REVIEW | Peter Hook & The Light ao vivo no Audio Club, SP (10.10.2018)

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Foto: Yuri Murakami (Music Drops)

Num bar bem próximo ao Audio Club, em São Paulo, algumas horas antes do show do Peter Hook & The Light, um grupo de fãs que dividia uma mesa havia chegado a uma melancólica conclusão: que fazer ininterruptas turnês pelo mundo tocando os velhos sucessos em palcos minúsculos e para pequenas audiências era algo um tanto quanto deprimente para quem havia feito parte de uma banda que outrora foi sinônimo de vanguarda.

Provavelmente muitas pessoas pelo mundo afora compartilham esse mesmo sentimento. Mas basta Peter Hook entrar em cena e começar a palhetar seu baixo (sempre colocado à altura dos joelhos) para esse lamento desaparecer. Como já dissemos aqui no blog em ocasiões anteriores, Hook conhece bem as armas que tem e sabe usá-las com destreza. Ele tem carisma e presença de palco, o que faz com que boa parte da plateia nem se incomode tanto com o fato de que seus vocais são sofríveis e que, ainda por cima, ele não consegue tocar baixo e cantar ao mesmo tempo (coube a Yves Altana a tarefa de dar aquele par extra de mãos nas quatro cordas). Além disso, ao contrário da versão atual de sua ex-banda, ele oferece ao público porções bem mais generosas de clássicos do Joy Division, para o delírio de uma nova geração de fãs que surgiu no rastro do revival em torno do grupo nas últimas décadas. E de quebra suas turnês vêm percorrendo quase a totalidade do extenso catálogo que ele ajudou a construir ao longo de trinta anos. Em outras palavras: Hook é o sujeito que costuma entrar em campo com o jogo já ganho.

Mas no palco do Audio o que se viu ao longo de duas horas e meia de performance foi uma apresentação com vários altos e baixos. Comecemos pela sonorização: no set de abertura, totalmente dedicado ao Joy Division, o som estava tinindo e “no talo”; mas foi só entrar no repertório do New Order, mais eletrônico e cheio de camadas, que os problemas aqui e ali começaram a aparecer. Embora os baixos elétricos de Hook e Altana soassem bem potentes, os grooves eletrônicos de certas faixas eram praticamente inaudíveis. Em “Fine Time” e “All the Way”, por exemplo, algumas linhas de teclado também soavam muito baixas. Uma bela versão de “Run” foi lamentavelmente prejudicada em seus instantes finais por um apagão (literalmente falando) no sintetizador do tecladista Martin Rebelski. No bis – estelar – as coisas pareciam mais bem equilibradas novamente nesse aspecto, para sorte do público (que, diga-se de passagem, não lotou a casa).

Com relação à parte musical, havia chegado a vez de Peter Hook revisitar em solo brasileiro os álbuns Technique (1989) e Republic (1993). De um lado, um disco que muitos consideram a obra-prima do New Order e que veio a ser o último lançado pela banda na gravadora Factory; de outro, um LP bem sucedido comercialmente, puxado por um single poderoso, mas que contém um repertório bastante irregular em termos de qualidade.  Ao vivo, Hook e sua banda até que se esforçaram para oferecer à plateia uma versão de Technique digna do seu sucesso e de sua importânciamas poucos foram os momentos de brilho no bloco dedicado ao álbum. Dentre eles, “Round and Round”, “Vanishing Point” e “Dream Attack”.

Curiosamente, o disco mais fraco – Republic – ganhou do The Light uma interpretação mais competente que seu badalado antecessor. Entretanto muitos nem perceberam. Durante o bloco de canções do disco muita gente saiu da pista e foi para o bar ou simplesmente ficou perambulando pela casa, tirando selfies e jogando conversa fora. Uma versão pouco animada do clássico “Regret” (que abriu essa terceira parte do show) pode ter plantado uma semente de dúvida no público. Todavia, quem não arredou o pé curtiu boas e bem executadas versões de “World”, “Spooky”, “Young Offender”, “Liar” e “Times Change”. A decepção foi “Avalanche”, faixa que encerra Republic: em vez de tocada ao vivo, teve sua versão original de estúdio lançada no P.A. para servir de pausa para respirar antes da apoteótica encore.

