NEWS | Bernard Sumner (à Stereogum): “era o momento certo de fazer um álbum mais eletrônico”

x-factor-hate-bernard-sumner-590x350O blog sobre música independente e alternativa Stereogum publicou no último dia 25 uma bela entrevista com o vocalista e guitarrista Bernard Sumner, concedida a T. Cole Rachel. Nela, Sumner fala sobre diversos assuntos: o novo álbum – Music Complete, a ser lançado no dia 25 de setembro -, como era fazer música eletrônica no começo dos anos oitenta, o legado do Joy Division, a época em que os shows do New Order eram imprevisíveis graças aos seus porres homéricos e sua percepção sobre Manchester. Trazemos aos leitores essa tradução exclusiva – e vale a pena conferir!


Bernard Sumner fala sobre Music Complete e os fantasmas de Manchester
entrevista à T. Cole Rachel, publicada em 25 de agosto de 2015

STEREOGUM: Irvine Welsh escreveu um ensaio realmente incrível que acompanhou a amostra para a imprensa de Music Complete, do tipo que articula o que muitas pessoas devem sentir com relação à sua música: que é difícil separar os sentimentos sobre a banda dos sentimentos sobre a vida real, simplesmente porque o New Order foi uma grande parte de nossas vidas. Eu tenho escutado o álbum, mas eu não tenho certeza se posso até mesmo tentar ser objetivo sobre isso.

SUMNER: [risos] Bem, obrigado. Torna-se complicado quando você vem fazendo isso há tanto tempo.

STEREOGUM: Vocês todos se mantiveram ocupados durante uma década ou mais desde o lançamento do último álbum; na verdade, você também escreveu um livro durante esse tempo, Chapter and Verse, o que talvez desse a impressão de que não estivesse tão ocupado. Mas não houve algum momento durante esses anos em que você pensou que talvez não voltaria a fazer outro disco do New Order?

SUMNER: Houve momentos em que eu queria ficar longe da banda, tomar um fôlego e parar por um tempo – você sabe, foi quando as relações esquentaram dentro da banda e os problemas com os negócios se mostraram divisivos. Eu estou falando principalmente sobre a Factory Records e The Haçienda. Há um momento em que você quer dar um passo para trás e dizer “ei, o que está acontecendo aqui?”. Mas nunca houve momentos em que eu pensasse que nós não deveríamos continuar. Eu estou com o New Order há tanto tempo que ele está no meu DNA agora. É como um braço ou algo assim, você não pode simplesmente se livrar dele. Eu acho que, talvez, depois que Peter Hook deixou a banda, eu e o Steve [Morris] queríamos dar um passo atrás e fazer outra coisa, porque tudo havia deixado um gosto ruim na boca. Eu saí e fiz, com um cara chamado Jake Evans, um álbum chamado Never Cry Another Tear como Bad Lieutenant. Gillian [Gilbert] ficou doente durante esse tempo e Steve estava cuidando dela, mas depois disso – quando ela melhorou e começou a fazer shows aqui e ali – ele viu que o próximo passo seria fazer música nova. Depois que nossa intermitente turnê terminou seu ciclo de vida natural, parecia ser a hora de fazer um disco.

STEREOGUM: Music Complete é o som clássico do New Order na medida em que equilibra bem guitarras e sintetizadores, embora incline-se mais fortemente para os sintetizadores do que qualquer outra coisa feita por vocês em muito tempo. Ao revisitarem esse som clássico, estão assumindo que foi uma decisão consciente?

SUMNER: Sim, foi uma decisão consciente. Se você pegar Get Ready, Waiting for the Sirens’Call e Lost Sirens, esses três álbuns do New Order foram baseados em guitarras. Havia um par de temas dance neles, mas eles foram preponderantemente orientados pelas guitarras. As músicas surgiam a partir de jammings, um monte delas. Se você me ouvir em uma faixa tocando guitarra, geralmente ela veio de uma jamming. Se você ouvir uma canção predominantemente eletrônica do New Order, ela veio de uma pessoa sentada em frente a um computador, programando-o. Então, temos esses três álbuns à base de guitarras e, se voltar mais atrás, o último álbum que fiz com Johnny Marr [N.T.: ex-guitarrista dos Smiths], como Electronic, ele foi baseado em guitarras. O álbum que fiz com o Bad Lieutenant também foi baseado em guitarras. Então, parecia o momento certo para voltar a fazer um álbum mais eletrônico.

Umas das razões pelas quais fizemos uma pausa na nossa programação foi que houve um período de cerca de cinco anos no qual nós realmente não funcionamos em conjunto. Nós não nos separamos; nós apenas não trabalhamos juntos. Então, quando começamos a trabalhar juntos novamente, parecia lógico não ficar sentado em frente a um computador com um mouse na mão. O que parecia lógico era todos entrarem em uma sala, se sentarem juntos e improvisar, porque há mais interação na banda quando você está fazendo isso.

