REVIEW | Livro: “Record Play Pause – Confessions of a Post-Punk Percussionist Volume 1” (Stephen Morris)

Stephen+Morris+Record+Play+Pause

Quando será que vai sair a autobiografia da Gillian Gilbert?

A banda das incontáveis coletâneas vem aumentando, também, sua coleção de autobiografias. Depois de Peter Hook e Bernard Sumner, agora chegou a vez de Stephen Morris, ex-Joy Division e (ainda) baterista do New Order, que acaba de lançar lá fora pela editora Constable o seu Record Play Pause: Confessions of a Post-Punk Percussionist Volume 1 (416 páginas). O título dá a pista: o que temos por hora é “apenas” a primeira parte. Nos catálogos de algumas livrarias on line vem sendo acrescentado um The Joy Division Years como forma de indicar para o leitor que a história do New Order provavelmente será foco do volume seguinte.

Não há como avaliar esse primeiro tomo das memórias de Morris sem comparar (pelo menos em determinados aspectos) com os livros lançados previamente por Hook e Sumner. Por ter feito a escolha de distribuir toda sua biografia e trajetória no mundo da música ao longo de três títulos, Peter Hook ofereceu aos fãs do Joy Division e do New Order uma história extremamente rica em detalhes e informações. Nesse aspecto, a autobiografia de Sumner, publicada em volume único, perde de goleada. Ainda que o segundo volume das memórias de Morris não tenha uma previsão de lançamento, já podemos supor que em matéria de profundidade e detalhamento Record Play Pause tem tudo para conquistar um potencial segundo lugar na preferência dos fãs.

As diferenças, todavia, não param por aí. Ainda que o mais provável é que todos esses livros tenham sido escritos por ghost writers (prática comum em se tratando de autobiografias de astros da música), cada um deles foi desenvolvido em um estilo de escrita que parece refletir com alguma precisão a personalidade de cada “autor”. Os livros atribuídos a Peter Hook, por exemplo, possuem uma linguagem carregada de um humor escrachado e irreverente. Já o livro de Sumner tem um estilo de escrita mais low profile, se parecendo às vezes com uma entrevista. Mais uma vez, Record Play Pause parece ficar no meio do caminho entre os dois. O senso de humor mais sofisticado de Stephen Morris, por vezes sarcástico e mordaz, comparece. O texto dá voz à personalidade conhecidamente nerd e excêntrica do baterista.

O primeiro volume de Record Play Pause cobre um período que vai da infância de Morris em Macclesfield (cidade que fica nos arredores de Manchester) até os primeiros passos do New Order. Dividido em três partes, duas delas são dedicadas ao Joy Division, desde suas origens punk como Warsaw até o fim trágico com a morte de Ian Curtis. Naturalmente, há muita coisa no livro que já foi dita alhures, seja nas autobiografias de Sumner e Hook, seja em tantos outros livros já publicados sobre o Joy Division e o New Order. Isso não quer dizer, entretanto, que Morris não traz para o leitor alguma coisa diferente ou nova aqui ou ali.

Record Play Pause revela ao leitor fatos da vida pessoal de Morris que ajudam a entender como aquele garoto oriundo da pequena burguesia de Macclesfield (em contraste com Hook e Sumner, que vieram da classe operária de Salford) se tornou um dos percussionistas mais celebrados de sua geração. Está tudo ali: o interesse pela música (em especial bandas como uma forte veia experimental / vanguardista, como Hawkwind, Captain Beefheart, Can, Velvet Underground e Van Der Graaf Generator), seu desejo de aprender a tocar um instrumento musical, do clarinete (por sugesão de seu pai) à bateria (demonstrando, desde o começo, predileção pelo estilo repetitivo de bateristas como Moe Tucker e Jacki Liebezeit), além, é claro, das primeiras experiências com drogas.

