NEWS | Stephen Morris em documentário sobre ex-baterista do Kraftwerk e do Neu!

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Klaus Dinger: um dos heróis de Stephen Morris

Stephen Morris, a “bateria eletrônica humana” do New Order, é um dos grandes nomes do pop que concederam depoimentos para o documentário The Heart is a Drum, dirigido pelo sueco Jacob Frössén. O filme conta história de Klaus Dinger, cultuado baterista alemão que ficou conhecido como uma das metades do duo Neu! (seu parceiro era o guitarrista Michael Rother) na década de 1970 e que faleceu em 2008. Antes de lançar três álbuns essenciais com o Neu! (existe um quarto LP de estúdio, mas isso é outra história), Dinger havia feito parte do Kraftwerk quando o grupo ainda não era a usina de força eletrônica que veio a se tornar depois. Com o fim do Neu!, Klaus formou o La Düsseldorf com seu irmão, Thomas Dinger, e com Hans Lampe, chegando a conquistar um respeitável sucesso comercial na Europa.

Dinger tornou-se famoso por seu estilo repetitivo e pulsante de tocar bateria, um estilo que ficou conhecido como motorik (termo que não agradava ao baterista, que preferia rotular sua maneira de tocar como Apache beat). Sua batida e o som visionário do Neu! (cuja influência se faz notar em bandas como Joy Division, Sonic Youth e até mesmo Radiohead) chamaram a atenção de medalhões como David Bowie e Iggy Pop (que também aparece no documentário) quando os dois estiveram em Berlim nos anos setenta. Stephen Morris em diversas ocasiões afirmou que se inspirou não apenas na bateria de Dinger, mas também na de outro medalhão do gênero que ficou conhecido como krautrock: Jaki Liebezeit, do Can (morto em 2017). Além dele (Morris) e de Iggy Pop, estrelam The Heart is a Drum o cantor Bob Gillespie (Primal Scream), a baixista Kim Gordon (Sonic Youth) e Wolfgang Flür (ex-Kraftwerk).

 

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Poster de The Heart is a Drum

De acordo com o diretor: “No final dos anos noventa eu li uma entrevista do Klaus Dinger em uma revista na qual ele falou à respeito de uma namorada sueca que ele conheceu em 1971 e com quem havia passado férias na Suécia no verão daquele mesmo ano. Nessa entrevista, ele também falou à respeito de sua relação com a bateria e, uma vez que eu também sou baterista, acabei ficando bastante intrigado. Eu acredito que isso é uma conexão com a Suécia e o fato dele ter ido até um lago perto de Södertälje – um lugar onde eu passei minhas férias muitas vezes – para gravar os sons aquáticos de ‘Lieber Honig’ e ‘Im Glück’ [canções do álbum de estreia do Neu!] me deixou fascinado”. 

Em entrevista concedida a Mike Norton em julho deste ano para o jornal Bristol Live, Stephen Morris foi perguntado sobre quem seria seu baterista favorito. E ele assim respondeu: “Klaus Dinger, do Neu!. Ele foi minha maior influência, com suas poucas viradas de bateria. Neu! foi uma das primeiras bandas que eu ouvi e que me fez pensar que eu podia tocar daquele jeito”.

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Stephen Morris em The Heart is a Drum: herdeiro do estilo motorik

The Heart is a Drum teve hoje uma premiére no Reino Unido em uma das salas de cinema do Barbican, um descolado centro cultural em Londres. Produzido pela Swedish National Television (SNT) e financiado pela The Malik Bendjelloul Memorial Foundation, o documentário pode ser visto no You Tube (com áudio em alemão e sem legendas), porém com um outro (e um tanto quanto exótico) título: Klaus Dinger – Urvater des Techno (trad.: “Klaus Dinger, o Padrinho do Techno”). Se você curte Joy Division e New Order e nunca ouviu o Neu!, eu pergunto: tá esperando o que?

Infelizmente, não há indícios de que o filme virá a ser exibido no Brasil…

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NEWS | Banda de fãs russos do New Order lança CD produzido por Stephen Hague

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Celeste, oálbum de estreia do Joi Noir. Foto: reprodução.

