RELATO | Um dia em Manchester

20-21-june-2012-053“E no sexto dia Deus criou Manchester…”

Recentemente, tirei um tempo da minha viagem de férias para fazer algo que, como fã de New Order e Joy Division, sempre sonhei: passar um dia em Manchester para explorar em sua paisagem urbana a história e a geografia do som que há quase três décadas tem sido a trilha-sonora da minha vida. Na verdade, acho que escolhi Londres como destino das férias como desculpa para, enfim, poder saciar essa vontade. Ainda que eu pretendesse não admitir a verdade (ao contrário do que estou fazendo agora), o objetivo, desde o começo, sempre foi Manchester. Esse sonho, aliás, ganhou força em novembro do ano passado durante uma estadia em Paris: além de ter visto meu primeiro show do New Order em solo europeu, um dos momentos mais importantes da viagem foi quando eu pus os pés no lendário Les Bains Douches, onde o Joy Division já havia tocado (o show, após anos nas mãos dos piratas, acabou ganhando lançamento oficial em CD e vinil, em 2001). Os minutos que passei em sua galeria de antigos pôsteres de concertos com os olhos fixos no cartaz do show que o Joy Division lá fez em 18 de dezembro de 1979 foram decisivos para essa escolha. 

Manchester, é claro, não deu ao mundo apenas Joy Division e New Order. A lista a seguir é de respeito: Hollies, Buzzcocks, The Smiths, Simply Red, Happy Mondays, Stone Roses, Oasis, Chemical Brothers. Tem coisa nova rolando na cidade, é claro – Blossoms é a nova sensação por aquelas bandas. Muito já se gastou de papel e tinta sobre sua cena musical e o seu legado: Shadowplayers: The Rise and Fall of Factory Records, de James Nice (Aurum Press, 2010, 432 páginas), From Joy Division to New Order: The True Story of Anthony H. Wilson and Factory Records, de Mick Middles (Virgin Books, 2002, 320 páginas), I Swear I Was There: Sex Pistols, Manchester and The Gig That Changed the World, de David Nolan (IMP, 2006, 192 páginas), The North Will Rise Again: Manchester Music City 1976-1996, de John Robb (Aurum Press, 2010, 400 páginas) e Manchester, England: The Story of a Pop Cult City, de Davi Haslam (Fourth Estate, 2000, 351 páginas) são alguns dos títulos mais conhecidos. Não é exagero dizer que Manchester é uma das grandes capitais mundiais do pop ao lado de Londres, Nova Iorque, Detroit e Seattle. Liverpool? Só se for no Guiness Book (que lhe deu o título de “Cidade do Pop” por causa de uma única banda).

Só que meu equivalente ao Hajj (peregrinação à Meca que os muçulmanos são obrigados a fazer pelo menos uma vez na vida) ou ao Caminho de Santiago de Compostela – guardadas as devidas proporções nos mais variados sentidos – não começou de fato em Manchester, mas em Londres. Fazia parte da minha programação na Square Mile uma ida à belíssima National Gallery. Para que? Eu queria ver com os meus próprios olhos o quadro A Basket of Roses, de Ignace Henri Jean Fantin-Latour (1836-1904), pintado em 1890, e usado pelo designer Peter Saville na capa do segundo álbum do New Order, Power, Corruption and Lies, de 1983 (e considerada um dos trabalhos mais relevantes do artista gráfico). Aliás, eu queria algo mais do que apenas ver o quadro: além de ser fotografado com ele usando uma camiseta do disco que o traz em sua capa, eu queria repetir o gesto de Saville de 33 anos atrás e comprar um cartão-postal com uma reprodução da obra na gift shop do museu (o que consegui fazer). Essa história do postal merece um parênteses.

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Poder, corrupção e mentiras na National Gallery, em Londres