No bis, “Hooky” e o The Light voltaram ao palco com sangue nos olhos. “Blue Monday”, mesmo com seu groove soando baixo, fez a pista lotar novamente. E o que rolou em seguida foi um bailão daqueles: “Ceremony”, “Temptation”, “True Faith” e, como gran finale, “Love Will Tear Us Apart”.

Considerando os resultados desiguais entre as canções dos álbuns tocados na íntegra (desta tour e, também, das outras anteriores), o ideal seria que Peter Hook e seus colegas do The Light fizessem um show só de canções escolhidas a dedo, como costumam fazer no set abertura dedicado ao Joy Division e nas encores. Isso resultaria num concerto bem mais equilibrado e sem o risco de ter a pista esvaziada em alguns momentos. Afinal, convenhamos: será que o público estaria mesmo interessado em ouvir, na próxima turnê, o disco Waiting for the Sirens’ Call da primeira à última faixa?

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NEWS | Peter Hook em “queima de estoque”

IMG_4616Pelo visto, a venda de ingressos para o show do Peter Hook (ao lado sua atual banda, o The Light) no próximo dia 10 de outubro, em São Paulo, não vai de vento em popa. A Ticket 360, empresa responsável pela bilheteria, lançou uma inusitada promoção dias atrás: na compra de um ingresso, o cliente leva mais um de graça para presentear um amigo. Não, você não leu errado… É isso mesmo: leve dois, pague um.

Descontando o fato de que será a quinta vez de Peter Hook no Brasil em sete anos, pode se dizer que o ex-baixista do Joy Division e do New Order teve um pouco de azar desta vez. Seu show foi programado bem no meio de uma sequência de concertos de vários contemporâneos seus por aqui: o Killing Joke tocou em São Paulo na último domingo; Peter Murphy e David J. celebrarão os 40 anos do Bauhaus três dias antes do show do Hooky, também em Sampa; Morrissey e o próprio New Order chegam em novembro. Ainda por cima há rumores sobre um retorno do Cure ao país. Com o dólar alto, economia em crise e tantos nomes que compartilham entre si o mesmo público, Peter Hook acabou indo para o fim da fila. Os fãs têm que cruzar os dedos para não se repetir aqui o que aconteceu no Chile em 2016: o show do The Light acabou cancelado, muito provavelmente devido à baixa procura por ingressos (culpa, talvez, do New Order, que se apresentou na mesma semana – e no mesmo teatro – em que o baixista estava escalado para tocar).

Peter Hook trará ao Brasil uma nova turnê que estreia hoje na Inglaterra e na qual se dedicará a tocar, na íntegra, os álbuns Technique (1989) e Republic (1993). Segundo o site Pledge Music, o show de daqui há dois dias, no Koko (Candem, Grande Londres) será gravado e lançado em CD triplo pela Live Here Now. O disco será vendido apenas via plataforma direct to fan pela Pledge Music, a exemplo de lançamentos anteriores do The Light. Certamente publicaremos resenhas tanto do disco quanto do show (se houver) aqui no blog.

Quem quiser ouvir uma amostra do que vem por aí, no You Tube dá para conferir “Regret” e “Run” in session no programa de Marc Riley na BBC-6 e que foi ao ar em 19 de março deste ano.

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NEWS| New Order volta ao Brasil em novembro

assetE lá vamos nós de novo! Após a divulgação de um show na capital chilena no dia 21 de novembro, os fãs brasileiros do New Order cruzaram os dedos à espera de uma ou mais datas em solo tupiniquim. E as preces foram atendidas: em suas páginas nas redes sociais, a Move Produções confirmou a vinda da banda para a realização de três shows entre 28/11 e 02/12.