Coisas do mundo das redes sociais… Um belo dia uma banda de nome pitoresco chamado Joi Noir passou a seguir o perfil do blog New Order BR FAC533 no Instagram (@neworderbrfac533). Além de curtir os posts, o perfil do Joi Noir (@joinoir) passou a deixar comentários divulgando seu álbum de estreia, intitulado Celeste, e sempre fazendo questão de frisar que o disco foi produzido por Stephen Hague, que tem em seu currículo o próprio New Order. A partir daí, passei a prestar mais a atenção nas postagens da banda, feitas em sua totalidade pela vocalista Olga Gallo (que parece ser também a “cara pública” do Joi Noir). Algumas delas trazem fotos de seus integrantes posando ao lado de alguns de nossos heróis aqui do blog, como Bernard Sumner e Peter Hook, com direito a discos autografados pelos mesmos, o que demonstra que a turma do Joi Noir também é bastante ligada na Nova Ordem. Os vídeos publicados no Instagram não desmentem essa impressão: é possível notar sem muito esforço ecos do Joy Division e do New Order no som deles. Em poucos dias a troca de comentários e de mensagens via direct se transformou em um hábito. E ontem o carteiro deixou na minha caixa de correio uma cópia em CD autografada (com dedicatória!) de Celeste. Nada mais justo do que dar a eles um pequeno espaço aqui no blog.

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Olga e Igor com Bernard Sumner, Peter Hook e seus discos autografados. Foto: reprodução (Instagram)

A história do Joi Noir, do seu nascimento até o lançamento do primeiro disco, merece destaque. Seus integrantes são russos, mas a banda foi formada na República do Congo (!!!) em 2014, mais precisamente em Pointe-Noire. O nome do grupo não apenas se baseou em sua localidade de origem, mas também nas iniciais dos nomes de seus membros fundadores: o baterista Jack Kuznetsov (o “J”), a vocalista Olga Gallo (de onde saiu a letra “O”) e o guitarrista Igor Plotnikov (que forneceu o “I”). Do Congo a banda se mudou para Kuala Lumpur, na Malásia, onde Jack acabou deixando a banda, sendo então substituído por um baterista malasiano chamado Mie Apache. Foi em Lumpur que essa formação começou a trabalhar nas gravações demo do material que mais tarde faria parte de Celeste. O grupo utilizou a Malásia como base durante um tour pelo Sudeste Asiático e pelo Japão até que em 2017 Olga e Igor se mudaram para Barcelona (onde estão instalados até hoje) e se converteram no núcleo permanente da banda. Nessa época, as demos do Joi Noir caíram nas mãos de Stephen Hague, que gostou do som, amou a voz de Olga Gallo, e decidiu dar uma força para a dupla aceitando co-produzir seu álbum de estreia. Olga e Igor se transladaram para Hastings, na Grã Bretanha, onde fizeram as gravações de Celeste acrescidos de músicos britânicos e do próprio Hague, que tocou baixo e teclado em algumas faixas. A formação que tocou no CD, com exceção do produtor, teve também uma breve existência sobre os palcos.

Lançado no dia 20 de setembro deste ano pela Galago Records nos formatos streaming, LP (vinil branco, edição limitada) e CD, Celeste é um disco com credenciais para agradar não apenas fãs do New Order, mas também todos os amantes de estilos como o pós-punk e a new wave. O som do Joi Noire transita por influências facilmente identificáveis de New Order, Siouxsie & The Banshees, Pretenders e Pixies. Ainda que sejam uma banda de rock alternativo, várias faixas do álbum poderiam circular tranquilamente pelas FMs da vida. Esse é o caso, por exemplo, de “Wild Way Hope”, que é também o single de estreia de Celeste.  “Loved You Now” é outra que cairia muito bem no rádio. Mas os grandes destaques do CD, na minha humilde opinião, são “Crashers” (quiçá a melhor canção do disco), “Excited” (com uma introdução que lembra “A Means to an End” do Joy Division), “Amber” e “Sample and Hold” (ambas verdadeiras cápsulas do tempo que nos levam de volta aos anos 1980). Em suma, não é um disco difícil de se gostar e ele cresce a cada nova audição. Para fins de comparação, pode-se dizer que o Joi Noir é aquilo que o She Wants Revenge tentou ser e não conseguiu, além de se juntar a esforços louváveis de revitalização do pop com ares oitentistas de bandas como White Lies e Editors.