Com o título do álbum na cabeça – “poder, corrupção e mentiras” – Saville foi à National Gallery procurar um retrato de algum príncipe que pudesse usar na capa do disco. A intenção era, a partir da associação entre o nome do LP e o retrato usado na embalagem, fazer uma referência a Maquiavel. Bom, a ideia não era de fato tão boa assim e ele acabou desistindo dela no meio do tour pelo museu. Mas antes de ir embora, o designer entrou casualmente na lojinha de lembranças, onde pegou aleatoriamente um cartão-postal. Sua namorada na época, em tom de brincadeira, lhe disse: “Por que você não usa esse aqui na capa?”. Era um postal de A Basket of Roses. Os olhos de Saville brilharam – enfim, ele havia encontrado um “rosto” para Power, Corruption and Lies. Segundo ele, “as flores sugeriam a maneira pela qual o poder, a corrupção e as mentiras se infiltram nas nossas vidas, porque elas são sedutoras”. A justaposição entre a pintura figurativa e realista de Fantin-Latour com “textos” impressos em um código de cores criado por Saville para sugerir a ideia de uma linguagem que só poderia ser decifrada/decodificada por máquinas (como, por exemplo, um código de barras) foi a forma simbólica de retratar a “tensão” entre as duas faces do som do New Order (acústica/artesanal/manual e eletrônica/industrial/autômata) e de transmitir de modo subliminar a seguinte mensagem: por trás de máquinas que apenas aparentemente fazem tudo sozinhas (sequenciadores, drum machines) existem seres humanos… Bom, explicações à parte, o fato é que eu posso me considerar um sujeito de muita sorte: o dia escolhido para ir à National Gallery coincidiu com o único dia da semana (quarta-feira) em que a sala onde o Basket of Roses está exposto fica aberta à visitação – e eu nem sabia disso!

Enfim, com a foto feita e o postal guardado na mala junto com outros suvenires da viagem, eu só viria a pegar o trem para Manchester dois dias depois. No caminho, bastou passar por Macclesfield, terra natal de Ian Curtis e Stephen Morris, para já sentir aquele frio na barriga. Com a chegada em Manchester, a surpresa veio imediatamente após deixar a Piccadilly Station: embora eu não soubesse exatamente o que esperar, descobri uma cidade, em termos urbanísticos, muito diferente de Londres. Seu conjunto arquitetônico me deixou muito impressionado: edifícios como o do Town Hall, em Albert Square, o da Central Library, ou os dos hotéis Palace e Midland são verdadeiros deleites para os olhos. Se eu tivesse pesquisado um pouco mais, talvez tivesse me programado para ficar pelo menos mais um dia na cidade para poder ir além de seu roteiro musical.

Minha “peregrinação” em Manchester teve como primeiro ponto cardeal o que talvez é o mais sagrado dos lugares para quem, como eu, é ligado em música e cultura pop: o Free Trade Hall. Hoje funciona nele um hotel, mas originalmente o edifício foi erguido para eventos públicos, discursos políticos e concertos de música clássica (que ocorriam no Grande Pavilhão). O Free Trade Hall foi palco, em 1966, da primeira (e infame) apresentação de Bob Dylan com instrumentos elétricos – o que fez com que ele fosse vaiado e chamado de “Judas” pela plateia. Outros nomes importantes do rock tocaram lá: Frank Zappa, Pink Floyd e Genesis são alguns deles. Mas foi no pavilhão menor, chamado Lesser Free Trade Hall, que aconteceu o show que, segundo David Nolan, “mudaria o mundo”: o famoso concerto dos Sex Pistols no dia 04 de junho de 1976. O resto é história: havia apenas 40 pessoas no auditório, dentre elas Bernard Sumner e Peter Hook (Joy Division, New Order), Mick Hucknall (Frantic Elevators, Simply Red), Stephen Morrissey (The Smiths), Mark E. Smith (The Fall), Kevin Cummins (fotógrafo de rock), Paul Morley (jornalista e fundador da ZTT Records), Tony Wilson e Alan Erasmus (criadores do Factory Club e da Factory Records); sem falar nos organizadores do show, Pete Shelley e Howard Devoto, que formariam os Buzzcocks. Enfim, eram os nomes que ajudariam a colocar Manchester no mapa-mundi da música popular no anos seguintes.

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Free Trade Hall

Bem perto dali, encontramos outro “monumento” da história da música pop da cidade: a Manchester Central, antiga estação de onde partiam os trens para Londres antes da Piccadilly Station e que hoje é um parque de exposições, o Manchester Central Convention Complex. A mudança de função desse espaço aconteceu no final da década de 1970, quando ele recebeu o nome pelo qual ficou mais conhecido: Greater Manchester Exhibition Centre, ou pura e simplesmente “G-MEX”. O local foi palco, em 1986, dos shows do Festival of the Tenth Summer, um evento organizado por Tony Wilson e a Factory Records para celebrar os dez anos do famoso concerto dos Sex Pistols na cidade. Ao longo de um dia inteiro, se apresentaram nomes locais como New Order, The Smiths, OMD, The Fall e até bandas de cidades “amigas”, como Cabaret Voltaire (de Sheffield). O álbum ao vivo dos Smiths, Rank, que foi gravado no National Ballroom, Kilburn, em 23 de outubro daquele ano, traz no interior de sua capa uma foto feita no show do Festival of the Tenth Summer: garotos da plateia pelejando pela camisa do vocalista Morrissey. Eu tenho um LP pirata da apresentação feita pelo New Order chamado Solitude – nele, podemos ouvir “Ceremony” com a participação especial de Ian McCulloch, do Echo & The Bunnymen, nos vocais.