A terceira parte certamente é a que mais prenderá a atenção do leitor. Nela Morris traça o perfil de figuras importantes para a história da banda, como Rob Gretton (o falecido ex-empresário do Joy Division e do New Order) e Tony Wilson (repórter televisivo e chefe da gravadora Factory), esmiuçando o relacionamento que o grupo tinha com eles; detalha as gravações dos dois LPs que o Joy Division produziu durante sua curta existência (o que inclui generosas descrições de aspectos técnicos); conta como conheceu Gillian Gilbert e de que maneira os dois engataram o relacionamento amoroso que dura até hoje; e explica como ele e Bernard Sumner foram “capturados” pelos instrumentos eletrônicos. Tudo isso costurado pelo humor tipicamente britânico (ou seja, irônico ou autodepreciativo) do baterista.

Record Play Pause não chega a ser “o livro” sobre o Joy Division, mas segue a mesma linha das autobiografias anteriores, que retrata o grupo de uma forma bem menos “séria” ou “solene”, o que contraria o mito de “banda depressiva” que repousa no imaginário coletivo há anos. Apesar dos já conhecidos problemas de seu finado ex-vocalista, o ambiente interno do JD era qualquer coisa, exceto depressivo. Resta saber agora que outros mitos Morris ajudará a derrubar quando lançar o volume que cobrirá a história completa do New Order.


P.S.: Para minha imensa alegria, fui presenteado com uma cópia promocional de Record Play Pause assinada pelo Stephen Morris (foto). Todavia, o responsável por conseguir esse exemplar me pediu que eu mantivesse sua identidade em sigilo… de qualquer forma, gostaria de deixar registrado meus agradecimentos por tamanha consideração.

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Minha cópia promocional de Record Play Pause assinada pelo autor.

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<<OBS.: texto modificado em 26/07/2019, às 10:23.>>

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NEWS | New Order: o que vem por aí

Picture1O New Order anunciou hoje em suas redes sociais e, também, em seu site oficial que lançará lá fora no dia 30 de novembro (mesmo dia em que o grupo se apresentará em Uberlândia, no Triângulo Mineiro) uma inédita edição em vinil da coletânea Total: From Joy Division to New Order. O disco foi lançado originalmente em CD em 2011 e se diferenciou dos demais álbuns compilatórios da banda por incluir também faixas do Joy Division. Além disso, na época em que foi lançado Total trazia a público pela primeira vez uma das sobras de estúdio de Waiting for the Sirens’ Call (2005), a canção “Hellbent”.

Outra boa novidade é que o livro de memórias do baterista Stephen Morris já tem título, capa e data lançamento divulgados. De acordo com a Amazon britânica, Record Play Pause está previsto para sair em fevereiro do ano que vem. A edição capa dura tem preço de lançamento estimado em £16 (aproximadamente R$ 77, sem contar despesas de envio). A editora que lançará o livro é a Constable. O texto de descrição da Amazon (em tradução livre) diz assim:

“O livro de Stephen Morris não será aquela típica autobiografia que normalmente tende a ser recheada de malícia porém pobre em matéria de música. Parte memórias, parte história auditiva, será um texto híbrido na voz irônica e espirituosa de Stephen, uma narrativa dupla sobre o que é crescer no noroeste da Inglaterra nos anos 1970 e sobre como a música realmente funciona. Ele também explorará o que é fazer parte de uma banda mítica e também a ideia de como você se torna o que você é.” 

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Nós aqui do blog diremos o seguinte: agora só falta o livro da Gillian Gilbert…

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NEWS | Stephen Morris fala ao The Irish Times sobre ação judicial e a “caixa definitiva” do New Order

560b6-new-order-left-to-right-g-007Por ser uma das atrações do festival Electric Picnic, na Irlanda, o site do jornal The Irish Times publicou, no último dia 27, uma matéria sobre o New Order acompanhada de entrevista feita com o baterista Stephen Morris. Nela, Morris fala sobre a ação que o ex-baixista Peter Hook moveu contra eles nos tribunais e, também, sobre um futuro box set do New Order que promete ser “o definitivo”. O blog traz a seguir a tradução da matéria/entrevista, assinada por Shilta Ganapra.