No anúncio, duas novidades: o New Order tocará pela primeira vez em Curitiba, no espaço Live (pegando a última data), e, também, em Uberlândia, no coração do Triângulo Mineiro (!), em concerto que se realizará no dia 30 de novembro na Arena Multiuso Presidente Tancredo Neves, mais popularmente conhecida como “Ginásio Sabiazinho”. Em São Paulo, a banda reprisa no Espaço das Américas (onde se apresentou pela última vez no Brasil, em 2016) no dia 28 de novembro, uma quarta-feira. E vale lembrar que em outubro tem Peter Hook & The Light, também em São Paulo.

Neste exato momento, o New Order está excursionando pela América do Norte; e no meio dessa turnê e da passagem pela América do Sul, Phil Cunningham (guitarra e teclados) e Tom Chapman (baixo, substituto de Peter Hook desde 2011) se licenciarão temporariamente para uma pequena série de shows de seu projeto paralelo, o ShadowParty (cujo disco de estreia resenhamos no post passado).

A seguir, um provável set list para os shows no Brasil*:

Singularity
Regret
Ultraviolence
Crystal
Restless
Your Silent Face
Superheated
Tutti Frutti
Sub-Culture
Bizarre Love Triangle
Vanishing Point
Waiting for the Sirens’ Call
Plastic
The Perfect Kiss
True Faith
Blue Monday
Temptation
Atmosphere (encore)
Decades (encore)
Love Will Tear Us Apart (encore)

(*) Set list do show do dia 23 de agosto de 2018, Palace Theatre, St. Paul, Minesotta (EUA).

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REVIEW | Peter Hook & The Light ao vivo no Cine Jóia, São Paulo (06.12.2016)

capaSe eu tivesse que explicar como é um show do Peter Hook & The Light para uma pessoa que nunca os viu ao vivo, eu o descreveria da seguinte maneira: trata-se de uma ótima banda cover de New Order e Joy Division, com Hook à frente balançando o braço, fazendo caras, bocas e poses para o público e para os fotógrafos e regendo o coro da plateia. Ah, e de vez em quando ele toca baixo, só para variar.

Isso quer dizer que o show é meia boca? Não, muito pelo contrário! A combinação entre os catálogos do Joy Division e do New Order, que resistiram com excelência à passagem do tempo, e os inquestionáveis carisma e presença de palco de Peter Hook, sempre asseguram noites memoráveis. E se o repertório do concerto for baseado em duas coletâneas de sucesso das duas bandas, ambas intituladas Substance, as chances de alguem voltar para a casa decepcionado caem drasticamente para quase zero. Arrisque perguntar como foi o show para quem esteve no Cine Joia (São Paulo) na última terça-feira. Todo mundo voltou para casa feliz e satisfeito.

Mas a experiência acumulada em shows do Peter Hook & The Light (já são quatro no currículo) me fez chegar a uma drástica conclusão: as pessoas vão aos concertos muito mais para ver Hook do que para ouvir o The Light, que nada mais é do que uma banda de tributo cujo líder, meio que numa função de mestre de cerimônias, é ninguem menos que um dos homenageados. Façamos uma comparação com o show do New Order da quinta-feira da semana passada, no Espaço das Américas (também na capital paulista): o público que lotou a casa de espetáculos na Barra Funda deu mostras de que se importa pouco com a ausência de Peter Hook e que nem liga para a notória baixa interação do grupo com a audiência (ainda assim, os gritos para Gillian Gibert provaram que a tecladista possui algum tipo de carisma espôntaneo, mesmo permanecendo praticamente imóvel no palco durante todo o show). A música, nesse caso, parece falar mais alto.

Peter Hook, por sua vez, tem uma grande autoconsciência dos seus talentos sobre um palco e de seu “charme” – e, como era de se esperar, soube tirar proveito deles em seu favor. Ele sabe o que o público espera dele e dá exatamente aquilo o que ele quer, ainda que o verdadeiro baixista da banda seja Jack Bates, seu filho, e não ele. Hook escolhe a dedo as partes das músicas em que ele põe a mão no baixo (uma introdução, ou um solo), com direito a poses, para o delírio da galera, sempre com a câmera dos smartphones a postos. Na retaguarda, o The Light tocou de maneira competente, porém um tanto “ortodoxa”, canções que todo mundo sabia cantar. Os arranjos eram, de um modo geral, muito próximos aos das gravações originais – e isso era um verdadeiro paradoxo, haja vista que o New Order ao vivo, com Hook, não tinha o hábito de soar muito semelhante aos discos. Isso reforçou a aura de “banda cover” do The Light.