Mais alguns minutos de caminhada e, em seguida, fui parar em uma localidade conhecida como Knot Mill – outro lugar que podemos chamar de “místico”, para dizer o mínimo. Ali ficava o T. J. Davidson’s Rehearsal Studios, a famosa sala onde o Joy Division ensaiava e preparava novas canções. O T. J. Davidson’s ficou mais conhecido por ter sido o cenário para o vídeo promocional de “Love Will Tear Us Apart”. Se o prédio que outrora serviu de quartel-general para o Joy Division hoje não está mais lá (foi derrubado), por outro lado a construção onde um dia funcionou o Boardwalk, a casa noturna que lançou Stone Roses, The Charlatans, Happy Mondays, James e Oasis, continua de pé (mas atualmente servindo a outros desígnios). Há um vídeo de cerca de 30 segundos no You Tube publicado em 2010 que supostamente mostra o T. J. Davidson’s mas que, na verdade, exibe a fachada do antigo Boardwalk. Outra informação relevante: Tony Wilson chegou a morar ali em Knot Mill, em um apartamento localizado bem em frente ao edifício onde viria a ser o Boardwalk (inaugurado em 1986).

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Knot Mill: o edifício do Boardwalk (dir.) ainda está lá; o T. J. Davidson’s Rehearsal Studios, que ficava à esquerda e ao lado do prédio “10A”, não.

Naturalmente, um dos momentos mais melancólicos foi quando dei de cara com o edifício que hoje está de pé onde antes havia o mítico nightclub The Haçienda, também conhecido como “FAC 51”. O que torna a tristeza ainda maior é o fato do residencial de cor ocre se chamar The Haçienda Apartments (o jornalista Zeca Camargo também já escreveu sobre essa lamentável metamorfose). O condomínio vertical pode ter herdado o nome, mas não a história. Tinha gente que viajava até duas horas de carro até Manchester para curtir uma noitada no Haçienda. Nas suas origens, era um misto de boate e casa de shows onde se podia desfrutar de uma rica paleta de sons: punk, new wave, indie, disco, reggae, black music, northern soul. Depois, se tornou o epicentro da explosão do techno e da acid house na Europa. Na Canal Street, nos fundos do atual prédio, um artista local chamado Stewy eternizou seus grandes momentos em uma timeline gravada em metal, começando pela sua inauguração em 21 de maio de 1982. Sob comando da Factory Records, mas financiado pelo New Order, o lugar também viveu dias difíceis: foi palco da primeira morte por overdose de ecstasy publicamente reconhecida e cenário de brigas entre gangues, com direito a tiroteios em seu interior. Vários objetos que pertenciam a Haçienda hoje fazem parte do acervo do Manchester Museum of Science and Industry.

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Haçienda como era originalmente (e como nunca deveria ter deixado de ser).

A parada seguinte foi numa… loja da Tesco?! Não exatamente. O local onde hoje temos uma filial da famosa cadeia britânica de supermercados e comércio varejista – na verdade parte do belíssimo St. James Buildings – um dia foi outra casa noturna importante durante a era punk em Manchester: o Rafters. Ali aconteceu, no dia 14 de abril de 1978, o Chiswick Challenge, o lendário concurso de bandas organizado pela Stiff Records. O Joy Division se apresentou no concurso ao lado de outras 16 bandas, sendo a última a tocar (quando o local já estava praticamente vazio). Todavia, sua apresentação foi tão “intensa” que impressionaria Tony Wilson (quando este ainda era repórter da Granada TV) e, também, o DJ da casa, Rob Gretton. Rob se tornaria, desse ponto em diante, o empresário do Joy Division, mantendo essa função também com o New Order até sua morte, em 1999. O Rafters fechou suas portas em 1983.