NEW ORDER: ESQUEÇA AS BRIGAS, TOQUE A MÚSICA.
Separações e processos judiciais à parte, o New Order vem tocando e gravando novamente – e vem ao Electric Picnic.

por Shilta Ganapra

Dado o seu passado, não é surpresa alguma o fato da história recente do New Order ter sido agitada. Os pioneiros do electro alternativo voltam ao Electric Picnic no próximo final de semana. Os dez anos desde a última vez em que tocaram no festival foram definidos por um hiato e, também, por membros que deixaram a banda, por integrantes que retornaram, por processos judiciais e, em setembro do ano passado, por um retorno à boa forma com o seu décimo álbum de estúdio, Music Complete.

O sucesso do disco foi estrategicamente importante. Ele desviou a atenção para longe das disputas legais e de volta para a música enquanto forjava um impressionante equilíbrio entre a busca por novos caminhos e o retorno à sua velha assinatura – hinos para as pistas de dança (para o deleite de fãs em várias partes do mundo).

“O que facilitou nosso caminho de volta à composição foi o fato de termos voltado a tocar ao vivo. E aí percebemos que o material mais dançante era o que mais se destacava”, diz Stephen Morris, baterista do New Order, explicando porque a banda optou por jogar com seus pontos fortes. “Nós pensamos, ‘será que não cairia bem ter um par de músicas novas no set list?’ Então começamos a compor algo novo para tocar nos shows em vez de ir para o estúdio sem ideias e esperamos sair com um álbum em algum momento no futuro.

“Começamos com ‘Singularity’, que fizemos com Tom Rowlands do Chemical Brothers, que também colaborou com a produção”, diz ele. “Então nós fizemos ‘Plastic’ e uma vez que você você tem duas ou três músicas novas era melhor então deixar de se preocupar tanto com os shows e passar a se concentrar mais na preparação de um disco. E a recepção [do álbum] tem sido fantástica”.

O único problema com os elogios é que muitos deles foram indiretos quando vistos à luz das comparações com os dois álbum anteriores da banda, Get Ready e Waiting for the Sirens’ Call. Gravados sem Gillian Gilbert [N.T.: o jornalista se equivocou, pois Get Ready foi gravado com Gillian ainda na banda], a esposa de Morris, esses discos soaram mais indie que o habitual, como demonstram os singles “Crystal” e “Krafty”. Com o benefício da retrospectiva, o que Morris acha da produção do New Order do começo dos anos 2000?

Ele fica indisfarçavelmente em cima do muro.

“Quando se olha para trás não dá para ser objetivo sobre o passado, porque sua opinião é sempre colorida pela sua experiência”, diz Morris. “O disco Waiting for the Sirens’ Call foi como uma maratona. Tínhamos muitas músicas e sabíamos que elas eram boas, mas nós não conseguíamos enxergar o produto final. Get Ready foi o oposto: sabíamos onde queríamos ir, mas não sabíamos como chegar lá.

“Além disso, Get Ready foi o último álbum no qual saímos para gravá-lo”, acrescenta. “Até aquele ponto nós fazíamos alguma coisa em casa e, em seguida, quando queríamos levar o trabalho a sério não havia outro modo de fazê-lo senão gastar uma fábula de dinheiro para alugar um bom estúdio de gravação e permanecer nele pelo tempo que fosse necessário.

“Eu acho que ambos os discos têm boas canções, mas não consigo ouvi-los do mesmo jeito como as outras pessoas os ouvem”.

O mesmo raciocíno se aplica, diz ele, de volta ao final da década de 1970, quando ele começou a tocar bateria com Ian Curtis, Bernard Sumner e Peter Hook na sombria Macclesfield, no norte da Inglaterra. Após quatro anos de shows ao vivo, o Joy Division começou a fazer gravações com o produtor Martin Hannett, que foi responsável tanto por Closer quanto por Unknown Pleasures, e, possivelmente, por aquele som inimitável. “Nós tínhamos uma ideia de como tudo soava em nossas cabeças, que era como soava ao vivo, ou seja, cru e agressivo. Mas Martin pôs para fora outra coisa. Foi um choque. Com Unknown Pleasures todos ficamos – qual é a palavra? – ‘decepcionados’  com o resultado final. Nós ficamos tipo ‘você arruinou as nossas músicas!’”.

O tema Joy Division é agridoce, principalmente por causa da morte prematura de Curtis, em 1980, e agora também por causa da traumática saída de Hook, que está chamando o reformado grupo – completado por Tom Chapman, seu substituto no baixo, e pelo guitarrista Phil Cunningham – de “banda de tributo ao New Order”.