O público parecia não se importar com nada disso, é claro. Nem mesmo com a péssima sonorização do show. A acústica do Cine Joia se voltou contra a banda: quando a plateia cantava com mais entusiasmo, a casa se transformava em uma caixa de ressonância que amplificava o barulho do público, a ponto de fazê-lo ficar mais alto que o som do The Light. Além disso, os teclados e as programações eletrônicas de Andy Poole estavam muito baixos, o que diminuía especialmente o punch das canções do New Order. Durante “Blue Monday” mal se ouvia a sua memorável linha de baixo.

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Foto: Lucas Guarnieri (Rolling Stone Brasil)

Mesmo assim, a resposta da audiência ao material do New Order foi intensa. Os destaques certamente foram “Ceremony”, “Temptation”, a já citada “Blue Monday” e “Perfect Kiss” (cantada pelo guitarrista David Potts). “Confusion” (com o arranjo da versão regravada pelo New Order em 1987 e não o original produzido por Arthur Baker em 1983) e “State of the Nation” receberam uma reação mais morna. “Bizarre Love Triangle” e “True Faith”, pelo contrário, levaram o público à catarse. A primeira parte do set terminou com o lado B mais lado A de todos os tempos: “1963”. Foi aprovada com louvor.

Após uma pausa de aproximadamente dez minutos, Peter Hook e banda retornaram ao palco para  homenagear o Joy Division. Tal como na primeira parte, o The Light combinou canções de Substance com lados B. As exceções foram “Disorder” e “Shadowplay”, ambas de Unknown Pleasures (1979), e que foram tocadas ainda no começo desse bloco. “Shadowplay”, em particular, não pôs o Cine Joia abaixo por um milagre. Já a primeira foi interrompida por um “acidente de percurso” com o baterista Paul Kehoe (um dos pedais do instrumento pareceu ter se desmontado) e, após a resolução do problema, a música foi reiniciada.

Como o material do Joy Division não tinha muita eletrônica, havia mais espaço para improvisar, o que fez com que a segunda parte do show fosse musicalmente mais interessante. Além disso, a voz de Hook se adapta melhor às músicas do Joy. A aprovação do público, por sua vez, foi extrema, graças em grande parte às hordas de fãs “modinha” do Joy Division e suas previsíveis camisetas de Unknown Plasures (o “uniforme” ajuda a identificar facilmente esse espécime que vem frequentando quase todos os shows de bandas oitentistas e alternativas nos últimos anos).

Com “Warsaw”, que abriu a sequência de canções do Substance do Joy Division, fomos transportados no tempo para a era de ouro do punk rock inglês, com direito a mosh e stage diving na plateia; “Digital” também foi um dos pontos altos com o público berrando “Day in, day out! Day in, day out!” com toda a força; “Autosuggestion” foi um daqueles momentos de pausa para recuperar o fôlego e, nessa hora, muita gente foi para o bar buscar uma cerveja; durante “Incubation”, quem descansou um pouco foi o próprio Peter Hook, que saiu brevemente de cena enquanto o The Light mandava ver; “Atmosphere” foi dedicada às vítimas do desastre aéreo que matou a equipe de futebol da Chapecoense, sagrando-se em definitivo como “Marcha Fúnebre do Rock”.

O desfecho não foi nenhuma surpresa, é claro: era a vez da esperada “Love Will Tear Us Apart”. Apesar da letra tratar de um casamento fracassado e em tom de pesar, o sentimento e o clima eram de regozijo e felicidade. Foi a apoteose de Peter Hook e sua banda – e do público também. Entretanto, o gran finale continha uma ironia: embora fosse uma celebração do “sério”, “incorrompido” e “sagrado” Joy Division, “Love Will Tear Us Apart”, principalmente ao vivo, soa escancaradamente pop e acena para (o que veio a ser) o “profano” New Order. Os tais fãs “modinha” vestidos de Unknown Pleasures, que habitualmente desdenham do New Order, ainda não foram espertos o bastante para sacar isso.

