NEWS | Pílulas (fevereiro 2016 – II)

De tudo um pouco: de capa icônica em camiseta de grife a mini-documentário na TV por assinatura, passando até por criador de vídeos de animação para telão de shows. Trazemos neste post mais algumas pílulas neworderianas para manter o leitor/fã antenado e atualizado sobre todas as novidades conectadas à nossa banda favorita.

  • A grife de moda masculina Marshall Artist, criada em 2001 e radicada na região de Eastern Central, em Londres, e que já vestiu nomes como o ex-jogador de futebol David Beckham e os irmãos Gallagher (ex-Oasis), marcou pontos com uma das peças da sua coleção “SS16”, lançada no começo deste ano. Trata-se da camiseta Ultra Violence (1983), inspirada na capa do álbum Power, Corruption and Lies, do New Order. A procura foi tão grande que a M.A. teve que renovar seu estoque. A camiseta foi lançada em duas cores, branca e preta, e os tamanhos vão do “S” (pequeno) ao “XXXL” (o “triplo extra-grande”). Com a nova peça, a Marshall Artist dá continuidade à sua linha de roupas que homenageia a cena musical de Manchester da década de 1980. A capa de Power, Corruption and Lies já havia sido “citada” na coleção do ano anterior, a “SS15”, com a camiseta chamada Theory Micro Dot, que exibe o codex que permite decifrar o alfabeto de cores que Peter Saville usou no projeto gráfico do álbum e, também, nos singles “Blue Monday” e “Confusion”. O preço da Ultra Violence é que não é nada convidativo: £30 (fora o custo do frete se você fizer a compra pela internet). Um mimo muito caro…

 

 

  • Quem andou ligado no canal pago Multishow (Globosat) desde o último dia 03 pode ter tido a sorte de ter visto uma das sete exibições do programa Rock Legends com o New Order. O Rock Legends é uma série que mostra, em episódios de aproximadamente 25 minutos, perfis e biografias de bandas e artistas solo com imagens de clipes e shows, além de depoimentos de jornalistas, críticos musicais e radialistas/DJs. Dirigido por Lindy Saville (repararam na absurda coincidência?), o episódio dedicado ao New Order foi o oitavo da terceira temporada (2014). O programa pertence originalmente ao canal por assinatura norteamericano AXS TV, mas aqui no Brasil ele é exibido pelo canal Bis, que foi quem primeiro levou aos telespectadores o especial sobre o New Order. O mini-documentário começa, obviamente, com o fim do Joy Division, e termina com o rompimento entre Peter Hook, agora ex-baixista, e os demais integrantes, e o processo de gravação do que veio a ser o mais recente trabalho da banda, Music Complete. A última reprise de Rock Legends: New Order no Multishow será amanhã, às 07:00.

 

  • Quando estive no Casino de Paris em novembro do ano passado para assistir o primeiro show da mini-turnê europeia do New Order para a divulgação do álbum Music Complete, uma das coisas que imediatamente saltaram às vistas foram as novidades visuais. Além do telão retangular de leds ao fundo do palco, haveria mais dois menores de cada lado, dispostos diagonalmente em relação ao central, como se estivessem “saindo” deste, proporcionando uma experiência visual diferente e bem mais interessante. De quebra, não somente as músicas novas apresentavam seus próprios vídeos de palco inéditos, como algumas das antigas tiveram os vídeos usados nos shows realizados entre 2011 e 2014 substituídos por novos. O sujeito por trás dessas animações digitais que acompanham o som do New Order ao vivo é Damien Hale, um cara que tem em seu currículo a produção de vídeos para projeções em shows de nomes como Genesis e Take That. Em seu canal no Vimeo, podemos ver trechos de seu trabalho recente para o New Order – “The Perfect Kiss”, “Bizarre Love Triangle”, “Tutti Frutti” e “People on the High Line” – e, tambem, para outras bandas (Sigur Rós e Kasabian).

The Perfect Kiss from Damian Hale on Vimeo.

Bizarre Love Triangle (clip1) from Damian Hale on Vimeo.

Bizarre Love Triangle (clip2) from Damian Hale on Vimeo.

Tutti Frutti from Damian Hale on Vimeo.