“É tudo muito triste, sabe?”, diz Morris. “Mas Peter parece feliz com o que está fazendo, que é tocar as músicas do New Order e do Joy Division, e isso é bom. E nós estamos seguindo em frente do nosso jeito, o que também é bom”. Mas por estar processando o que resta do New Order por questões envolvendo royalties, Hook não parece tão feliz assim com o que os ex-colegas estão fazendo. “Me parece realmente que não. Nós resolveremos isso de uma maneira ou de outra, mas uma ação judicial é um jeito caro de fazê-lo. Uma das partes vai à falência primeiro”. Morris torce para que não seja o New Order. “Enquanto o taxímetro roda, quem sai ganhando com isso são os advogados, o que é lamentável”.

Sem meios-termos no rompimento de suas relações com os demais, Hook está pondo mais lenha na fogueira com o lançamento de Substance: Inside New Order, seu livro de memórias. O que Morris acha disso?

“Você vai ter que esperar o lançamento do meu livro! Só que eu não vou escrever sobre o Joy Division ou o New Order, já existem muitos livros por aí”, diz ele, enfático. “Eu vivi isso, o que é o suficiente. Eu tentei ler o livro do Bernard, assim como o da Debbie Curtis e o da Lindsay Reade. Há um monte deles. Isso me deixa um pouco irritado. É apenas o ponto de vista de uma pessoa. E quando você escreve uma autobiografia é comum promover-se como um herói – a não ser que você seja brutalmente honesto”.

Enquanto Peter Hook se ocupa com o livro e com seu empreendimento atual, Peter Hook & The Light, o New Order frequenta os festivais de verão. Após o Electric Picnic e, na semana que vem, o Lollapalooza Berlim, seu foco se voltará para um longo e complicado projeto: uma caixa definitiva do New Order. Ela ficou em banho-maria durante anos – o que é compreensível dada a dificuldade de se representar 36 anos de uma música seminal e consistentemente relevante. “É a coisa mais difícil do mundo. Todo mundo tem um grande box set, mas quando se trata do nosso sempre parece que nunca o fazemos direito”, diz Morris. “E eu acho que não se deve fazer nada que não seja pelo menos 99%”.

Peter Hook estará envolvido nesse projeto?

“Peter está em contato com a gravadora, então suponho que nesse aspecto ele está envolvido. Temos que concordar com tudo. Então eu acho que nós apenas temos que enviar uma lista de coisas para ele… e, em seguida, discutir sobre ela depois”.

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NEWS | New Order na América do Sul? Sim!

NewOrderPara2Eu “cantei a pedra” aqui no blog: havia alguns indícios de que o New Order poderia vir à América do Sul ainda este ano, talvez em novembro. Não deu outra: a banda realmente passará por estas bandas com a turnê do álbum Music Complete. O “anúncio” saiu da boca do casal Gillian Gilbert (teclado, guitarra) e Stephen Morris (bateria) em uma entrevista concedida à EITB (Euskal Irrati Telebista), emissora de TV estatal do País Basco, nos bastidores do festival BBK Live, em Bilbao (Espanha), no qual se apresentaram no dia 07 de julho. Na entrevista, publicada na página da EITB no You Tube (ver abaixo), a dupla teve que responder típicas perguntas clichês do tipo “o que vocês acham de Bilbao?”; mas quando foram questionados sobre os planos para o “futuro próximo”, Stephen Morris respondeu: “Prosseguiremos com os festivais… Em seguida, sairemos de férias por algumas semanas. E depois daremos uma passadinha pela América do Sul”. Naturalmente, não disseram nada sobre quais cidades, nem sobre as datas etc. Vale ressaltar que os shows da atual turnê vêm recebendo elogios da imprensa especializada pelo mundo afora – aqui mesmo no blog já publicamos traduções de algumas resenhas. E eu, por experiência própria, vi uma bela amostra em Paris no ano passado. Então, que a América do Sul prepare o seu calor para receber o New Order mais uma vez!

O blog agradece Marcello Dourado e ao Josué “Mr. Disco” pelo envio do vídeo.