Aproveito o post para agradecer aos produtores responsáveis por trazerem Peter Hook ao Brasil por terem me ajudado a conseguir um autógrafo com dedicatória no meu exemplar do livro, Substance: Inside New Order.

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Meu exemplar autografado do último livro de memórias de Peter Hook

SET LIST:
In a Lonely Place
Procession
Cries and Whispers
Ceremony
Everything’s Gone Green
Temptation
Blue Monday
Confusion
Thieves Like Us
The Perfect Kiss
Sub-Culture
Shellshock
State of the Nation
Bizarre Love Triangle
True Faith
1963
No Love Lost
Disorder
Shadowplay
Komakino
These Days
Warsaw
Leaders of Men
Digital
Autosuggestion
Transmission
She’s Lost Control
Incubation
Dead Souls
Atmosphere
Love Will Tear Us Apart

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REVIEW | New Order ao vivo no Espaço das Américas, São Paulo (01.12.2016)

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Cheers! Vamos brindar a mais um show do New Order no Brasil.

Para mim, ir a um show do New Order não é apenas ir a um concerto dessa que é a minha banda favorita há quase três décadas (vinte e oito anos para ser mais exato). Na verdade, é bem mais do que isso. Significa reencontrar amigos de várias partes do Brasil com os quais tenho coisas em comum (a banda entre elas); é me aventurar, com esses mesmos amigos, no encontro com nossos ídolos no aeroporto para tirar uma foto ou conseguir um autógrafo; é o “aquecimento” antes do show em algum bar; é o pós-show, com direito a invasões furtivas ao backstage para estar tête-à-tête com a banda mais uma vez; são os posts em série nos fórums da internet e, agora, no WhatsApp para discutir exaustivamente sobre qual seria o set list “perfeito”; é fazer novas amizades durante o papo com desconhecidos na fila para entrar no show…

Por tudo isso, confesso: não é tão fácil fazer uma resenha “objetiva” e “isenta” sobre qualquer apresentação ao vivo do New Order (ou sobre qualquer outra coisa relacionada à banda). Mas eu bem que tento. Espero poder retratar o que eu vi – e minhas impressões à respeito – não somente da maneira mais sincera ou honesta possível, mas também com justiça. Sim, justiça. Nem sempre o que leio na imprensa “de verdade”, como as resenhas e críticas escritas por profissionais, pode ser considerado justo.

Convicta de sua “legitimidade”, com frequência a chamada “crítica espcializada” ignora o reconhecimento do público e avalia um show de rock ou qualquer outro espetáculo com base no seu próprio gosto – ou, então, em um hipotético “perfil médio”. O que eu quero dizer com isso é: de um lado, o sucesso de audiência é menosprezado; de outro, se espera sempre que o artista que está ali dando o melhor de si sobre o palco, mas à sua própria maneira, aja de acordo algum tipo (falso ou ilusório) de “protocolo” ou “manual”. Não é raro ler uma crítica sobre um show do New Order na qual se pode ter a impressão de que o escritor do texto parecia frustrado ou decepcionado (muito mais do que o público) por não ter estado, ao longo de duas horas, diante de mais um grupo de roqueiros saltitantes como o U2, ou os Rolling Stones, ou o Green Day… Quem conhece a história do New Order sabe muito bem: a banda sempre foi um ponto fora da curva. Inclusive ao vivo. 

O maior atrativo em um show do New Order é o seu próprio catálogo, repleto canções que resistiram à passagem do tempo e que ajudaram a formatar tanto o pop eletrônico quanto o indie rock contemporâneos. Qualquer outro tipo de “distração” no palco, como as telas de led e os novos efeitos de iluminação que, quem sabe, tenham sido concebidos como substitutos do único integrante que genuinamente atraía os olhares da plateia – o ex-baixista Peter Hook – pouco ou nada acrescenta ao essencial: a música. Além disso, sempre foi parte do “charme” do New Order essa atitude meio “tô nem aí” que alguns não iniciados interpretam como desanimação ou falta de presença de palco.