Esse álbum foi escrito de uma maneira diferente: eu em casa, no meu estúdio, com um computador, uns três sintetizadores e vários plug-ins. Steve e Gillian compõem em seu estúdio caseiro, cheio de sintetizadores modulares vintage. Tom [Chapman] e Phil [Cunningham] escreveriam um pouco também – e isso poderia ser qualquer coisa, de uma canção pronta ou apenas um pedacinho de música. Então, todos traziam as suas ideias e diziam: “Vejam só o que eu trouxe”. Então, alguem diz “certo, eu acho que tenho algo para tocar com isso”. E nós aceitávamos ou rejeitávamos.

STEREOGUM: É interessante pensar em como a tecnologia mudou desde que o New Order começou a fazer discos. Exceto quem estava envolvido naquilo, a maioria das pessoas não entendem o quão difícil era realmente fazer música eletrônica três décadas atrás, em comparação com o relativamente fácil que é agora. Vocês foram pioneiros na forma como os sons eletrônicos foram integrados ao som das guitarras, principalmente porque ninguem estava realmente fazendo isso quando vocês começaram – a tecnologia daquela época não tornava isso muito simples.

SUMNER: Eu acho que naquele tempo, quando começamos a fazer música eletrônica, a nossa imaginação era muito mais avançada que as máquinas que nós estávamos usando. Eu gostaria de ouvir uma música na minha cabeça e tentar gravá-la o mais rápido que eu pudesse, mas às vezes as máquinas não podiam fazer o que estávamos imaginando. Então tínhamos que modificá-las – nós as pegávamos e as customizávamos para que pudéssemos fazer o som que queríamos fazer.  Na verdade, não era realmente para fazer os sons que gostávamos de fazer, mas os ritmos que queríamos para ser mais exato. Era bem legal, era como decifrar um código. Você vinha com “eu tenho uma ideia para uma música!” e, em seguida, você não tinha como concretizá-la em um sintetizador!

Havia um cara com quem costumávamos trabalhar que se chamava Martin Usher e que era basicamente um cientista. Nós tínhamos que levar o equipamento para ele e dizer “nós queremos que ele faça isso”. Seria algo como: nós tínhamos duas máquinas; queríamos ligar a bateria eletrônica em um teclado e fazê-la tocar a partir dele. Martin o modificava para que isso fosse possível. Por isso, lutávamos constantemente com a tecnologia e houve problemas de confiabilidade terríveis com o equipamento quando o utilizávamos ao vivo em turnês e, também, em estúdio.

Muitos desses problemas já foram superados, obviamente. Quando começamos a fazer este disco, eu fiz uma lista de cerca de 25 plug-ins de sintetizadores que estávamos pensando em usar. Então, eu passei umas duas semanas sentado com esses plug-ins, passando por eles, para encontrar os que mais me agradavam. Eu reduzi a lista para quatro e usei apenas estes no álbum. Eu usei o sintetizador de baixo de “Blue Monday” também. Assim, a tecnologia… bem, as pessoas costumavam dizer que o estúdio de gravação era um instrumento e que você podia tocá-lo. Mas hoje em dia o computador e o pacote de software que você usa são um instrumento em si mesmo e você pode tocá-lo. Você não apenas pode tocá-lo, como pode fazer qualquer coisa: pode dobrar ou “esticar” o som ou fazer todo tipo de coisa com sons que não se podia anos atrás. Por isso é bom voltar à eletrônica – a tecnologia avançou, mas em um bom caminho. É confiável e parece boa.

STEREOGUM: New Order é uma banda que, desde o início, operou sob a sombra de um grande legado por causa do Joy Division. Quando se está aí por tanto tempo – e quando se tem esse enorme catálogo de grandes sucessos – como é que isso tudo pesa sobre você quando se sai com algo novo? Você já se sentiu como se estivesse competindo com sua própria história?

SUMNER: Não, eu realmente não penso nisso, porque estamos no presente e imersos na experiência de ser New Order. Eu posso dizer que nos últimos três anos nos sentimos muito enraizados no presente, porque nós estivemos fazendo muitos shows. Eu não sou o tipo de pessoa… como se chama uma pessoa que olha para trás? Uma pessoa que vive de lembranças?

STEREOGUM: Sentimental? Nostálgica?

SUMNER: Sim, eu não sou o tipo de pessoa excessivamente sentimental. Você pode desenterrar entrevistas minhas – tanto no Joy Division quanto no New Order – nas quais, tenho certeza, não digo o que eu acho sobre o passado, porque eu só pensava no presente. Isso é muito verdadeiro. Eu acho que se o presente não é muito agradável, então você tende a relembrar mais. Eu fui menos que infeliz em certas fases de minha vida, então eu acho que você tende a começar a olhar para atrás. Mas, em geral, eu realmente não penso sobre isso. Ainda assim, você não pode realmente escapar de sua própria sombra. É engraçado: não posso deixar de soar como eu quando estou cantando, por razões óbvias, físicas. Mas também não posso deixar de soar como eu quando eu toco guitarra ou teclados, por razões psicológicas menos óbvias. Você é quem você é.