E não podemos nos esquecer da “cereja do bolo”! As fotos usadas na capa do disco (desenhada pelo artista gráfico Andrew Vella) foram feitas por Andy Earl, renomado fotógrafo que já clicou Johnny Cash, Duran Duran, Spandau Ballet, Gary Numan, Eurythmics, Simple Minds, Mike Oldfield, Robert Plant, The Cranberries, Pet Shop Boys, Simply Red e muitos outros!

Pessoalmente falando, o maior ganho que eu tive com Celeste foi encurtar o contato com pessoas que, como eu, compartilham o amor pelo New Order – e que declararam esse amor em um disco produzido por um cara que deu uma mãozinha em clássicos como “True Faith” e “Regret”. Considerando os itinerários seguidos por Olga e Igor – da fria Rússia à ensolarada Barcelona, passando por África e Ásia – esse encontro propiciado pelas redes sociais é um exemplo das voltas que o mundo dá.

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Minha cópia autografada de Celeste. Love is hope!

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NEWS | Encaixotando Joy Division e New Order

Como se já não bastasse a edição definitiva de Movement e o álbum ao vivo So It Goes.., o ano de 2019 ficará conhecido como aquele dedicado ao lançamento de materiais do New Order e do Joy Division em luxuosos box sets. Na verdade, essa é a tendência atual do mercado – enquanto o downloadstreaming sao voltados para o público médio, as edições premium limitadas (e caras) destinam-se à satisfação de fãs e colecionadores. Além das duas caixas citadas, listamos aqui outros quatro combos encaixotados que podem interessar os amantes dessas duas bandas. Então vambora…

STUMM433 (Vários Artistas, Mute Records): Parte da série comemorativa de 40 anos do selo Mute iniciada no ano passado, trata-se de uma caixa de cinco CDs trazendo artistas antigos e atuais da gravadora (dentre eles, o New Order) interpretando, cada um à sua maneira, a música/experimento 4’33” (lê-se “quatro minutos e trinta e três segundos”) do compositor de vanguarda John Cage (1912-1992). Apresentada ao piano pela primeira vez em 1952, consiste em quatro minutos e meio de silêncio – ou quase. Nenhuma nota musical é tocada, o que conta são os sons e ruídos aleatórios do ambiente – o “som do silêncio” – fazendo com que a cada “execução” o resultado final seja sempre diferente. O projeto da Mute é deveras extravagante, afinal são cinco discos inteiros de “silêncio”… entretanto, parte da renda obtida com as vendas da caixa será doada para a British Tinnitus Association, uma entidade dedicada à prevenção, tratamento e difusão de informações sobre uma doença conhecida em português como tinido (ou acufeno). Trata-se da mesma doença da qual sofreu, por anos, o baterista Craig Gill, do Inspiral Carpets, que suicidou-se em 2016 (ele sofria de uma depressão decorrente do tinido). Dentre os demais intérpretes da “canção” temos, além do New Order , bandas como  Depeche Mode, A Certain Ratio, Cabaret Voltaire, Erasure, Nitzer Ebb, The Normal, The Afghan Whigs, Laibach e muitas outras. Link para pré-venda: http://mute.com/mute/stumm433-pre-order-now 

Exclusive Mockups for Branding and Packaging Design

ALWAYS NOW (Section 25, Factory Benelux): Lançado originalmente pela Factory Records em 1981, o álbum de estreia do Section 25 acaba de ganhar pela Factory Benelux (uma espécie de sucursal belga da Factory que sobreviveu à falência da matriz) uma edição remasterizada com uma caminhão de extras. É uma caixa com cinco LPs, sendo que as primeiras mil cópias foram produzidas com vinis coloridos (preto, transparente, cinza, amarelo e vermelho). Um dos discos contém uma preciosa jam da banda ao lado do New Order, gravada ao vivo na Universidade de Reading (Inglaterra) no dia 8 de maio de 1981. O box pode ser adquirido diretamente no site da Factory Benelux: https://www.factorybenelux.com/always_now_fbn3_045.html