Evidentemente, não foi diferente nessa última passagem da banda pelo Brasil (ocorrida na última quinta-feira, no Espaço das Américas) – o New Order pouco interagiu com o público. Gillian Gilbert de vez em quando encarava a plateia e, não mais do que uma ou duas vezes, liberou um sorriso e um tchauzinho para aqueles nas primeiras filas que gritavam incansavelmente seu nome; Bernard “Barney” Sumner arriscou, de modo bem mais contido do que nas ocasiões anteriores, aquele rebolado risível (até mesmo para os fãs) quando não estava com sua guitarra em punho; Tom Chapman, o baixista que pegou a vaga de Peter Hook, é quem parecia ser o mais “saidinho”: várias vezes aproximou-se da beirada do palco e fez algumas poses mais fotogênicas durante seus solos. Mas nada, evidentemente, que lembrasse as “macaquices” de Hook.

Já que falei em justiça, que ela então seja feita. Tom Chapman já está visivelmente mais à vontade e entrosado com a banda. Sua atuação foi impecável, tanto nas canções do último álbum – Music Complete – quanto no material mais antigo. Considerando sua ingrata condição, eu digo sem qualquer constrangimento que ele se saiu tão bem que eu não senti a falta de Peter Hook. E esse sentimento não era exclusivamente meu. Ouvi muitos comentários a esse respeito durante a saída do show. Um amigo me disse naquele dia, horas antes do concerto, que nós éramos como “filhos de pais separados”. Chapman seria uma espécie de “nova namorada do papai” ou uma madastra – tem gente que não gosta ou não aceita, mas também existem aqueles, como eu (e a maioria, felizmente) que pensa “ah, ela é bem legal, eu gosto dela”. E a vida continua. E o New Order também. Um pouco mudado, é verdade… mas quem não muda com o passar dos anos?

Bom, mas sobre o show… considerando que a casa estava lotada – como em geral tem sido as apresentações da banda alhures – é de se supor que entre fãs “doentes” haviam, também, aqueles que foram ao Espaço das Américas tendo como referências apenas os grandes sucessos. Shows de bandas veteranas, via de regra, são assim. Isso talvez explique porque o New Order vem optando por fazer apresentações mais conservadoras e “seguras”, dentre as quais a última em São Paulo não foi uma exceção. A banda exibiu exatamente o mesmo que vem mostrando pelos quatro cantos do mundo ao longo dessa turnê: uma combinação equilibrada do créme de la créme de Music Complete (seis músicas no total), lançado no ano passado, seus antigos clássicos e um par de canções do Joy Division. Nada de obscuridades e lados B. É o que acontece quando seu repertório é conhecido tanto pelos fãs de bandas cult quanto por aquela parcela do público de quem já se ouviu algo do tipo: “New Order? Ah, mas não é a banda que canta aquela música ‘Everytime I see you falling’? Pô, me amarro neles”

Concentrar o show nos maiores sucessos, incluindo os do Joy Division – esta talvez seja a maior de todas as concessões que o New Order vem fazendo há um bom tempo, o que é surpreendente se considerarmos que o grupo ficou universalmente famoso por não fazer concessões. Mas, diferente de Peter Hook, que segue em uma carreira solo que celebra exclusivamente o passado, o New Order (ainda) olha para frente. E vem colhendo os frutos: as músicas novas, ao contrário do esperado, contaram com uma reação que fez jus à excelente receptividade que o último álbum vem recebendo. Todas – todas mesmo – foram cantadas pelo público. “Singularity” abriu o show após o P.A. anunciar a entrada da banda com “Das Rheingold: Vorspiel”, de Richard Wagner; “Academic”, a terceira música do set, soou brilhante com seus resquícios de “Dream Attack” (faixa do álbum Technique, de 1989); “Restless” até teve seu refrão entoado a plenos pulmões pela audiência, mas minha opinião pessoal é a de que, dentre as faixas de Music Complete, ela é a mais fraca ao vivo; “Tutti Frutti” e “People on the High Line” inauguraram a segunda e mais dançante parte do show; “Plastic”, acompanhada de uma orgia de efeitos visuais (outra concessão feita pela versão atual do New Order), fez Bernard Sumner apontar para o público enquanto cantava “It’s official… You’re fantastic… You’re so special… So iconic”, em um de seus raros momentos de interação com o público que lotou o Espaço das Américas.

