NEWS | Encaixotando Joy Division e New Order

Como se já não bastasse a edição definitiva de Movement e o álbum ao vivo So It Goes.., o ano de 2019 ficará conhecido como aquele dedicado ao lançamento de materiais do New Order e do Joy Division em luxuosos box sets. Na verdade, essa é a tendência atual do mercado – enquanto o downloadstreaming sao voltados para o público médio, as edições premium limitadas (e caras) destinam-se à satisfação de fãs e colecionadores. Além das duas caixas citadas, listamos aqui outros quatro combos encaixotados que podem interessar os amantes dessas duas bandas. Então vambora…

STUMM433 (Vários Artistas, Mute Records): Parte da série comemorativa de 40 anos do selo Mute iniciada no ano passado, trata-se de uma caixa de cinco CDs trazendo artistas antigos e atuais da gravadora (dentre eles, o New Order) interpretando, cada um à sua maneira, a música/experimento 4’33” (lê-se “quatro minutos e trinta e três segundos”) do compositor de vanguarda John Cage (1912-1992). Apresentada ao piano pela primeira vez em 1952, consiste em quatro minutos e meio de silêncio – ou quase. Nenhuma nota musical é tocada, o que conta são os sons e ruídos aleatórios do ambiente – o “som do silêncio” – fazendo com que a cada “execução” o resultado final seja sempre diferente. O projeto da Mute é deveras extravagante, afinal são cinco discos inteiros de “silêncio”… entretanto, parte da renda obtida com as vendas da caixa será doada para a British Tinnitus Association, uma entidade dedicada à prevenção, tratamento e difusão de informações sobre uma doença conhecida em português como tinido (ou acufeno). Trata-se da mesma doença da qual sofreu, por anos, o baterista Craig Gill, do Inspiral Carpets, que suicidou-se em 2016 (ele sofria de uma depressão decorrente do tinido). Dentre os demais intérpretes da “canção” temos, além do New Order , bandas como  Depeche Mode, A Certain Ratio, Cabaret Voltaire, Erasure, Nitzer Ebb, The Normal, The Afghan Whigs, Laibach e muitas outras. Link para pré-venda: http://mute.com/mute/stumm433-pre-order-now 

Exclusive Mockups for Branding and Packaging Design

ALWAYS NOW (Section 25, Factory Benelux): Lançado originalmente pela Factory Records em 1981, o álbum de estreia do Section 25 acaba de ganhar pela Factory Benelux (uma espécie de sucursal belga da Factory que sobreviveu à falência da matriz) uma edição remasterizada com uma caminhão de extras. É uma caixa com cinco LPs, sendo que as primeiras mil cópias foram produzidas com vinis coloridos (preto, transparente, cinza, amarelo e vermelho). Um dos discos contém uma preciosa jam da banda ao lado do New Order, gravada ao vivo na Universidade de Reading (Inglaterra) no dia 8 de maio de 1981. O box pode ser adquirido diretamente no site da Factory Benelux: https://www.factorybenelux.com/always_now_fbn3_045.html

SharedImage-92811

USE HEARING PROTECTION: FACTORY RECORDS 1978-1979 (Vários Artistas, Rhino Records): Com lançamento anunciado para outubro deste ano, essa lindíssima caixa trará edições facsimile dos dez primeiros itens/produtos lançados pela Factory Records, do icônico poster da primeira “Noite da Factory” no Russel Club, em Manchester (FAC-1), até o LP de estreia do Joy Division, Unknown Pleasures (FAC-10), passando ainda pelo EP duplo A Factory Sample (que contém as faixas “Digital” e “Glass”, do Joy Division, além de canções do Cabaret Voltaire, do Durutti Column e do comediante John Dowie), os singles “Electricity” (OMD) e “All Night Party” (A Certain Ratio), outros dois posteres, um DVD e um livro de 60 páginas. Como bônus, esse box set promete um single de 12″ dos Tiller Boys (planejado, mas nunca lançado) e dois CDs recheados de entrevistas do Joy Division. A caixa é uma exclusividade da Rhino UK (o que quer dizer que ela só poderá ser encomendada na store virtual da gravadora) e sua edição é limitada em 4.000 cópias. O preço é salgadíssimo: £ 180 (aproximadamente R$ 856). Link da pré-venda: http://store.rhino.co.uk/uk/use-hearing-protection-factory-records-1978-79-limited-edition-box.html