People On The High Line from Damian Hale on Vimeo.

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MEMÓRIA | Reading Festival 1993: um show histórico

A falência da Factory Records foi decretada no dia 27 de novembro de 1992. Na ocasião, a gravadora já havia encomendado a produção de algumas cópias em cassete de um pre mix das faixas (ainda em versões instrumentais) do novo álbum que o New Order estava preparando, Republic. A Factory chegou, inclusive, a catalogar essa fita com o código FACT 300. Não mais do que cinco cópias foram feitas e hoje elas estariam sob zelosa proteção de colecionadores anônimos. Como se sabe, Republic acabou não saindo pela gravadora criada em 1978 pelo repórter a apresentador de TV Tony Wilson (1950-2007). Segundo Bernard Sumner, vocalista e guitarrista do New Order, o grupo acabou assinando com a London Records por dois motivos: 1) a gravadora quitaria a gigantesca dívida que a Factory tinha com a banda; 2) a London bancaria o término de Republic. O disco acabou sendo oficialmente lançado apenas em maio do ano seguinte.

Republic não foi escrito e gravado unicamente sob o peso dos últimos suspiros da Factory – e da monstruosa dívida que a gravadora tinha com o New Order: a boate Haçienda, da qual a banda e a Factory eram sócios, também passava por dias difíceis, o que incluía problemas financeiros também. Para muita gente, Republic é um disco que foi feito para socorrer a Factory (o que não deu certo), a Haçienda e, evidentemente, o próprio New Order. No documentário New Order Story, de 1993, o baterista Stephen Morris deu a seguinte declaração: “Estamos em Montreux, para participar do festival de jazz daqui… O que nunca nos ocorreu… Para salvar nossas vidas, talvez?”. Apesar de questionado por Sumner, que o corrige dizendo “Não. Estamos aqui porque Quincy [Jones] nos pediu”, a fala de Morris não deixa de ser reveladora.

Seja como for, Republic até teve um excelente desempenho na Inglaterra, ficando em primeiro lugar na parada de álbuns – e se mantendo nessa posição por 19 semanas. O single “Regret” foi um grande sucesso. Mas a turnê de promoção do disco acabou sendo uma das mais curtas da história da banda: todos os shows se concentraram entre os meses de junho e agosto de 1993. O último concerto, realizado no Reading Festival (Inglaterra), acabou sendo não apenas o mais aclamado da turnê, mas entrou para a história como um dos melhores da carreira do New Order. Além disso, ele se tornou emblemático porque representa o melhor período do grupo em matéria de performances ao vivo.

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Poster oficial com o ‘line up’ do Reading Festival 1993

O New Order foi o headliner da terceira e última noite do festival, ocorrida no dia 29 de agosto de 1993. No mesmo dia, se apresentariam no palco onde a banda tocaria nomes como Dinossaur Jr., Lemonheads, The Breeders e até os super-virtuoses (e malas!) do Primus. Na ocasião, havia rumores de que o New Order se separaria. Os boatos foram desmentidos por Bernard Sumner durante o show – diante da plateia, ele pegou o microfone e disse “Não se deve acreditar em tudo o que se lê na imprensa”. Mas essa declaração seria bem menos lembrada do que a famosa mudança que Sumner fez na letra de “True Faith”, citando de maneira maldosa o (hoje) falecido Rei do Pop: “When I was a very small boy… Michael Jackson played with me… Now that we’ve grown up together… He is playing with my willy” [trad.: “Quando eu era um garotinho… Michael Jackson brincava comigo… Agora que nós estamos crescidos… Ele brinca com meu pinto”].

O set list merece destaque – equilibrado, misturava de forma adequada os hits, músicas novas e um par de canções menos badaladas, mas de valor afetivo para os fãs. Os críticos e resenhistas, não apenas lá de fora, mas daqui do Brasil também, elegeram o show do New Order como sendo o melhor daquela edição do festival. O mais interessante é que existem registros desse show. Desde a filmagem amadora (vide o vídeo acima, com “True Faith”), até gravação soundboard do áudio. Para se ter uma ideia, esse concerto foi tocado em um programa da Rádio Transamérica (101,3 FM) do Rio de Janeiro (eu cheguei a gravá-lo em uma fitinha cassete). Além disso, um dos discos piratas ao vivo mais famosos do New Order, inclusive por causa da excelente qualidade sonora, é um CD intitulado Electronic Ecstasy… e que consiste no show (incompleto) do Reading Festival ’93.