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USE HEARING PROTECTION: FACTORY RECORDS 1978-1979 (Vários Artistas, Rhino Records): Com lançamento anunciado para outubro deste ano, essa lindíssima caixa trará edições facsimile dos dez primeiros itens/produtos lançados pela Factory Records, do icônico poster da primeira “Noite da Factory” no Russel Club, em Manchester (FAC-1), até o LP de estreia do Joy Division, Unknown Pleasures (FAC-10), passando ainda pelo EP duplo A Factory Sample (que contém as faixas “Digital” e “Glass”, do Joy Division, além de canções do Cabaret Voltaire, do Durutti Column e do comediante John Dowie), os singles “Electricity” (OMD) e “All Night Party” (A Certain Ratio), outros dois posteres, um DVD e um livro de 60 páginas. Como bônus, esse box set promete um single de 12″ dos Tiller Boys (planejado, mas nunca lançado) e dois CDs recheados de entrevistas do Joy Division. A caixa é uma exclusividade da Rhino UK (o que quer dizer que ela só poderá ser encomendada na store virtual da gravadora) e sua edição é limitada em 4.000 cópias. O preço é salgadíssimo: £ 180 (aproximadamente R$ 856). Link da pré-venda: http://store.rhino.co.uk/uk/use-hearing-protection-factory-records-1978-79-limited-edition-box.html

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FACTORY RECORDS: COMMUNICATIONS 1978-92 (Vários Artistas, Rhino Records): A Rhino UK também promete para novembro desse ano uma segunda caixa, dessa vez com oito LPs contendo material de vários artistas do cast da Factory e abrangendo os 14 anos de vida da gravadora. A tiragem é limitada em apenas 500 unidades, mas o preço é um pouco mais “amigável”: £ 127 (cerca de R$ 605). Esse box foi originalmente lançado no formato CD em 2009 e continha quatro discos e um belíssimo livreto (além disso, a Rhino lançou em edições passadas do Record Store Day dois samplers em vinil de 10″ com gravações que não faziam parte da caixa). Em Communications 1978-92 o New Order contribui com oito faixas, o Joy Division com quatro, o Electronic (projeto solo do vocalista/guitarrista Bernard Sumner), o Revenge (do agora ex-baixista Peter Hook) e o The Other Two (duo formado pelo casal Stephen Morris / Gillian Gilbert) com uma cada um. Todas em versões de estúdio que o público já está careca de ouvir. No mais, versões originais de bandas como OMD, A Certain Ratio, Section 25, James, Happy Mondays, Durutti Column, The Wake, 52nd Street e muitos outros. A quem interessar possa: http://store.rhino.co.uk/uk/factory/factory-communications-1978-92-limited-edition-silver-8lp.html/

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REVIEW | ∑(No, 12k, Lg, 17Mif) New Order + Liam Gillick: So It Goes..

DD45102A-FF63-48E4-A5C9-2FABB462DDE0Uma olhadela protocolar no tracklist do mais novo disco ao vivo do New Order, o quase impronunciável ∑(No, 12k, Lg, 17Mif) New Order + Liam Gillick: So It Goes.. (que doravante chamaremos apenas de So It Goes..), pode fazer qualquer um pensar que não se trata de um lançamento para não iniciados ou para aqueles que só conhecem a banda pelos grandes sucessos. Mas será que é isso mesmo? Examinemos um pouco mais de perto antes de chegarmos a conclusões precipitadas.

So It Goes.. é o registro da “residência” de cinco noites nos antigos estúdios da emissora de TV Granada durante o Manchester International Festival (MIF) de 2017, realizado entre os dias 04 e 21 de julho daquele ano. O New Order era um dos homenageados do festival (com direito a uma exposição dedicada ao seu legado intitulada True Faith) e para as suas apresentações ao vivo naquele que foi o cenário de sua primeira aparição na televisão (ainda como Joy Division, em 1978) a banda se juntou ao artista visual local Liam Gillick (que tem obras expostas no MoMA de Nova Iorque) e a uma “orquestra” de sintetizadores formada por doze jovens alunos da Royal Northern College of Music com o objetivo de transformar aqueles concertos em uma experiência singular. O New Order e seu time auxiliar de músicos tocariam em uma espécie de palco-instalação que interagiria às luzes e às projeções criadas por Gillick.