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NEWS | “Drama? Que drama?” New Order fala à Magnet

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New Order

Com uma mãozinha da turma do fórum Dry 201 Message Pub, chegamos a essa matéria/entrevista sobre o New Order e o novo álbum, Music Complete, fisgada na seção Features do site da revista Magnet (especializada em pop/rock alternativo). Na conversa com Neil Ferguson, dá para perceber o quanto a banda passa bem longe da baixaria quando o assunto é Peter Hook; o mesmo não se pode dizer de Hook quando o tema é New Order.

Quem se surpreender com a declaração de Bernard Sumner quando ele diz que gostaria que a história da banda tivesse sido menos interessante certamente não se imaginou no lugar dele e dos outros quando eventos como o suicídio de Ian Curtis, a falência da Factory Records ou os rios de dinheiro que escorreram pelos ralos da Haçienda tiveram lugar em suas vidas.

Bom, deixemos de lado a enrolação e, mais uma vez, espero que o leitor goste da humilde tradução.


NEW ORDER: O JEITO MANCUNIANO
O New Order se orgulha de ter sobrevivido a todos os vícios e passos em falsos pelos quais foram conhecidos

“Drama? Que drama? Não houve drama algum. Nós tivemos, sim, três anos ótimos. Passamos bem longe do drama, para ser honesto. Não é tudo perfeito sempre, o que não seria realista, mas na maior parte do tempo tem sido ótimo”.

Bernard Sumner, antigo guitarrista do Joy Division, depois líder do New Order, está se referindo a Music Complete, o primeiro álbum de material novo em dez anos. Sumner é completamente seco e calculista em suas respostas – o oposto do baterista Stephen Morris, que é espirituoso, amável e vagamente confuso -, mas torna-se animado quando Magnet tem a ousadia de sugerir que pode ter havido certo grau de drama devido à saída do baixista Peter Hook e as subsequentes e muito confusas acusações públicas que vieram à tona através da imprensa musical. Mas por agora Sumner não tem nada a declarar sobre isso e faz questão de salientar o quão relativamente indolor foi fazer o novo ábum.

O próprio fato de que Music Complete foi concluído parece nada menos que um pequeno milagre. Afinal, não faz muito tempo que Morris disse ao The Guardian que ele não via futuro para o New Order e que estaria tudo acabado. Mas então o que aconteceu? O que aconteceu foi que o ex-produtor de vídeos e ex-chefe da Factory Records nos EUA Michael Shamberg ficou gravemente doente, e a banda – reunida com a tecladista Gillian Gilbert – se juntou para um show beneficente a fim de cobrir os custos médicos de Shamberg. “E tudo correu bem”, diz Sumner. “Ninguem parecia se importar que não havia Hooky e a coisa é, se você estiver em uma banda, a próxima coisa que você faz é escrever um novo material. E foi o que nós fizemos”.

O resultado é Music Complete. De longe, ele é bem mais eletrônico que os últimos discos – uma decisão deliberada, diz Sumner, em grande parte sugestão de Gillian – e conta com a participação de nomes como Brandon Flowers (The Killers), Elly Jackson (La Roux) e Iggy Pop, que soa apropriadamente como uma espécie de pregador em um poema musicado de Sumner intitulado “Stray Dog”. Convidados à parte, ainda é quintessencialmente um álbum do New Order, com tudo o que isso implica: pop perfeito que contorna a linha tênue entre o sublime e o ridículo. Há ecos de Giorgio Moroder, Yello e Chic. Há grooves propulsores, musculares, elegantes, furtivos e sensuais (“Singularity”, “Plastic”). Há momentos de brilho transcendente (“Nothing But a Fool”, “Academic”) nos quais a banda confronta os aspectos robóticos e frios da música eletrônica com temperamentos como melancolia e generosidade romântica, algo que por muito tempo têm sido características do melhor New Order.

Às vezes há uma sensação persistente de que a banda persegue o seu próprio passado. Pode até não alcançar as alturas vertiginosas de, digamos, um Technique (álbum de 1989), mas Music Complete ainda é muito mais atraente do que qualquer um poderia ter razoavelmente esperado. Quanto aos obstinados dissidentes reclamando sobre a ausência de Peter Hook e sua patenteada teatralidade barata? Não espere muita simpatia por parte de Morris.