Mas é óbvio e ululante que os melhores momentos do show aconteceram todas as vezes em que o New Order engatou a marcha à ré. A primeira grande explosão de êxtase foi com “Regret”, a segunda da noite; “The Perfect Kiss”, que figurou entre as mais pedidas pelo público, também fez a temperatura subir em níveis estratosféricos; “Bizarre Love Triangle”, como de praxe, passou no teste de popularidade (rivalizando com “Regret” nesse quesito). Teve também “Crystal”, uma versão repaginada de “True Faith” e, poderosa como sempre, a histórica “Blue Monday”. Aliás, esse foi um momento particularmente importante para mim. “Blue Monday” foi o começo de tudo, a minha porta de entrada no tema New Order. Eu estava tão feliz por estar ali e por ter tido a oportunidade de vê-los mais uma vez que não consegui segurar os olhos marejados, o nó na garganta e o disparar do coração. Esse é o poder da música – o poder de nos levar de volta ao passado e de nos reconectar ao sentimento primordial que eclodiu naquela já distante primeira experiência. Esse sentimento, pessoal e intransferível, crítico de música algum consegue captar em um show. Por isso mesmo as resenhas dos jornais e das revistas são tão frias – e tão imprecisas também.

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Minha única foto do show, durante “Regret”: preferi saborear o show a tirar “zilhões” de fotos…

Voltando ao show… O set chegou ao fim com a obrigatória “Temptation” (a canção mais executada ao vivo pelo New Order), com Gillian tocando “Street Hassle”, de Lou Reed, no teclado. A banda deixou o palco para voltar muito pouco tempo depois e dar seu bis. Todo mundo já sabia o que ia acontecer: era a hora de celebrar o Joy Division. A banda sacou uma emocionante versão de “Decades”, que retornou recentemente ao repertório dos shows depois de 29 anos fora. Imagens de Ian Curtis no telão reforçavam o clima de tributo. Em seguida, vieram com a esperada “Love Will Tear Us Apart”, normalmente escalada para fechar a noite. Isto é, normalmente não quer dizer sempre. O New Order abriu uma exceção e presenteou o público com mais uma música. Numa atitude que chegou a lembrar seus velhos tempos de “do contra”, em vez de terminar sua apresentação com mais um de seus hits (o que seria uma escolha óbvia e natural) o grupo fez sua saideira, vejam só, com uma das faixas novas: “Superheated”. E o público aceitou numa boa. O telão exibiu a letra para todos cantarem junto – e o recado foi prontamente entendido pelos presentes. Em alusão aos últimos versos, Bernard Sumner deu a má notícia ao público após o derradeiro acorde: “It’s over!”. E assim terminaram duas horas de êxtase aprovadas pela plateia. A única aprovação que importa, aliás. “Obrigado mais uma vez, São Paulo! Vocês foram ótimos!”, agradeceu Sumner. Ora, Barney, nós é que agradecemos.

Há dez anos, eu vi meu primeiro show do New Order, em São Paulo; dez anos depois, eu voltaria a São Paulo para vê-los pela décima vez – e provavelmente a última. Talvez as lágrimas durante “Blue Monday” tivessem externalizado, também, o sentimento de despedida. Não cabe aqui esclarecer os motivos – a vida é assim, com o tempo outras coisas passam a exigir sua atenção e, de repente, você não está mais tão disponível para se dedicar às antigas paixões com a mesma intensidade. Por isso, encerro esta “resenha” com um relato: na fila para entrar no Espaço das Américas, uma garota de 18 anos, que foi sozinha de Curitiba a São Paulo, acabou se enturmando conosco (a “diretoria” do New Order Brasil). No final do show, entre tantas mãos que, na grade, disputavam um dos set lists colados com fita isolante no assoalho do palco, foi ela quem conseguiu por as suas naquele pedaço amassado de papel. Ela chorou de tanta alegria. Pouco tempo mais tarde, lá nos fundos, numa saída para o estacionamento, mais uma explosão de felicidade: ela conseguiu que e banda autografasse seu set list. Eu vi o brilho nos olhos dela. Eu achei algo bonito de se ver.