Mas as surpresas iam além… o New Order apresentaria um repertório baseado apenas em canções que há anos não eram tocadas ao vivo e que incluía, também, lados B. Ou seja, nada de hits (a única excessão seria “Bizarre Love Triangle”). Além disso, em vez de sequencers samplers, todas as partes programadas outrora executadas no palco com a ajuda de máquinas seriam tocadas ao vivo com o auxílio da orquestra de tecladistas da RNCM, sob regência do maestro Joe Duddell.

O empreendimento recebeu elogios rasgados da imprensa europeia e ainda gerou um documentário chamado Decades, produzido pela Sky Arts, e que se concentra justamente no processo de criação do show apresentado no MIF 2017. O disco que acaba de sair contém, na íntegra, o concerto do dia 13 de julho de 2017, além de incluir canções pinçadas das performances dos dias 06 e 15/07 como faixas bônus. Lançado pela Mute Records, So It Goes.. pode ser encontrado nos formatos CD duplo, box set com três LPs (edição limitada), digital downloadstreaming. O belíssimo projeto gráfico faz valer a pena o investimento nas edições físicas, principalmente o box set. Não há previsão de lançamento no Brasil.

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De volta ao tracklist, aqui temos o New Order percorrendo todas as suas fases: do Joy Division ao seu último disco de estúdio, Music Complete, de 2015. Algumas versões ao vivo não são menos que emocionantes. É o caso, por exemplo de “Disorder” (tocada com absoluta perfeição), “Dream Attack” (uma das melhores faixas de Technique, de 1989), “Sub-Culture” (talvez a mais bela recriação de um arranjo já operada pela banda) e “In a Lonely Place” (lado B do single de estreia do New Order). Tudo maravilhosamente bem tocado e, principalmente, bem gravado. Mesmo canções pouco badaladas de seu catálogo, como “Ultraviolence” ou “All Day Long”, ou temas do pouco inspirado disco Waiting for the Sirens’ Call (2005), como “Who’s Joe” e “Guilt Is a Useless Emotion”, ganharam um novo frescor em So It Goes… O set termina melancólico, porém belo, com versões cheias de alma de “Your Silent Face” e “Decades”. A três faixas-bônus são caprichos, verdadeiros mimos para os fãs: “Elegia”, “Heart and Soul” e uma versão surpreendentemente fantástica “Behind Closed Doors”, b-side de “Crystal” (2001) e talvez a única música dentre as de So It Goes.. que jamais havia sido tocada ao vivo pelo New Order antes (*).

Talvez o único ponto “negativo” do disco seja a voz de Bernard Sumner. Sempre faltou brilho em seus vocais, mas a idade (Sumner tem 63 anos) bateu à sua porta e sua voz hoje soa bastante cansada, às vezes até um pouco fora do tom em algumas músicas. Mas aí já seria exigir demais de quem nunca se destacou no manejo do microfone, ainda que tenha assumido o posto que outrora pertenceu ao mítico Ian Curtis.

So It Goes.. é, de longe, o melhor disco ao vivo do New Order, mesmo sem pérolas como “Ceremony”, “Blue Monday”, “True Faith” ou “Regret”. É um disco que mostra que a banda possui um repertório consistente para além dos grandes êxitos – e que ganhou uma roupagem atraente o bastante para despertar o interesse de quem não conhece profundamente a banda. Para os fãs de longa data, o álbum é um presente, quase um agradecimento por tantos anos de apaixonada e fiel devoção. Em entrevistas recentes, seus integrantes afirmaram que não há planos para um novo álbum de inéditas em vista e que, por enquanto, prosseguirão apenas fazendo shows. Todavia, se por acaso o seu catálogo terminasse por aqui, So It Goes.. seria (por que não?) um belíssimo canto do cisne.

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(*) Na verdade, “Times Change”, faixa que abre o CD, também nunca foi tocada ao vivo antes… entretanto, tanto essa (em versão instrumental) quanto “Elegia” aqui são tocadas apenas pelos músicos da “orquestra de sintetizadores”, sem participação da banda.

 

 

 

REVIEW | Livro: “Record Play Pause – Confessions of a Post-Punk Percussionist Volume 1” (Stephen Morris)

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Quando será que vai sair a autobiografia da Gillian Gilbert?