“Bem, não é New Order sem Gillian?”, ele pergunta. “Ninguem se importava com isso. Seria New Order sem mim? Seria New Order sem Bernard? Posso entender por que algumas pessoas se sentem assim. Sempre existe alguem que diz: ‘bem, isso é errado’. Você tem apenas que seguir em frente. Não há nenhuma resposta para isso, realmente. Quero dizer, nós poderíamos ter dito ‘oh, não há nada em vista’, o que parece idiota depois de termos passado pela perda de um vocalista e, mesmo assim, termos escolhido continuar. Simplesmente não parecia certo”.

Sumner, por sua vez, parece muito mais otimista com relação a todo ar confuso; ele não quer “apontar um dedo”, mas admite que, no estúdio, foi tudo muito menos tenso sem seu antigo baixista. “Quando Hooky ainda estava conosco, era como se houvesse ratos em uma cama”. Ele está ansioso para falar sobre o retorno de Gillian e suas contribuições. “Ela era uma influência calmante?”, diz Sumner. “Não, não, eu não diria isso. Ela é muito mais uma colaboradora”.

O que diz Morris? “Que diferença faz? Para mim significa que o chá não estava sobre a mesa quando eu voltava do trabalho para casa! [Risos] Oh, Deus, isso é uma coisa terrível de se dizer. Ela certamente vai me dar um tapa!”.

Mais do que tudo, continua sendo uma coisa maravilhosa apenas o fato de ainda termos o New Order por aí. Eles passaram por morte, drogas, bebida, a beira da falência e o colapso da gravadora – e sobreviveram com a sanidade e o senso de humor intactos. A história deles é um grande drama-comédia-tragédia, mas eles continuam imperiosos, inescrutáveis e frios, quase nortistas profissionais, com um detector de baboseiras embutido que faria os sem talento morrerem de vergonha. Em suma, quer se goste ou não, eles deveriam se tornar tesouros nacionais britânicos. Que é algo com o qual Sumner consegue viver.

“Tem sido uma estrada rochosa, isso é certo”, ele diz com considerável modéstia. “O que contribui para uma história interessante – eu gostaria que tivesse sido um pouco menos interessante, para ser honesto. Mas eu prefiro ser chamado de ‘Tesouro Nacional’ do que de merda”.

– Neil Ferguson

NEWS | Pílulas de New Order

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Trazemos hoje três notas curtas para você, leitor e fã, se manter atualizado sobre o que vem sendo publicado lá fora sobre New Order, Joy Division, side projects e assuntos relacionados. Esperamos, uma vez mais, atingir nosso objetivo: informar e aumentar o fã-clube. Boa leitura.

  • O New Order vem se saindo muito bem nas paradas britânicas desde que o álbum Music Complete saiu em setembro do ano passado. O disco, como chegamos a publicar aqui, alcançou o segundo lugar na parada de álbuns, sendo esta a melhor colocação desde Republic (primeiro lugar, em 1993). O último single não está fazendo feio, não. Embora hoje os downloads e o streaming tenham mais peso no mercado, revelando as novas preferências de quem consome música, “Tutti Frutti”, faixa dançante que flerta com o disco house, alcançou a quarta posição entre os singles físicos (CD e vinil) e foi o segundo 12″ mais vendido. Aliás, os fãs do New Order parecem ser, também, entusiastas das velhas bolachas: Music Complete ficou na 26ª posição na lista dos LP’s mais vendidos na Inglaterra em 2015. Trata-se de uma bela posição, considerando que o disco competiu com álbuns que saíram meses antes dele e, também, com relançamentos de alto calibre, dentre eles o multi-recordista Dark Side of the Moon, do Pink Floyd. De novidade, a Mute Records promete para os próximos dias o novo single. E o relançamento da coletânea Singles (nos formatos CD duplo, o original, e box-set com 4 LP’s), que deveria ter rolado no ano passado, foi adiado para dezembro deste ano… Santa espera, Batman!