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O antigo Rafters, agora transformado em Tesco

O roteiro não poderia deixar de contemplar o número 112 da Princess Street. Hoje, nesse endereço funciona a nova casa noturna e sala de concertos dirigida por Peter Hook (ex-baixista do Joy Division e do New Order), The Factory Manchester (“FAC 251”). No passado, a mesma construção abrigou o quartel-general da Factory Records. No atual site do Factory Manchester, se lê: “FAC 251: escritório da Factory Records… Construído por Tony Wilson. Projetado por Ben Kelly. Pago pelo New Order. Falido pelos Happy Mondays”. A porta de ferro com o logotipo da gravadora ainda está lá; Tony Wilson, de certa forma, também – através do stencil feito pelo já citado Stewy. Aliás, o Wilson foi – e sempre será – o grande personagem. Brian Epstein? Que me perdoem os fãs dos Beatles (eu adoro os Fab Four, que fique claro!), mas a história do seu empresário não foi parar no cinema (pelo menos não ainda). Ele também não ganhou um poema musicado em sua homenagem (“St. Anthony”, por Mike Garry e Joe Duddell) transformado em single beneficente que alcançou o primeiro lugar na parada inglesa. Não existe nenhum “Sr. Liverpool”, mas existiu um “Mr. Manchester”.

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O fim do “passeio” foi no Northern Quarter. O objetivo: ver e fotografar os mosaicos no Affecks Palace e as placas na calçada da Oldham Street. Precisei de uma ajudinha dos vendedores da Vinyl Revival para localizá-los. Os mosaicos fazem referência não apenas à história e o cenário musicais da cidade, mas, sinceramente, os ídolos do futebol ou as outras personalidades locais não me interessavam. Eu queria ver mesmo o mosaico com a turma da Factory (Martin Hannett, Tony Wilson, Alan Erasmus, Peter Saville, Rob Gretton), o outro com o pulsar CP1919 da capa de Unknown Pleasures, do Joy Division, aquele com o Sex Pistols, o Meat Is Murder dos Smiths, o Top of the Pops… Depois dos mosaicos, compras na Vinyl Revival (decorada com pôsteres originais da Factory Records, da Haçienda e do New Order, alguns deles autografados) e na Vinyl Exchange, e, finalmente, Oldham Street e suas placas que fazem referências aos principais marcos musicais da cidade: Buzzcocks (a primeira banda punk de Manchester), Short Circuit: Live at the Electric Circus (vinil de 10” da Virgin com o primeiro registro do Joy Division gravado ao vivo na noite de fechamento/despedida do Electric Circus), Factory Records etc.

O tour apenas parecia ter chegado ao fim… Na volta para a Piccadilly Station, parei em um restaurante qualquer da estação com minha esposa para comermos antes da volta para Londres e o que vejo dentro do estabelecimento? Um enorme pôster em forma de mapa de rede de metrô no qual as linhas e as estações são batizadas com títulos de álbuns e músicas dos Smiths.

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Essa é Manchester: uma cidade orgulhosa, que exalta não somente suas conquistas no campo da indústria e da tecnologia (o noroeste da Inglaterra foi o berço da Revolução Industrial), mas que também reconhece a contribuição de seus artistas populares. Isso aparece representado não apenas por meio da street art, mas também está materialmente certificado através das placas comemorativas – heritage awards – da PRS (Perfoming Right Society, uma espécie de ECAD britânico), como as que estão fixadas na Haçienda e no Boardwalk. Para mim, foi uma oportunidade de poder ver e tocar o que eu havia aprendido a amar e cultuar através dos discos, dos livros, das revistas e dos documentários. De fato, existe algo em Manchester que é único e exclusivo. Ou, como certa vez disse Tony Wilson: “This is Manchester, we do things differently here”.

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HOJE | 40 anos do show que mudou a história da música

pistols“Foi histórico”, teria dito a versão de Tony Wilson nas telas (interpretada por Steve Coogan) no filme A Festa Nunca Termina, de Michael Winterbottom. Se essas foram palavras reais do verdadeiro Wilson, não importa. O que importa mesmo é que, sim, o primeiro show dos Sex Pistols em Manchester, há exatos 4o anos, foi mesmo histórico. Além de mostrado em filmes, esse concerto – e seu legado – já foi objeto de inúmeras matérias em jornais e revistas, documentários, livros, posts em blogs etc. Manchester e o mundo da música nunca mais foram os mesmos depois que essa tsunami vinda de Londres varreu o norte da Inglaterra.