A banda das incontáveis coletâneas vem aumentando, também, sua coleção de autobiografias. Depois de Peter Hook e Bernard Sumner, agora chegou a vez de Stephen Morris, ex-Joy Division e (ainda) baterista do New Order, que acaba de lançar lá fora pela editora Constable o seu Record Play Pause: Confessions of a Post-Punk Percussionist Volume 1 (416 páginas). O título dá a pista: o que temos por hora é “apenas” a primeira parte. Nos catálogos de algumas livrarias on line vem sendo acrescentado um The Joy Division Years como forma de indicar para o leitor que a história do New Order provavelmente será foco do volume seguinte.

Não há como avaliar esse primeiro tomo das memórias de Morris sem comparar (pelo menos em determinados aspectos) com os livros lançados previamente por Hook e Sumner. Por ter feito a escolha de distribuir toda sua biografia e trajetória no mundo da música ao longo de três títulos, Peter Hook ofereceu aos fãs do Joy Division e do New Order uma história extremamente rica em detalhes e informações. Nesse aspecto, a autobiografia de Sumner, publicada em volume único, perde de goleada. Ainda que o segundo volume das memórias de Morris não tenha uma previsão de lançamento, já podemos supor que em matéria de profundidade e detalhamento Record Play Pause tem tudo para conquistar um potencial segundo lugar na preferência dos fãs.

As diferenças, todavia, não param por aí. Ainda que o mais provável é que todos esses livros tenham sido escritos por ghost writers (prática comum em se tratando de autobiografias de astros da música), cada um deles foi desenvolvido em um estilo de escrita que parece refletir com alguma precisão a personalidade de cada “autor”. Os livros atribuídos a Peter Hook, por exemplo, possuem uma linguagem carregada de um humor escrachado e irreverente. Já o livro de Sumner tem um estilo de escrita mais low profile, se parecendo às vezes com uma entrevista. Mais uma vez, Record Play Pause parece ficar no meio do caminho entre os dois. O senso de humor mais sofisticado de Stephen Morris, por vezes sarcástico e mordaz, comparece. O texto dá voz à personalidade conhecidamente nerd e excêntrica do baterista.

O primeiro volume de Record Play Pause cobre um período que vai da infância de Morris em Macclesfield (cidade que fica nos arredores de Manchester) até os primeiros passos do New Order. Dividido em três partes, duas delas são dedicadas ao Joy Division, desde suas origens punk como Warsaw até o fim trágico com a morte de Ian Curtis. Naturalmente, há muita coisa no livro que já foi dita alhures, seja nas autobiografias de Sumner e Hook, seja em tantos outros livros já publicados sobre o Joy Division e o New Order. Isso não quer dizer, entretanto, que Morris não traz para o leitor alguma coisa diferente ou nova aqui ou ali.

Record Play Pause revela ao leitor fatos da vida pessoal de Morris que ajudam a entender como aquele garoto oriundo da pequena burguesia de Macclesfield (em contraste com Hook e Sumner, que vieram da classe operária de Salford) se tornou um dos percussionistas mais celebrados de sua geração. Está tudo ali: o interesse pela música (em especial bandas como uma forte veia experimental / vanguardista, como Hawkwind, Captain Beefheart, Can, Velvet Underground e Van Der Graaf Generator), seu desejo de aprender a tocar um instrumento musical, do clarinete (por sugesão de seu pai) à bateria (demonstrando, desde o começo, predileção pelo estilo repetitivo de bateristas como Moe Tucker e Jacki Liebezeit), além, é claro, das primeiras experiências com drogas.

A terceira parte certamente é a que mais prenderá a atenção do leitor. Nela Morris traça o perfil de figuras importantes para a história da banda, como Rob Gretton (o falecido ex-empresário do Joy Division e do New Order) e Tony Wilson (repórter televisivo e chefe da gravadora Factory), esmiuçando o relacionamento que o grupo tinha com eles; detalha as gravações dos dois LPs que o Joy Division produziu durante sua curta existência (o que inclui generosas descrições de aspectos técnicos); conta como conheceu Gillian Gilbert e de que maneira os dois engataram o relacionamento amoroso que dura até hoje; e explica como ele e Bernard Sumner foram “capturados” pelos instrumentos eletrônicos. Tudo isso costurado pelo humor tipicamente britânico (ou seja, irônico ou autodepreciativo) do baterista.