É isso aí: hora de passar a bola para essa garotada. Eu tive o bastante disso e, sinceramente, não tenho do que reclamar – aproveitei bastante. Bom saber que o New Order ainda desperta na molecada a mesma paixão que despertaou em mim 28 anos atrás. Enfim, é isso, it’s over

…mas só depois do show do Peter Hook.

SET LIST:
Singularity
Regret
Academic
Crystal
Restless
Your Silent Face
Tutti Frutti
People on the High Line
Bizarre Love Triangle
Waiting for the Sirens’ Call
Plastic
The Perfect Kiss
True Faith
Blue Monday
Temptation
Decades [encore]
Love Will Tear Us Apart [encore]
Superheated [encore]

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NEWS | Agora é oficialíssimo: New Order fará apresentação única em São Paulo

14359173_1143696022364763_5547020002201229780_nComo diz o ditado: “onde há fumaça, há fogo”. Sites como Popload (do jornalista Lúcio Ribeiro) e Midiorama publicaram há pouco que o New Order virá, sim, ao Brasil em dezembro deste ano. Após a confirmação dos concertos em Santigado (Chile, dia 04/12) e Bogotá (Colômbia, 07/12, como atração do festival Sónar), chegou a vez de São Paulo aparecer no roteiro. O show está marcado para o dia 01 de dezembro no Espaço das Américas e terá o DJ Gui Boratto na abertura. O show do New Order faz parte do “projeto” Live Music Rocks, dedicado a trazer para o Brasil nomes importantes da música. Dentre os que já vieram pela plataforma, destacam-se Morrissey, Kiss, The Cure e Noel Gallagher. Os patrocinadores são a SKY e Budweiser. Os ingressos começarão a ser vendidos no dia 14 de outubro no site Livepass.com.br. O show do New Order coincidirá com a apresentação da banda solo do ex-baixista Peter Hook, o The Light, no Teatro Rival, Rio de Janeiro. Já que os cariocas não terão o New Order mais uma vez, fica o dilema: ver Peter Hook ou pegar um avião para São Paulo. Santa Escolha, Batman!

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NEWS | Onde há fumaça… New Order pode voltar ao Brasil em novembro.

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New Order em São Paulo (2014). Foto de Jéssica Mangaba/VEJA.

Por enquanto, é só especulação – mas os fãs poderão começar hoje mesmo com as orações, as oferendas aos orixás, ou mesmo com o cruzar dos dedos. Um antigo contato dos tempos do fórum em espanhol do site New Order On Line (nada de nomes, ok?) teria falado com Gillian Gilbert (teclado, guitarra), que supostamente lhe disse que o New Order voltaria à América do Sul em novembro deste ano. Evidentemente, isso não é o bastante para nos dar 100% de segurança, mesmo assim há algum fundamento por trás desse “vazamento”. Eu explico…

No dia 08 de setembro do ano passado, em entrevista concedida à Folha de São Paulo às vésperas do lançamento do álbum Music Complete, Gillian disse à jornalista Claudia Assef que nosso país estava na mira da banda mais uma vez: não sei se podia falar, mas em 2016 iremos ao Brasil”A suposta data da vinda à América do Sul também faz total sentido. Em novembro deste ano, o festival de música eletrônica e arte digital Sónar passará por São Paulo, Buenos Aires (Argentina), Santiago (Chile) e Bogotá (Colômbia), como parte de sua tour pelo mundo – e o New Order foi uma das atrações do Sónar Barcelona (o original) deste ano (o show foi ontem). No ano passado, artistas que estiveram na edição barcelonesa, como Hot Chip e Chemical Brothers, também tocaram nas edições pela América do Sul.

Isso quer dizer que temos motivos para esperar por boas notícias em breve. Vamos aguardar.

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