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O show repercutiu até na imprensa brasileira!

Além disso, em seus arquivos, a BBC possui no formato CD discos de transcrição de um programa apresentado na Radio 1 por Mark Goodier no qual o show foi tocado. É extremamente difícil desviar um disco desses dos porões da BBC para as mãos de um colecionador, mas felizmente eu tive essa sorte. Como no CD pirata Electronic Ecstasy, o show está incompleto (faltam “Dream Attack”, “As It Is When It Was”, “True Faith” e “Bizarre Love Triangle”), mas o som é de altíssima qualidade.

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Bootleg do show em Reading

Considerando que o New Order lançou oficialmente duas músicas desse show no disco número 4 da caixa Retro (2002) – “Regret” e “As It Is When It Was” -, não deixa de ser surpreendente o fato do concerto nunca ter virado um disco ao vivo legítimo. Aliás, é ainda mais surpreendente se considerarmos as reações dos integrantes da banda diante das gravações existentes. Sumner, em uma ocasião, disse: “Eu me lembro de alguem tocar um disco pirata desse show em uma loja de roupas e de soar fantástico”; o agora ex-baixista Peter Hook foi mais enfático: “Quando eu ouvi as fitas do show, eu quase chorei… Eu pensei ‘porra, que desperdício!'”. Dave Thompson, autor de True Faith: An Armchair Guide to New Order, tem uma teoria própria para explicar o motivo pelo qual a apresentação no Reading Festival ’93 não teria sido lançada oficialmente na íntegra. Segundo ele, “fãs e colecionadores preferem ver e ouvir uma performance mais antiga… mas eles [referindo-se à banda] certamente curtem mais esse [o show em Reading]. Sou fã e colecionador, mas adoraria ver esse show virar um disco ao vivo oficial e torço para que isso um dia aconteça.

Curiosamente, o livro de Thompson, uma referência em matéria de detalhes sobre tudo o que foi gravado e lançado (ou não) pelo New Order, vacilou ao mostrar o set list incompleto do show. A lista inteira é essa aqui: “Ruined in a Day”, “Regret”, “Dream Attack”, “Round and Round”, “World”, “As It Is When It Was”, “Everyone Everywhere”, “True Faith”, “Bizarre Love Triangle”, “Temptation”, “The Perfect Kiss”, “Fine Time” e “Blue Monday”. Por outro lado, o livro revela que após o show cada membro do New Order foi para a sua casa e eles não se comunicaram mais entre si durante cinco anos. Sim, de fato o tempo provou que não houve separação para valer (em 1998 eles fariam outro show incrível em Reading e esse, felizmente, saiu em DVD), mas o longo hiato após uma curtíssima turnê de um álbum feito sob nuvens negras diz claramente que o clima na banda não era dos melhores. Mesmo assim, foi o período em que exibiram sua melhor forma no palco – e o ponto culminante foi o show de 29 de agosto de 1993.

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MEMÓRIA | Uma noite em Nova Jersey

NEW ORDER

No lugar do Joy Division, o New Order: Sumner, Morris (juntos na foto) e Hook vão para os EUA sem Ian Curtis em setembro de 1980.

A história todos conhecem: em maio de 1980, quando o Joy Division estava às vésperas de fazer seu primeiro tour pelos Estados Unidos, Ian Curtis, o jovem e também talentoso vocalista e letrista, tirou sua própria vida na casa onde viveu seu desastroso casamento, em Barton Street (Macclesfield, Grande Manchester). Mesmo desolados, seus companheiros, Bernard Sumner (guitarra e teclado), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria) decidiram continuar – na semana seguinte ao funeral já estavam ensaiando uma canção nova, partindo de um riff escrito por Hook. Estava nascendo “Dreams Never End”, a primeira de um novo lote de músicas. O Joy Division havia ficado para trás – foi enterrado junto com Ian Curtis. No horizonte à frente, os três remanescentes miravam o futuro, mas agora como New Order.