Record Play Pause não chega a ser “o livro” sobre o Joy Division, mas segue a mesma linha das autobiografias anteriores, que retrata o grupo de uma forma bem menos “séria” ou “solene”, o que contraria o mito de “banda depressiva” que repousa no imaginário coletivo há anos. Apesar dos já conhecidos problemas de seu finado ex-vocalista, o ambiente interno do JD era qualquer coisa, exceto depressivo. Resta saber agora que outros mitos Morris ajudará a derrubar quando lançar o volume que cobrirá a história completa do New Order.


P.S.: Para minha imensa alegria, fui presenteado com uma cópia promocional de Record Play Pause assinada pelo Stephen Morris (foto). Todavia, o responsável por conseguir esse exemplar me pediu que eu mantivesse sua identidade em sigilo… de qualquer forma, gostaria de deixar registrado meus agradecimentos por tamanha consideração.

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Minha cópia promocional de Record Play Pause assinada pelo autor.

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<<OBS.: texto modificado em 26/07/2019, às 10:23.>>

NEWS | Joy Division + New Order: Novas edições limitadas a caminho

f2a60e20-ffda-46a0-8aa4-6274ab2b78b6_2048x2048Quem ainda não se recuperou do investimento feito em Movement: Definitive Edition que se prepare. Novos lançamentos do Joy Division e do New Order na forma de edições limitadas estão a caminho. Para começar, uma edição comemorativa de 40 anos do LP de estreia do Joy Division, Unknown Pleasures, sairá lá fora com um novo design (a capa será branca ao invés de negra) e prensado em vinil vermelho de 180 gramas. Mas é só, nada de extras ou mimos… e a masterização é a de 2007. Preço estimado? Em torno de £ 19 –  aproximadamente R$ 98 pelo câmbio de hoje.

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Mas isso é só o começo. No mês seguinte sairá o quase impronunciável ∑ (No,12k,Lg,17Mif) New Order + Liam Gillick: So it Goes.., um álbum ao vivo que será lançado pela Mute Records em três formatos: digital download, CD duplo com capa trifold e LP triplo colorido (vinis de cores vermelho, verde e azul) numa caixa que acompanhará, ainda, um livreto ilustrado de 24 páginas. Nesse disco teremos, na íntegra, a primeira das cinco noites que o New Order fez nos antigos estúdios da TV Granada durante o Manchester International Festival de 2017 (além de faixas bônus pinçadas dos demais concertos da banda no evento). O New Order foi o grande homenageado do MIF 2017 e na ocasião o grupo preparou um show especial que contou com um palco-instalação elaborado pelo artista visual Liam Gillick e com a participação de uma “orquestra de sintetizadores” tocados por doze estudantes da Royal Northern College of Music. O set list deixou de lado os grandes sucessos (a exceção foi “Bizarre Love Triangle”) e se concentrou em faixas que, em sua grande maioria, não eram tocadas ao vivo pelo New Order há muitos anos, como “Dream Attack”, “In a Lonely Place”, “All Day Long”, “Sub-Culture” (cujo sample a banda já liberou), “Ultraviolence”, “Vanishing Point”, “Disorder” (Joy Division), entre outras. O preço de pré-venda no site da Mute é de £ 45 (ou R$ 230 em média).

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Isso para não falar na autobiografia do baterista Stephen Morris – Record Play Pause – que acabou de sair…

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REVIEW | 1981-82 Singles Re-issue

assetQuando o New Order anunciou, ainda no ano passado, que relançaria em 2019 seu álbum de estreia – Movement – em uma luxuosa caixa contendo um LP, dois CDs, um DVD e um livro, a banda aproveitou a oportunidade para comunicar aos fãs que os singles de 12″ originalmente editados no mesmo período (1981-1982) também seriam relançados em vinis de 180 gramas e com áudio remasterizado. Esses singles, de acordo com o grupo, sairiam aos poucos algumas semanas antes de Movement: Definitive Edition ir para as lojas. Os relançamentos em questão eram: as duas gravações de “Ceremony” (cada uma em um vinil), “Everything’s Gone Green” e “Temptation”.