STEREOGUM: Obviamente, a dinâmica da banda mudou radicalmente na última década. Como é que vai ser sair e tocar [ao vivo] essas músicas novas?

SUMNER: Eu acho que vai ser bem legal. Quer dizer, é essencialmente a mesma formação com a qual temos tocado nos últimos dois anos. Eu acho que os outros vão achar ótimo. O difícil será orquestrar as novas músicas. Nós faremos alguns shows em novembro, mas estaremos ocupados até setembro. Então, em setembro nós temos que nos reunir, pegar as músicas do disco [novo], rearranjá-las para cinco músicos para tocá-las. É muito difícil, quando você tem uma bateria programada, como se pode traduzi-la para um baterista ao vivo? É difícil. Se você tem uma linha de baixo sequenciada, mas quer tocá-la em um contrabaixo elétrico, como isso é possível? São coisas assim. É tornar o que seriam oito peças em uma determinada faixa e, em seguida, rearranjá-la para um quinteto. Os ensaios demoram muito tempo porque temos que orquestrar todas essas coisas.

Conversávamos [Sumner e a banda] sobre isso no trem ontem, o Eurostar, de Paris para a Inglaterra – que é um trem muito rápido por sinal -, e nós estávamos falando sobre ensaiarmos tudo isso, e se perguntando sobre como iríamos fazê-lo e se teríamos tempo suficiente. Nós também queremos mudar alguns elementos visuais que vínhamos usando, então é algo que temos que resolver. Portanto, há muito o que fazer em setembro. Tenho medo de setembro.

STEREOGUM: Você gosta de tocar ao vivo? Você é alguem que desfruta mais do estúdio do que estar na estrada?

SUMNER: Eu gosto de ambos. Gosto de tocar ao vivo mais agora do que eu costumava. Eu acredito que a vibe da banda é melhor e eu acho que isso é um grande fator de contribuição. Eu também acho – e isso é mais culpa minha – que é melhor agora porque eu não fico mais tão doido como antes. Eu creio que isso é responsável por alguns shows hit-or-miss [N.T.: expressão que designa algo imprevisível ou susceptível tanto de dar certo quando de dar errado] que fizemos. No caso dos shows ruins, eu estava de ressaca ou miseravelmente fodido. É como são as coisas quando você é jovem, não é? Você é hedonista, certo? Não necessariamente você, mas eu… bem, eu era bem hedonista e desfrutava a vida ao máximo, digamos assim. Conforme você envelhece, passa a ter uma visão mais sóbria da vida. Eu ainda gosto de beber, mas eu estou mais intolerante. Eu vejo as diferenças agora. Estou mais velho e mais sábio. Eu gostaria de beber, mas não gosto de ficar bêbado. Felizmente, sou capaz de fazer isso agora, desenhando uma linha. Devido a isso, eu não fico mais de ressaca ou doente nas turnês e todo o resto. Então eu aproveito mais.

STEREOGUM: Eu visitei Manchester pela primeira vez há dois anos. Alguem do Departamento de Turismo me levou a todos os pontos musicais da cidade: “aqui é onde isso aconteceu; aqui é onde os Smiths tocaram pela primeira vez; aqui é o estacionamento que já foi a Haçienda…”. Como um nerd musical americano que cresceu obcecado com tudo isso, foi surreal. Deve ser interessante para vocês – tanto quanto a história da banda é uma parte emblemática da história de Manchester.

SUMNER: Eu não penso muito sobre isso em termos de nossa música, mas mais em termos de minha infância. Eu cresci em lugar chamado Salford e podia caminhar até o centro de Manchester, a cerca de 20 minutos. Então, eu vivia muito perto do centro. Passei a maior parte da minha infância em torno do centro da cidade, porque não havia muito o que fazer em Salford. Como passei muito tempo em Manchester, eu sempre associo a cidade muito mais à minha infância que à música, mas eu posso entender porque as pessoas que cresceram na música tendem a fazer uma conexão física com a cidade onde ela foi feita. Eu entendo isso. Mas se eu passar pela Haçienda, por exemplo, eu só penso em todos os problemas que nós tivemos lá. E se você passar por lugares como onde a Factory começou, na verdade ele é um pouco triste, porque Tony [Wilson] morreu. Manchester está cheia de fantasmas. Há um monte de fantasmas lá. Se você olhar o lugar onde o Joy Division ensaiava, não tem mais nada lá. Acabou. É isso… fantasmas demais.

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