Exceto os fãs fiés e de longa data, o público médio pensa que Gillian Gilbert, então namorada do baterista de Stephen Morris, teria sido imediatamente convidada para tocar teclados e guitarra na nova banda. Mas não foi assim. Gillian fez sua estreia no New Order em novembro de 1980, em um concerto no Squat, em Manchester. Antes de ser incorporada ao grupo, o New Order existiu durante um breve período como um trio. Além disso, nesse curto espaço de tempo entre o segundo concerto, em Liverpool, e o último antes do ingresso de Gillian, em Boston (EUA), Sumner, Hook e Morris se revezavam na função de vocalista (o primeiro show, no Beach Club, em Manchester, foi totalmente instrumental).

Apesar do cancelamento dos shows do Joy Division na América do Norte (havia um concerto agendado no Canadá também), o New Order com três integrantes pegou um avião, atravessou o Atlântico e foi para os Estados Unidos fazer um punhado de apresentações. O primeiro, na cidade de Hoboken, em Nova Jersey, dia 20 de setembro de 1980, é particularmente interessante. Essa apresentação aconteceu no Maxwell’s, um tradicional bar e music venue local, no qual muitas outras bandas de sucesso já tocaram: R.E.M., Pixies e Smashing Pumpkins estão entre elas.

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A fachada atual do Maxwell’s, em Hoboken (Nova Jersey). Hoje o local se chama Maxwell’s Tavern.

Mas o que torna o show do Maxwell’s particularmente especial? Em primeiro lugar, talvez tenhamos que admitir que muito do interesse em torno desse concerto se deve ao fato dele ter sido gravado e pirateado – se não fosse por isso, ele perderia metade do seu “charme”. Recentemente, um novo bootleg chamado Grieving in the Dark (2014) o trouxe à tona novamente. Muitas vezes uma coisa ou fato adquire significado ou valor histórico simplesmente por estar documentado.

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Um dos LPs piratas do show no Maxwell’s: “Grieving in the Dark” (2014).

Para início de conversa, esse foi o único show da viagem pelos Estados Unidos no qual banda tocou com seu equipamento original. Antes do concerto seguinte, no Hurra’s, em Nova Iorque, a banda foi literalmente saqueada: os instrumentos e demais equipamentos foram roubados. Para realizar o próximo show, o grupo teve que sair às pressas para comprar tudo novamente. E acabaram levando gato por lebre: Bernard, por exemplo, levou uma guitarra Gibson ES-335 de segunda mão pensando que fosse nova, enquanto Peter Hook comprou uma guitarra barítono acreditando ser um baixo de seis cordas (ele só tomou conhecimento do engano quando percebeu que não conseguia afinar o instrumento).

O segundo detalhe acerca desse show diz respeito ao revezamento nos vocais. Quem já teve oportunidade de ouvir as primeiras gravações demo do New Order, feitas nos Western Works Studio, em Sheffield, julho de 1980, deve ter estranhado por exemplo, a voz do baterista Stephen Morris em “Truth” e, principalmente, em “Ceremony”. No Maxwell’s, a banda tocou um set de oito músicas, mas Bernard Sumner, justamente aquele que viria a ser o vocalista em tempo integral, cantou apenas em “In a Lonely Place”. O tecladista nessa canção era Stephen Morris, que cedeu a vaga de baterista para uma drum machine. Alguem aí consegue imaginar “In a Lonely Place” tocada com uma bateria eletrônica? Pois é, mas isso um dia já aconteceu…

Nas demais músicas, Morris e Peter Hook se alternaram nos vocais. “Cries and Whispers”, “Mesh” e “Dreams Never End”, por exemplo, foram cantadas por Hook (a última continuaria a ser cantada pelo baixista mesmo depois de Sumner ter sido eleito o vocalista oficial); “Procession”, “Truth” e “Ceremony” contaram com a voz de Steve. “Procession”, aliás, é outro caso curioso. Trata-se de uma versão embrionária ainda, executada com bateria eletrônica no lugar da bateria acústica. Ao que tudo indica, também não era lá muito fácil para o Steve tocar bateria e cantar ao mesmo tempo. De um modo geral, as músicas desse set ainda não se parecem totalmente com suas versões definitivas, sobretudo no que diz respeito às letras.