Assim como a edição encaixotada do Movement, sobre a qual este blog já resenhou, os quatro singles em questão já estão na mão. E o papel do FAC 553 agora é trazer aos fãs lusófonos do New Order nossas impressões sobre eles. Então vamos lá…

Comecemos pelos dois 12″ de “Ceremony”. Um deles (o de capa verde) contém uma primeira versão gravada pelo New Order nos estúdios Eastern Artists Recordings, Nova Jersey, em 1980, durante a primeira excursão do grupo (ainda um trio na ocasião) pelos EUA (ou mais especificamente por uma pequena parte da Costa Leste). Durante a mesma sessão de estúdio, a banda gravaria também “In a Lonely Place”, que entraria no Lado B. Ambas canções foram escritas pouco antes de Ian Curtis por fim à sua vida e encerrar o capítulo Joy Division, de maneira que as duas foram as primeiras faixas a fazerem parte do repertório do New Order. Um mix alternativo (e inédito) dessa gravação de “Ceremony” foi incluído no CD de extras de Movement: Definitive Edition. Originalmente, esse single tinha sido programado para ser lançado em janeiro de 1981, mas a verdade é que ele terminou só saindo em março. A segunda versão da música, agora com Gillian Gilbert incorporada à banda, foi lançada em setembro de 1981 e trazia uma capa diferente, com fundo cor de “creme” e uma faixa vertical azul. Seu lado B também traz “In a Lonely Place”, mas é a mesma gravação lançada em março de 81. Os dois re-issues são bem fieis aos originais – ou quase. A capa da “versão 2”, como vocês poderão perceber, foi grosseiramente modificada.

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Não foi a primeira vez que a Warner tirou uma “licença poética” e modificou o projeto gráfico de um disco do New Order por ocasião de um relançamento. Em 2009, quando os cinco primeiros LP’s de estúdio foram relançados, as capas de Power, Corruption and Lies (1983), Low Life (1985) e Brotherhood (1986) sofreram alterações – ou, melhor dizendo, foram barateadas. Infelizmente, isso deverá acontecer novamente em relançamentos vindouros. Uma fonte segura do blog creditada como “colaborador” em Movement: Definitive Edition (e cuja identidade manteremos em sigilo) já nos adiantou isso. Naturalmente, nada até agora se compara ao absurdo cometido em + / – Singles 1978-1980, caixa de vinis de 7″ do Joy Division lançada em 2010 com um formato mais ou menos no modelo da Singles Box dos Smiths, só que com fotos das artes originais impressas sobre capas de fundo branco em vez de réplicas perfeitas das capinhas oficiais!

Melhor “sorte” tiveram as reedições de “Everything’s Gone Green” e “Temptation”, cujas capas permanecem fidedignas às das versões originais lançadas, respectivamente, em 1981 e 1982. Essas duas canções merecem um parênteses. Lançadas após Movement, elas representam as primeiras tentativas de aproximação com os ritmos dance eletrônicos. Comparadas com o que vieram a fazer depois, como o arrasa-quarteirão “Blue Monday”, são faixas que soavam tão aventureiras quanto, digamos assim, rudes. Em suas atuais versões remasterizadas, soam agora mais polidas, o que sob certa perspectiva pode ser considerado uma “perda” frente ao valor histórico das mixagens outrora incluídas nas primeiras fitas master. Mas isso, na verdade, é uma questão de gosto – ou de opinião. Da parte deste que escreve o presente review, a melhor gravação de “Everything’s Gone Green” ainda é aquela do vinil brasileiro de Substance (1987). Mas como se chama isso mesmo? Memória afetiva, certo?

Não teria feito mal algum se esses relançamentos tivessem seguido uma tendência atual do mercado: a inclusão, em cada vinil, de um passe para baixar versões digitais dessas gravações, uma vez que não há sinais de que esses singles ganhem eventuais contra-partes em CD. Mas, de um modo geral, os fãs não têm mais do que reclamar. Finalmente o catálogo do New Order vem recebendo um tratamento digno da enorme influência que lhe é creditada. Completists certamente jamais deixarão de lado sua obsessão de reunir todas as variações possíveis desses singles, mas se não for esse o seu caso você já não precisará mais recorrer ao eBay para obter cópias de segunda mão.

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