada por Peter Saville, o designer que assinou todas as capas do Joy Division e do New Order.

Martin Hannett / Steve Hopkins: The Invisible Girls, por sua vez, é cheio de surpresas – mas, advertimos, não é para quaisquer ouvidos. A compilação pode ser dividida em três momentos diferentes. As primeiras cinco faixas (instrumentais, como quase todas do CD) formam o bloco mais acessível. Gravadas entre 1980 e 1987, são canções com DNA pop, apesar da ausência de vocais. Hopkins exibe sua habitual proficiência nos teclados, enquanto Hannett se ocupa da “cozinha”: ele toca baixo e bateria nessas gravações. E na funky “Huddersfield Wastes”, Martin toca até guitarra ritmica. Mas é nesse terço do disco é que se pode notar com absoluta nitidez a famosa marca registrada de muitos discos produzidos por Hannett, em especial os do Joy Division: o som da bateria, seco e esparso, com um eco sutil, mas ainda assim notável.

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Martin Hannett & Steve Hopkins: The Invisible Girls (2015)

O bloco seguinte é o mais perturbador e sombrio. Nele predomina a contribuição de Martin Hannett como produtor e co-autor de trabalhos de artistas e bandas como Nico (“Procession”, uma das raras faixas cantadas do disco), Section 25 (“Collective Project”), Crispy Ambulance (“Concorde Drone”), Vini Reilly / Durutti Column (“First Aspect of the Same Thing” e “Second Aspect of the Same Thing”). Nesse mesmo segmento do álbum há espaço ainda para uma incursão solo de Hannett, “The Music Room”, porém creditada aos Invisible Girls, e a retomada da dobradinha com Hopkins em “Space Music”, um experimento com sintetizadores. Esse seria o “Lado B”: mais experimental, em vários momentos parece que estamos ouvindo velhos discos de krautrock. Mas esse grupo de canções nos ajuda a entender os caminhos e territórios percorridos pelas bandas que Martin produziu ao longo da sua carreira.

As bonus tracks vêm no terceiro lote: são as canções da trilha sonora de All Sorts of Heroes. Na verdade trata-se de uma peça homônima dividida em nove partes. Desta vez parece que estamos ouvindo pequenas jammings de um minuto e meio ou dois. A bateria floreada, o sax e o piano evocam um clima jazzy que em nada lembra a orientação leftfield dos Invisible Girls. Há ecos do chamado “rock progressivo” aqui e ali. Curioso, se levarmos em consideração que essas gravações foram feitas um ano antes da explosão do punk rock na Inglaterra – e em 1977 Martin Hannett estaria produzindo o EP Spiral Scratch, dos Buzzcocks. Existiriam mais conexões entre o prog rock e o punk do que faz crer nossa vã filosofia? Talvez a obra feita nas sombras, quase “invisível”, do The Invisible Girls seja a resposta a essa questão.

Enfim, a semente do que Hannett plantou nos discos do Joy Division e dos primórdios do New Order foi produzida em laboratório nos experimentos realizados com Steve Hopkins no Invisible Girls, uma banda cujo papel de coadjuvante não significou, em momento algum, ser ofuscado pelo brilho das estrelas principais. Pelo contrário: o envolvimento da dupla fez toda a diferença. Infelizmente, esse gênio dos estúdios não viveu o bastante para prosseguir colocando sua assinatura tanto em discos alheios quanto no trabalho do Invisible Girls: após se afundar no álcool e nas drogas ao longo da década de 1980, Martin nos deixaria em 1991, aos 43 anos, devido a um ataque cardíaco.

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