Mas, pelas contas do leitor, falta ainda uma música. Sim, é verdade, mas essa é um caso à parte. Nesse show, a banda tocou uma canção pela primeira e única vez. Cantada por Peter Hook, ela segue a formação básica de guitarra-baixo-bateria e soa um tanto à beira do punk rock. Como nenhum dos integrantes havia anunciado o nome dela ao microfone, ela ficou conhecida ao longo dos anos com nomes genéricos nada criativos como “Untitled” (sem título) e “Unreleased Track” (faixa nunca lançada). O mistério em torno do nome dela foi solucionado quando, em 2008, foi lançado 1 Top Class Manager (Anti-Archivists, 220 páginas), um livro com scans dos cadernos de anotações do finado ex-empresário do Joy Division e do New Order, Rob Gretton. Segundo as notas de Gretton, essa música se chamaria “Hour”.

Do repertório desse período inicial do New Order, apenas “Homage” (que não fez parte do set list do Maxwell’s, mas foi tocada em outros shows e aparece na fita demo do Western Works Studio) e a desafortunada “Hour” (que não resistiu à sua primeira apresentação pública e imediatamente caiu), não foram gravadas e lançadas mais tarde. “Ceremony” e “In a Lonely Place”, começaram a ser criadas quando Ian Curtis ainda estava vivo, mas se transformaram no primeiro single do New Order, em 1981; “Dreams Never End” e “Truth” entrariam no LP de estreia, Movement, lançado no mesmo ano; “Procession” ganharia um compacto próprio, também em ’81, mas reapareceria no ano seguinte ao lado de “Mesh” no EP Factus 8 (também conhecido como 1981-1982); “Cries and Whispers” entraria no lado B do single “Everything’s Gone Green”, lançado na Bélgica pela Factory Benelux.

Bom, chega de tanto falatório… Quem quiser curtir o show no Maxwell’s, Hoboken (NJ), 20 de setembro de 1980 (mesmo sendo uma gravação pirata com todas as falhas e falta de qualidade típicas do gênero), pode descarregá-lo AQUI.

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REVIEW | Show: New Order, Casino de Paris, 04/11/2015

IMG_0483O que levou o New Order a escolher Paris como ponto de partida para a sua mini-turnê europeia que inaugura os trabalhos de divulgação (no palco) de seu mais recente trabalho – o até agora (muito) bem recebido Music Complete – é um segredo reservado somente à banda e seu management. Todavia, o que importa para o escritor deste blog é que uma feliz coincidência, ou golpe de sorte, me colocou no lugar e na hora certos. Uma viagem a trabalho me deu a oportunidade de realizar um velho “fetiche”: mesmo já tendo visto o New Order oito vezes, com e sem Peter Hook, dentro e fora do Brasil, eu nunca assisti a um show do grupo em solo europeu. Bem, o grande sonho mesmo era ver os caras “jogando em casa”, em Manchester, mas quem aqui está em condições de esnobar um show em Paris?

Chamar o presente texto de review seria muita presunção. Ele não preenche os devidos requisitos para isso – para início de conversa, nem tem a imparcialidade necessária. Contudo, já vi muita gente por aí escrever sobre discos e shows sem qualquer conhecimento sobre aquilo que está a avaliar para o público. E muitas vezes o ego do crítico é tão grande que ele assume posições indevidas e vai a um espetáculo acreditando que os músicos em um palco estão ali suando sob os holofotes para satisfazer a eles (os críticos), como em uma audição particular, e não ao público que pagou para vê-los. Não sou crítico profissional, mas acho que mesmo tratando de uma matéria sobre a qual sou deveras suspeito, se eu simplesmente me limitar a dizer o que achei bom e o que eu achei ruim, acho que vou parecer bem menos picareta que muito “crítico de música” por profissão.