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  • O baterista do New Order, Stephen Morris, é a estrela do segundo vídeo da série Analogue, produzido e divulgado pelo site da gravadora/produtora The Vinyl Factory. O pequeno filme de quase quatro minutos mostra Morris no estúdio caseiro montado em sua fazenda em Macclesfield, Grande Manchester, cercado por sintetizadores analógicos e falando sobre eles e sobre tecnologia musical em geral. Em seu depoimento, ele diz que, como produtor, se considera um herdeiro de Martin Hannett (produtor dos discos do Joy Division e dos trabalhos iniciais do New Order) e de Konrad “Conny” Plank, o alemão por trás do som proto-eletrônico de bandas germânicas como Kluster/Cluster, Neu!, Harmonia e Kraftwerk (do primeiro LP a Autobahn). Um dos momentos mais interessantes é quando Morris diz que, se por um lado é maravilhoso que hoje haja tantos recursos e opções em termos de tecnologia musical, o que abre um leque quase ilimitado de possibilidades, por outro ter diante de si tanto para escolher acaba nos deixando paralizados e sem saber tomar decisões… E, curiosamente, a música moderna acabou se tornando mais homogênea.

 

  • Fazendo uma espécie de divulgação antecipada do show que fará na Irlanda com seu atual grupo, o The Light, em 31 de março deste ano, Peter Hook, o ex-baixista, concedeu uma entrevista ao The Irish News há poucos dias. O bate-papo com o entrevistador basicamente girou em torno de dois clássicos do New Order, os álbuns Low Life (1985) e Brotherhood (1986), que serão tocados ao vivo na íntegra na Irlanda (show que, inclusive, já passou por São Paulo em 2014). Todavia, Hook foi perguntado sobre seu livro de memórias do New Order, Power, Corruption and Lies, que estava previsto para ser lançado no ano passado. Segundo o baixista, estima-se que talvez seja publicado em outubro deste ano e que o livro terá mais de 1.000 páginas, com direito a minuciosos detalhes. Apesar da extensão da obra, Hook ainda teve que atender a uma lista de cortes feita pelo seu advogado, para evitar transtornos judiciais futuros, haja vista que ele e os ex-colegas de banda vêm travando batalhas nos tribunais envolvendo os negócios  e distribuição de royalties em torno do uso do nome New Order. Mas o rancoroso bass hero deu suas escorregadelas: disse que o New Order deixou de tocar “Sunrise” ao vivo porque o vocalista Bernard Sumner estava sempre insatisfeito com as partes de guitarra de Gillian Gilbert (mas quem tocava guitarra nessa era Bernard, enquanto Gillian fazia as partes de teclado) e que Sumner “condensou 30 anos de New Order em 100 páginas – em 60 delas me chama de cretino” em sua auto-biografia (sendo que, na verdade, o tema da crise com Peter Hook não ocupa mais do que sete ou oito páginas). Fãs, atenção: há de se ler o livro do Hooky (quando ele sair) com muito critério.

 

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NEWS | Stephen Morris fala sobre fazer “Music Complete” sem Peter Hook

Control+Gala+Screening+45MePKxniVFxNa segunda-feira, dia 10 de agosto, o site da revista canadense Explaim! Music publicou uma entrevista com Stephen Morris, baterista do New Order, na qual ele falou um pouco sobre como foi compor o novo álbum da banda, Music Complete, sem Peter Hook (baixista original). Na mesma entrevista, ele também falou como o grupo se sente em relação à desconfiança do público no que concerne a um New Order sem Hook e sobre a banda Factory Floor, que segundo Morris teria sido a inspiração para que voltassem a compor com os sintetizadores em destaque, como nos velhos tempos. A tradução completa da entrevista trazemos logo a seguir:


Stephen Morris, do New Order, fala do primeiro álbum sem Peter Hook
por Cam Lindsay
Publicado em 10 de agosto de 2015

Em 2011, quando o New Order anunciou que voltaria à ativa sem Peter Hook, membro original da banda, os fãs se perguntaram quanto tempo eles poderiam continuar sem o icônico baixista. Embora Hook estivesse ocupado com seu próprio trabalho com base no New Order e no Joy Division, os membros remanescentes Bernard Sumner, Stephen Morris e Gillian Gilbert montaram uma nova versão da banda com o colaborador de longa data Phil Cunningham e um novo baixista, Tom Chapman, para uma turnê mundial. A revitalização não apenas foi bem sucedida na estrada, mas também em estúdio, e assim o New Order passou a fazer seu nono álbum. [N.T.: a matéria não contabilizou o CD Lost Sirens, com sobras de estúdio de Waiting for the Sirens Call, de 2005]

O New Order está ciente das dúvidas que cercam um álbum sem Hook, mas eles não estão muito incomodados com o que as outras pessoas pensam.