uhp_white_1_

FACTORY RECORDS: COMMUNICATIONS 1978-92 (Vários Artistas, Rhino Records): A Rhino UK também promete para novembro desse ano uma segunda caixa, dessa vez com oito LPs contendo material de vários artistas do cast da Factory e abrangendo os 14 anos de vida da gravadora. A tiragem é limitada em apenas 500 unidades, mas o preço é um pouco mais “amigável”: £ 127 (cerca de R$ 605). Esse box foi originalmente lançado no formato CD em 2009 e continha quatro discos e um belíssimo livreto (além disso, a Rhino lançou em edições passadas do Record Store Day dois samplers em vinil de 10″ com gravações que não faziam parte da caixa). Em Communications 1978-92 o New Order contribui com oito faixas, o Joy Division com quatro, o Electronic (projeto solo do vocalista/guitarrista Bernard Sumner), o Revenge (do agora ex-baixista Peter Hook) e o The Other Two (duo formado pelo casal Stephen Morris / Gillian Gilbert) com uma cada um. Todas em versões de estúdio que o público já está careca de ouvir. No mais, versões originais de bandas como OMD, A Certain Ratio, Section 25, James, Happy Mondays, Durutti Column, The Wake, 52nd Street e muitos outros. A quem interessar possa: http://store.rhino.co.uk/uk/factory/factory-communications-1978-92-limited-edition-silver-8lp.html/

fac_white_1

Visite também nosso Instagram:
http://instagram.com/neworderbrfac553 Instagram

REVIEW | “New Order Presents Be Music”

fbn60

New Order “mijando” no penico dos outros…

O ano de 1982 representou uma espécie de ponto de inflexão para o New Order. Após uma excursão pelos Estados Unidos no ano anterior, a banda deu início à virada em direção à dance music que a transformou em um dos grupos mais importantes e influentes de sua geração. De volta à Inglaterra, o New Order gravou a pulsante “Temptation” (faixa que marcou a ruptura definitiva com o Joy Division, sua encarnação anterior) e abriu uma casa noturna em Manchester  – a mítica Haçienda – tendo como parceira no empreendimento a sua própria gravadora – a não menos mítica Factory Records. Também foi em 1982 que seus integrantes começaram a se lançar em novas aventuras produzindo e remixando discos e faixas de outros artistas dance, muitos deles companheiros na Factory. À medida em que adquiriam novos equipamentos (sequenciadores, samplers, baterias eletrônicas), originalmente para explorar em seus próprios discos as possibilidades abertas pelas novas tecnologias musicais, Sumner, Hook, Gilbert e Morris passavam a compartilhar seus brinquedos e o know how obtido com as bandas que estavam produzindo. Era uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que fertilizavam o trabalho de outros músicos, as experiências realizadas nos quintais alheios serviam de laboratório para o que viriam a fazer em suas próprias gravações.

Nessas aventuras “fora de casa”, os membros do New Order mantiveram suas “identidades secretas” individuais preservadas atrás de uma marca: Be Music. Originalmente, Be Music era o nome da editora musical criada pela banda e seu empresário, Rob Gretton (1953-1999), para o licenciamento do seu catálogo e para o recebimento de royalties e direitos autorais. Todavia, Gretton teve a ideia de transformar a Be Music em algo maior e mais ambicioso. O falecido ex-manager do New Order queria que a banda fosse vista publicamente como uma entidade única – o objetivo era fortalecer a unidade do grupo e evitar que um ou mais membros fizessem um nome fora do New Order… e lucrassem com isso. Quando Peter Hook produziu, em fevereiro de 1982, uma faixa dos Stockholm Monsters chamada “Death Is Slowly Coming”, o crédito foi para a “entidade” em vez de para o baixista. Resumindo: nada de marketing pessoal ou luzes de holofotes sobre um integrante específico – naquela época eles eram radicalmente avessos a qualquer tipo de autopromoção, idolatria ou à ideia de uma eventual personalidade dominante na banda. Claro, isso tudo foi antes de Electronic, The Other Two, Revenge etc…

A Factory Benelux, filial belga da Factory Records que sobreviveu ao colapso de sua matriz, numa louvável iniciativa reuniu no recém-lançado New Order Presents Be Music o extenso material produzido e remixado por integrantes do NO entre 1982 e 2015. Editado em dois formatos (LP duplo e box set com três CDs), a nova compilação, no entanto, não foi a primeira dedicada às produções da Be Music. Em 2003, a LTM Recordings (gravadora administrada pelo britânico James Nice, o mesmo sujeito que atualmente também é o manda-chuva da Factory Benelux) lançou Cool As Ice: The Be Music Productions. No ano seguinte, a LTM editou uma sequência para a compilação anterior que se chamou Twice As Nice e que incluía, também remixes e produções assinadas por Arthur Baker, Donald “DoJo” Johnson (A Certain Ratio) e Mark Kamins. Pois então: uma parte de New Order Presents Be Music já havia sido reunida em compilações específicas antes. Esse é o caso, por exemplo, de “Looking From a Hilltop (Megamix)” do Section 25; “Cool As Ice”, de 52nd Street; “Love Tempo”, do Quando Quango; e “Fate/Hate”, de Nyam Nyam.