Comecemos pelo venue. O Casino de Paris, localizado na Rue de Clichy, num ponto entre as estações de metrô Liège e Saint Lazare, tem a companhia de teatros e cafés, o que confere um ar boêmio ideal para um show. Quando eu cheguei, exatamente às 20:00, muitos grupos faziam seus warm ups nesses templos de boa bebida (vinho e pints) e sanduíches na baguette. Nem fiquei muito tempo do lado de fora. Logo no hall de entrada, já se podia ouvir o som do show de abertura (a banda era o Hot Vestry, cuja tecladista, Tilly, é filha de Stephen Morris e Gillian Gilbert). Quando finalmente acessei a pista, percebi que estava a assistir os minutos finais da apresentação do HV. Os instantes finais desse show e, também da apresentação do DJ Tintin serviram para duas coisas: para que eu arrumasse um bom lugar (nem precisava ser no gargarejo, já passei dessa fase) e para olhar melhor o interior da casa. O Casino de Paris é bem menor do que aparenta nas fotos espalhadas pela internet. Em alguns momentos, cheguei a pensar que era do tamanho do Circo Voador (Rio de Janeiro) ou até mesmo menor. Segundo a Wikipedia, a capacidade do fosse (pista) é de 1.800 pessoas. A capacidade total atual do Circo, a título de comparação, é de 2.800. Achei pouco para o New Order.

Outro problema: o palco era muito baixo. Aliás, um problemão em termos de visibilidade dependendo de onde se está na pista, ou da sua estatura. É bem verdade que eu prefiro shows indoor, mas custava acreditar que bandas como Coldplay e New Order haviam sido escaladas para tocar ali – com todo respeito ao valor histórico e à riqueza arquitetônica do lugar.

Bom, mas o Casino deixou uma impressão positiva em um aspecto importante: excelente acústica. Essa qualidade ficou evidente em todas as apresentações da noite: Hot Vestry, DJ Tintin e, salve salve, New Order. A outra coisa boa é que a casa estava lotada pelo menos – era um concerto sold out, isto é, com todos os ingressos vendidos (e tinha gente do lado de fora caçando ingresso de tudo quanto era jeito, pois chegaram até a me perguntar se eu tinha um sobrando para vender). Ficou evidente que o New Order precisava de um lugar mais espaçoso, por melhor que o Casino de Paris pudesse ser.

Mas como o que importa mesmo é o jogo com a bola rolando, vamos ao show. Confesso que fui esperando mais do mesmo: a banda entrando em cena ao som de alguma trilha de spaghetti western de Ennio Morricone, “Elegia” (de Low Life) como intro “substituta” para “Crystal” (que tem sido a opener dos shows há anos), depois “Regret”… Como reprises da Sessão da Tarde. Só que não. Pelo menos não desta vez. Ou pelo menos não será mais assim ao longo dessa nova turnê. Após uma intro diferente, que não consegui identificar, o New Order subiu ao palco sem muita conversa e escolheu como cartão de visitas um dos grandes temas de sua mais recente safra: “Singularity”.

Aposta alta, eu diria. Mas saíram ganhando. Funcionou muito bem como canção de abertura e, olhando a reação do público ao redor, tive a impressão que eu não fui o único a aprovar a escolha. Fora a execução, perfeita, o som estava tinindo, “brilhante”… E no lugar do vídeo chinfrim que havia sido produzido para a faixa quando ela foi incorporada ao set list no ano passado – antes de Music Complete ver a luz do dia – eles usaram imagens editadas de B-Movie: Lust & Sound in West Berlin 1979-1989, do trio Jörg A. Hoppe, Klaus Maeck e Heiko Lange. As cenas do filme pareciam dialogar muito bem com versos do tipo “We’re working for a wage / I’m living for today / On a giant piece of dirt / Spinning in the universe”. Aliás, falando em vídeo, outra mudança: em vez de um único telão de led ao fundo, este agora é complementado por telas laterais dispostas diagonalmente (ver foto), o que resulta em um efeito cênico bem mais belo e atraente.