Quando se diz que esse show deixou um “legado”, isso não é exagero, nem força de expressão. Existe uma lenda urbana no métier do rock que atribui a Brian Eno um comentário sobre o Velvet Underground segundo o qual poucos teriam escutado o grupo durante a sua curta existência, mas que esses poucos, sem exceção, formaram uma banda. Os Sex Pistols, depois que puseram os pés no palco montado no Lesser Free Trade Hall, em Manchester, provocaram o mesmo efeito na pequena audiência presente.

Uma declaração de Peter Hook resume tudo: “Foi horrível. Foi como uma batida de automóvel. Meu Deus, jamais tinha visto algo parecido na minha vida! Vi muitos grupos, Deep Purple, Led Zeppelin… Mas jamais vi algo tão caótico ou emocionante. E rebelde. Assim me senti. Eu só queria quebrar tudo”O ex-colega Bernard Sumner assim arrematou: “Era um escândalo. Pensava ‘Eu posso fazer isso! Eu posso fazer isso!’Eles não foram os únicos a saírem do Free Trade Hall com esse pensamento na cabeça.

Photo of Steve JONES and Johnny ROTTEN and Glen MATLOCK and SEX PISTOLS

Sex Pistols em ação Manchester

Na verdade, o “estrago” do show dos Pistols foi muito maior do que simplesmente fazer quem estava lá formar seu próprio grupo. A cidade foi literalmente sacudida e, a partir de então, teve início em seu seio uma nova revolução responsável pela sua recuperação e revitalização ao longo das décadas seguintes e sua (re)conversão em um importante pólo econômico e cultural na Europa, o que lhe devolveu a importância e prestígio internacionais. Além, é claro, de ser hoje uma das “capitais” do mapa-mundi do rock/pop, sem dever nada a cidades como Nova Iorque em matéria de celeiro de novos sons.

Os “culpados” disso tudo foram Pete Shelley e Howard Devoto, os dois organizadores do concerto, e que mais tarde formariam a primeira banda punk de Manchester (e uma das mais importantes do punk rock em todos os tempos), os Buzzcocks. Mas quem mais estava naquele show? A lista é de peso: Morrissey (The Smiths), Mark E. Smith (The Fall), Mick Hucknal (Frantic Elevators, Simply Red), Martin Hannett (The Invisible Girls e produtor), Paul Morley (jornalista, escritor e fundador da ZTT Records), Bernard Sumner e Peter Hook (Warsaw, Joy Division, New Order), Alan Erasmus (ator) e, é claro, Tony Wilson.

Wilson foi uma das figuras mais importantes. Apresentador de televisão da emissora local Granada TV, ele foi o grande divulgador do punk rock em Manchester através de seu programa – So It Goes – e também incentivador da própria cena local, promovendo as bandas de Manchester, não apenas na mídia televisiva, mas também através do Factory Club, um espaço para shows que utilizava as dependências de um outro clube, o Russell. Tony Wilson também deu oportunidade para novatos de outras mídias, como o designer gráfico Peter Saville, que se tornou o criador da identidade visual do Factory Club (fazendo pôsteres) e, em seguida, da gravadora Factory Records, tendo se consagrado em nível mundial com as capas que criou para os discos do Joy Division e do New Order.

Na década de 1980, a boate Haçienda, de propriedade da Factory Records e do New Order, introduziu a acid house na Inglaterra e deu origem a uma nova geração de bandas eletrônicas, como 808 State e Autechre, ou híbridas (fusão entre rock e as batidas das pistas de dança), como Happy Mondays, The Charlatans e Stone Roses, fortemente influenciadas pelo som do New Order, e que se tornaram o núcleo do “movimento” internacionalmente conhecido como Madchester. O Primal Scream, mesmo não compartilhando da mesma “origem geográfica” dessas bandas, tem uma ligação “espiritual” com a cena Madchester (além do som e do estilo, Bob Gillespie, vocalista do PS, é um antigo fã do New Order, é amigo da banda e já tocou em um grupo chamado The Wake que lançou seus primeiros discos pela Factory Records). Nos anos 1990, havia chegado a hora e a vez do britpop do Oasis dos irmãos Gallagher – um deles, Liam, era assíduo frequentador do Haçienda…

Para ficarmos aqui mesmo na nossa paróquia – Joy Division e New Order -, é preciso agradecer Peter Hook por ter convidado seu antigo amigo dos tempos de escola, Bernard Sumner, para irem juntos ao show dos Pistols no Lesser Free Trade Hall. O que aconteceu há quarenta anos culminou hoje em Sydney, na imponente Opera House, na apresentação do New Order ao lado da Australian Chamber Orchestra, na qual a banda tocou seus antigos sucessos, como “Temptation”, “The Perfect Kiss”, “True Faith”, “Regret” e “Blue Monday”, músicas novas (de seu último álbum, Music Complete) e uma emocionante encore dedicada ao Joy Division com “Atmosphere”, “Decades” e “Love Will Tear Us Apart”.