Mas por abranger um período mais extenso e não se concentrar apenas nas produções feitas para grupos do cast da Factory, New Order Presents Be Music é, até o momento, a compilação mais completa e atualizada sobre Be Music. Além disso, todas as faixas que fazem parte da coletânea foram remasterizadas especialmente para o projeto. E mesmo não sendo um álbum do New Order propriamente dito, de uma certa forma é quase como se fosse. Em primeiro lugar, algumas faixas foram escritas e gravadas pelos próprios integrantes da banda, como no caso de “Theme”, uma criação de Peter Hook usada como tema de abertura dos shows do grupo Lavolta Lakota; “Inside”, originalmente lado A de um EP ultralimitado (500 cópias) que Gillian Gilbert e Stephen Morris lançaram em 2011 com uma trilha sonora produzida especialmente para uma exposição do designer Peter Saville na galeria francesa Frac Champagne-Ardenne; e “Video 5-8-6”, uma canção de 22 minutos do próprio New Order tocada na noite de inauguração da Haçienda e a partir da qual nasceram algumas das faixas do álbum Power, Corruption and Lies (1983). Para ficar ainda mais com cara de disco do New Order, a capa, texturizada em ambos formatos, foi criada por Matthew Johnson para o Peter Saville Studio – todavia, não há indicações de que Saville tenha trabalhado como diretor de arte dessa vez.

O maior problema de New Order Presents Be Music são as diferenças entre as edições em CD e em vinil. Para começar: a versão digital possui 36 faixas, contra apenas 12 do LP! Além disso, o box set vem acompanhado de um livreto de 48 páginas com informações detalhadas e fotos das capas dos singles compilados. Em plena era do naufrágio do CD e da guinada de 360o do vinil, a versão long play bem que poderia ter recebido um tratamento melhor para agradar o fã clube do formato. Sem falar que a “mutilação” operada pela Factory Benelux no bolachão preto sacrificou algumas pérolas como “You Hurt Me” (do Shark Vegas), na qual Bernard Sumner também contribuiu como músico convidado; “Motherland” (do obscuro The Royal Family and the Poor); “Telstar” (cover do clássico instrumental dos Tornadoes assinado pelo Ad Infinitum); “Tell Me” (da banda de synthpop Life, da qual fazia parte Andy Robinson, ex-programador e técnico de teclados do New Order, e agora empresário do grupo); e “Knew Noise” (Section 25), lado B do single “Girls Don’t Count” produzido em 1979 por Ian Curtis e Rob Gretton, mas creditado à Fractured Music (uma espécie de embrião da Be Music).

O material mais recente produzido e/ou remixado pelos integrantes do New Order, por sua vez, forma um conjunto mais irregular. Além disso, se resume basicamente a contribuições do Stephen Morris ou do The Other Two (dupla formada por ele e a tecladista Gillian Gilbert). As colaborações com o Factory Floor, Helen Marnie (vocalista do Ladytron) e Tim Burgess (dos Charlatans) são, digamos assim, “ok”. Já o remix de “Daggers”, do Fujiya & Miyagi é pura bobagem descartável.

Também é de se estranhar a ausência das duas faixas gravadas e lançadas pelo New Order, mas sob o rótulo Be Music, em um flexi disc promocional distribuído de brinde para os frequentadores da Haçienda em sua primeira véspera de Natal, em 1982. “Ode to Joy” (um cover bizarro de “Ode an die Freunde”, de Beethoven) e “Rocking Carol” (uma tradicional canção natalina tcheca) foram recentemente incluídas na reedição da coletânea Ghosts of Christmas Past: Remake (da gravadora Les Disques du Crépuscule, hoje também sob o comando de James Nice) e apesar de fazer total sentido a inclusão delas numa compilação de bandas alternativas tocando/cantando canções natalinas, elas tinham que estar em New Order Presents Be Music também.

O saldo, todavia, é positivo. O novo álbum, de um modo geral, atinge o objetivo de apresentar ao ouvinte uma visão panorâmica de um lado pouco conhecido, mas ainda assim relevante, do New Order. Presents Be Music nos mostra que a influência de uma banda não se mede apenas pelo impacto de seus próprios discos. Seja como sócios de uma das danceterias mais famosas da Europa nos anos oitenta e noventa, seja como produtores e remixers, os membros do New Order ajudaram, de diversas maneiras, a traçar as coordenadas que definiriam a direção seguida pela música popular – alternativa ou mainstream – nos últimos anos.

Visite também nosso Instagram:
http://instagram.com/neworderbrfac553 Instagram


NOTA: Foi uma longa pausa de dezembro do ano passado até aqui… De lá para cá, passei por uma trabalhosa mudança e uma inesperada internação… Mas agora parece que as coisas estão voltando para os trilhos – incluindo o blog! Vejo vocês no próximo post. Um abraço.