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No esteio de “Singularity” tivemos uma sequência de velhos números “infalíveis”, todos executados com a mais absoluta perfeição: “Ceremony” (será sempre um dos pontos altos do show), “Crystal” (caiu do topo do set list, mas não ficou má nessa posição), “Age of Consent” (que Tom Chapman, o substituto de Peter Hook, toca com igual maestria, e que fique registrado isso) e a versão de “5-8-6” turbinada com uma mãozinha do DJ e produtor Stuart Price (que retornou ao repertório de shows do New Order em 2011 para nunca mais sair). A surpresa aqui foi terem puxado “5-8-6” mais para a “primeira parte” do show, na qual tradicionalmente predominam os temas mais rock. É, parece que a banda anda inclinada a quebrar algumas de suas próprias regras novamente

Após esse bloco de clássicos, eles retornaram ao Music Complete com “Restless”. Eu adoro essa música, mas tal como na apresentação em Maida Vale para o BBC 6 Live há algumas semanas, existem algumas coisas nela que, pelo menos no meu ponto de vista, fazem com que ela entre no famoso hall das “Grandes Canções de Estúdio do New Order Que Não Soam Bem Ao Vivo”. No começo, parecia meio lenta e arrastada… Levou tempo para ela entrar no mesmo pique do disco, com aquela “pegada” ligeira. Mas chegou lá. Porém, não gosto das guitarras. É legal, em termos visuais, ver o Phil Cunningham empunhando uma linda Gretsch, mas eu ainda prefiro o dedilhado no violão da versão original. As guitarras elétricas, com seus acordes “chá-com-pão” banais, encobriam o baixo de Tom Chapman e as lindíssimas frases de teclado de Gillian Gilbert. Tome um 6,5 e olhe lá!

Mas vejam como são as coisas. Para quem achou, antes do show começar, que o máximo que poderia haver de surpresa era o New Order tocar músicas do novo disco, quem poderia imaginar que eles desenterrariam um lado B de 1984?! Meu queixo quase foi ao chão quando ouvi Tom Chapman tocar em seu baixo Rickenbacker a introdução de “Lonesome Tonight” (vi Peter Hook, o autor original do riff, tocar essa com o The Light, mas confesso que não me emocionou tanto quanto desta vez que vi com New Order… e com o Tom em seu lugar). Tudo conspirou para sair perfeito: até mesmo Bernard Sumner, afeito a lambanças em músicas que estão há muito tempo sem tocar, não desafinou, não errou a letra, nem errou nas suas partes de guitarra. Valeu, Barney.

Aliás, eu preciso dizer algo à respeito de Sumner. Achei a atitude de palco dele diferente da que havia me acostumado a ver nos shows que o New Order realizou na América do Sul. Pelas bandas daqui (ops, de lá, ato falho, esqueci que estou nas Zoropa), muito populismo: na Argentina, “We love the beef!”; no Chile, “We love the wine!”; no Brasil, “We love caipirinha! But not the traffic jam!”. Fora os sorrisinhos e as piadinhas troll. O Barney que eu vi aqui em Paris fazia um tipo mais sério e frio, sem muita comunicação com a plateia.

Quando finalmente soltaram “Your Silent Face”, para um bom entendedor uma música basta. Para quem nunca reparou, aqui vai um “segredo”: ela é aquela música “calma” que cria uma espécie de “pausa” para a plateia recuperar as suas baterias, porque, depois dela, costuma ser a hora do ballroom, do batidão. Não deu outra: o New Order colocou na pista a dobradinha mais dançante de Music Complete: “Tutti Frutti” e “People on the High Line”. Na primeira, Sumner finalmente cometeu o primeiro grande erro da noite entrando um pouco tarde com a voz, se desencontrando em seguida com os vocais pré-gravados de Elly “La Roux” Jackson. Mas pouco depois ele conseguiu encaixar a voz e a letra nos lugares certos e a música transcorreu até o fim sem mais nenhum problema – e acompanhada por um vídeo cheio de imagens com cores berrantes que irremediavelmente remetiam ao álbum Technique (1989). Aqui cabe dizer uma coisa: “Tutti Frutti” não é a minha favorita do novo LP, mas não tem como não reconhecer que a faixa se encaminha para a sua canonização junto a outros clássicos do repertório da banda. Não é exagero. Era só olhar ao redor para perceber o quanto o público realmente ama essa canção.