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REVIEW | “So This Is Permanence” (Peter Hook’s The Light) / “St. Anthony” (Mike Garry & Joe Duddell)

SothisispermenanceÉ com um relativo atraso que trazemos hoje para os leitores do blog nossos video reviews de dois lançamentos relevantes para o fã clube de Joy Division e New Order: o CD triplo ao vivo So This Is Permanence”, que apresenta Peter Hook, mais uma vez ao lado do grupo The Light, tocando todo o repertório do JD em um único show na Christ Chruch, em Macclesfield (Grande Manchester); e o single St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson, parceria entre o poeta Mike Garry e o maestro Joe Duddell, ambos de Manchester, em uma homenagem a Tony Wilson que recria o clássico “Your Silent Face”, do New Order. Em comum entre os dois lançamentos, o lado beneficente (os discos arrecadam fundos para entidades). Enfim, esperamos que gostem que nossos novos reviews.

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NEWS | EP-tributo a Tony Wilson trará poema acompanhado de versão instrumental de “Your Silent Face”

25714Há exatos oito anos, Anthony H. Wilson, um dos personagens centrais da radical transformação de Manchester no final do século XX (de centro industrial deteriorado e decadente na década de setenta a uma espécie de capital cultural pós-moderna nos anos oitenta e noventa), faleceu em decorrência de um câncer nos rins. Ele deu à cidade – e ao mundo também – The Factory, Joy Division, Factory Records, New Order, The Haçienda, Happy Mondays e Madchester. Para homenageá-lo, o poeta Mike Garry e o maestro Joe Duddell, ambos também de Manchester, lançarão no próximo dia 14, pelo selo Skinny Dog Records, o EP/single St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson. O disco trará Garry declamando um poema de sua autoria para Wilson, “St. Anthony”, que terá como acompanhamento musical uma versão do instrumental de “Your Silent Face”, faixa do álbum Power, Corruption and Lies (1983), do New Order, arranjada por Joe Duddell, que também colaborou com arranjos de cordas para o novo álbum da banda, Music Complete, que sairá no mês que vem. O single será lançado nas versões vinil de 12″ (com duas faixas), CD (com quatro) e digital download. Vale lembrar que essa “versão” de “Your Silent Face” com o poema de Garry no lugar da letra original foi apresentada em primeira mão ao vivo com as participações de Bernard Sumner, Tom Chapman e Phil Cunningham (New Order), além de Philip Glass e o Scorchio Quartet, no concerto beneficente anual da Tibet House, realizado no Carnegie Hall no ano passado. A renda arrecadada com as vendas do disco será revertida para The Christie Charity Fund, fundo que administra doações para o hospital Christie, especializado em câncer, também em Manchester. Além disso, haverá um evento de lançamento nos antigos estúdios da Granada TV, onde Wilson trabalhou como apresentador, e já está disponível no You Tube um vídeo promocional com participações de Bernard Sumner, Stephen Morris, Gillian Gilbert, John Cooper Clarke, Steve Coogan (que interpretou Wilson no filme 24 Hour Party People), Rowetta, Shaun Ryder, Vini Reilly, Iggy Pop, Paul MorleyPhilip Glass e muitos outros. A capa, como não poderia deixar de ser, foi elaborada por Peter Saville.

ST. ANTHONY: AN ODE TO ANTHONY H. WILSON (12″ single):
A1. St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson
B1. St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson (Andy Weatherall Remix)

ST. ANTHONY: AN ODE TO ANTHONY H. WILSON (compact disc EP):
1. St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson (Original)
2. St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson (Andy Weatherall Remix)
3. St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson (Original Instrumental)
4. St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson (Andy Weatheral Remix Instrumental)
5. St. Anthony: An Ode to Anthony H. Wilson (Spoken Word)

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