“O negócio é escrever música e fazer o melhor que você puder”, disse Morris à Exclaim!. “E algumas pessoas vão gostar, enquanto outras vão achar uma porcaria. Eu não posso fazer nada com relação ao que os outros pensam. Na verdade, cabe a eles. Nós apenas fizemos o melhor disco que pudemos fazer”.

Music Complete (que sairá pela Mute no dia 25 de setembro) foi feito com um elenco de colaboradores de peso. Junto com Cunningham e Chapman, Tom Rowlands (Chemical Brothers), Stuart Price e Richard X ajudaram na produção, e Elly Jackson (La Roux), Iggy Pop e Brandon Flowers (The Killers) contribuíram com vocais. E mesmo com todos esses nomes participando, Morris e a banda estavam conscientes de que o baixista de longa data não estava envolvido. Essa consciência, no entanto, ajudou-os mais do que qualquer coisa.

“Isso é parte do que me faz pensar de forma diferente [neste álbum], explica ele. “Inconscientemente, ele [o álbum] nos fez trabalhar de um jeito diferente, porque nós estávamos trabalhando com Tom em vez de com Peter. Então fizemos as coisas de um outro modo. Só esse fato, realmente, fez alguma diferença. Mudou, mas isso não tornou as coisas mais difíceis ou mais fáceis. Eu acho que definitivamente contribuiu para nos concentrarmos na música e a nos esforçarmos mais”.

Quando a banda começou a trabalhar em Music Complete com Tom Rowlands, em 2013, eles rapidamente decidiram que queriam fazer um álbum que os levassem de volta aos dias em que os sintetizadores governavam sua música. Para Morris, o trabalho do Factory Floor inspirou essa decisão.

“Por volta de 2011 eu adquiri o CD de uma banda chamada Factory Floor e eu pensei que era a coisa mais incrível que eu tinha ouvido falar em tempos”, diz ele. “Me lembrou a maneira como o New Order costumava usar a eletrônica, ao mesmo tempo dance e rock, algo que deixamos de fazê-lo por um tempo. E eu meio que senti que devíamos voltar a utlizar sintetizadores em vez de guitarras.

“Eu acho que nesse disco nos aproximamos de uma maneira diferente de escrever e nós nos concentramos mais em ritmos usando sintetizadores e linhas de baixo primeiro, e, depois, as guitarras”, acrescenta. “Nos últimos dois discos nós fizemos ao contrário: começávamos com os riffs de guitarra e, em seguida, colocávamos os sintetizadores e o baixo. Isso nos fez pensar de maneira diferente e a nos dedicarmos mais”.

Com relação ao título do álbum, Morris sabe que Music Complete vem sendo interpretado como um canto do cisne, mas ele apenas cita-o como outro exemplo da “relação estranha que o New Order tem com títulos”.

Music Complete partiu de Bernard quando ele disse ‘vamos chamá-lo de Musique Concrète’”, explica ele. “Mas não podíamos chamá-lo assim, então dissemos: ‘vamos chamá-lo de Music Complete’. E por alguma razão esse passou a ser o título. Todo mundo gostou dele. Nós não tínhamos pensado sobre ele ter um senso de finalidade. Nunca pensei que soasse como se fosse nosso último álbum. E também nunca pensamos que ele soa como se fosse outra coletânea do New Order, pois eu acho que, sinceramente, o mundo já tem o suficiente delas. Foi o melhor título a que se poderia chegar, porque nós escolhemos os títulos por último. É do tipo que resume todos os estilos musicais. Ele [o disco] não é totalmente dance, há um bocado de coisas diferentes nele. Music Complete é o que melhor o define”.


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