Já em “People on the High Line”, outra que teve que trazer Elly Jackson em versão virtual / sampleada, foi perfeição da primeira à última nota. O destaque vai, sem dúvida nenhuma, para a “cozinha”: Stephen Morris e Tom Chapman. O que se ouve no disco soa ainda melhor ao vivo. Mas nessa hora foi impossível não pensar em Peter Hook. Não, não pensamentos do tipo “ah, que falta que ele faz”. Foi algo do tipo “vendo Morris e Chapman tão bem entrosados assim parecem que eles tocam tanto tempo juntos quanto Morris e Hook tocaram”. Foi tão bom, mas tão bom, que eu gostaria que o Daft Punk tivesse assistido essa versão de “People on the High Line” só para convidar Tom Chapman e Stephen Morris para tocarem no seu próximo disco.

Meus olhos testemunharam uma ampla aprovação das músicas novas no show. Mas vejam que detalhe curioso: haviam se passado dez músicas e nenhuma do Joy Division havia sido tocada – e eles já estavam no bloco de faixas mais dance. Eu mal podia acreditar no que eu estava presenciando… Da mesma forma como mal pude acreditar com o que eles fizeram com “Bizarre Love Triangle”: tocaram-na com um novo arranjo, com base no remix feito por Richard X em 2005. Pode parecer “heresia”, mas o fato é que soou muito melhor ao vivo que a já desgastada e sem brilho versão que vinha sendo tocada, com pouquíssimas modificações, desde 1998. A mesma ousadia valeu para a faixa seguinte, “Waiting for the Sirens’ Call”. Enquanto a versão original foi estruturada sobre uma base de guitarra-baixo-bateria, tendo os teclados e os sintetizadores apenas como “ornamentos”, no Casino de Paris a banda apresentou-a com nova roupagem se apropriando do remix “Planet Funk”. Ninguem no local parecia incomodado com mais esse “sacrilégio”. Pelo contrário, tive a sensação nítida de que a banda ganhou pontos com isso.

E aí veio a quinta e última música de Music Complete da noite: “Plastic”. Uma música que eu acho ótima. O problema é que, após o enorme impacto da sequência “Tutti Frutti”, “People On the High Line”, e os remakes/remixes de “Bizarre Love Triangle” e “Waiting for the Sirens’Call”, ela não arrancou oh!‘s e ah!‘s de ninguem. Uma pena, porque também foi tocada com absoluta precisão. Talvez o melhor lugar para ela seja mais para o início do show.

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Daí para frente… Agora sim, tudo mais do mesmo. “The Perfect Kiss”, “True Faith” e, encerrando o set, “Temptation”. Em “True Faith”, fora uns synths extras na introdução e uma “paradinha” no terço final da música, é o mesmo arranjo apresentado desde 2011, com base nos remixes do Shep Pettibone e do Paul Oakenfold. Já em “Temptation”, a banda toda se perdeu no começo, os instrumentos se desencontraram e o constrangimento se instalou nos rostos de toda a banda, mas depois todo mundo “se entendeu” de novo e faixa seguiu seu rumo – apoteótico, como sempre. A pausa antes da encore foi uma das mais curtas que eu já vi. Ela começou com “Blue Monday” – a pérola que faltou no bloco dance. E depois, é claro, não podia ser diferente: o espaço do Joy Division permaneceu garantido e o show terminou com “Atmosphere” e “Love Will Tear Us Apart” (esta última com os graves reverberando e estourando, foi a única “derrapada” no som, que esteve sempre impecável).

Fiquei feliz de ver o New Order com um show diferente daquele que vinha apresentando desde 2011. O repertório mostra que a banda conseguiu um equilíbrio bem razoável entre o material novo, os antigos sucessos (alguns com nova roupagem), um pouco de Joy Division para agradar quem faz questão e até “raridades” de seu catálogo. É claro que, ao longo dos próximos meses, esse set list a seguir pode sofrer alterações, mas como fã eu já vejo que essa lista aí já daria um bonito disco ou DVD ao vivo. Mas, falando especificamente do concerto em Paris, dos que eu vi, esse seguramente está entre os três melhores.

SET LIST:
Singularity
Ceremony
Crystal
Age of Consent
5-8-6
Restless
Lonesome Tonight
Your Silent Face
Tutti Frutti
People On the High Line
Bizarre Love Triangle (Richard X Remix)
Waiting for the Sirens’ Call (Planet Funk Remix)
Plastic
The Perfect Kiss
True Faith
Temptation
Blue Monday (encore)
Atmosphere (encore)
Love Will Tear Us Apart (encore)

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